Entrevista: Beto Só resgata canções do indie nacional anos 2000

entrevista por Leonardo Vinhas 

A página de Beto Só no Facebook tem 345 curtidas, seu perfil no Spotify acusa 233 ouvintes mensais. E isso diz absolutamente nada sobre sua música, seu trabalho ou mesmo seu espaço no que chamaríamos de “underground” (alguém ainda chama assim?). Tempos estranhos esses em que os (poucos) textos sobre música estão mais preocupados em divulgar dados de marketing do que falar sobre as composições.

É sobre composições que Beto Só fala nessa entrevista – as próprias e as alheias, sendo que essas últimas são o cerne de seu último registro fonográfico, o primeiro em nove anos. “Pra Toda Superquadra Ouvir” (2020) é um disco de versões de canções escolhidas entre o repertório de bandas de rock independentes do início do ano 2000. Canções de Violins (“Manobrista de Homens”), Superguidis (“O Banana”), Suíte Super Luxo (“Segundo Grau”), Lestics (“Velho”), Los Porongas (“Enquanto Uns Dormem”) e Superquadra (“Saída Sul”), que emprestou de um de seus versos o título para o álbum.

Na verdade, é a “Parte 1” do disco que ganha lançamento nesse outono pandêmico. O “projeto” (por assim dizer) desse disco nasceu em 2014, e a intenção era tê-lo lançado exatamente naquele ano. Porém, não só o álbum não saiu como Beto Só deixou a música praticamente de lado para concentrar-se nas questões que Humberto Rezende precisava resolver, entre elas lidar com o luto pelo falecimento de seu pai.

Nesse meio tempo, três singles do álbum deram as caras no Soundcloud (“Saída Sul”, “O Banana” e “Segundo Grau”), e fora esporádicas colaborações em projetos do selo Scream & Yell (gravando faixas para os álbuns “Somos Todos Latinos”, de 2015, e “Faixa Seis”, de 2017), não se ouviu falar de Beto Só nem do prometido “disco de versões”. Porém, quem assistiu a apresentação de Beto com sua banda na edição de 2014 do festival El Mapa de Todos (Porto Alegre – RS) não conseguia tirar da cabeça as canções e ficava esperando pelo álbum ser concluído.

Esse momento chegou, e Beto também fala sobre ele aqui nessa entrevista, realizada em uma agradabilíssima conversa telefônica. Fala, ainda, sobre a decisão de fracionar o álbum em duas partes, sobre a geração que inspirou esse disco e sobre muitas outras coisas que, sinceramente, o fã de música faria muito bem em ler. Especialmente o fã que se define como roqueiro.

A verve de Beto para a conversa aberta é tão merecedora de atenção quanto sua poesia. E esse disco revela um Beto melodista e arranjador que mesmo seus (poucos) fãs não conheciam. E embora o próprio discorde do termo, aparece aqui um Beto Só intérprete, capaz de dar novos significados ou mesmo apropriar-se de canções excelentes que, infelizmente, bem pouca gente ouviu.

O álbum foi gravado com parceiros de longa data, como seu irmão Oscar Junior (“Ju”), o baixista Tharsis Campos, o baterista Fábio Costa e o violoncelista Ataíde Matos, entre outros. Houve, ainda, participações especiais: a cantora Karla Testa canta em “Manobrista de Homens” e o duo DeltaFoxx faz os sintetizadores e efeitos em “Saída Sul”. “Todo mundo de Brasília”, enfatiza Beto.

Você começou a preparação de “Pra Toda Superquadra Ouvir” em 2014. Chegou a lançar três canções, mas depois houve um longo hiato, e só neste ano retomou. Por que rolou esse longuíssimo intervalo?
Foi um misto de um pouco da minha personalidade e um pouco da coisa de ser [um artista] independente, de não ter uma carreira profissional na música e ter mil outros compromissos no meu trabalho, além das coisas que foram acontecendo mesmo no percurso. A ideia era que o disco saísse pouco tempo depois do show do El Mapa, mas o produtor que estava fazendo (Fernando Brasil, do Phonopop) acabou se envolvendo em outro projeto, e depois se mudou de Brasília. Ficamos com boa parte do disco gravado, mas em todas as canções faltavam uma coisa ou outra. Em paralelo, comecei a trabalhar demais, e ainda estava lidando com a morte do meu pai (em janeiro de 2015). Isso foi deixando o disco meio parado, e no fim parei de me dedicar à música.

A gente teve uma breve conversa em 2016 quando te perguntei sobre uma possível conclusão do disco e você me disse que tinha desistido de tocar.
Não me lembro de ter falado dessa forma, mas me lembro de ter tido a sensação de que não deveria trabalhar mais com a música, e me dedicar mais ao jornalismo. Peguei um trabalho novo, mais desafiador, e achei que não era capaz, que precisaria me dedicar mais. Não foi um período muito feliz. Em paralelo, comecei a escrever crônicas, e parte do meu lado criativo estava indo para esses textos que saíam (e ainda saem) no Correio Braziliense. Mas no começo do ano me deu vontade de retomar a música: voltei a tocar violão, a compor, fui revisitar meu próprio trabalho – até ouvir novamente meus discos mesmo. Tem um lance que… Depois que a banda Os Solitários Incríveis, da qual eu fazia parte, acabou, dei início à minha carreira solo e encasquetei que iria fazer cinco discos. Era meta. E só tinha três (risos). Aí comecei a ouvir os singles já lançados, fui vendo como estavam as outras faixas, e três delas estavam bem próximas da conclusão, só faltavam guitarras e voz. Chamei meu irmão Ju, que sempre toca comigo, e decidimos finalizar.

Por isso o lançamento em duas partes?
Também. Mas esse lançamento de um álbum menor é a cara do streaming. Se você não é um artista com uma base muito grande de fãs, o disco com mais faixas tende a se perder. E combinava para o momento: o nome do disco já estava escolhido, a foto da Joana França para a capa também, e achei que tinha a ver com esse momento de todo mundo preso nos apartamentos das superquadras (risos). Aqui em Brasília está tendo um movimento de alguns artistas irem pra superquadra e tocar para as pessoas do bloco.

E a segunda parte vai ser como você tinha planejado lá no começo, ou vão entrar coisas novas?
Eu já estava compondo de novo, com vontade de trabalhar com música, quando você me chamou pra gravar uma faixa para um tributo do selo Scream & Yell a uma banda dessa época (nota: que será lançado ainda esse ano, se a pandemia deixar), e com isso já tenho mais uma música pronta para a parte 2 (risos). Essa não estava no projeto original e vai entrar. Tô pensando também em incluir como bonus track a versão que fiz pro El Mató a Un Policia Motorizado (“Más o Menos Bien”, presente no álbum “Somos Todos Latinos”, também do selo Scream & Yell e organizado e produzido pelo autor deste texto). De resto, é aquele repertório mesmo: a parte 2 vai ter Volver, Stereoscope, Disco Alto, Proto e Watson.

Capa de “Para Toda Superquadra Ouvir”, de Beto Só

O que me chama atenção no repertório escolhido é o quanto algumas faixas são diferentes do universo lírico que você trabalha. “O Banana” e “Segundo Grau”, por exemplo, tem um tipo de humor que não aparece nas suas composições (definidas no Scream & Yell em 2008 como “baladas cortantes que batem forte no peito, no rosto, nos pulsos“). Fico pensando se você as escolheu por um desafio de intérprete ou justamente por serem diferentes do que você faz mesmo.
(Hesita) Quando vejo alguém fazendo uma coisa que eu não conseguiria fazer, fico muito de cara, me sinto até, como dizer, com certo complexo, a ponto de dizer a mim mesmo: “caramba, eu nunca ia conseguir fazer isso”. Essas músicas todas [do repertório do disco] eu adoro, e eu não ia conseguir fazê-las. São letras muito boas, que eu não conseguiria fazer. Quando comecei solo, ali por 2008, eu tinha uma relação de disputa com outros artistas, de competição mesmo. Era muito ruim, porque eu não conseguia reconhecer que eles eram bons, porque isso significaria que sou ruim (muitos risos). O que mais chega para mim em uma canção são as letras. Sei que não sou um grande cantor, não sou um grande instrumentista, sempre preciso de alguém para ajudar a compor, mas sempre tive certa vaidade quanto à letra, que é algo que acho que faço bem. Quando fui tendo uma maturidade, entendendo o que seria minha carreira, a coisa da competição foi sumindo e pude apreciar e admirar bandas que estavam na mesma atividade que eu e que faziam coisas que eu não conseguiria fazer. Eu nunca faria uma como a do Diogo [Soares] do Los Porongas (“Enquanto Uns Dormem”) ou como a dos Violins (“Manobrista de Homens”). Essa até tem coisas pelas quais já passei, pois não sou religioso e, vivendo em um país majoritariamente católico, me sinto oprimido pela religião, só que eu nunca faria uma letra como a de “Manobrista de Homens”. Quando fiz, saiu muito diferente. Minha “Manobrista de Homens” é “Vivendo no Escuro” (do disco “Ferro Velho de Boas Intenções”, de 2011), que é mais sutil. O Beto Cupertino (do Violins) foi mais ousado, ele fala “que se foda”, e eu não diria desse jeito (risos). Eu sempre fui muito impactado por esses letristas todos, e a escolha do repertório passa pelas letras. Depois vem a minha capacidade de fazer versões pertinentes para essas canções. Agora, é curioso, teve gente que ouviu e jurava que tinha letras ali que eram minhas, como “Velho” (original dos Lestics) e “Manobrista de Homens”. Acho que é por conta do arranjo. O que eu fiz foi… Vi uma entrevista, não sei se do Johnny Cash ou do Rick Rubin, mas um dos dois disse que o Cash ficou tocando ad nauseaum as músicas que entraram nos discos da série “American” até que elas se tornassem dele. E eu comecei a fazer isso, tanto que fui deixando de seguir os originais, em “Segundo Grau” tem até um errinho de verso. Pensei que se tinha dado certo pro Johnny Cash, talvez eu pudesse tentar e funcionasse para mim (risos). Fiquei tocando essas músicas durante um ano antes do show que você viu. Acho que isso pode dar a sensação de que são músicas minhas.

E agora que o disco, ou pelo menos metade dele, está lançado, onde ele se encaixa no esquema clássico da música? Você pretende fazer show, quando isso voltar a ser possível?
A pandemia, nesse aspecto, até me ajudou um pouco, porque não tenho a obrigação de dar um show (risos). Se fosse lançar agora ia ter que ir atrás de lançar, show e tal O fato é que sempre gostei de dar show, sempre achei muito bom, mas comecei a ficar um pouco cansado. Sempre fui o faz-tudo, que vai atrás, faz o contato, reúne os músicos, fica prestando atenção nos detalhes. Sou eu que tenho que saber que o músico tal é desorganizado e não tem amplificador e vou acabar tendo que correr atrás do amp para ele, sei quem é o músico que atrasa e que vou precisar ficar em cima dele para não atrapalhar o funcionamento das coisas em um festival, sempre fui essa cara que fica gerenciando as coisas. Acho que virei artista-solo porque cansei de fazer isso pra uma banda. Porque se é banda, todo mundo tem que fazer, ne? Mas sempre tem o cara que não faz nada e ainda se acha no direito de falar, dar ordem. Me cansei disso e virei Beto Só (risos). Mas não quis ser artista solo do tipo que fala pra banda o que ela deve tocar. Quero a banda que participa, gosto disso. “Segundo Grau”, por exemplo, saiu meio jazzística porque isso foi uma ideia que o Tharsis (Campos, baixista) deu, e que encontrou respaldo numa levada que o Fábio (Costa, baterista) trouxe. Perguntei pro Ju o que ele achava, ele curtiu e a coisa foi seguindo. Eu realmente gosto disso, foi a coisa do show que foi me dando o cansaço. Passei a fazer show só quando era bom o esquema, quando eu sabia que teria um bom som, quando era uma oportunidade imperdível ou confortável, só que eu não sou a Ivete Sangalo, que é alguém para quem as pessoas imploram por um show. Sou bem o contrário (risos). Assim, quando eu via que ia dar um pouquinho mais de trabalho, já não ia atrás. Veio esse negócio da pandemia e tirou o show do meu escopo de preocupação. Mas tenho vontade, muita gente me fala que o show do Rio Grande do Sul foi um grande show, e eu queria fazer esse repertório ao vivo de novo.

E olhando com a perspectiva do tempo, como você vê essa geração que você retrata no disco? A gente tem o rock dos anos 80 e 90 bem documentados – tão bem quanto possível num país pobre de documentação histórica quanto o Brasil. Mas essa geração tem poucas análises, poucos registros mais profundos.
É exatamente isso. É uma geração mal documentada. Mas é riquíssima, riquíssima. A ideia do disco surgiu até como um manifesto, eu acho, da riqueza que foram os anos 2000 para a música jovem brasileira. A quantidade de canções boas mesmo que foram feitas nessa época é impressionante. Você pode pegar discos que não são totalmente bons, porque é difícil ter 12 músicas boas de uma leva só, mas tanta gente fez tanta música boa e juntou um repertório tão rico e tão bom que fico de cara que seja mal documentado. E acho que esse período precisa ser revisitado, porque foram produzidas e gravadas grandes canções. A gente acreditava que a internet ia permitir falar com nosso público de forma direta, sem gravadora e sem jabá. A gente achava que dava para conquistar o público sem fazer concessões para fora do que a gente achava que deveria fazer. Isso resultou em bandas que não foram pra frente no sentido clássico, ninguém virou uma banda do porte de um Skank, um Raimundos… Mas até teve, né? Teve uma Mallu Magalhães, a gente pode colocar o Los Hermanos aí também. Em termos de qualidade, acho que a geração 2000 não deixa nada a dever aos anos 80. Alguém pode falar: “me mostra então a Legião Urbana dessa geração, a Plebe Rude dessa geração”. As grandes bandas foram impulsionadas por gravadoras, tinham um caminho diferente para chegar a mais pessoas, então nesse sentido pode não ter existido uma Legião Urbana desse período. Mas pra mim o primeiro disco da Suite Super Luxo é melhor que o segundo da Plebe Rude (“Nunca Fomos Tão Brasileiros”). Pega o primeiro disco do Superguidis, não acho que fica devendo ao “Cabeça Dinossauro” (dos Titãs). “Ah, mas ‘Cabeça Dinossauro’ é um clássico”. É clássico porque, nos anos 80, a música que tocava na Transamérica era rock, a música que tocava nas novelas era rock. Se o Superguidis tivesse sido lançado no contexto da época, “Malevolosidade” não seria um grande hit? Eles eram ótimos, viajaram pra caramba, eram supercarismáticos, o Andrio (Maquenzi, vocalista) era bonito pra caralho. Fico com pena das pessoas que não conhecem a banda. Mas acho que a gente foi a base pra essa geração que está aí, onde não existe tanta fronteira entre o independente e o mainstream. Hoje você tem o Francisco El Hombre dando entrevista para rádio grande na programação do meio da tarde, tocando para muita gente em várias cidades, e isso sem estar no mainstream massivo.

Já que você falou no rock, acho que vale perguntar o que é o rock hoje para você. É um gênero que perdeu a capacidade de se comunicar com o jovem, é uma música de nicho para determinado público de classe média alta, é uma sonoridade ultrapassada?
É uma boa pergunta. Eu não tenho certeza do que é o rock hoje, mas também não é uma pergunta que me aflige. Não sou uma pessoa do “salve o rock, ele está ameaçado de extinção”. Não acho que o mundo precisa do rock, mas sempre o terá. Ouvi essa menina, a Flaira Ferro, ela tem um maracatu bem nervoso, no qual ela fala “uma cidade triste é mais fácil de ser manipulada” (da canção “Revólver”). Ok, não é rock aquilo, mas aquela energia me satisfaz. Agora, a coisa da classe média alta da sua pergunta me chama atenção… Acho que uma lição social que os anos 2000 deixaram pra mim foi que a expansão da internet permitiu ver melhor o país. A gente viu a internet ficando mais rápida, as músicas em streaming surgindo, a cena roqueira tocando, a gente tinha então uma visão classe média alta do país ao achar que a gente ia se comunicar com o povo brasileiro (risos). Mas quando você vê o que a internet trouxe, se dá conta que não tinha nada a ver com o que estávamos fazendo. Fiquei fascinado quando vi o passinho, que veio das favelas do Rio e que os meninos que dançavam viraram estrelas pelo Youtube, foram dando show para as comunidades deles. E a gente achando que ia civilizar o país com essa música que não diz nada para as pessoas que estão vivendo uma realidade distante da nossa. Acho que o rock tem mesmo uma coisa classe média, e isso não é bom nem ruim. Dizer que é ruim seria um julgamento moral. Havia um pouco de ignorância e arrogância nessa ideia de que o rock é superior, e é só outro estilo, outra forma de se expressar que pode fazer mais sentido para uns e para outros não. Acho que sempre vai ter gente para quem o rock vai ter a forma, a energia, a distorção, vai ter a pressa e e urgência que a pessoa precisa para se expressar, e parte do público vai ter isso como algo que quer e precisa receber, mas a gente não precisa ficar achando que a falta de atenção para o rock significa que o mundo está pior.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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