Três Filmes: Hawks 1940, 1952 e 1953

por Marcelo Costa

Titulo Original: “His Girl Friday”, 1940
Titulo Nacional: “Jejum de Amor”

A peça da Broadway “The Front Page” ganhou sua primeira versão para o cinema em 1931 através de Howard Hughes (“O Aviador”, de Scorsese, lembra?), mas em 1940 estava de volta às telas, desta vez com Howard Hawks e uma mudança fundamental no roteiro: o papel de Hildy Johnson, escrito para um homem, passou para a ágil Rosalind Russell, e isso transformou a amizade entre Hildy (Rosalind) e o editor Walter Burns (Cary Grant sensacional) em romance (e transformou o filme em uma comédia romântica deliciosa – com mais comédia que romance) deixando o afiado retrato dos primeiros anos do jornalismo na retaguarda. Acreditando estar sendo boicotada por Hawks, que, segundo a atriz, havia separado as frases mais afiadas do roteiro para o personagem de Cary Grant, Rosalind Russell contratou um roteirista para abastecê-la de frases – apoiada no incentivo de improvisação do diretor –, o que talvez explique a força narrativa do filme. Richard Schinkel, especialista em cinema norte-americano e responsável pelo livro “Conversas com Scorsese”, julga essa como “uma das melhores de todas as comédias românticas”. É muito boa, mas ainda assim o adjetivo soa exagerado. “The Front Page” voltou aos cinemas em 1974 com Billy Wider, mas sem o toque romântico de “His Girl Friday”. Vale comparar.

Titulo Original: “Monkey Business”, 1952
Titulo Nacional: “O Inventor da Mocidade”

Primeiro filme de Howard Hawks com Marilyn Monroe, mas ela só é coadjuvante (destilando charme enquanto exercita a libido). À frente do elenco estão Ginger Rogers (absolutamente excelente) e Cary Grant, novamente sensacional em um papel bastante exigente. Nesta tradicionalíssima screwball comedy (de argumento inspirado em outro sucesso de Hawks, “Levada da Breca”, de 1938, com Katharine Hepburn e Cary Grant), um cientista (Cary) está buscando uma fórmula que torne as pessoas mais jovens. Ele já está velho, não enxerga bem e se esquece de algumas coisas (a cena inicial, que começa na verdade nos créditos, é simplesmente brilhante). Sua esposa (Ginger) é afetuosamente apaixonada, mas tudo foge do convencional quando o cientista decide provar uma nova versão de sua fórmula, que acaba por ser “batizada” por Esther, um dos macacos de testes, que sozinho no laboratório prepara uma fórmula que é jogada no bebedouro (sem que os cientistas percebam), ponto de partida para uma divertida comédia, que parece um pouquinho mais longa do que o necessário (só tem 97 minutos, mas com 85 seria perfeito), mas serve de trampolim para um show de Cary Grant e Ginger Rogers.

Titulo Original: “Gentlemen Prefer Blondes”, 1953
Titulo Nacional: “Os Homens Preferem as Loiras”

No ano seguinte, lá estavam Hawks e Marilyn juntos novamente, e impressiona como a atriz cresce de um papel para o outro. Aqui ela vive a dançarina de bordel Lorelei Lee, uma moça apaixonada por dinheiro, homens ricos e, principalmente, diamantes (o grande momento do filme, e um dos grandes momentos da história do cinema, é o número musical “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, com Marilyn lindíssima), que tem em sua amiga Dorothy Shaw (a bela morena Jane Russel) a amiga perfeita, mas de temperamento contrário: para ela não importa se o homem tem dinheiro, se é homem basta (a cena em que ela se passa por Lorelei em um tribunal é impagável). Intercalando ótimas gags cômicas (com boas pitadas de sexo) e números musicais eficientes que não tiram o ritmo da trama, “Os Homens Preferem as Loiras”, ao contrário do que o título possa sugerir, não tem nada de masculino: aqui os homens não escolhem nada, e sim são meros joguetes nas mãos de duas mulheres que sabem o que querem e o que precisam fazer para conseguir, num exemplo de liberdade feminina que deve ter chacoalhado algumas mulheres no começo dos anos 50, muito embora boa parte da trama se resolva em Paris (recado implícito: “Isso não acontece nos EUA, mas na França…”).


– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Sobre “Conversas com Scorsese”, de Richard Schinkel (aqui)
– Filmografia comentada: todos os filmes de Billy Wilder (aqui)
– Faltam atributos que façam de “O Aviador” um clássico (aqui)

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