Para entender: My Morning Jacket

por Leonardo Vinhas

O apreciador do indecifrável saco de gatos chamado “cultura pop” já trombou com o My Morning Jacket de alguma forma: em um filme ou seriado, dentre os muitos para os quais cederam canções; num dos episódios mais populares do desenho animado “American Dad” ou até no supermercado (durante meses, a cadeia de supermercados Mercadorama colocou a faixa “Thank You, Too” em alta rotação no seu som ambiente). Além disso, o vocalista Jim James costuma não ter problema nenhum em deixar a voz em discos de amigos, de Bright Eyes a Booker T.

E numa nota mais folclórica, eles estiveram muito perto de ser uma “ghost band” para os Muppetts, quando propuseram a Disney (e a empresa quase aceitou!) excursionar tocando nos bastidores enquanto os simpáticos bonecos tomavam conta do palco – a faixa-título do álbum “Circuital” (2011), inclusive, foi composta para ser “interpretada” pelo sapo Caco e seus amigos. Apesar disso, a banda não passa de um nome que eventualmente ronda o campo de percepção de nosso hipotético apreciador de iguarias pop.

É uma pena, porque em seus quase 16 anos de carreira, o My Morning Jacket lançou excelentes álbuns e entregou algumas centenas de shows delirantes, que podem durar de quarenta minutos a mais de três horas. Fez também um bom número de canções inesquecíveis, e vem registrando uma evolução notável, em disco e ao vivo. Inicialmente, sua sonoridade remetia ao lado mais country dos Byrds filtrado pela psicodelia alegrinha dos Flaming Lips de 15 anos atrás. Hoje, estão em algum lugar entre o folk introspectivo e o pop sinfônico, como se tais mundos opostos pudessem conviver no mesmo espaço.

Dos fundadores, permanecem apenas James e o baixista Two-Tone Tommy (Tom Blankenship). Com Patrick Hallahan (bateria), Carl Broemel (guitarra e saxofone) e Bo Koster (teclados), a banda estabilizou a formação e ganhou essa identidade plural. Broemel é o parceiro ideal para as ricas harmonias vocais e guitarristicas de Jim James, uma espécie de John Frusciante mais sóbrio, enquanto Hallahan faz pensar em um Keith Moon reencarnado no corpo do Capitão Caverna, ainda que capaz de sutilezas. Não faltam méritos também para Koster e Tommy, mas por muito tempo – notadamente nos dois primeiros discos, “The Tennessee Fire” (1999) e “At Dawn” (2001) –, o que mais chamava atenção eram os vocais de James, gravados com doses generosas de reverb (e no caso do segundo disco, registrados num silo em uma fazenda, aumentando ainda mais o efeito “etéreo”).

Essa estética foi abandonada em “It Still Moves”, obra épica, guitarreira e acelerada de 2003, para tristeza de alguns fãs de primeira hora. Primeiro álbum com a formação atual, “Z” (2004) marcou a maior transformação sonora (aparecendo em várias listas de melhores daquele ano). Como que introduzindo a mudança, o disco abria com uma canção pop esparsa, cujo refrão era apenas um cântico sem palavras – daí o título “Wordless Chorus”. Havia ainda pop de guitarras, simples e direto (a excelente “What a Wonderful Man”), porém o resto do álbum entrava fundo em detalhes que, quando muito, eram apenas sugeridos nos álbuns anteriores.

“Evil Urges” (2008) é o clássico da banda (ou a prova irrefutável de seu declínio e de que “se venderam”, segundo o chororô dos fãs indies): é Prince e Wilco convivendo na mesma casa e se relacionando promiscuamente; é Stax tentando lançar pop de guitarras; são digressões progressivas que namoram a disco music… Um álbum impressionante, que seu sucessor, “Circuital” (2011, último registro em estúdio até o momento), não falhou em suceder, ainda que deixando o soul e as guitarras altas de lado para assumir um lado mais introspectivo.

>>> Cinco faixas
A seleção básica para começar a jornada rumo à roça lisérgica do My Morning Jacket


01) “The Way that He Sings”: Faixa de “At Dawn” que melhor representa o período inicial da banda: fortes harmonias vocais à Byrds, riff de country rock, produção flertando com a psicodelia.


02) “One Big Holiday”: Uma tempestade elétrica, veloz e nada fugaz, e uma das melhores canções de rock dos últimos quinze anos.


03: “Off the Record”: Ou “como o My Morning Jackeet vê o reggae”. Dub e guitarras altas acham o seu lugar no meio disso.


04) “Thank You, Too”: Nunca soaram tão pop. Arranjo e vozes delicados para embalar uma letra de extrema nudez emocional.


05) “Outta My System”: Há algo de Beach Boys nessa irônica canção de “Circuital” (2011), que entrega também as intenções épicas da banda para o momento.

Influências assumidas: Músicos declaram sua admiração pela banda

Rafael Panke, baixista, ruído/mm
“Conheci o MMJ ali por 2001 ou 2002. Um colega de banda da época me mostrou “I’ll Be There When You Die”, do álbum “The Tennesse Fire”, de 1999. Gosto bastante dessa primeira fase deles, da vibe lo-fi e da ambiência geral da parada. É um folk agrário, psicodélico e viajandão, por vezes melancólico; um alt-country fritado, tipo um Flaming Flips cabeludo tocando no celeiro. Acho engraçado ver uns caras do Kentucky tocando esse som com aquele visual BG-barbudo-metaleiro-cowboy-Flying-V, sem apelar pra ironia. Mesmo quando o Jim James canta algo que poderia ser uma piada, soa tão dramático que a gente fica na dúvida.”

Otávio “Joey” Bertolo, multi-instrumentista e produtor, Sereialarm
“Me interessei pelo My Morning Jacket através de algum review (provavelmente no site Pitchfork) do álbum “Z”, que gostei bastante.. Parti deste para os álbuns anteriores, mas confesso que não achei nenhum destes muito interessante.Nessa época rolava uma comparação entre eles e o Flaming Lips, talvez pelo peculiar timbre da voz de Jim James, que acho deveras injusta. São bandas bastante diferentes. Os arranjos dos Lips são sempre cheios e repletos de camadas sutis. Na banda de James, a instrumentação e o estilo são praticamente os mesmos em todos os álbuns, e tudo se direciona para que as gravações de estúdio sejam um retrato do que é a performance da banda em um palco, inclusive na maneira como os álbuns são mixados. Não há muito lugar para layers, ambiências ou qualquer outro truque. Acredito ser esse o grande diferencial da banda.

A meu ver, a banda vem em uma trajetória ascendente. “Z” é um álbum com momentos muito bons, outros nem tanto. Em “Evil Urges”, a diferença entre esses momentos diminui bastante e em “Circuital” chegam finalmente à um álbum de nível altíssimo, sem faixas mais fracas. Entrei de cabeça nesse disco, onde, apesar de toda a simplicidade nas composições e arranjos, são as letras que se destacam. O clima todo do álbum é bastante introspectivo. Pra mim, o My Morning Jacket, ao lado do Blitzen Trapper são as bandas em atividade que trabalham melhor as influências do rock americano dos anos 70 e ainda assim conseguem soar bastante genuínas. Além disso., qualquer banda que consegue colocar com sucesso um coro de crianças cantando o refrão de uma canção sobre black metal (“Holdin’ On To Black Metal”, de “Circuital”), terá sempre o meu respeito.”

Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell

Leia também:
– Para Entender: New Model Army -> Extensa discografia que merece ser vasculhada (aqui)
– Para Entender: The Replacements -> Em seu auge, a banda lançou discos perfeitos (aqui)
– Para Entender: Mano Negra -> Uma das bandas mais influentes da França (aqui)
– Para Entender: Black Crowes -> Uma música bela, intensa e pouco acomodada (aqui)

6 thoughts on “Para entender: My Morning Jacket

  1. Acho My Morning Jacket fodão, essa análise ai ficou bem bacana pra quem quer conhecer a banda e não se assustar entre um disco ou outro, mas acho todos bacana, fera neném.

  2. Eu adoro MMJ, é exatamente como o cara falou, as vezes o Jim canta como piada e soa tão dramático que agt fica na dúvida.. Nao tem como nao gostar, os ritmos
    são demais e diferentes. Pena que eles nunca vem para o Brasil :/

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