Especial: Ringo Starr 80 anos, por Charles Gavin

entrevista por João Paulo Barreto

“Por muitas vezes, na infância, os médicos disseram a minha mãe que eu ia morrer. Continuo aqui.” Com essa frase, Richard Starkey, universalmente conhecido como Ringo Starr, abre sua participação no documentário Anthology, lançado em 1995, quando ele tinha 55 anos de idade e, junto com Paul McCartney e George Harrison (e John Lennon em falas de arquivo), rememorou a história da banda que ajudou a consolidar como a mais importante do século XX. Hoje, Ringo chega aos 80 e, sim, continua por aqui e tocando sua bateria. Ainda bem.

Com aquela maneira até então incomum de segurar as baquetas, diferente do chamado “traditional grip” oriundo do Jazz, Ringo revolucionou a música quando, diante de uma audiência de mais de 70 milhões de pessoas, tocou bateria em 9 de fevereiro de 1964, no Ed Sullivan Show, em Nova York, durante a primeira visita dos Beatles aos Estados Unidos. Em uma metáfora perfeita, John Bryant, notório baterista da banda de Ray Charles, afirmou que, ali, “Ringo mostrou ao mundo que a força era necessária para colocar ênfase no ‘rock’ (rocha) de Rock and Roll. Então, ele segurou as baquetas como se fossem martelos e se empenhou para construir as fundações do Rock”.

Pesquisador musical e apresentador do programa “O Som do Vinil’ (Canal Brasil), Charles Gavin segurou as baquetas nos Titãs por 25 anos, e destaca o marco divisor que Ringo representou desde aquela lendária apresentação no Ed Sullivan Show. “A partir daquele momento, o baterista ocupou um espaço. Ringo trouxe não só a figura do baterista, mas tirou aquela coisa de ficar sempre ali atrás, por razões óbvias, tudo bem. Mas ele deixou de ser coadjuvante. Ele trouxe a presença do baterista para o lugar do protagonista. Em pé de igualdade com os outros. Eu nunca vi ninguém dizer que o John era mais importante que o George ou que o Paul era mais importante que o Ringo. Isso que era genial nos Beatles. Todos ali eram importantes. Todos ali, de alguma forma, tinham o seu espaço, o seu papel a cumprir”, aponta Gavin.

No decorrer de 13 discos lançados entre 1963 e 1970, a marca experimental e precursora de Ringo ajudou a moldar a unicidade dos Beatles. Diante de talentos tão impares quando Lennon, McCartney e Harrison, o baterista soube dar consistência às criações deles, tornando o som da banda algo distante de atitudes individualistas, vaidosas ou ególatras. Charles Gavin aponta essa personalidade técnica do beatle em faixas centrais. “Em ‘Something’, Ringo traz coisas que cumprem o papel de sua bateria em uma balada. Ele usa o silêncio. Em ‘Come Together’, ele faz o mesmo. Ele usa a pausa. No refrão, ele toca só o bumbo. Hoje não se usa muito essa técnica. Mas se você observar algumas das grandes músicas dos Beatles, a parte da bateria é muito simples. Ele era um baterista que simplificava a parte rítmica. Sabia não ser espalhafatoso”, pontua Gavin, entre várias outras coisas na conversa abaixo!

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Charles Gavin, apresentador do programa O Som do Vinil e ex-baterista dos Titãs

Na trajetória dos Beatles, Ringo Starr, na função de baterista, foi precursor em diversos momentos. O destaque, até então inédito para um baterista, dado a ele na icônica apresentação no Ed Sullivan Show, em fevereiro de 1964, é um exemplo disso. Acerca desse momento, quais suas impressões também como baterista?
Essa apresentação do Ed Sullivan é, de fato, histórica e emblemática. Porque, primeiro, eles estão tocando ao vivo em um programa de televisão com audiência recorde. E havia uma monitoração bem deficiente. O que revela como os Beatles eram excelentes músicos, grandes artistas. Porque, tocar para televisão, com monitoração deficiente, cantar afinadíssimo e tocar tão sincronizado, tão amarrado uns aos outros da forma como fizeram, era difícil. Basta lembrar das condições técnicas da época, dos anos 1960, que eram incomparáveis com as condições já da década seguinte. Chamo atenção para isso porque é muito importante contextualizar essas condições técnicas. No caso do Ringo, ele está ali em uma plataforma, tocando a bateria. Eu gostaria de saber o que ele estava ouvindo ali, daquele lugar de onde ele estava naquele take que ficou famoso ou nessa apresentação toda. O que ele estava ouvindo em relação aos outros instrumentos, em relação ao George, o Paul e ao John. O que ele estava ouvindo do que eles estavam cantando e tocando para ele tocar tão bem naquela situação. Você pode até falar: “Ah, mas é a TV norte americana”. Mas as condições técnicas para a música pop nessa época, ainda nos anos 1960, com apresentações de televisão, apresentações ao vivo e em grandes festivais eram muito difíceis para fazer uma música na condução básica do Rock and Roll. Uma música potente, entendeu? Muito tight, pra usar um termo que a gente fala muito nas gravações no sentido de consistência. Uma consistência rítmica e harmônica. Essa performance no Ed Sullivan é emblemática por isso. Nunca depois, a televisão, pelo que eu me lembre, nunca agiu mais assim. Tem uma hora em que uma câmera dá um close no Ringo, e vai chegando perto dele. O que achei genial é que a mixagem da TV respeitou o movimento da câmera e aumenta o volume da bateria na mixagem. Então, você o ouve muito bem ali. Com o instrumento à frente dos outros. Eu achei genial isso. Nunca ninguém mais na TV fez isso. Quando a câmera se aproxima de alguém, a mixagem continua do jeito que está acontecendo. Ninguém muda. Mas a TV americana fez isso. Deu destaque ao som da bateria do Ringo. Deu um destaque absurdo ali para ele. E você ouve perfeitamente o som da bateria que saia dele, entendeu? O som extraordinário daquele instrumento.

Esse protagonismo dele como baterista nesse momento tão crucial para os Beatles, que foi a marca de uma audiência gigantesca nos Estados Unidos naquela primeira visita foi algo que, de cara, já colocou esse como um dos seus legados.
Sim. Isso é ocupar um espaço de protagonista dentro de uma instituição que estava ganhando espaço na cultura pop, que é a banda, né? Ele ocupou um espaço e não trouxe só a figura do baterista, mas tirou aquela coisa de ficar sempre ali atrás, por razões óbvias, tudo bem. Mas ele deixou de ser coadjuvante. Ele trouxe a presença do baterista para o lugar do protagonista. Em pé de igualdade com os outros, entendeu? Porque eu, desde que me entendo por gente, nunca vi ninguém dizer que o John era mais importante que o George ou que o Paul era mais importante que o Ringo. Isso que era genial nos Beatles. Todos ali eram importantes. Todos ali, de alguma forma, tinham o seu espaço, o seu papel a cumprir. No caso do legado dele, ele trouxe a figura do baterista para a frente, a importância do baterista para a frente. Ele destacou o que o baterista pensa, que tipo de músico ele é, qual a personalidade dele. Trouxe isso para a visibilidade do público, e trouxe um instrumento, também. Provavelmente, os Beatles deviam receber royallites pela venda de baixos, guitarras e baterias depois que eles apareceram no universo pop (risos). Porque, veja bem, ele com aquela bateria Ludwig, ele popularizou a marca, quantas baterias Ludwig foram vendidas? Quantas pessoas no mundo quiseram e se atiraram ao estudo da bateria depois que viram o Ringo Starr tocar no Ed Sullivan? Ou nas outras oportunidades da televisão, enfim, enquanto eles se apresentaram em televisão antes deles se retirarem dos palcos e da mídia e se concentrarem no trabalho de estúdio?

Verdade. Essa aparição do Ringo no Ed Sullivan ajudou a popularizar o instrumento bateria entre os jovens, bem como a marca Ludwig. Lembro de ter lido, de fato, acerca desse aumento de vendas por conta daquela apresentação. Como você observa essa influência que a técnica de Ringo trouxe para o Rock naquele momento?
A bateria é um instrumento norte-americano. E, sim, Ringo popularizou muito a Ludwig, uma das fábricas pioneiras de baterias. Ele popularizou tanto no mundo que as pessoas realmente começaram a comprar essa bateria. E ele até conseguiu, por conta disso, patrocínio dessa marca para outros músicos britânicos. Por exemplo, se não me engano, Ginger Baker (Cream / Blind Faith) e John Bonham (Led Zeppelin) conseguiram patrocínio na Ludwig por causa do Ringo Starr. Então, cara, ele traz uma coisa muito interessante nesses anos de Beatles que mudou a maneira de tocar Rock a partir dali. É uma coisa simples, que todo baterista de Rock faz hoje. Acho que qualquer pessoa que se liga no assunto, não necessariamente sendo músico, vai entender. Ele começou a tocar com um hi-hat… Chamo de hi-hat, aqui no Rio outros chamam de contratempo; em São Paulo chamam de chimbal; aí na Bahia não sei como chamam esses dois pratos que a gente usa controlando com o pé esquerdo, se você for destro. Eu chamo de hi-hat, que é como os norte-americanos chamam. Foram eles que inventaram, e prefiro chamar do jeito que eles batizaram. Hi-Hat. Ringo começou a tocar com um hi-hat aberto. Isso muda tudo, cara. Isso muda o ritmo da música. Isso muda a assinatura rítmica da canção. Isso muda o som da bateria. Então, ele foi, que eu saiba, o primeiro cara do rock que apareceu tocando desse jeito. Além de ser um músico de técnica única, ele teve essa inovação no instrumento. Então, isso mudou bastante. Hoje, eu diria para você que quase todas as bandas de rock passam por essa questão do baterista, de tocar com o hi-hat aberto. Isso muda muito o papel da bateria. E ele tinha um componente que acho que vale a pena a gente falar também. O Ringo, assim como os outros três Beatles, os Stones, The Who, Eric Clapton, John Mayall & The Bluesbreakers, Faces, Kinks, todas as bandas dos anos 1960 do rock britânico, sem exceção, todos beberam na mesma fonte: a música negra norte-americana, que é o Blues, o Rhythm and Blues e o Soul. Todas as bandas beberam nos gêneros de matrizes afro-americanas. Por isso, o Ringo, embora seja um baterista inglês, ele tem um swingue. Acho que essa foi uma das grandes características dele nos Beatles: swingue. Não tem outra palavra melhor do que essa.(Ele tinha) Um swingue na bateria muito à frente da sua época. Grande parte dos bateristas bons da Grã Bretanha e dos Estados Unidos não tinham esse swingue, entendeu? O molejo que ele tinha. Essa coisa rítmica que é típica de países que têm negros na sua formação, que é o nosso caso e é o caso dos Estados Unidos. A gente tem muito swingue. Nossa música, ela balança muito. A música norte-americana, também. Swingue, balanço. E o Ringo Starr tinha isso sendo inglês, o que era espantoso. Os ingleses são todos durinhos, né? São meios marciais. Assim como os alemães. Os europeus de uma forma geral, sabe? Agora, essa negritude norte-americana e brasileira, isso é uma coisa da gente. O Ringo, de alguma forma, absorveu isso. Ian Paice (Deep Purple), também. Você ouve o Ian Paice tocar, você fala, “bom, esse cara nasceu nos Estados Unidos. Esse cara tocou Jazz, tocou em big bands”. John Bonham! Cara, a mesma coisa! O cara swinga, tem balanço.

Esse protagonismo no destaque dado a Ringo chama a atenção, de fato. Principalmente quando lembramos de exemplos relacionados às Jazz Bands, que tinham todos os seus músicos com o mesmo nível de importância nos grupos. No Rock and Roll, a pouca aparição dada a caras como D.J. Fontana, baterista do Elvis, é o que me vem à mente antes de Ringo.
Verdade. Ringo, no universo pop, foi o primeiro baterista que, de fato, disputou espaço com as figuras que ficam sempre ali na frente. O universo pop foi todo erguido, construído, em cima desse contexto de uma pessoa, ou no máximo três, ali na frente, até então. O que não era assim. O universo do Jazz não funcionava dessa forma. No Jazz, os bateristas podiam ser líderes das suas próprias bandas. Embora a bateria estivesse lá atrás, eles eram os protagonistas. Mas, na música pop, não. Embora nós tivéssemos grandes bateristas tocando música pop e gravando, ele era sempre um sideman. Uma figura de segunda importância. Um músico que você não necessariamente precisa ver ou precisa ser filmado. Acho que Ringo tem esse protagonismo todo dentro do Beatles primeiro porque os Beatles consagraram, também, uma outra figura, uma outra instituição pop: a banda. Muitas bandas existiam antes disso. No principio dos anos 1960, temos nomes fortes na música norte americana, no Rock and Roll, no Soul, no Jazz, no Country e por aí vai. Mas na Inglaterra, o que a gente tinha? A gente não tinha nada na Inglaterra, vamos combinar. Nos anos 1950, a música pop na Inglaterra era uma espécie de nada. Estava ali sendo encubada pela música black norte-americana. Os Beatles trouxeram, ali, inúmeras contribuições para a cultura pop. E essa que proporcionou ao Ringo vir pra frente, deixar de ser coadjuvante, vem com eles. Com os Beatles. “Nós somos uma banda. Aqui, todas as pessoas são importantes. Não é só o cantor. Não é só aquele que é o porta-voz da banda”. Então, ele teve esse espaço para vir pra frente e acho que ele teve espaço não apenas pela personalidade que ele tinha. Um cara muito carismático e muito divertido. Muito irônico como o bom inglês quer. Um humor ácido nas respostas, nas brincadeiras, nas caretas, nas tiradas corporais. Mas ele era um músico extraordinário, levando em consideração o que era a bateria nessa época. Foi um dos primeiros bateristas de rock a lançar alguns princípios da bateria do Rock and Roll dentro disso, desse momento antológico.

A partir de suas inovações, desde o começo com os Beatles até o último disco da banda, a marca de Ringo na criação de maneiras surpreendentes na criação de arranjos já refletia esse balanço que você citou. Para você, como baterista, quais são os mais marcantes?
Ele era um cara muito inteligente. Não apenas como um personagem da música pop, mas como músico. Ele é um exemplo de baterista além de muito talentoso, muito inteligente. Soluções artísticas que ele encontrou para boa parte das canções que os Beatles gravaram, eram soluções de bateria muito à frente da época. Uma música que eu acho interessante? Todo mundo cita “Come Together”, né? Aquela bateria estranha que é o símbolo da genialidade do Ringo até hoje. Mas tem outra música em que acho a bateria surpreendente, uma música do George Harrison, “Something”. Uma das grandes baladas dos Beatles. Se você escutar nela a bateria do Ringo, ela é surpreendente. Porque ele faz coisas nessa música, uma balada, que cumprem o papel de sua bateria em uma balada. Ele cumpre bem esse papel. Mas no refrão, em alguns momentos, ele subverte o que seria o normal. Ele subverte o convencional de uma balada, e toca um refrão de outro jeito. Isso de uma maneira que nenhum baterista faria. Se me jogassem na mão uma balada para tocar, eu jamais pensaria naquilo (risos). “Something” tem uma coisa genial também que é algo que poucos bateristas sabem explorar, e que o Ringo sabia explorar muito bem (John Bonham também sabia): a hora em que o baterista não deve tocar. É o silêncio, a pausa. Isso, cara, isso é uma ciência à parte. “Aqui, eu não vou tocar nenhuma nota e nenhuma peça da bateria.” Porque essa pausa, ela é ritmo também. Faz parte do ritmo. Então, o Ringo, em “Something”, de alguma forma, ele usa um pouco esse raciocínio, entendeu? Da pausa. De não tocar uma peça naquele momento, quando todos os bateristas tocariam. Com uma bateria completa, ele, no refrão, ele sai da caixa. Ele vai tocar, se não me engano, só no hi-hat. É um cara muito inovador. A inteligência que estou tentando explicar aqui, que é muito difícil, que é muito complexa, é nesse sentido. Dessas inovações que o cara está buscando. E essa é outra que ele dominava muito bem. Que é a pausa, o silêncio. Sempre procurando soluções para o instrumento diferentes do que, até então, a música pop propunha. Um músico extraordinário, cara. Extraordinário! Acho que, dessa turma dos anos 1960, nós temos bateristas extraordinários. E ele, sem dúvida nenhuma, é um deles.

Quando você cita “Something” e “Come Together”, só me vem à mente aquele espelhar exato do baixo de Paul com a bateria de Ringo. Algo incrível, principalmente pelo fato de que ele opta, em “Come Together”, por usar muito do silêncio.
Agora a gente tem que abrir outra aba nessa discussão. Ringo tem ao seu lado um dos maiores baixistas da história, que é o Paul. As linhas de baixo do Paul, fico até arrepiado quando falo, são extraordinárias. Então, assim, a gente sabe. Se você tem um músico extraordinário tocando do seu lado, isso te leva a soluções criativas, soluções que ninguém pensaria. Ali é um processo dialético. Você bota um baixista como Paul do lado do Ringo Starr, um motiva o outro que motiva o um, e juntos eles vão achando coisas ao longo da discografia dos Beatles que outras bandas não fizeram igual. Eu adoro os Stones, mas os Stones são uma banda diferente. Uma banda de Rock and Roll básico, basicamente de Rhythm and Blues que experimentou e inovou muito menos do que os Beatles. Os Beatles são inovadores. É uma banda experimental. Até o último disco eles seguiram inventando coisas. Então, você vê, por exemplo, nessa parte do “Come Together” que você citou, ele para de tocar. Várias músicas, várias levadas dos Beatles, têm só bumbo. Ele popularizou isso. Hoje não se usa muito essa técnica. Mas se você vê algumas das grandes músicas dos Beatles, a parte da bateria é muito simples. Ele era um baterista que simplificava a parte rítmica. Alguns trechos de faixas do Beatles, como esse de “Come Together”, não têm caixa. Bumbo, tambor, não tem aquela batida, aquela levada, como os Stones. Estou fazendo esse paralelo só para a gente se entender melhor. Charlie Watts sempre tinha uma levada. Seja a música de um jeito ou seja de outro. Sempre tem aquela levada bumbo, caixa e hi-hat. Uma levada basicamente de Rock. Ou extraída do Blues. O Ringo não. Ele tem essas informações de música norte-americana, mas, assim, quando ele tira uma mão e usa só a mão direita, ele já abriu uma outra possibilidade para o instrumento. Não usar uma mão. Usar só a mão direita e o bumbo. Não usar a mão esquerda. Ele fez isso em várias músicas, se você for ver bem. O próprio “Sgt. Peppers”! Esse disco é fantástico! Em várias músicas, a bateria opta por soluções muito simples. Algo que as pessoas confundem com um baterista normal, um baterista mediano. Sobre essa ideia comum e limitada do Ringo, lembro que vi um dos maiores absurdos em uma entrevista do Jô Soares. O Jô é um cara que eu respeito muito, mas nessa entrevista que aconteceu há muitos anos, ele conversou com uma banda cover dos Beatles muito conhecida em São Paulo. E ali, na entrevista, os caras falando dos Beatles, de cada beatle. Nesse quarteto, cada um era um beatle. E o Jô Soares teve a coragem de lançar essa análise que muita gente tem de achar que o Ringo era um baterista mediano, de que ele não estava à altura dos outros três beatles. E isso é um erro que eu já vi acontecer muito vindo de pessoas que não entendem. Quem fala isso é porque não entendeu. Quem afirmou e afirma isso, que o Ringo não estava à altura do Paul, do George e do John, é porque não entendeu. Muito pelo contrário. É óbvio que ele estava à altura deles. A função da bateria dentro das canções dos Beatles, ele entendeu melhor do que qualquer um de nós entenderia. E dentro disso existe a simplicidade. Fazer o que a canção precisa. Fazer o que o arranjo precisa. Não dar nenhuma nota a mais. Ele é um baterista que entendeu tão bem o papel do instrumento na música pop que nunca deu uma nota a mais no arranjo. Todos os outros deram. Inclusive, o John Bonham, que é um monstro! Eu só estou aqui porque ouvi o “Led Zeppelin IV” quando tinha 14 anos. Até o John Bonham, em alguns momentos, tem excessos. Algo que é absolutamente normal nas artes. “Ah, passei aqui. Invés de X notas, Y notas. Mas, tudo bem.” Agora, o Ringo, não! Eu não consigo olhar na discografia dos Beatles um momento que eu possa falar aqui que ele tocou demais. “Essa virada não precisa. Essa batida tem um bumbo a mais.” Muito pelo contrário. Ele sempre optou por algumas soluções mais simples, mas que funcionavam como uma luva. Como uma peça que encaixa ali dentro do mecanismo de cada canção dos Beatles. Eu acho que esse é mais um atributo dele, cara. De nunca ter dado uma nota a mais, além desses outros que a gente falou aqui. Tem mais gente. Ah, até o baterista do Pink Floyd, Nick Mason, que eu acho um monstro. Ele é o grande discípulo para mim do Ringo Starr. É um baterista que usa o silêncio. É um baterista que nunca deu notas ali que não deveriam ter sido tocadas.

É notório o modo como Ringo adentra no Rock and Roll inovando até mesmo o modo como as baquetas eram manejadas, usando um jeito diferente de segurá-las. Era algo diferente do chamado ‘traditional grip’, oriundo dos bateristas de Jazz e Blues. Lembro de um texto do John Bryant, baterista do Ray Charles, no qual ele usa uma bela metáfora ao falar do poder existente naquela maneira que Ringo tinha de seguras as baquetas: “Como martelos, construindo as fundações para a música do Rock“.
É interessante isso. Ringo vem com um approach, uma abordagem de tocar bateria bastante moderna para aquela época. É preciso que as pessoas saibam que a bateria, como eu disse, é um instrumento inventado nos Estados Unidos. As bandas de Jazz que saiam pela rua nas festas de New Orleans. Já existia, claro, as bandas marciais, isso era normal. Essas bandas marciais já existiam na música de New Orleans, que é onde o Jazz nasce. E ali, cada músico, cada percussionista, era responsável por uma peça da bateria. Um cara tocava caixa, um cara tocava prato, outro cara tocava tambor, outro cara tocava um tambor maior, que se chama ‘boom’. Então, mais ou menos quatro caras, cinco caras, para fazer esse papel, a parte rítmica dessas bandas de Jazz que saiam em New Orleans, no final do século XIX e princípio do século XX. Então, é um instrumento norte-americano. Ele vem carregado de toda uma carga cultural norte-americana. Quando isso passou para a bateria, quando inventaram a bateria, percebe-se que é nada mais nada menos que juntar todos esses instrumentos em um só. A bateria é uma união de instrumentos. Diferentemente dos outros que existem, a bateria é uma reunião de vários instrumentos em um só. E isso trouxe para ela esse hábito de tocar que chama ‘traditional grip’. Se o cara tiver a prática na mão esquerda, a bateria fica cruzada na mão. E na mão direita, a baqueta é quase que uma extensão do braço. Dá pra você visualizar bem essa figura. Não por acaso, isso vem das bandas marciais, do exército, porque os caras tocavam caixa nos campos de batalha, ou nos quartéis. Quando você estava marchando com a caixa em cima, você tinha que tocar desse jeito, porque, do outro jeito, era difícil. Com a baqueta na mão esquerda e a da mão direita, era difícil tocar. Não dá. Sei porque já toquei em banda marcial, e, de fato, não dá. Então, você tem que apoiar a caixa na barriga, ela fica inclinada. A mão esquerda fica com esse ‘traditional grip’. A baqueta cruza mão. E a outra baqueta é uma extensão do braço. Assim está formado o quadro. Não sei se Ringo foi o pioneiro nesse uso da baqueta daquele modo. Não dá pra saber se ele foi o primeiro que falou: “Peraê! Eu vou tocar bateria de outro jeito. Eu vou usar baqueta na mão esquerda exatamente da forma como eu uso a baqueta na mão direita”. Não sou historiador para afirmar quem foi o primeiro cara que fez isso na história. Seja como for, ele foi o primeiro cara que popularizou essa forma de tocar bateria. Eu já vi algumas apresentações na internet, por exemplo, coisas bárbaras, na TV norte americana, de bandas como Bill Haley & His Comets. O baterista do Bill Haley tocava desse jeito, como os jazzistas tocavam. O baterista do Elvis também tocava assim. Os bateristas, enfim, tocavam do jeito como a bateria foi projetada. O jeito padrão. Ringo foi o primeiro que popularizou essa pegada. E vou te dizer: faz muita diferença no instrumento tocar com essa mão esquerda. É a mão da caixa. Caixa, bumbo e hi-hat. Essas três peças principais da bateria. É aí que o baterista tem que se concentrar. A função da bateria é essa. Independentemente do gênero. O que vem depois é outro papo. Mas basicamente essas são as três peças. E acho que isso que o Ringo fez de tocar essa mão esquerda na caixa desse jeito, volto a dizer, a baqueta como extensão da mão direita, isso faz muita diferença no som do instrumento. Você tem muito mais força tocando desse jeito. Com a mão esquerda com a baqueta dessa forma. Muito mais força na caixa. No Ed Sullivan é notório isso. O som da bateria do Ringo, como é que ela soa ali. Ele toca com força, mas toca com técnica, toca com swingue. Toca com muita destreza de quem ouviu música negra norte americana. E toca com força, cara. Dá pra você ter uma noção bem clara do volume que saia do instrumento dele. Da massa sonora que saia. E acho que ele popularizou isso. Essa forma de tocar bateria. Assim, com força. Com muita força, entendeu? É claro que se você comparar o Ringo, hoje, com outros bateristas, até parece que ele é um batera leve, que ele não bate tanto. Mas, vamos colocar no contexto da época. Ele vem antes de todos os outros caras que a gente citou aqui. De Rock e de Jazz, também.

É de uma simplicidade que rima exatamente com a genialidade. Em uma época anterior aos bateristas que se destacavam por imensos solos, Ringo tem em seu legado essa maneira de tocar que rima com menos extravagância e mais virtuosismo.
Sim. Esse approach que ele teve no instrumento, essa busca de soluções dentro de um ritmo simples que é rock, foi algo muito marcante. O Rock é um ritmo simples. Dos mais simples que existe pra você tocar, vamos combinar, né? Quando um garoto começa a tocar bateria, não por acaso, um dos primeiros ritmos que ele vai tocar na bateria é Rock. Porque é muito fácil de tocar. É muito intuitivo, entendeu? Samba é muito mais difícil. Maracatu é mais difícil ainda. Xote, Jazz, qualquer outro gênero que você toque na bateria é mais difícil que Rock. Então, dentro de um gênero, a princípio, simples de tocar, o Ringo sempre buscou soluções diferentes. Na discografia dos Beatles, você vê vários arranjos de bateria que entraram para a História. Falei de “Come Together” e “Something”, mas na própria “Sgt. Peppers”, a bateria dele é sensacional. E tantas outras, até mesmo no começo, quando os Beatles eram aquela coisa totalmente Rock and Roll, ou banda de R&B. Como o John Lennon gostava de dizer, eles eram uma banda de Rhythm and Blues no começo. Mesmo dentro dessas possibilidades, Ringo era um cara criativo. E outra coisa: os Beatles têm toda aquela energia de banda Rock dos anos 1960. Banda de garagem! Então, ali, tem uma diferença marcante em relação aos anos 1950. Nos anos 1950, o Rock está muito ligado às raízes norte-americanas, que são Jazz, Country, Blues, Rhythm and Blues. E os bateristas, de certa forma, migraram. Vários bateristas dessas áreas migraram. Por exemplo, no show da apresentação de Washington, quando Ringo, daquela forma surpreendente, ajuda a girar o palco da bateria, tem ele cantando “I Wanna Be Your Man”, que é simplesmente genial. É difícil para ele cantar e tocar daquele jeito. Cara, essa faixa, para mim, é basicamente um proto Punk Rock. Ali tem tudo que o Punk Rock seria 10 anos depois. A gente está falando de 1964, 1965. E o Punk Rock é de 1976, 1977. Então, 10 anos depois, foram aplicar aquela forma de tocar que o Ringo usava lá no comecinho dos Beatles. Essa coisa de Rock de garagem. Ringo, numa árvore genealógica, eu colocaria, com maior tranquilidade ali no começo. No tronco dessa árvore genealógica que vai lá pra cima. Mas ele e Charlie Watts estão ali nesse pé de igualdade. Charlie Watts toca que nem os jazzistas tocam. Ele, por exemplo, não conseguiu fazer o que o Ringo fez na mão esquerda. O Charlie Watts tem aquele jeito de tocar dos jazzistas. E é um puta batera! Agora, em termos de diversificação do instrumento, de invenção de levadas, de frases musicais, ou de outras soluções para a música, até quando não tocar, Ringo é Ringo.

Ver você falar de “I Wanna Be Your Man” como um proto Punk Rock me faz lembrar de “Helter Skelter” e “Revolution” como embriões do Hard Rock e do Heavy Metal.
Você citou duas gravações emblemáticas dos Beatles. Eu citei “I Wanna be Your Man”, que foi gravada pelos Stones primeiramente, depois pelos Beatles. A música é dos Beatles e é cantada pelo Ringo como uma espécie de proto punk. Como outras dos Beatles. Mas especialmente essa, porque ela é rápida. Ela é curta. E aquela bateria é uma bateria de punk rock. Já é. Todas essas outras bandas que viriam 10 anos depois, Buzzcocks, Ramones, The Jam, tudo isso já estava ali nessa faixa, pequenininha. Acho que tem quase dois minutos, ali no “With The Beatles” (1963). Essa é uma gravação que está relacionada com essa vertente do Rock and Roll. É o punk rock. Agora, “Helter Skelter” é Heavy Metal. Quem inventou o Heavy Metal? Para mim, Black Sabbath. O Heavy Metal como a gente conhece hoje, quem colocou as cartas na mesa, as bases para ser e se desenvolver, foi o Black Sabbath. Porém, o Hard Rock, que é uma outra vertente prima/irmã do Heavy Metal, para mim quem colocou os templates foi o Cream. Ginger Baker, Eric Clapton e Jack Bruce. Estes aí. Então, Hard Rock, Cream misturado com Led Zeppelin fizeram mais ou menos o que a gente chama de Hard Rock, hoje. E o Black Sabbath o que a gente chama de Heavy Metal, hoje. Esses termos não existiam. Agora, “Helter Skelter” é antes de tudo isso que eu estou falando. O primeiro disco do Black Sabbath é de 1969. O Deep Purple vem antes. O “Led Zeppelin I” é de 1969. Cara, o “Álbum Branco” é de 1968. Agora, compara “Helter Skelter” com o primeiro do Led Zeppelin. “Helter Skelter” é muito mais pesado. É ou não é? Olha o riff de guitarra do George Harrison e do John Lennon naquela gravação. Aquele riff fantástico! Cara, se aquilo não for a primeira gravação que a gente pode linkar com o Heavy Metal, eu não tenho outra para colocar no lugar. Essa gravação, do jeito com distorção, com aquela bateria desde o começo, com aquela letra… O tamanho dela! Aquilo, para mim, assim, é a alvorada do Heavy Metal. O nascer do Heavy Metal. Está nascendo no horizonte um novo gênero de música. Não tem nome ainda, porque ninguém conhece. Está nessa faixa, “Helter Skelter”, entendeu? E depois viria algumas coisas mais tradicionais, como “Get Back” ou como “Revolution”. Tem coisas ali que só iriam acontecer anos depois, mas, assim, você lança a semente. O solo é fértil. Você lança algumas sementes. Aí vem todas essas bandas britânicas importantíssimas e que vão dar os caminhos da música pop a partir dali. A partir de outros músicos que vieram depois do Ringo, como Ginger Baker, Bill Ward, John Bonham, Ian Paice, Phil Collins, bateristas extraordinários. E tem outra coisa que é importante salientar em relação ao Beatles: não haveria Rock Progressivo se não fossem os Beatles. Ponto final! Não existiria nem Yes, nem Genesis e nem Pink Floyd, que eu não considero uma banda de rock progressivo porque o Pink Floyd é o gênero Pink Floyd. Mas, se não fosse pelos Beatles, não haveria Pink Floyd, uma das bandas que eu mais adoro. “A Day in the Life”, para mim, é o nascimento do Rock Progressivo. Mais uma coisa que os Beatles colocaram: as bases do Rock Progressivo. A banda tocando com uma orquestra, a experimentação, a colagem, os desdobramentos. Não haveria o Rock Progressivo que eu ouvi. E olha que tudo que é possível ouvir de Rock Progressivo, na minha vida, eu ouvi. Chapava com Yes. Ouvi Yes pra caramba na minha vida. Emerson, Lake & Palmer, também. Que não dá pra chamar de progressivo, mas, enfim. Mais uma coisa que os Beatles, incluindo o Ringo, foram responsáveis, entendeu? O nascimento do Rock Progressivo.

Há, nesse texto do Jack Bryant que eu citei, outro momento marcante que é quando ele fala sobre o tempo exato do Ringo nos vários takes. Isso permitia ao George Martin, diante dos diversos takes de uma mesma canção, montar a melhor versão da mesma. E em todas essas, o tempo de Ringo era exato. E isso em um período no qual o metrônomo não era tão usado como hoje, sua versão eletrônica ainda não existia e as gravações via computador não estavam no horizonte.
É verdade. Você não tinha essa exigência de precisão naquele momento. A necessidade de ter um metrônomo tocando o tempo todo, até mesmo porque a tecnologia não permitia isso. Já hoje, permite. E a partir dos anos 1970 e 1980, começaram a usar o metrônomo com muita regularidade. Hoje, é um standard. Hoje, todas as gravações, todos os discos que eu conheço são feitos com metrônomo. Mas naquele momento dos anos 1960, um baterista como Ringo, que tinha tanta consistência de tempo, e isso é algo incrível, ele tocava sempre com muita precisão, que você podia pegar pedaços de outro takes e fazer ali uma mixagem usando partes de outros instrumentos em cima de uma bateria que pertencia a outra gravação, a outro take. Eles faziam esses ping pongs no Abbey Road com duas ou três máquinas. As máquinas tinham quatro canais na época. Então, esse processo de gravação é muito interessante. Já estudei. Ele, de fato, era tecnicamente tão incrível, que além de tudo que falamos, tinha essa consistência exata de tempo, de timing. Algo extraordinário. Nas músicas dos Beatles, o andamento não fica lento e nem acelera. É aquele pitch preciso o tempo todo. É impressionante.

Carisma é algo muito perceptível em Ringo. Desde o começo dos Beatles, era perceptível sua sinergia, sua linguagem corporal, seu sorriso constante enquanto tocava. E isso contribuiu muito para o alcance de sua influência, também.
Sim, verdade. Nas gravações que nós temos dos Beatles ao vivo, ele transmite essa felicidade, algo que foi muito importante, também, porque a felicidade é uma grande verdade do instrumento. Os produtores com quem trabalhei na minha vida, e um dele é o Jack Endino, sempre destacavam isso. Endino é um cara que trabalhou com Nirvana, com Soundgarden, essas bandas de Seattle dos anos 1990. Ele falava, quando chegava a minha vez de gravar, ali no estúdio com os Titãs: “Vai lá, cara. Senta à bateria e se diverte.” Porque bateria é sobre isso. Bateria é sobre se divertir. E, de fato, isso tem tudo a ver com o Ringo Starr. Outros bateristas se divertem tocando, mas não transmitiam isso visualmente. Transmitiam de outra forma. O Ringo tocando era de uma alegria, cara. Parecia uma escola de samba. Estou dizendo isso do ponto de vista do astral. Você vê as pessoas desfilando na avenida, tocando, está todo mundo sorrindo, porque aquilo é uma alegria. Uma batucada de uma escola de samba é uma alegria. O Ringo, de certa forma, se comportava desse jeito nos shows dos Beatles. Era tamanha a felicidade dele, de tocar um instrumento e ele ter a liberdade artística de tocar do jeito que ele queria. Isso é uma coisa interessante, também. Não se tem notícia, nunca li nenhum artigo, ninguém dizendo que as pessoas iam ali e falavam: “Ringo, toque dessa forma.” Muito pelo contrário. Ele entrou para os Beatles pelo baterista que ele é. Pela contribuição que ele poderia dar. Então, ele tocava do jeito dele. Do jeito como ele queria. Claro que tem aquela felicidade toda. Nas imagens de arquivo do “Beatles Anthology’ percebe-se isso tanto no Ed Sullivan quanto no show do Shea Stadium. As condições técnicas daquele show são terríveis. Ninguém se ouve. Mesmo ali, você vê que tem uma hora que ele está curtindo. Que ele está sorrindo. E acho que isso vem da personalidade dele. Curioso que ele é canceriano. Canceriano atípico. Porque os cancerianos têm uma tendência a serem introvertidos. Eu sou um deles. Você é reservado, você não é dado a fazer muita palhaçada. O Ringo Starr sempre foi um cara extrovertido, pra fora. Esse é um traço da personalidade dele, absolutamente positivista, otimista. Isso, de certa forma, resultou nesse jeito de tocar bateria. Tenho pensado nisso nesses dias. Ontem (dia 25/06/2020) fiz uma live com o baterista do Sepultura, o Elói Casagrande, que está com 29 anos. E foi uma live muito interessante porque, pesquisando sobre o último disco do Sepultura, o “Quadra”, vi que eles produziram com um sueco (N.E. O produtor Jens Bogren) e gravaram na Suécia. E esse produtor sueco é um cara que tem ótimas frases. E no making off, que está no YouTube do Sepultura, ele fala uma frase excelente: “Alguma coisa na personalidade do Elói Casagrande faz ele tocar bateria daquele jeito. Daquela forma singular e única de tocar.” E fiquei com essa questão na cabeça. Da personalidade. Como a personalidade de cada um de nós faz você tocar de um jeito que é só seu. Como é que a personalidade de uma pessoa, como ela influencia na resultante artística. Fiz essa pergunta para o Elói: “O produtor colocou isso para você, te disse isso. Alguma coisa na sua personalidade faz você tocar bateria dessa forma com essa agressividade, com essa forma brutal de tocar bateria”. Aliás, essa é a onda do Sepultura. Mas, por outro lado, ele é uma pessoa doce. Uma pessoa do bem. Um cara de bom coração. Uma pessoa fácil, de um diálogo fácil, de uma conversa fácil. Então, alguma coisa na personalidade do cara o faz querer estudar tanto. Ele estuda pra caramba. E tocar bateria daquela forma que é um absurdo. Ele é um dos maiores bateristas de rock da atualidade. Nesse segmento do metal, ele é um dos bateristas top no mundo. Sem dúvida nenhuma. Então, acho que essa colocação desse produtor sueco vem bem a calhar aqui, porque, sim, traços de personalidade do Ringo Starr resultaram naquela forma de tocar bateria. Que é só dele. Você pode até tentar imitar, mas aquela bateria dos Beatles, e, veja só, isso é uma coisa interessante de a gente dizer aqui: o Ringo Starr é um artista muito interessante até mesmo depois que os Beatles se separaram. Ele fez vários álbuns solos geniais. Esse ultimo, do ano passado, o “What’s my Name?”, é um disco fantástico. Discaço! Depois do Beatles ele passa a ser um artista um pouco diferente. Um cara que canta, parte autoral, parte interpretes. Que faz turnês, que faz discos muito interessantes. Continua sendo um cara muito irônico, muito divertido. Mas o músico que ele foi com os Beatles, ali é o apogeu dele. Sem dúvida nenhuma. Óbvio. Mas por que? Pela química desses quatro caras. Isso também é importante. Esses outros três têm participação na bateria dele. Na forma de arranjar, de tocar junto, de compor. É claro que aquele é um trabalho de grupo. Não é um trabalho isolado. A bateria dele também tem a ver com os outros três. É importante dizer isso. Muita gente pode ficar desapontada, mas é verdade, entendeu? E eu acho que isso acontece com bandas que são relevantes. Posso fazer milhares de discos daqui pra frente. Discos solo ou com banda, ou seja lá o que for, mas eu acho muito difícil que eu consiga superar o que fiz com os Titãs. Acho muito difícil. Posso até tocar coisas técnicas mais complicadas, mais estranhas, mas, assim, o trabalho que eu fiz com os Titãs, resultante de um trabalho coletivo, de uma criação coletiva, eu dificilmente vou superar na minha vida. Eu já sei isso. Eu tenho plena consciência disso. Não vou superar. Vai ser muito difícil. E tudo bem, também. A mesma coisa aconteceu com o Ringo Starr, de certa forma.

Na trajetória dos Beatles, vimos uma cumplicidade e amizade entre quatro pessoas evoluir desde a fase adolescente até a vida adulta, quando outras prioridades surgiram na vida daqueles quatro rapazes que se tornaram homens dentro do estrelato, que constituíram famílias dentro daquela vida. E a banda acabou por limitá-los tanto artisticamente quanto em suas vidas pessoais. Como você avalia esse final dos Beatles após terem construído tantos pilares na música?
Esse é o perigo de uma banda. Banda é uma instituição fantástica. Mágica. Mas ela também é uma instituição que pode te limitar, pode te privar de outras coisas que você está precisando. Por isso as bandas acabam. Por isso as pessoas saem de suas bandas. Isso acontece. Mesmo nos Beatles, com quatro caras geniais, com tanta coisa, cada um com seu trabalho crescendo. As disputas de espaço. George Harrison, por exemplo. É importante dizer que o álbum solo de um beatle que mais vendeu até hoje é o álbum do George Harrison, quando ele saiu da banda. O “All Thing Must Pass” é o álbum de um ex-beatle que mais vendeu até hoje. Ele nunca foi superado. O cara tinha composições fantásticas que não entraram na banda. É óbvio que um cara desse fica infeliz, enfrentando um momento de limitação. Ele quer colocar o seu material para dentro da banda e o resto não deixa. Tem essas eleições. As bandas têm comportamentos políticos dentro dos seus modos de operar. Isso é normal. Toda banda tem sua política interna. Tem momentos assim que levam a coisas muito boas, e tem momentos de frustração. E as bandas acabam por conta disso. Ou algumas acabam, mas não querem acabar e prosseguem. Tem isso, também. O cara já acabou, mas prossegue mesmo assim, e fica ali e vai até o final da vida. É legitimo, também. O que se vai fazer. Mas veja a carreira solo do George Harrison. Ela é fantástica. Ela só é equiparável à carreira solo do Paul McCartney. O Paul fez discos incríveis solo. Continua fazendo. E o George Harrison também. Para mim, a carreira solo do John Lennon não é tão boa quanto a do Paul e a do George. E a carreira do Ringo é legal, também. É relevante. Mas, artisticamente, em termos de ideias novas, o Paul e o George foram muito mais à frente. Não é uma comparação, uma competição. Enquanto esses quatros estiveram juntos ali e sintonizados, eles produziram uma mudança cultural. Não foi só na música, foi uma mudança cultural no planeta.

Apesar do desgaste como banda, como parceiros musicais e profissionais de longa data, você consegue, em um exercício de imaginação, colocar os Beatles em atividade durante a década de 1970?
Acho que seria um cenário difícil para os Beatles, porque a verborragia instrumental era uma espécie de padrão. Os Beatles nunca foram de verborragia instrumental. De excesso. Muito pelo contrário. É uma banda que sabia usar o silêncio, o não tocar, de forma muito inteligente. Eles eram muito inteligentes e elegantes. Mas quando vira os anos 1960 para os anos 1970, a música pop se transforma. Não sei a explicação para isso ainda. E venho pensando isso há algum tempo. A música pop, o rock especialmente, ele é tomado por uma verborragia, por um excesso de notas, de estética, que é um pouco cansativo, também. Se você pegar essas ‘Jam Sessions’ do Cream, cada música durava 15, 20 minutos. E de improviso. Aquilo você precisava estar dopado para suportar aquilo, concorda? (risos) Ou você fumava um, ou você tomava, sei lá, um ácido, e fica curtindo ali. O Santana também embarcou nessa. Ali no final dos anos 1960, começo dos anos 1970, a música estava um pouco nessa onda, desses excessos, improvisações. Muita coisa vinha do Jazz. Todos esses músicos ouviam Jazz e tentaram trazer esses procedimentos, essa forma de trazer a música para dentro do Rock daquele momento. E isso não tem nada a ver com o Rock Progressivo, tá? Rock Progressivo é outra história. Tudo bem no Rock Progressivo as faixas terem 18, 20 minutos. Porque é uma faixa com várias músicas dentro. É outra forma de ver. Estou falando desses excessos de bandas dos anos 1970 como o Cream, ou até o Deep Purple. O Deep Purple é uma espécie de Cream nos discos ao vivo. As músicas tinham 10, 15 minutos Um lado do “Made in Japan”, do Deep Purple, tem duas músicas. 12 minutos cada música, de improvisos, de solos. Os músicos do Deep Purples se prestavam a fazer isso porque eles tinham talento para tanto. É preciso reconhecer isso. Mas acho que seria um quadro muito difícil para os Beatles sobreviverem dentro dessa estética, de experimentação. Acho que os Stones conseguiram isso porque os Stones estavam ligados a uma coisa mais clássica da música, que é o Blues. Então, de certa forma, os Stones passaram batido com aquele som que não mudou tanto ao longo da década de 1970. Algumas mudanças vieram, mas os Stones dos anos 1960 têm aquela energia típica dos anos 1960. Nos anos 1970, o andamento baixa um pouco devido à maconha, às drogas, as músicas têm um andamento mais baixo. Não têm aquela urgência dos anos 1960. A mesma coisa acontece com The Who, que também improvisava muito. Acho que seria um espaço difícil dos Beatles diante dessa coisa que se estabeleceu em função disso. Eu, quando comecei a tocar bateria, ouvi muito cara lá em São Paulo dizer o seguinte: “Ah, bandas que são relevantes para a nossa geração.” Eram essas bandas do Rock britânico que a gente citou aqui. Black Sabbath, Led Zeppelin, Genesis, Jethro Tull, Deep Purple, Bad Company, Emerson, Lake & Palmer, Yes, e por aí vai. Bandas relevantes. E muita gente dizia: “Mas, peraê, e Beatles? Stones?”. E eles: “Ah, esses caras não são tâo bons. Não tocam nada. Não são tão bons músicos. Você vê esses caras tocando em um telhado. Um negócio meio amador. Parece uma coisa meio de colégio aquilo ali.” Então, de certa forma, é uma coisa geracional. Muita gente da minha geração não entendeu o que os Beatles eram por conta desse tipo de análise, desse tipo de olhar. “Ah, o que importa pra mim? O que importa é um cara que toca pra caramba, que sola muito, que tecnicamente é um monstro.” Que é o que acontece com todas essas bandas que eu citei aqui. Grandes músicos, com capacidade de improvisar e solar. Seria um quadro difícil para os Beatles. Tanto é que, durante muito tempo, não se falou da relevância dos Beatles da maneira como a gente fala hoje. Não que eles tenham sido esquecidos, mas eu me lembro de, nos anos 1980, a gente não falava tanto sobre Beatles. A gente não falava sobre eles do jeito que falamos e reconhecemos hoje. Os Beatles são incríveis, mas ninguém ficava falando muito ou refletindo muito. É uma coisa geracional, também. Características culturais daquele momento. A música pop foi indo para um lado de excessos. De verborragia. E não é por acaso que a década de 1970 é a década do Jazz-Rock, é a década do Hard Rock, é a década desses gêneros, vertentes e bandas que têm um exagero absurdo. Isso também tece um tempo. Hoje não se faz mais música de cinco minutos na música pop. É raro.

Realmente. É difícil pensar neles ainda juntos, tocando ao vivo, entrando em turnê, dentro de um contexto musical como foram os anos 1970.
A gente não pode ignorar as mudanças culturais. A música, ela responde às mudanças culturais da nossa época, da que a gente está vivendo. A música é o grande oráculo da humanidade. Tudo que acontece na humanidade, politicamente, economicamente, socialmente, culturalmente, reflete na música popular. Quer queira, quer não queira. Não tem como negar. Então, se os Beatles têm uma música tão relevante nos anos 1960, chegam ao final deles e acabam, podemos entender que eles acabam antes de esgotarem suas possibilidades, concorda? Provavelmente, eles, juntos, poderiam ainda produzir muita coisa boa. Mas não optaram por isso. Acabaram por ali. Algumas bandas acabaram antes do que a gente achava que elas deveriam acabar. E entraram para a História. Porque, no meu entender, na minha avaliação, quando uma banda muito importante para a História da Música faz discos importantes, relevantes, e por anos, de alguma forma, tentam continuar, gera um desgaste. Ela continua gravando, e continua ali, e as pessoas têm certa má vontade com isso, às vezes. Acham que ela deveria ter parado em determinado momento. No caso dos Beatles, o fato de todos os discos deles serem bons e importantes, fez também com que eles ficassem nessa posição tão singular. Se a gente parar pra pensar, olha só, um exemplo: Police tem cinco discos. Depois a banda se separa. É uma banda que eu adoro. A banda se separa, o Sting segue a carreira dele, o Stewart Copeland a dele e o Andy Summers a dele. Agora, o Sting é um baita compositor, obviamente. Mas, pra mim, não é à toa que nos shows ele tem que tocar as músicas que fez com o Police, cara. Ele tem que tocar! E são as melhores. Depois do Police, ele fez grandes canções, mas nada pra mim supera o Police. E por aí vai. Então, essa entidade banda, voltando para o assunto, ela é uma entidade muito poderosa quando tem a sinergia que você citou. A química, a sintonia intelectual. Isso é importantíssimo em uma banda. Quando a banda tem esses atributos e os músicos ali são grandes artistas, tem tudo pra dar certo. Normalmente, dá. Mas, vamos simular um quadro aqui. Se viessem os Beatles tocando nos anos 1970, com as mudanças culturais dos anos 1970. Esse excesso de informação, que eu chamei de verborragia instrumental, improvisos, solos longuíssimos, muita viagem. As drogas também haviam mudado. Imagina os Beatles entrando em um festival de Rock. Imagina esse quadro. Festival de Rock nos anos 1970. Tivemos vários na Califórnia. Vem John, Paul, George e Ringo tocando ao vivo do jeito que tocavam. E depois vem uma daquelas trocentas bandas norte americanas que faziam barulho pra caramba. MC5, por exemplo. Uma banda barulhenta, pesadíssima, perto dos Beatles. Acho que diriam: “bom, os Beatles perto do MC5 não são nada. São uns gatinhos bem comportados, ali, perto de um tigre”. A música foi mudando, os traços vão se modificando. Como é que os Beatles iam lidar com isso? A gente não sabe. A gente está aqui especulando. Mas que seria difícil pegar os Beatles e colocar do lado Emerson, Lake & Palmer, por exemplo, uma das bandas que mais explorou esse exagero, né? Nos shows do Emerson, Lake & Palmer, as músicas tinham 20 minutos. Eu adoro! Mas, assim, só naquela época que isso seria possível. As pessoas ficavam ali ouvindo aquela música instrumental. Keith Emerson solando durante 20 minutos. Quem ia aguentar isso hoje? Ninguém tem mais paciência. Então, como é que os Beatles se sairiam diante de um quadro como esse? Um festival que tinha, ali, vamos supor: 1974. O que teria? Emerson, Lake & Palmer, Yes, MC5, Deep Purple e Beatles. Cara, bandas que ao vivo arrasavam. Tocavam muito bem. Eram muito agressivas. Os Beatles, até onde eu sei, eram uma banda que tinha muita energia, mas tinha uma coisa mais delicada, entendeu? Não tão brutal quanto tinha MC5, ou Led Zeppelin, cujas apresentações eram explosivas. Ou então, Stooges, com Iggy Pop. Cara, os shows do Stooges acabavam em pancadaria porque o Iggy Pop mergulhava na plateia e as pessoas saiam ali, curtindo, se esbofeteando, e depois estava tudo certo, entendeu? Diziam que os shows do Iggy Pop, durante os Stooges e depois, eram shows perigosíssimos. Você podia levar um pedestal de microfone no meio da cabeça se você estivesse perto dele (risos). Os Beatles não fariam isso. Todas essas coisas que se tornaram comuns no Rock and Roll, ou em todo universo do Rock anda Roll, que se comercializou bastante… Veja o Kiss, por exemplo. O Kiss é final de 1973, começo de 1974. Eles vêm com explosão, maquiagem. Aquelas roupas. Eu adoro aquilo. Mas, assim, vamos combinar, aquela praia não tinha nada a ver com John Lennon. John Lennon era um cara politizado. Um cara lutando pela paz. O Paul McCartney é um cara cabeça. O George Harrison, um cara espiritualizado. Fez várias viagens para a Índia. Um cara que estudou bastante a música indiana. Um cara que tinha uma formação religiosa, de filosofia oriental profunda. Era uma pessoa especializada. Olha o “All Things Must Pass” o disco que é. Então, digamos, essa ala do Rock que depois vai dar no Heavy Metal, no Hard Rock, no Punk Rock, não tinha muito a ver com os Beatles, se você parar pra pensar. Com as pessoas que eles eram. Então, ia ser um quadro difícil, acho, no cenário. Eles poderiam continuar só em estúdio. E isso seria uma outra história. Isso a gente não sabe. Mas, se fosse ao vivo, a coisa ia ser meio difícil para eles. Mas poderiam prosseguir só gravando. Como seria a sobrevivência dos Beatles em um cenário dos anos 1970? Seria muito mais fácil se eles prosseguissem gravando e permanecendo apenas como uma banda de estúdio. Uma banda que não se apresentasse ao vivo. Porque, se fosse para se apresentar ao vivo, eles iam ter que lidar com essas novas regras do show business. E para eles, para uma banda como eles, ia ser muito difícil.

A ideia do projeto “Get Back”, de 1969, era que eles pudessem voltar a se apresentar ao vivo. Mas acabou não vingando. Tornou-se o álbum “Let it Be”, e o show no telhado se tornou um expurgo para banda até entrarem em estúdio para gravar “Abbey Road”. Imaginá-los seguindo gravando, mesmo com suas carreiras solo em paralelo, é um exercício curioso. Mas todas as mudanças que você citou nos anos 1970 seriam, realmente, um entrave para os quatro.
Sim. Basta ver o show business o que virou depois a partir dali. Olha só, por exemplo, eu adoro o Genesis. E adoro o Peter Gabriel. O Genesis é consequência dos Beatles, assim como Yes e o Pink Floyd. Essas três bandas são consequências dos Beatles diretamente. Até o Black Sabbath. Ozzy Osbourne fala isso. “Eu só entrei nessa da música por conta dos Beatles. É a banda mais importante para mim, E sempre vai ser.” O Peter Gabriel, também. As músicas dos Genesis eram aquela coisa meio pastoral da Inglaterra. Uma coisa meio rural, que ninguém mais fazia. Mas era uma coisa, do ponto de vista do espetáculo, meio monótona. Eles sentiam uma monotonia e as pessoas precisavam de mais coisas em termos cênicos. E o Peter Gabriel inventa as fantasias. Inventa maquiagem. Inventa coisas assim que vão transformando o show do Genesis em uma outra experiência. Vai ficando uma coisa cada vez mais teatral. Então, veja você, uma banda que é consequência dos Beatles, que é o Genesis, dentro das novas regras do show business dos anos 1970, vai tendo que se transformar numa outra coisa. E o Peter Gabriel fez isso sozinho, porque os outros só queriam tocar. Não queriam nem ficar de pé. Queriam ficar sentados, tocando. Todos os outros quatro, que eram gênios, também. Então, eu acho que do ponto de vista do show business, de fato, seria um quadro desafiador para os Beatles, sem dúvida nenhuma.

Ainda assim, é impressionante ver como os quatro, sozinhos, conseguiram se adaptar bem pelos anos seguintes. Paul McCartney principalmente, com uma carreira solo que já se estende por 50 anos. George, apesar de recluso e não muito chegado aos shows ao vivo, lançou discos fundamentais.
Mas, veja você, o George Harrison, um cara recluso, explode com o “All Things Must Pass” (1970). O John Lennon vira um ativista, vai morar em Nova York. Trava uma luta contra o governo norte americano. Porque ele defendia posições e opiniões que iam totalmente de encontro ao partido republicano norte americano. Ele era um cara execrado pelos republicanos, pelas ideias que ele defendeu. John Lennon era um cara muito à frente de sua época, politicamente falando. Um artista fantástico e um grande ativista dos direitos humanos, das causas pela paz. Por outro lado, Paul McCartney fez a banda Wings e sobreviveu muito bem nos anos 1970. Era um dos grandes shows dos anos 1970. Fez ótimos discos. Então, Paul, gênio que é, acho que ele, sim, conseguiu passar bem pelos anos 1970. Ele conseguiu passar por cinco décadas após os Beatles. Mas ele sempre teve bandas muito boas. Os shows do Paul sempre foram bons. É isso que eu estou te falando. Porque, assim, para você sobreviver no meio, a não ser que você queira ser um artista de estúdio, precisa se reinventar. A partir dos anos 1970, o show ao vivo passou a ser uma coisa muito importante na vida de um artista. Eu me criei dentro dessa mentalidade. Eu sou um cara que adorava e adoro discos ao vivo. Então, na minha adolescência, a gente esperava pelos lançamentos. “Quando vamos ter o próximo disco ao vivo do Deep Purple? Quando vamos ter o disco ao vivo do Rainbow? Quando vamos ter o disco ao vivo do Kansas?” Kansas é uma banda que eu adorava. Uma banda meio prog, meio hard norte americana. Então, essas bandas todas tinham que ir pro estádio. E o Paul sempre teve uma banda ao vivo muito boa, que era o Wings. Bons músicos. E ele é um cara que, ao vivo, aprendeu muito bem como fazer bons shows. Shows grandes, na verdade, Grandes turnês. O Paul tem um disco ao vivo, um álbum duplo, chamado “Wings Over America” (1976). Uma turnê imensa que ele fez nos Estados Unidos. O Paul sempre teve a carreira com grandes músicas ao vivo. Ele sempre foi muito inteligente. A carreira solo dele sempre teve grandes músicas. Algumas delas altamente radiofônicas. Ele sempre teve sucesso em rádio. Isso foi fundamental. Coisa que o John Lennon não conseguiu exatamente tanto quanto o Paul. Daí vem aquela música “How Do You Sleep?”, chamando o Paul de um sujeito vendido ao sucesso. Eu discordo dessa visão do John Lennon. Mas, tudo bem. John Lennon era um cara assim, mesmo. Em certos momentos era um cara radical. Mas o Paul foi um cara que entendeu isso muito mais do que os outros três. A equação show, disco e sucesso de rádio. Ele entendeu essa equação e a usou muito bem. Muito mais do que os outros três. Ele sobreviveu aos anos 1970, 80 e 90 e chegou ao presente em perfeita forma. O Paul está com 78 anos. Gil fez 78 anos, também, Tem um vídeo que está circulando na internet com todos cantando “Andar com Fé”. Termina com o Stevie Wonder cantando parabéns pra você. Emocionante. Todos os amigos próximos ao Gil. Que coisa incrível esse vídeo. Caetano faz 78 esse ano. Essa geração que a gente está falando aqui há horas. Essa geração mudou a música pop. A gente tem que ser muito grato a todos eles. Gil, Caetano, Chico, Milton, os Beatles, Eric Clapton, um pouco mais novo. A geração dos anos 1940 é foda. Marcos Valle, Edu Lobo, Bob Dylan. Eles mudaram o mundo. Agora estão todos com 78, 79. É meio aflitivo isso. A gente aqui só olhando.

Você citou discos pilares dos Beatles no decorrer desse papo. Conseguiria eleger o seu preferido?
É muito difícil eleger. Essas efemérides que têm acontecido nos álbuns dos Beatles recentemente, por exemplo. Lançamentos de material novo. São relançamentos fantásticos. Então, é difícil escolher um álbum dos Beatles. Algo que seja mais relevante. Você pode escolher aquele que em algum momento te bate mais. Mas, quando, há três anos, houve a reedição do “Sgt. Peppers”, de 1967, remixada pelo filho do George Martin, o Gilles Martin, veio muito material na imprensa. Eu li bastante sobre o quadro cultural da época. Hoje, posso colocar o “Sgt. Peppers” (como o meu favorito). Amanhã pode ser outro. Mas quando ouvi o “Sgt. Peppers” nessa outra versão de 2017 foi incrível. Não só a versão do “Sgt. Peppers” refeita pelo Gilles Martin, com todo o trabalho de remixagem primoroso dele. Mas, dentro disso, no lançamento desse disco, quando eu comprei nessa edição comemorativa, eu lembro que eu alcancei uma entrevista do Paul McCartney na revista inglesa Mojo. Para mim, é a melhor revista de música do mundo. Sempre foi. E tem uma Mojo do “Sgt Peppers” com uma entrevista do Paul McCartney. Ele falando do processo. A remixagem passou por ele, que aprovou esse novo trabalho. Ele falou sobre o formato stereo, que os Beatles não acreditavam nesse formato. Quando ele surgiu no mercado, na Inglaterra, as pessoas não acreditavam que esse formato ia vingar. Então, os Beatles se concentravam na mixagem mono. As mixagens stereo eram mais para o mercado norte americano, pois, na Europa, as pessoas ouviam os discos em mono, ainda. E e o Paul falou que, durante muitos anos, ele sempre preferiu as mixagens mono dos Beatles em relação às mixagens stereo. E que essa mixagem do “Sgt. Peppers” era uma que ele havia gostado e achava que se equiparava à mixagem mono. Cara, quando ele falou isso nessa entrevista, eu me dei conta de que, durante grande parte da minha vida, depois que eu comecei me interessar por música em outro nível, eu sempre tinha ouvido Beatles em stereo. E depois de ler o Paul McCartney falado isso, eu falei, caramba! O que sempre importou para a banda eram as mixagens mono. Que são completamente diferentes. Eu pedi emprestado um box mono, que eu não tinha, dos Beatles, e fui ouvir tudo de novo. Dessa vez, em mono. Inclusive o “Sgt. Peppers”, obviamente, né? Cara, e sinceramente, achei que Beatles em mono era muito mais legal que Beatles em stereo (risos). Paul McCartney tinha razão. Aquela concentração energética. Aquela massa sonora traduzida no formato mono era, e acho até hoje, muito melhor do que o formato stereo. E dentro desse contexto, o “Sgt. Peppers” brotou ainda mais como uma obra absolutamente revolucionária. Dentro desse formato que é o mono. Como é que alguém pode fazer um disco daquele jeito ainda no formato mono? Um formato que era muito difícil de você mixar. Essa entrevista do Paul McCartney foi decisiva para mim, porque, com ela, eu recuperei os Beatles em mono. Coisa que eu não tinha parado para pensar ainda. Isso foi em 2017, cara. Agora, praticamente. Eu não consigo encontrar um álbum mais importante para a cultura pop do que esse. E olha que tem outros. Eu não toco bateria por conta dos Beatles, como já te falei. Eu toco bateria por conta do Led Zeppelin. Mas, agora, depois de muito tempo, maduro, muito tempo ouvindo tudo, digo que não há um álbum mais relevante para a cultura pop que o “Sgt. Peppers”. Nem o “Pet Sounds” (dos Beach Boys), que é um puta disco. Um álbum extraordinário. Mas não dá para o “Sgt. Peppers”. Não chega a ser tão relevante culturalmente. Não chega até o disco dos Beatles. Então, tentando responder a sua pergunta mais uma vez de forma quilométrica (risos), eu ficaria com o “Sgt. Peppers”.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e com o Scream & Yell desde 2005.

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One thought on “Especial: Ringo Starr 80 anos, por Charles Gavin

  1. Essa entrevista foi uma aula. Absurda. Vital. Plena. Simbiose perfeita entre entrevistado e entrevistador. Gavin mais uma vez sendo guia.

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