Balanço Sónar São Paulo 2012

Balanço Sónar São Paulo 2012

“Quando falamos do Sónar parece que estamos falando de tecnicismos, coisas especializadas e intelectuais, e essa não é nossa intenção. O festival é aberto para todo mundo. Há uma vivência, uma experiência em participar do festival que é apresentada de uma forma totalmente aberta a todos”, Enric Palau em entrevista ao Scream & Yell.

Esse parágrafo, já no fim do bate papo por telefone de um dos criadores do Sónar, na Espanha, com o editor do Scream & Yell, acenava uma pequena preocupação na forma com que o festival poderia ser recebido pelo público brasileiro. Será que a veia intelectual do festival iria afastar as pessoas (mesmo com pesos pops como Cee Lo Green e Criolo no line-up)? Qual seria o público que iria bater ponto no evento? Com quem estamos falando? Dúvidas.

Passados os dois dias do Sónar São Paulo, pode se dizer que o aceno de preocupação deu lugar à comemoração. Não que a edição 2012 do festival na capital paulista tenha sido impecável, muito pelo contrário (atrasos constantes e uma sinalização pouco eficiente da localização dos palcos incomodaram muito), mas se os ingressos não esgotaram nas bilheterias, um ótimo público marcou presença credenciando futuras edições.

Para fugir da cobertura óbvia, o Scream & Yell optou por levar ao festival uma equipe de cinco profissionais (quatro repórteres, uma fotógrafa). Assim como fizemos na cobertura do Planeta Terra 2011, o que nos interessava era mostrar/chocar a experiência destes quatro profissionais no festival (livres para ver o show que quisessem) buscando assim criar um painel mais amplo do que realmente aconteceu no Anhembi nestes dois dias.

Claro, não conseguimos ver todos os shows – e nos sentimos desobrigados disso. A ideia era acompanhar o festival, viver a experiência, tentar entender o que estava acontecendo e, no meio disso tudo, assistir aos shows, beber cerveja e descobrir nomes que não conhecíamos. O avançado do horário (tanto quanto o horário mais cedo dos primeiros nomes do sábado) derrubou alguns nomes que queríamos ver, mas não vamos chorar sobre o uísque derramado.

Abaixo você irá conferir os relatos de Andrea Fabiana (@deafabiana), Andressa Monteiro (@monteiroac), Leonardo Vinhas (@leovinhas) e Marcelo Costa (@screamyell) ilustrados pelas fotos de Liliane Callegari (@licallegari). E a participação de Bruno Capelas (@noacapelas), que gostaria de estar no Anhembi, mas acabou optando por outro roteiro. Não é apenas Sónar, é São Paulo. No fim, o que temos não é só um retrato borrado (às vezes feliz, outras triste) de um festival, mas um rápido reflexo no espelho de uma cidade.

Esse é o Sónar. Essa é São Paulo. E esses somos nós. Embarque na experiência.

Festival Sónar – Primeiro Dia

18-20h

Andrea Fabiana – Deixei o trabalho na Berrini (para quem não é de São Paulo: é longe pacas) às 18h30 com o Mac e perto das 19h15 chegamos a casa dele, perto da Paulista, para encontrar a Andressa, a Liliane e o Leonardo. Rápido esquenta (sem álcool) ao som de Kraftwerk e El Cuarteto de Nos.

Andressa Monteiro – Trânsito da Paulista, e no som Stevie Wonder! Não tive vontade de escutar nada antes, pois queria saber o que estava por vir. Confesso que a minha impressão mudou completamente quando cheguei ao Anhembi…

Bruno Capelas – Sabe aquele dia que você percebe que está todo mundo indo fazer alguma coisa e só você que não? Então, sexta-feira aconteceu isso comigo: todo mundo na redação onde eu trabalho só pensava no Sónar e no James Blake e no dubstep e no Kraftvérqui, enquanto eu me preparava para o show dos Los Hermanos.

Leonardo Vinhas – Resolvi abrir a cabeça para encarar de espírito aberto a primeira maratona de shows, e deixei “We Built This City”, do Starship, no repeat em meu MP3 player durante o trajeto da Vila Leopoldina, onde trabalho, até a parte central da Bela Cintra, que é onde o Mac mora. A ideia era ficar com uma música tão merda na cabeça que qualquer coisa que viesse depois seria muito bem recebida. Não deu muito certo: logo eu estava cantando o refrão entusiasmadamente e me lamentando por não ter um terno colorido e um mullet anos 80. Mea culpa. Já na casa do Mac, a esposa dele me salva, deixando “Radioactivity” rolar solto. Que disco lindo! Equipe agrupada, vamos eu, Andressa e Andrea de metrô até o Tietê, e de lá, táxi. Chegamos rápido. Obrigado, Linha Amarela!

Marcelo Costa – Passei boa parte do dia imaginando uma forma rápida de driblar o transito e o caos de São Paulo numa sexta-feira. Impossível. O Sónar São Paulo prometeu abrir os portões às 19h, mas ninguém chega a lugar nenhum em São Paulo às 19h de um dia normal, quiça de uma sexta-feira. Deixei o trabalho na Berrini um pouco mais cedo e encarei o trem mais cheio do que o normal (a expressão “lata de sardinha” ganha perpetuidade todo dia na capital paulista), e o metrô um pouco mais sossegado. Foi possível chegar em casa nos mesmos 45 minutos diários. Detalhe: já tentei pegar taxi Berrini/Paulista e o máximo que ele consegue fazer é em torno de 55 minutos. Linha Amarela <3

20-22h

Andrea Fabiana – Festival grande em plena sexta-feira pós-labuta é difícil. E como. Alguns músculos do pé me indicavam que iria ser uma noite complicada. Empolguei-me ao passar pela catraca do credenciamento e receber os óculos 3D para o show do Kraftwerk. Devo ter soltado um gritinho ridículo na frente do segurança, que me deu um olhar de desprezo. Passamos pelos stands dos patrocinadores e chegamos à porta do Sonar Hall, mas apenas entramos para ver se achávamos alguém que nos pudesse indicar a localização da sala de imprensa. Com a vaga ajuda de algumas placas, finalmente conseguimos achar. Não pensei duas vezes e fui logo bebendo dois copos cheios de café, pois sabia que seriam necessários. Encontrei uma amiga, que já soltou sua primeira reclamação: “Estão cobrando R$ 5 reais por dois Twix… MINI!!”. Dei risada e só consegui dizer “Tenso”. Corremos então para assistir ao DJ set de James Blake no Sonar Club.

Andressa Monteiro – Peguei o show do James Blake do meio para o final. Ele conseguiu, de maneira atrativa, casar entretenimento visual com som. As imagens utilizadas tinham uma história, um apelo, aquela vontade de ver mais. Único problema: ele acabou tocando mais de duas horas e não foi lá muito receptivo com a plateia. Acabou o show e fui circular. O modo com que as pessoas se portavam me chamou a atenção. Fiquei imaginando quanto daquelas pessoas realmente conheciam o que estavam ouvindo, ou se apenas estavam presentes por causa do status que o evento representava. Sabe aquela coisa: “Adoro esta banda, mas só conheço uma música que foi trilha daquele filme ou tocou na casa de um amigo?”. Quem já não passou por isso, certo? Eu mesma fui com o intuito de descobrir e me surpreender com coisas novas, mas ao contrário disso, vi pouquíssima interação. Tinha a sensação de estar em uma balada, onde as pessoas apareciam para ver e serem vistas. Um desfile de moda, de tendências, do high tech, do moderno e do descolado. Se o festival queria ir nessa direção e atingir um público-alvo específico, conseguiu cumprir a meta com sucesso. Deixei os pensamentos de lado e fui conferir o SonarCinema. Resolvi passar por lá com a minha cervejinha na mão e logo o segurança alertou que não seria permitida a entrada com bebidas alcoólicas ou câmeras fotográficas. Perdeu uma espectadora. Não me atrevi a perguntar o que mais não podia fazer, com medo de ele puxar uma lista grande de proibições. Engraçado, né? O público consome a bebida no local, mas não pode entrar em certos lugares com o que comprou? Mais uma novidade, só que dessa vez, nem tão boa assim. Fui para o Cut Chemist e durante a performance, ouvi um trecho de Beastie Boys sendo tocada. Fiquei feliz com a lembrança e homenagem feita ao MC Adam Yauch. Esse fragmento de momento foi o que me deixou mais animada para o resto da noite, que só estava começando.

Bruno Capelas – “Do outro lado da cidade”, como cantou Roberto Carlos, e me arrependendo amargamente de não ter sido mão de vaca três anos antes e ter pulado o Just a Fest, lá estava eu na Barra Funda para ver Amarante, Camelo e companhia bela. No táxi – não peguei o metrô porque só tenho amigo enrolado – e na fila pra entrar no Espaço das Américas, eu tentava entender como é que eu tinha chegado ali. Eu sustentava uma relação de amor e ódio com os barbudos mais barbudos da cidade: ao mesmo tempo em que algumas de suas canções faziam meu coração pular uma batida (“O Vento”, “Sentimental”, “Condicional”), outras me davam um tédio e desgosto tremendo (“Morena”, “Retrato pra Iaiá”, “A Outra”). Além disso, apesar de ter tido tempo para curtir a banda ainda na sua época ativa, só fui mesmo me interessar pelos Loser Manos lá para 2007, 2008, por causa de uma ex (é sempre assim). Passei batido pelas turnês de volta da banda, e acho que só fui parar na Barra Funda por força da insistência de dois amigos: “Pô, é a banda da nossa geração. É o zeitgeist, você não pode deixar o zeitgeist pra trás”, disse um deles. Fui facilmente convencido, eu sei. Ao entrar, os alto-falantes horríveis do Espaço das Américas – desisti de entender porque ainda fazem shows lá depois da caixa roufenha em “How Soon is Now?”, em março – tocavam o que identifiquei como “Wish You Were Here”. Poucas vezes essa música fez tanto sentido, como se as sete mil camisas xadrezes presentes ali quisessem parar o tempo-espaço por pouco mais de duas horas.

Leonardo Vinhas – A rapidez da chegada mostra-se ineficaz graças à (des)organização do fetsival. A procura pela sala de imprensa – onde pretendíamos deixar nossas bolsas e mochilas – demora, já que não havia muita sinalização, e no fim, não tinha onde guarda-las. Um Anhembi semivazio fica alheio à nossa busca e…e o que mesmo? O tal papo de “música inovadora” tinha me deixado curioso. Estava crente de que ia encontrar um povo mutcho loco, gente que você não vê todos os dias. Mas julgando pelo palco Sónar Village, parecia que eu tinha pego a Linha Verde no sentido Augusta numa noite de sexta. Passam-se alguns minutos, e o panorama muda: já vira um povo meio Vila Madalena. Se você mora em São Paulo, sabe do que estou falando. Se não, nem esquenta que eu resumo: o primeiro povo é metido a besta e o segundo é coxinha. Cerveja (Miller, R$ 7,00) em mãos, e já na companhia do Mac, vamos em busca de outros palcos. A desorganização atrapalha mais uma vez: difícil identificar o que é o que (não tem uma única faixa nomeando os palcos). Quando chegamos ao Sónar Hall, descobrimos que não podemos entrar com cervejas ou máquinas fotográficas nem lá nem no Sonar Cinema. Desencanamos de tudo: o Mac vai dar um rolê, eu e a Andressa ficamos conversando sobre Neil Strauss, sexo tântrico e Jesus. Tá, menti sobre um desses tópicos. Mas os outros dois são verdade.

Marcelo Costa – Brinde de sexta-feira à noite: um taxista que não sabe chegar ao Anhembi. E não tem GPS. Sei que você já começa a duvidar da credibilidade do tiozinho, mas ele estava na maior boa-fé, só que perdido – e me fazendo atrasar mais. Errou o caminho três vezes, deu uma baita volta desnecessária no Sambódromo, e quando parou o carro em frente à entrada do festival, se desculpou: “Não costumo fazer esse trajeto, me desculpa. Vou tirar R$ 10 do preço final pelas entradas erradas”. Já dentro do festival, começou um rápido cenário de caos de organização. Pessoas que haviam comprado ingressos pela internet formaram uma fila de quase 2 mil almas recebidas por três atendentes. Decisão da produção: “Fala pro James Blake enrolar a galera que vamos atrasar todos os shows”. Então é isso: investe-se em um APP do festival e distribuem-se 10 mil mapas com localização e horários, mas os horários deixam de ser cumpridos e todo mundo que se organizou em casa para ver este ou aquele show perde todo o trabalho, o horário dos shows (telões estão ali pra que?), a direção dos palcos (com sinalização nula) e ainda tem que aguentar um cara com o mínimo senso de carisma enrolar numa discotecagem. Mas são coisas de um primeiro dia de um novo festival, e a gente tem que aceitar esperando que no futuro (de preferência, no dia seguinte), tudo volte ao normal.

22-00h

Andrea Fabiana – O som de James Blake começou devagar e o espaço ainda estava relativamente vazio. Coincidiu que, ao acelerar o ritmo de suas músicas, o Sonar Club foi enchendo cada vez mais, com as pessoas andando e dançando ao mesmo tempo. Eu, que não alcanço os 1,60m de altura, tive que optar pela lateral vazia, pra conseguir enxergar alguma coisa. E eu queria ver de perto! Entre uma música e outra, ouviam-se os comentários “esse cara é gato, viu!”. E sim, confesso, eu fazia parte desse grupo. A discotecagem me agradou mesmo quando começou um leve pancadão que me fez dançar um pouquinho mais do que apenas mexer o pé. O momento ápice foi quando ele apresentou os remixes de “Soldier”, do Destiny’s Child, e outra do disco solo da Beyoncé. “Hmmm… Se revelou com essas músicas!”, disse alguém, mas preferi não pensar sobre o assunto. E não quero até agora. O cara é muito gato. Nem me importei com a ausência de interação com o público. Umas 23h e pouco, ele bateu palmas para os presentes, vestiu o casaco e saiu do palco ao som dos gritos da galera. Após uns 20 minutos, já com a maioria usando os óculos 3D (e teve quem dispensou), entrou Kraftwerk. O show foi aberto com “The Robots”, que foi cantada de forma empolgada pelo público. Os efeitos 3D são um pobrinhos, mas decidi prestar atenção no show em si e curti do mesmo jeito. Eu tinha planejado escapar para ver o Criolo, mas bastou tocar “Man Machine” pra eu ficar amarrada no Sonar Club.

Andressa Monteiro – Kraftwerk: um show muito bem planejado e executado, mas não passou disso. Os fãs pareciam gostar do que viam, mas não sei se posso dizer o mesmo sobre os curiosos – que estavam lá para se familiarizar. A qualidade do som estava boa, mas faltou emoção. Parecia que os mesmos robôs frios e mecânicos das imagens exibidas na abertura de “The Robots” criaram vida e substituíram os verdadeiros integrantes de carne e osso do grupo. Um amigo disse, e tive que concordar: “Se você tocar o disco em casa, vai soar do mesmo jeito”. Saí e fui para o show do Criolo, mas me perdi. A pouca sinalização não ajudava. Eram apenas três palcos, com uma estrutura gigantesca, mas eu olhava para o lado e via a expressão das pessoas, como querendo dizer: “Onde a gente está?”. Um cara até parou e disse: “Ainda tá rolando o show do Kraftwerk? Sabe me dizer onde é?”. Por sorte, ele teve as indicações que demorei a conseguir, mas finalmente achei o Sonar Hall, com o palco montado em um teatro, com cadeiras, mas quem quisesse levantar e dançar, também tinha toda a liberdade (mas, lembre-se: não podia entrar com cerveja). “Não Existe Amor em SP” trouxe imagens mostrando pontos diversos da cidade no telão, e gostei mais das projeções do que da letra cantada. Havia uma preocupação em contar, por meio de fotografias contextualizadas, a história e o significado da canção. O show seguiu, ele tocou as famosas e animou todo mundo. Era um público diferente, despreocupado, caloroso, que curtia o momento, e parecia mais animado, solto e menos preocupado em “analisar” ou entender a música feita. No meio do show, o número de pessoas aumentava. Enquanto uns entravam, outros saiam pulando, felizes e satisfeitos com o que tinham presenciado. O show terminou bonito, com ele agradecendo: “Vocês poderiam estar em outros lugares, mas escolheram ficar aqui. Muito obrigado!”. Querendo ou não, Criolo tem carisma e soube levar o show com qualidade, sem altos e baixos. A banda que o acompanhava era excelente.

Bruno Capelas – Com quinze minutos protocolares de atraso, Camelo, Amarante, Medina e Barba (e companhia limitada) foram recebidos no palco com uma ovação inacreditável. Talvez estivesse aí a grande força desse show: ver a vibração do público. Era difícil não se arrepiar quando braços se erguiam para berrar refrãos como “e a banda diz, assim é que se faz” ou os “olha lá” de “O Vencedor”, a bem da verdade. Mas, nesse caso, o que é virtude também é problema: não importava se o som estava muito ruim, com guitarras muito altas, pouca equalização e ausência de detalhes, chegando à plateia como um disforme tijolo sonoro. Não importava muito bem também se a banda errava um bocado ou se perdia na execução em alguns momentos – por vezes, a bateria bem executada de Barba parecia estar à frente ou atrás do que os outros músicos faziam no palco. O que valia é que aquelas canções – incluindo os grandes momentos de “O Vento”, “Cara Estranho”, “Deixa o Verão” e “Azedume” – estivessem sendo tocadas ali, quase como se os hermanos investissem em um cover de si mesmos. É pouco para a banda brasileira mais influente dos últimos quinze anos. (Repito: influente. Mais uma vez: influente).

Leonardo Vinhas – Passando pelo Sonar VIllage, vemos no palco… Danilo Gentili de terno tendo espasmos? Não, era o final do DJ set do James Pants. Parecia ter sido animado – o figura, pelo menos, não parava quieto no palco, e a música parecia bem audível. Mas o público estava mais preocupado em ser visto que ver. Não frequento a cena eletrônica, mas imagino que é de bom tom dançar em um DJ set. Mas não estava rolando. Pena. Parecia ter sido legal. Muitas e muitas pernadas depois (não foi fácil achar o SonarClub), Kraftwerk com o show 3D. Meu Deus, eles estão abrindo com “The Robots”! Nunca a maquinização do homem foi tão bem resumida, tampouco emoldurada numa melodia tão bela! E olha só: está igualzinha à versão do disco “The Mix”! Muito igual… Hm… Depois de algumas músicas, decido que está tudo MUITO igual MESMO. É praticamente o disco em alto e límpido volume. Ok, tem as projeções 3D. Mas a coisa é toda meio “Avatar”: muito artifício bonito, mas falta a história. E o Kraft tem história. Mas não estava aparecendo. Incrível: o show que eu mais queria ver me desaponta. Tudo executado tão perfeito que fica… “maquínico”, como diria Gilberto Gil. Pode ser essa a proposta da banda, e provavelmente é. Mas não era pra mim naquela noite. Mantendo o espírito de “manter a cabeça aberta”, passo ao show do Criolo. Em disco, o rapaz nunca me convenceu, e o hype só fazia piorar as coisas (comparar “Não Existe Amor em SP” com “Ronda” é como comparar legendas de fotos do Facebook com versos do Mario Quintana). Me parecia que o maior poder dele era ativar a produção de fluidos vaginais nas redações de revistas femininas e salas de aula da FAAP. Amigos tinham me dito, entretanto, que ao vivo a coisa fazia sentido musicalmente. E fez. E como fez. Acompanhado de uma banda muito boa, com músicos que conhecem de fato seus instrumentos, Criolo manda um groove fácil e bonito, mas nada simplório. Contagiou, conclamou à dança e foi, aos poucos, lotando o SónarHall; as canções se sucediam e o tempo passava célere (sempre quis usar essa frase). Não é impecável (tem umas canções que não dão liga, como um bolerão brega e um reggaezinho nheco-nheco), mas deu para aproveitar o momento de baixa para ver um pouco do DOOM no SonarVillage (uma barulheira da porra e muita gente dançando, entre eles manos verdadeiros e manos wannabe). De volta ao Criolo, ainda vejo ele fechar o show com humildade e discrição. Em estúdio ele continua não me convencendo. Porém, ao vivo ele me fez ignorar a única chance de ver uma banda que escuto desde os oito anos de idade. Bom quebrar os próprios preconceitos, não?

Marcelo Costa – A ideia era ver um pouquinho do Cut Chemist, mas o atraso vitimou o show na minha agenda pessoal: 22h55 (o show estava marcado para às 22h30) parti feliz para o SonarClub, onde o Kraftwerk deveria mostrar sua história (agora em versão 3D) a partir das 23h. Deveria. James Blake ainda brincava de DJ quando cheguei ao local, o que possibilitou encher novamente meu copo de cerveja. O show começou exatamente meia hora atrasado (desculpa ae, Cut, deveria ter ficado), mas assim que “The Robots” deu o start na apresentação, a emoção tomou conta da razão. O 3D tosco, embora funcional, rendeu bons momentos (principalmente para quem estava colado no palco), e uma aula de história foi jogada no colo do público (ainda mais sintomático quando um show desses acontece em um festival de música avançada). Eu só conseguia pensar: “Imagina esse mesmo show numa sala do MOMA!”. Não que tenha sido perfeito. A dobradinha “Tour de France 1983 / 2003” soou longa demais, e talvez esse seja um dos raros shows de música que não deveriam passar de uma hora de duração (no Sónar São Paulo foi uma hora e meia), porque acaba tornando-se repetitivo, mas ainda assim (após 17 músicas) deixei o local com um sorriso de orelha a orelha. Baita show. História com H maíusculo (para os olhos e ouvidos). Ok, assumo: dei uma fugidinha rápida no meio do show para olhar a apresentação do Criolo. Consegui ficar 1 minuto e 53 segundos e confirmar que a postura séria e maleta do personagem contaminou o tesão que eu sentia pelas canções. Uma pena, mas de boas canções o inferno (felizmente) está cheio. Music Non Stop.

00-02h

Andrea Fabiana – Aquela amarração que comentei antes durou pouco. Me deu um momento de ansiedade perto do fim do Kraftwerk e quis dar uma volta. A minha companhia topou e sugeriu irmos para o Sonar Village, onde estavam outros conhecidos. Antes disso, passei no bar e dei graças a Deus pelas filas rapidinhas. De fato, a única fila “grande” que peguei foi a do banheiro, que já foi bom porque não era químico. Dou valor demais a banheiro de verdade, talvez. O clima no Village estava bastante agradável, com muita gente, mas tranquilo para circular. Cheguei bem no começo do set do DJ Zegon com o Sonidos Unidos Sound System, que estava com meia hora de atraso (como quase todos os shows no festival), mas isso acabou sendo positivo pra quem queria ver um pouco dos palcos Club e Village naquele horário. O cansaço já estava marcando presença, mas foi interrompido quando ouvi os remixes de “Harder, Better, Faster, Stronger”, do Daft Punk, e “Salmon Dance”, do Chemical Brothers, que teve as partes do Fatlip cantada pelo rapper americano, convidado do Zegon. Animei-me para disfarçar a dor nos meus pés, que gritavam “Cadeira, já!” há uma hora. Passei 10 minutos na sala de imprensa pra beber mais um café, fazer uma massagenzinha de 20 segundos nos meus pés e voltei.

Andressa Monteiro – Fiquei esperando pelo Emicida. Nesse intervalo, entre uma conversa e outra, mais um problema com a organização. Perguntei para outro colega: “Ei, onde você pegou o panfleto com a programação de hoje? Estou atrás disso desde que eu cheguei!”. Ele me respondeu imediatamente: “Achei jogado no chão! Pura sorte!”. Não me choquei também com o preço dos alimentos e das bebidas, confirmando a média cobrada em shows e festivais de grande porte. No entanto, não pude deixar de notar a má distribuição de locais de comida com relação aos bares que estavam por toda a parte. Você só encontrava o que comer em uma área específica, perto do palco principal – e longe dos demais palcos.

Bruno Capelas – No bis, os Los Hermanos mostraram aquela que é a sua melhor canção. Sim, estou falando de “Anna Júlia”, pop até a medula, gravada por George Harrison, cantada por todos os presentes (até os seguranças), fazendo valer o preço do ingresso (caro, como sempre). Na sequência, encerram o show com outras duas pauladas do álbum de estreia, o disco mais subestimado do grupo, da época que os irmãos Campelo e Almirante (um abraço, Adolar Gangorra) ainda eram filhos da ligação esquizofrênica entre hardcore e frevo: “Quem Sabe” e “Pierrot”. Findo o show, “valeu, tchau”, e “Maybe I’m Amazed” nos alto falantes (cortesia de Maurício Valladares). Em uma noite normal, eu iria para casa e dormiria tranquilo e sossegado, compensando as poucas horas de sono da noite anterior. Mas como a vida cada vez mais se parece com um desenho animado, acabei indo parar em uma festa na USP “contra a moral e os bons costumes” (vai vendo), numa continuação psicodélico-bizarra-universitária-liberal do show dos Los Hermanos. No caminho, um amigo que estava no Sónar liga: “Então, vou sair daqui, cês me pegam no Metrô Butantã?”. Tá, né. Vale dizer: ele saiu do Anhembi sem ver o show do Kraftwerk – o único da sexta-feira do Sonar que me interessava absurdos. Pensa num cara que estava fazendo as coisas errado…

Leonardo Vinhas – Pego alguma coisa do DJ Zegon & Unidos Sound System – e acabo ficando menos tempo do que leva para dizer o nome deles. Um passeio pelo ambiente me coloca em contato com um Anhembi cheio de povo-balada: peruas de salto alto e megaproduzidas, bombadinhos depilados de camisa justa e gordos carecas atrás de garotinhas. Como até para quebrar preconceitos tem limite, resolvo ir embora. Afinal, o dia seguinte promete ser mais longo. Antes, dá tempo para rever um grande amigo das antigas, o fotógrafo e jornalista Paulo Bórgia. Conversamos sobre o finado Alternative Voices (se alguém se lembra, escreve aí nos comentários) e sobre o fato de estarmos com sono. Boa noite.

Marcelo Costa – Kraftwerk finito, e uma lista divertida de tweets me fazia rir sozinho no caminho entre um palco e outro: “Bjork cancela e Sonar chama Kraftwerk, que não libera imagens e MTV passa Criolo. Saudades da Bjork…”, mandou @AndreBarcinski. “2 ou 3 coisas q ñ mudam nunca: o som do Kraftwerk e perfurme de puta”, comparou @XicoSa. “Sem Kraftwerk na MTV, fui de Bastardos Inglórios na TNT. Alemão por alemão…”, disse @elson. Havia passado da 1h30 da manhã, e eu queria muito ver Emicida. Garanti as três primeiras músicas, e fiquei com a certeza de que o show seria bom, mas não sensacional. Parti em direção a uma pizza de calabresa com coca-cola. Estou esperando a hora que algum festival brasileiro irá investir nos pequenos restaurantes, nas barraquinhas, como os gringos. O primeiro que fizer isso dará um salto enorme de qualidade em relação aos outros. Quem aguenta pizza chiclete, macarrão em copo e hot-pocket? Brasil, por favor, me surpreenda.

02-04h

Andrea Fabiana – Ia voltar direto para o Village e assistir Emicida, mas apenas por curiosidade quis passar antes no Sonar Hall. Eram 2h15, então em teoria o Tahira estava discotecando. Levei uma bela surpresa quando vi que o Little Dragon ainda estava no palco! Cheguei a lamentar o fato de ter perdido o show, mas consegui pegar três músicas. O que mais me chamou a atenção foi o espaço em si. Eu achava que o Village estava em um clima relaxado, mas o Hall levou a medalha de ouro. Estava escuro, fresco e muitas cadeiras estavam ocupadas por quem curtia o show tranquilamente, mas tinha um espaço na frente do palco cheio de fãs que queriam dançar ou ficar perto pra interagir com a vocalista da banda sueca. No Village assisti um pouco do show do Emicida, sem muitas novidades pra quem já viu seu show nas casas menores de São Paulo, mas animado da mesma forma. O “túnel” que levava para o palco principal estava cheio e então eu e a minha amiga lembramos que o show do Chromeo iria começar. Já estava na segunda música quando chegamos, e logo começamos a dançar. Ri muito com as danças psicodélicas de um grupo de amigos do nosso lado e de um cara que segurou um bambolê no alto o show inteiro. Perto do fim, ficamos com vontade de assistir o DJ Marky vs. DJ Patife e chegando lá estavam rolando uns “putz putz” menos interessantes do que a minha cama, que me aguardava quentinha. A vontade de abraçar o mundo e assistir tudo era grande, mas o cansaço ganhou. Táxi, cadê?

Andressa Monteiro – Emicida começou o show um pouco depois das 2h, com um público grande, que ocupava boa parte da pista. Era ele, um guitarrista e um DJ. Simples, curto e direto. Músicas como “Sou Negão” animaram, e o show foi encerrado com “Triunfo”. O videoclipe da música foi passando nos três telões do palco simultaneamente. Nisso, a garoa fina já caia. Voltei para casa pensando se, entre três palcos e dezenas de artistas tocando, conseguia entender o termo “musica avançada mundial” proposto pela organização. Quando penso em festivais, sempre me vem o sentimento de união e paixões em comum: pelos artistas, pelo dinheiro gasto e tão suado que, nós jovens, quase não temos, pela difícil decisão de deixar de ver uma banda para ver outra, já que os horários entre os shows são tão próximos nestas ocasiões. Mas, principalmente, pela interação tanto do público quanto do artista, independente do gênero musical. Confesso que senti falta da gritaria, da emoção ao cantar as letras, da exaltação, dos pulos e da entrega. Porém, a novidade – que muitas vezes pode ser apenas falta de costume – é a de contemplar, de ouvir com calma e atenção cada melodia, harmonia e elemento de uma canção, de abrir a cabeça para o que não estamos habituados a escutar. Também fica o elogio para a qualidade e variedade de atrações. Faltou o fator surpresa, mas, no geral, acredito que o Sónar conseguiu se sair bem nesse primeiro dia.

Bruno Capelas – Na sexta-feira, mais cedo, um dos assuntos do almoço tinha sido a volta da Legião Urbana com Wagner Moura nos vocais. Ali, no último andar da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, tive um vislumbre do futuro: a situação por lá era tão bizarra como imaginar Capitão Nascimento ou o Homem do Futuro cantando “festa estranha, com gente esquisita”. Eu olhava para um lado e via faixas ecoando o momento político conturbado da Universidade (“Fora PM, Fora Rotas”), olhava para o outro e via dois grandes amigos héteros (até onde eu sabia) se beijando. À minha frente, algo que só em São Paulo pra acontecer: uma banda cover de Itamar Assumpção berrava “Prezadíssimos Ouvintes”, “Luzia” e outros petardos do Nego Dito, cantando a palavra de ordem: “e se chamar a polícia, a boca espuma de ódio”. Andando um pouco mais além, muitas(mas muitas) pessoas peladas, dançando de maneiras pouco ortodoxas, lembrando um pouco a coreografia bisonha de Thom Yorke no clipe de “Lotus Flower” – aliás, ecoava quase toda hora na minha cabeça o grito desesperado de “what the hell am I doing here?”. 97,5% sóbrio, Hunter Thompson às avessas, a minha noite só iria terminar lá pelas seis da manhã, na casa de uma amiga, após muita chuva, muita confusão e muitos caminhos errados, ao melhor estilo “Harold e Kumar Go to the White Castle”. Às vezes acho que estou velho demais pros meus 20 anos…

Leonardo Vinhas – Zzzzzzzzz

Marcelo Costa – Nunca entendi a babação de ovo com o Chromeo. Os vi em uma festa de lançamento de um carro ano passado (ou retrasado) e foi um dos shows mais chinfrins ever. Ou seja, não queria repetir a dose, mas alimentado (não existe pizza ruim, certo) e decidido a caminhar em direção a um taxi, consegui ouvir o começo da terceira música do show (as outras duas ouvi ao longe, na praça de alimentação, no fundo do palco principal) e só esses rápidos segundos valeram muito mais do que aquele show fechado. Até fiquei com vontade de ficar para ver qualé, mas o corpo pedia cama. No dia seguinte conferi os tweets deles: “Nosso primeiro show verdadeiro no Brasil”. Respeitei ainda mais e prometo vê-los com calma numa próxima oportunidade. O bom de sair antes do último show principal é que assim que passei a catraca, um taxi já me esperava de porta aberta. E sabia como chegar na Paulista…

Festival Sónar – Segundo Dia

16-19h

Andrea Fabiana – Cheguei ao simpático salão da Rua Carlos Steinen, no Paraíso, para assistir os primeiros momentos de Patrícia Colombo, amiga e colega jornalista, como ruiva. Ela iria estrear o novo “visu” no Sonar. “Se ficar ruim, vou assim mesmo e paciência!”, dizia determinada. Para sua sorte, ficou ótimo. Com mais uma amiga, achamos melhor recarregar energias para conseguir ficar em pé pelas próximas horas. Elas optaram por um lanche e eu um pão de mel acompanhado de um copo grande de café, que me dá mais efeito que energético. Às 19h, chegamos à porta do Parque Anhembi, que parecia estar menos movimentada que o dia anterior. Parecia.

Andressa Monteiro – Na cama recuperando o sono perdido devido à noite anterior. Como no segundo dia haviam mais atrações do meu interesse, resolvi descansar para estar mais bem disposta. Sem músicas para aquecer: apenas o som da minha respiração dormindo, dos pratos e talheres batendo na hora do almoço, do chuveiro ligado durante o banho e finalmente dos ruídos e barulhos de carros, motos, táxis e do Metrô até o meu destino final.

Bruno Capelas – Em casa, depois de escrever o relato da sexta-feira, eu pensava mesmo é que o grande show que São Paulo havia recebido nessa última semana fora o dos velhinhos Crosby, Stills & Nash. Quando comprei os ingressos para vê-los no Via Funchal, em fevereiro, eu esperava que fosse ser um show nostálgico, com algumas boas canções e muitas concessões à idade (e as desventuras) de cada um desses três homens que estiveram na poeira e na lama de Woodstock. Mas foi bem mais que isso: em quase três horas de show (com direito a um intervalo de vinte minutos), o trio mostrou que ainda é capaz de fazer muita, mas muita coisa boa em cima de um palco. O “hippie sobrevivente” David Crosby e o “gentleman descalço” Graham Nash continuam cantando perfeitamente – se tiver um tempo, procure um vídeo recente da voz de trovão do sobrevivente Crosby em “Almost Cut My Hair”. Já o “roqueiro” Stephen Stills, se já não tem a doçura da voz de outrora, continua fazendo solos de guitarra inimagináveis. Me peguei chorando umas três vezes durante o show, para não falar dos arrepios mil, como no coro de “Our House”, ou na releitura do grupo para “Girl From the North Country”, de Bob Dylan. Da abertura, com “Carry On”, ao bis final, com “Suite: Judy Blue Eyes”, um show irretocável, de entrar para a galeria dos melhores da vida.

Leonardo Vinhas – Logo de manhã acordo ainda não refeito da noite anterior e dedico um agradável sábado nublado a um relaxamento preparatório para uma jornada que prometia ser bem mais intensa: fazer feita, browsear pornografia, almoçar na cantina preferida e aproveitar uma taça de Chardonnay… Isso, mais umas leituras, me reparam para o que – espero – não será uma reedição da noite anterior. A prova anterior do fracasso da sexta não estava na desorganização gritante nem no pouco público. Estava no fato de que acordei após um festival sem vontade nenhuma de ouvir discos dos artistas cujos shows presenciei. Se um show não te deixa no gás para ouvir a música de novo, algo está muito errado.

Observação: você sabe que o dia pode ser cheio de surpresas quando vai à feira e encontra o José Dirceu (aquele) ao volante de um carro no semáforo do Viaduto Pedroso, e no mesmo local, um malabarista pessimamente pintado de prateado faz truques chôchos com bolas enquanto sexualmente excitado (era inescapavelmente visível). Só em SP. Pego a fila do caixa rápido do Extra da Brigadeiro quase vazia – mais um bom sinal. Aproveito que estou por lá e vou pelos arredores comprar frutas secas, alugar DVDs (“Up In the Air” e “The Waking Life”) e buscar a patroa. Depois, mais uma morgada no sofá…

Marcelo Costa – Meu plano pessoal era chegar cedo para ver Silva e Gang do Eletro, mas falhei miseravelmente. Sacumé: uma das melhores (senão a melhor depois de alguns shows) coisas que os festivais nos proporcionam é reencontrar aquele grande amigo, principalmente em tempos virtuais, em que quase todo mundo conversa todos os dias, mas são raros os momentos possíveis para um aperto de mão sincero. Assim, marquei um almoço com Thiago e Breno, do Programa Alto Falante, da Rede Minas, junto ao chapa Tiago Agostini (que estava cumprindo o plantão nosso de cada fim de semana) no Boi na Brasa, singela casa de carnes no centro de São Paulo. Na mesa, após entradas de calabresa, pão e cebola, duas cumbucas de arroz, uma de farofa, três de fritas e duas peças de alcatra e uma de maminha para quatro guerreiros. Vou te contar: sobrou. Cheguei em casa por volta das 16h decidido a fabricar uma porção infinita de zs.

19-22h

Andrea Fabiana – Circulamos um pouco pelo local, sem conseguir decidir o que assistiríamos naquele exato momento. O complicado era que já circulava pela boca do povo que haveria atrasos novamente, mas sem saber se eram em todos os palcos. Isso iria bagunçar todo o plano que eu havia traçado para o dia, então achei melhor priorizar os artistas que eu fazia questão de assistir e dar uma volta em cada palco pra sentir o fluxo dos shows e prever os horários. Ainda era cedo, então comprei minhas fichinhas (R$35, igual ao dia anterior) e espiei, um por um, os três palcos. Não sei se era se era a vida me trollando, mas coincidiu que toda hora que chegava em um, a apresentação terminava e o palco era preparado para o próximo show ou set. Demorou mais que o normal, então minhas companhias e eu decidimos imitar o pessoal do Village e sentamos um pouco para descansar. Do meu lado, um cara ouvia tranquilamente seu iPod como se estivesse no parque. Por mera curiosidade, perguntei o que ele estava ouvindo e acabei ganhando a história do Raoni, estudante de Medicina: “Mogwai. Vim de Belém sozinho só pra ver eles. É minha banda predileta, mas nenhum dos meus amigos curte tanto assim. Juro que não me importei vir sozinho”. Achei corajoso. Respeitei.

Andressa Monteiro – Comecei assistindo ao show do artista visual e eletrônico Alva Noto com o compositor japonês Ryuichi Sakamoto. A dupla produz uma fusão do eletrônico com o acústico. As notas musicais são transformadas em imagens por meio de equações matemáticas exibidas no telão simultaneamente com a apresentação. Tudo é levado em consideração, principalmente o espaço de tempo e o silêncio entre uma nota e outra. O piano dá o tom de delicadeza e simplicidade à performance. Confesso que, no inicio, não vi um propósito final ou direção no que estava sendo feito de forma tão simples e extraordinária. Puro engano. Novamente: é justamente nessas ocasiões que precisamos nos abrir e observar o diferente dentro de um contexto geral. Como em uma espécie de “química poética”, em que os resultados podem ser diversos e variados – desde uma combustão espontânea, até o equilíbrio e harmonia entre elementos –, me sentei, fechei os olhos e comecei a prestar verdadeira atenção, sem pressa ou vontade de ir embora. Dessa forma, acabei dividindo o show em partes, como em capítulos de livros ou em atos teatrais. Lembrei-me da época em que abria o Windows Media Player e viajava nos gráficos coloridos que se mostravam na tela do computador, ou então pensei em indicar o disco de Alva e Sakamoto a uma mulher grávida, com a intenção de acalentar o seu bebê, bem protegido, nutrido e confortável dentro do útero. Em seguida, abri os olhos e me envolvi com as cores quentes e os pontos brancos exibidos no telão, que pareciam estrelas que se esticavam. Depois, me senti em um jogo de videogame, no meio de uma guerra espacial, onde aviõezinhos eram alvos de constantes tiros, com distorções altas, como trilha sonora. O efeito era hipnótico, levando a sua imaginação a qualquer lugar. Ouvi relatos de gente com dor de cabeça ou euforia depois do show, ou que ficaram extremamente relaxadas e em transe. O público era grande e todos gostaram bastante do que presenciaram. Fiquei com vontade de assistir ao M.Takara vs. Akin, mas como atrasou, fui correndo para o Cee Lo Green.

Bruno Capelas – Hora de encher a barriga. Fui jantar com meus pais no China in Box local. É uma tradição familiar dos sábados à noite em que pedir pizza parece um programa muito trivial – morar no subúrbio tem dessas. Depois de rolinhos primavera e lombo agridoce, fui deixado na estação de trem de São Caetano, rumo ao SESC Belenzinho. O motivo? Céu. Não canso de repetir: o SESC Belenzinho aumenta a minha vontade de viver em uns 273% toda vez que vou lá. É lindo demais, fica “perto” de casa, é fácil de chegar e tem sempre uma agenda bem boa – pra não falar do glorioso sorvete de iogurte com cobertura de frutas vermelhas (ui). O único problema do SESC Belenzinho é que eu ainda não entendi o conceito de ver um show em uma “comedoria”. É o tipo de espaço que você não sabe se fica em pé, na frente do palco (e compromete um pouco a visão das pessoas que ficaram lá trás), ou sentado em uma mesa, tomando um vinho (ou uma Coca) e comendo os salgados e frios e amendoins que o SESC vende a preços módicos.

Leonardo Vinhas – …pão de queijo com geleia caseira, sanduíche, castanha de caju. Pronto: alimentado para encarar o Sónar. Desencontros no metrô, e quando vemos, chegamos – eu e Andressa – no Anhembi passadas as 20h. Incrível como duas horas podem ser resumidas tão facilmente. Decido não perder tempo e correr para o SonarHall ver o Ryuichi Sakamto e Alva Noto. Sakamoto só habitava minha cabeça em duas referências: como “o oficial gay de Furyo” (puta filme, assistam) e “aquele japa que aparecia na Bizz junto com o Arto Lindsay e outros cabeções”. A intuição dizia que isso justificava minha presença no show. Instalo-me no auditório e me vêm à cabeça lembranças de uma ressonância magnética. O déja-vu é inevitável: o blip constante, os ruídos graves, a assepsia do ambiente, tudo remete à RM. Mas isso não é ruim. Eu, pelo menos, quando passei pelo procedimento, saí da máquina considervelmente alterado – no sentido doidão da coisa. Depois do primeiro instante de reconhecimento, me dou conta que a música me convida a ficar ali. Sabe aquela história de música que te desafia? É exatamente isso. Foi a primeira vez que vi white noise (“ruído branco”, ou aquele som de TV fora do ar – pergunte ao seu pai se você nunca sintonizou uma TV analógica na vida) sendo usado de forma realmente musical. Outros ruídos industriais ou eletrônicos eram sequenciados por Sakamoto (e acompanhados por belas imagens minimalistas) e Noto encontrava o tom deles no piano, criando pequenos temas e fazendo lindas variações deles, cheias de espaços e silêncios. Anos atrás, eu teria chamado isso de “embromação”. Ainda bem que a história não volta para trás, porque o que eu vi ali foi beleza em um convite à contemplação. Música que te tira do comodismo e te obriga a prestar anteção – e odiar ou amar (teve gente pros dois lados). A ideia ainda era ficar por lá e ver o DJ set de M. Takara (do Hurtmold), mas o atraso (uma das tônicas do dia) de vinte minutos mofou meus planos. Saio quando Takara começa, e vou pro SonarClub descobrir que lá também está tudo atrasado.

Marcelo Costa – Quais as chances de, em dois dias em São Paulo, pegar taxistas que não sabem onde fica o Anhembi? Vou te contar: 100%. “Sou novo na praça”, ele se desculpa, mas ao menos tem GPS. Já descolado da noite anterior, em que o outro taxista teve que dar uma volta no Sambódromo porque a Prefeitura da Cidade de São Paulo ainda não desmontou os alambrados usados na prova de Fórmula Indy de 14 dias atrás, o que impossibilita a entrada ao Hotel Holiday Inn (acesso da imprensa ao festival), peço para o piloto acessar uma ruazinha escondida, e cá estamos nós de novo. Chego na sala de imprensa, cumprimento amigos, e um deles me avisa que o show de Ryuichi Sakamto e Alva Noto atrasou e ainda está rolando. Corro para o auditório, e consigo pegar os últimos três números e meio. Demoro meia música para absorver o que está acontecendo. Num primeiro momento tudo parece descompassado, desorganizado, sem métrica, mas os ouvidos começam a buscar um elo de ligação, e quando encontra possibilita a alma quase dez minutos belíssimos música construída ao acaso. Uma pena não ter pego o show desde o começo. Esse, se eu cruzar novamente, não perco.

22-00h

Andrea Fabiana – Perto das 22h, achei melhor me aproximar do Sonar Club, onde seria o show do Cee Lo Green. Confesso que já estava nervosa por achar que poderia perder o Mogwai. Essa mania de geminiana que quer tudo e quer agora não dá muito certo em festivais com shows simultâneos, mas optei pelo Cee Lo, de qualquer forma. O corredor que levava ao Club e sua área externa estava bombando. Quem não tinha encontrado algum conhecido, aquele era o lugar e o momento certo – enquanto muitos curtiam os breakbeats de Nedu Lopes do lado de fora, aguardando. Às 22h25 entrou Cee Lo Green, abrindo o show com “The Lady Killer Theme” e “Bright Lights, Bigger City”, animando a galera e arriscando umas palavrinhas em português. A verdade é que apesar de gostar das menos conhecidas, eu também estava apenas esperando por “Fuck You”, pra então correr pro Mogwai. Uma, duas, três músicas e nada. Desisti. Falei pros meus amigos que estava indo pro Hall, caso alguém quisesse ir comigo. “Que show chato, me tira daqui”, disse um deles. Chegando lá, pensei: “QUE ARREPENDIMENTO não ter assistido desde o começo”. Apesar do som um pouco estourado, aquela combinação de luzes acompanhando as guitarras em seus momentos mais fortes foi apenas um dos elementos arrepiantes da apresentação, que lotou aa pista central, cadeiras e corredores do auditório. Lindo ver todas as cabeças fixas e os olhares hipnotizados com cada música, cada nota e cada movimento corporal dos integrantes, que também pareciam desfrutar o show do mesmo jeito que o público. Escolhi mal a divisão do meu tempo.

Andressa Monteiro – Cee Lo Green começou arrancando gritos de um público que poderia ter sido maior, mas que não foi frio ou distante, dançando todas as músicas com empolgação. Rolou até uma homenagem a David Bowie, com “Let’s Dance”. Porém, a minha parte favorita foi quando Cee Lo convidou três rappers de seu antigo grupo de hip-hop Goodie Mob para cantar, deixando as pessoas surpresas, mas nem por isso totalmente desanimadas. Tive que sair no meio porque não queria perder o Mogwai. Fiquei sabendo depois que sucessos como “Crazy”, do Gnarls Barkley, e “Fuck You” garantiram os melhores momentos da apresentação. O Mogwai, por sua vez, fez um show de arrepiar todos os pelinhos do braço. Emocionante e surpreendente do começo ao fim. Tive a sensação de estar no espaço sideral, contemplando o céu, as estrelas e o sistema planetário. Foi um mix de guitarras e distorções altas, agudas e avassaladoras, com momentos de paz, tranquilidade e delicadeza. No meio do show, estava calma e me deliciando com as melodias cuidadosamente executadas, quando levei um susto agressivo vindo das guitarras, que mais pareciam vozes de monstros gritando de dor e agonia, me acordando do transe. Passado do horário previsto, os integrantes quebraram as regras e tocaram mais uma, no “bis”, com direito à reclamação por parte da organização do evento. Fiquei querendo ouvir tudo aquilo de novo, mas com fones de ouvido para captar com mais nitidez a riqueza de detalhes. De ouvinte esporádica, acabei me tornando grande admiradora do som da banda.

Bruno Capelas – Se Caetano Veloso estivesse no SESC Belenzinho, ele diria que Céu é linda. E é mesmo. Mostrando as canções de “Caravana Sereia Bloom”, seu recém-lançado disco, a cantora paulistana atingiu um ponto ótimo entre doçura e sensualidade, com toques de vigor que fazem qualquer homem (e algumas mulheres) suspirarem. O repertório do show foi quase todo calcado em “Caravana”, com destaque para as robertianas “Falta de Ar” e “Retrovisor”, a bonita balada “Streets Bloom”, de Lucas Santtana, e a graça de “You Won’t Regret It” e “Asfalto e Sal”, mas também sobrou espaço para novos arranjos de “Cangote” e “Malemolência” – que até minha irmã sabe cantar, por culpa da rádio Eldorado. Quase ao final da apresentação, enquanto cantava “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”, do mestre Erasmo Carlos, Céu me fazia imaginar quão absurdo de bom seria um disco seu cantando apenas rock – “Caravana” é bonito, tem boas guitarras, mas, convenhamos, não é um disco de rock nem aqui nem na França. Em todo caso, se você ainda não se deu o trabalho de ouvi-lo, ouça, por favor, nem que seja para lançar pra alguém na sua timeline do Twitter a “ai se eu te pego” do circuito SESC-Baixo Augusta-Vila Madalena, “Chegar em Mim”, que foi ovacionada pelo público presente no Belenzinho.

Leonardo Vinhas – Com a equipe quase integralmente reagrupada (faltou o Mac, vagabundo), começa a parte “alegria, alegria” do festival (até que enfim). Ou melhor, começa a sensação de que estamos, efetivamente, em um festival. Público bombando, cerveja quente e todo mundo aguardando uma atração específica. Faltou só a lama e os banheiros imundos. Mas Cee-Lo compensa nos dando um show de arena. Nas primeiras músicas, numa pegada meio hard-rock farofa dos anos 1980, pude finalmente ver como seria o Van Halen caso eles fossem uma banda legal. Ou, a julgar pelos méritos do gorducho, o Van Halen do soul pop. Cee-lo canta pra cacete e é um puta entertainer. A pegada oitentista satisfaz meu espírito que tinha sido alimentado com “We Built This City” no repeat no dia anterior, e o baterista animalesco apaga de vez da minha cabeça a lembrança do sujeitinho medíocre que estava no palco com Noel Gallagher na semana anterior. Uma farra linda, com ótimos músicos e uma entrega absoluta, mas havia um problema: o Mogwai já tinha subido no palco. Fui para o Sónar Hall com o mesmo pensamento que tenho sobre o casamento: estava deixando de lado uma excelente oportunidade de me divertir pra caramba (o show do Cee-Lo) para escolher a exclusividade de algo que parece ser belo. E foi. O Mogwai faz uma música bonita, mesmo quando dissonante. E a beleza – que tinha mostrado uma de suas formas naquele mesmo palco com Sakamoto & Noto – aparece numa intensidade brusca que – meu irmão, até minha temperatura corporal mudou! Estava sentado apreciando a vibração e a música quando comecei a suar e veio uma pancada emocional comunicada exclusivamente pela música. Resultado: chorei, literalmente. Sério. Esqueça as bandas horríveis que dizem ser influenciadas pelo Mogwai e vá a um show deles o quanto antes. A vida precisa dessas coisas. O telefonema de um amigo me tira de lá na última música, uma explosão barulhenta com o som de uma estrela morrendo. Ou seja, saí no exato momento em que poderia ficar ensurdecedor.

Marcelo Costa – Ano passado, no Coachella, vi o melhor show que Cee Lo-Green fará em toda a sua vida: ele atrasou 40 MINUTOS para entrar no palco, tocou em sequencia “Crazy”, “Fuck You”, uma versão bisonha de “Iron Main”, do Black Sabbath, e, na quarta música, a produção do festival cortou o som (do tipo: “Foda-se todos os Grammy’s que você tem”). No Sónar Sâo Paulo, não quis contaminar minha memória afetiva daquele grande show curto, e parti logo cedo para as primeiras filas do show do Mogwai, na companhia de vários amigos (Luciano Vianna, Elson Barbosa, Victor Pires, Fernando “Flogase” Lopes e o pessoal do Labirinto e do Herod Layne). E o show foi… encantador ( ), devastador ( ), melódico ( ), barulhento ( ), todos as alternativas anteriores e algumas mais ( X ). No palco do auditório, o Mogwai promoveu um massacre… mas com muito carinho. Como escreveu certa vez Salman Rushdie: “Nossas vidas não são o que merecemos. De muitas dolorosas maneiras elas são, temos de admitir, deficientes. A música as transforma em outra coisa. A música nos mostra um mundo que merece os nossos anseios, ela nos mostra como deveriam ser os nossos eus, se fôssemos dignos do mundo”. É isso. Acordamos todos os dias, trabalhamos, sorrimos, vivemos e sobrevivemos, mas temos raros espamos de felicidade real. Ou, sendo mais direto, são raros os momentos que realmente valem a pena serem vividos. Cinco caras escoceses promoveram um destes momentos no Sónar, viraram a chavinha que faz a alma pensar que, sim, vale a pena estar vivo. Um show com doses certeiras de delicadeza e violência. Para guardar na memória por vidas.

00-02h

Andrea Fabiana – Pra não sofrer a mesma frustração do Mogwai, fiquei mais ligada nos horários (e nas prioridades). Queria assistir Justice e James Blake, mas os shows tinham uma mera diferença de 10 minutos de começo. Pensei bem e dei prioridade ao Justice, já que curto há mais tempo. Depois de alguns minutos de espera, a cruz branca do palco foi acessa e o público começou a gritar pela dupla francesa, que abriu com “Genesis”. Era provavelmente o show mais aguardado da noite e o mais cheio. A princípio me posicionei no meio da pista, mas como mais uma vez a minha altura não ajudou, optei pela extrema lateral, que estava também um pouco mais livre para quem queria dançar. Hit após hit, meus pés começaram a ficar cansados e a dupla já havia tocado as melhores músicas. Ao som de “We Are Your Friends”, saí do Club dançando e tentei ver James Blake, sem muitas esperanças. Que bela surpresa levei quando cheguei ao Hall e ele começou a tocar “The Wilhelm Scream”, a minha predileta dele. E era a última! Considerei sorte e um consolo da vida pelo episódio do Mogwai. E ao vivo “The Wilhelm Scream” é mais linda ainda.

Andressa Monteiro – Mal tinha acabado o show do Mogwai, corri para ver o Justice. Os caras fizeram um show cheio de efeitos visuais, com uma cruz iluminada – marca registrada do grupo – e uma tela com projeções, que acompanhavam as batidas das músicas. Se no dia anterior as pessoas estavam esperando pelo show morno do Kraftwerk, puderam se animar com a dupla francesa. Canções marcantes e em um volume bem alto foram destinadas a um público que dançou sem parar. Clássicos como “Waters of Nazareth”, “D.A.N.C.E” e “We Are Friends” foram tocados, deixando todos animadíssimos. O show foi encerrado com o órgão de “Phantom” fechando a noite com chave de ouro e fazendo do Justice um dos principais destaques do festival.

Bruno Capelas – No mesmo horário que acontecia o outro show do Sónar que eu queria-muito-ver-mas-não-pagaria-mais-de-cem-dilmas para estar lá, o do cantor inglês James Blake, eu chegava em casa depois de três linhas de metrô (vermelha-azul-verde) e um ônibus, para finalmente descansar. Ou, utilizando a piada infame que eu pensei antes de fechar “A Visita Cruel do Tempo”, fazer o Sónar virar sonhar. Boa noite.

Leonardo Vinhas – A questão agora era: fazer o que? Depois do Mogwai, seria necessário pausar, respirar, processar a experiência. Mas com o festival nesse pique, quem queria ir embora, ainda mais com amigos ligando? Deu tempo de juntar vários conhecidos para aproveitar o simpático DJ set dos niteroienses The Twelves. Pavilhão lotado, grande expectativa pelo Justice (de quem eu nunca tinha ouvido uma mísera nota, que dizer uma música). Eis que…

“NA CASA DO SENHOR NÃO EXISTE SATANÁS! XÔ SATANÁS!”

Ah, não é isso, não! Era só a Madonna. Ah, não era? E essa cruz aí no palco? Usar o símbolo cristão é uma sacadinha de marketing muito boa que os franceses tiveram – e isso os credencia como banda para publicitários, infelizmente. Mas picaretagens visuais à parte, a grandiloquência dos caras é hábil e funciona muito bem. Emitindo sons que parecem trilha para festas populares no bairro industrial do filme “Eraserhead” (outro puta filme, mas não veja esse, deprime pacas), o Justice traz aquele clima de “o mundo acaba amanhã, então vamos dançar”. Dá certo por um bom tempo, mas sem aditivos químicos, é difícil aguentar muito tempo. Fica a observação de que os caras são, sim, músicos: cada faixa do Justice tem começo, meio e fim, e nenhuma dessas etapas transcorre de forma óbvia, mesmo sendo uma música que reprocessa clichês em algo diferente. Enfim, é um Chemical Brothers menos lisérgico, e que cai bem em doses homeopáticas. Mas aí o corpo pediu trégua e eu fui me jogar num sofá na sala de imprensa, escutando as histórias patéticas da sempre chineleira relação entre assessores de imprensa e celebridades frequentadoras da área VIP. Quem me salvou desse papo foi o Mac, que foi capotar no sofá também. Rememoramos Mogwai e o fato de crescer em Taubaté, enquanto discutimos que, sim, a segunda noite foi muito melhor que a primeira; sim, poderíamos ter curtido mais as atrações se tivéssemos ingerido combustível químico (o festival todo, aliás, parece feito para funcionar sob o efeito de “dorgas”). E sim, o corpo pode impedir de fazer certas coisas quando se envelhece, mas a cabeça amadurecida permite fazer outras. Como curtir o Sónar sem radicalismos.

Marcelo Costa – Assim que o show do Mogwai terminou, um amigo gritou: “Vamos beber”. Pedi calma. Precisava processar o show. Não dava para sair caminhando pelo festival como se eu houvesse assistido a um showzinho qualquer. Eu precisava sentir um pouco mais a adrenalina. Manter a dose da viagem por mais algum tempo. Estender a felicidade. Mas estamos em um festival, e a noite é uma criança (chorando). Após flutuar até o palco principal, encontre-me novamente frente a frente com o Justice, e rememoro a primeira impressão que tive quando os vi pela primeira vez: eles são ótimos, as músicas são boas, mas tudo isso já foi feito antes, e de forma ainda melhor. Mas como não se pode ter Daft Punk e Chemical Brothers toda hora, aceitamos o clone e dançamos até o amanhecer. Dançamos? Fugi para a sala de imprensa para esticar as pernas e ouvir algumas boas histórias de amigos, trocar impressões sobre alguns shows (Mogwai campeão, Kraftwerk vice e Justice na terceira colocação), sobre o festival (o público alvo é o de balada, tanto que a “casa” lotou mesmo, pra valer, à 1 da madrugada – e daí vem a questão: público de balada saca música avançada ou só quer dançar, ver e ser visto?), e dar um tempo enquanto o Modeselektor não entrava em campo.

02-04h

Andrea Fabiana – Eu havia conhecido recentemente Modeselektor em alguns sites de música eletrônica e bastaram três canções pra pirar e querer dançar no show ao vivo. A dupla estava prevista para entrar no palco às 2h10 e eu sabia que iria demorar de 20 a 40 minutos para de fato eles entrarem. Como queria ver de perto, cheguei as 2h no Sonar Club pra aguardar. O DJ Munchi, da Holanda, já estava começando seu set. Eu e mais duas amigas gostamos do que ele estava tocando e decidimos esperar o Modeselektor lá no meio da galera, dançando e curtindo o som. Munchi é uma figura. Cada batida pesada de eletro era misturada com ritmos e acompanhada de movimentos com as mãos que animavam a audiência. Sobre seu enorme cabelo crespo, escondendo partes do rosto, ele exibia seu sorrisinho de moleque travesso. O set estava perfeito, mas cortaram o som. Quando voltou, ele conseguiu encerrar direitinho (mas não sem menos climão). Mais tarde, num bate papo, Munchi contou que nem ele entendeu o que aconteceu e ninguém deu explicações, mas afirmou ter gostado muito da resposta do público, prometendo misturas com funk carioca na próxima vez. Logo em seguida, foi a vez da produção montar os telões do Modeselektor, que já entraram animados falando com o público com a ajuda de um microfone que deixava a voz mais grave. Entre uma música e outra, Sebastian Szary interagia ainda mais com os presentes, batendo palmas e incentivando pulos e mãos pra cima. O melhor momento foi quando desceu do palco com um vulto nos braços, chamou a galera para se aproximar e estourou uma garrafa de champagne, dando um banho nos fãs, que amaram a surpresa. Podia se ver que a dupla alemã sabe dar um show de entretenimento. De começo a fim manteve todos empolgados. Ainda tinha Totally Enormous Extinct Dinosaurs, mas sinto muito. Perto das 4h, meus pés (que sempre são os que mais sofrem em festivais) gritavam por um descanso. Finalizei a noite tietando o Munchi e gastando minhas últimas fichinhas. Que erro e que ressaca. Ainda assim saí desejando que todos os festivais de São Paulo fossem “perrengue-free”, igual a este.

Andressa Monteiro – As apresentações do Mogwai, Alva Noto & Ryuichi Sakamoto, Justice e Cee Loo Green traduziram bem um sentimento de simplicidade, instrospecção, união de elementos, temas, sons e imagens com um só propósito: o de entreter. O público, por sua vez, correspondeu melhor no sábado com entusiasmo, variando comportamentos que iam de danças solitárias até rodas de amigos se abraçando e cantando junto as músicas, de transes de olhos fechados até momentos de curiosidade, admiração e surpresa. Voltei para a casa com a sensação de dever cumprido. O segundo dia teve mais cara de festival bom: gente animada, relaxada, interessante e interessada, disposta e feliz.

Bruno Capelas – Zzzzzzzzzzzzzzz

Leonardo Vinhas – Já deu, né? Ou quase: pego um taxista que me conta que funcionários de de um certo Centro de Exposições e Convenções cobram propina de R$ 300 por mês para taxistas que queiram trabalhar lá. “Aproveita que você é jornalista e publica essa história”, ele me “sugere”. E logo depois, me pergunta se eu quero recibo com valor maior que o da corrida realizada. É Brasil!!!

PS 1: o taxista garantiu que a acusação é séria. Fica a dica pra quem quiser apurar. Eu não vou. Tô com sono.

PS 2: o Scream&Yell não reembolsa as despesas de seus colaboradores. Mas paga em afeto.

Marcelo Costa – Eu queria ver Modeselektor. E também Squarepusher. Queria. Pouco depois das 3 da manhã, o cansaço vem de forma arrebatadora me convidando para o sono. As pernas estão cansadas, a voz falha um pouco, a camisa parece ter sido esfregada em um cinzeiro, e quatro fichas de R$ 5 ainda repousam no bolso. Será que encaro a sexta cerveja da noite, ou caminho até o palco principal atrás da pizza chiclete? Opto pela segunda opção, mas quando caio em mim, estou cansado demais para a (longa) caminhada. Decido vender as fichas para um cara que está na fila: “R$ 15”, peço. Ele me paga, e observa que são quatro fichinhas de R$ 5: “Mas tem R$ 20 aqui”, ele diz. “Um presente”, respondo e saio em direção à saída de taxi, onde encontro o casal Breno e Jéssica. Decidimos dividir o taxi até a Paulista, e vamos papeando impressões. Tento imaginar que, para uma primeira edição, o Sónar cometeu alguns erros básicos, mas promoveu alguns shows interessantíssimos. Talvez a posição dos palcos tenha que ser repensada, o veto à cerveja e câmeras em alguns shows também (tudo bem que alguns desses vetos partem dos artistas, mas se estamos em um festival de música avançada, o público precisa ter direito de usar a tecnologia que está à mão), e, como um todo, o Sónar talvez precise radicalizar para exibir em São Paulo sua personalidade, que vai (ou pretende ir) muito além de uma “grande balada”, como pareceu em alguns momentos (embora não podemos culpar o festival pelo público que alavancou assim como não podemos culpar o Los Hermanos pelos fãs que conquistou – ou podemos?), muito embora algumas frestas de inteligência musical e artística marcaram presença aqui e ali. É pouco, mas é um sinal de que o festival pode e deve crescer muito nos próximos anos. Ou, no fundo, é um sinal de que sou um velho chato tentando racionalizar um festival que cravou dois shows no topo do meu Top 5 pessoal do ano (até agora – Morrissey acaba de perder o quinto lugar). 2013 está ai, e com ele a esperança de um Sónar com novos shows antológicos, mais radicalização e menos atrasos. Valeu a experiência.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yel
– Bruno Capelas (@noacapelas) é estudante de jornalismo e assina o blog Pergunte ao Pop
– Andressa Monteiro (@monteiroac) é jornalista e assina o blog Goldfish Memory
– Andrea Fabiana (@deafabiana) é jornalista e integra o Núcleo de Inteligência Musical Sonora
– Liliane Callegari (@licallegari) é arquiteta e fotógrafa. Veja mais fotos do festival aqui

Todas as fotos por Liliane Callegari com exceção da foto do Kraftwerk (por Marcelo Costa / Scream & Yell) e de Ryuichi Sakamto e Alva Noto (por Robson Bento / Getty Images Latam)

Leia também:
– Entrevista: Enric Palau, um dos criadores do Sónar, conversa com o Scream & Yell (aqui)
– Planeta Terra 2011: por Marcelo Costa, Bruno Capelas, Rodrigo Levino e Murilo Basso (aqui)

23 thoughts on “Balanço Sónar São Paulo 2012

  1. Nope, Ariel. Cada um viu o que queria (e conseguia) ver – sem obrigatoriedade. Falando por mim, nenhuma das três que você citou superaria Mogwai, Kraftwerk e Ryuichi Sakamto & Alva Noto no meu ranking pessoal (dos três que você citou já vi Austra e Squarepusher – este último duas vezes). Acho que, mesmo que uma pessoa quisesse, ela não conseguiria ver todos os shows.

    Porém, como sempre, qualquer texto (e aqui podemos incluir comentários) diz mais sobre cada pessoa do que sobre determinando evento. Se você estivesse escrevendo, teria falado dessas três e deixado outras de fora. Escolhas e impressões. A vida é feita delas.

    Ps. Uma coisa que me interessa saber de você, que já foi algumas vezes na edição de Barcelona, é sobre a comparação de produção mesmo. Gostou daqui? Acha que está no nível da de lá?

  2. Eu realmente pensei que o Mogwai seria uma especie, infelizmente, de fracasso neste festival, por não estar no seu habitat natural.

    Me enganei redondamente, só tenho lido ótimas impressões do show, o que é ótimo, pela banda que é maravilhosa e pela mente aberta do público.

  3. Só fui na sexta, para ver o Kratwerk pela quarta vez, e foi novamente sensacional. Queria ter ido na sábado, mas a grana tava curta. Ainda assim ri muito em algumas partes do texto.

  4. Vou seguir o esquema de vocês:

    TOP 5
    1-Chromeo
    2-Mogwai
    3-Justice
    4-Little Dragon
    5-Krafwerk

    Já estou esperando a edição do ano que vem!

  5. Eu vi o KTL. Comentei no Facebook: “KTL foi um esporro. Começou “normal”, só com drones eletrônicos acompanhando a guitarra ainda limpa do Stephen O’Malley, sobrecarregando camadas de loops de uma única nota. Depois de um interlúdio (estamos falando de músicas de 20 minutos) no laptop, O’Malley pega a guitarra, assume a sua persona Sunn O))) e excreta riffs retirados das entranhas do inferno. Foi lindo.”

  6. nao me leve a mal! só fiquei surpreso 🙂 alias, tambem assisti mogwai, kraftwerk e alva noto inteirinhos

    quanto a organizacao, achei bem parecido, exceto os atrasos.

    achei mal sinalizado, mas o folheto com o mapa era distribuido na entrada. achei o mapa mal feito, na verdade. e faltou plaquinhas com setas para os palcos espalhadas pelo lugar. achei os palcos bons, com som bom (dependendo do tecnico de som) exceto o hall por conta da acustica do lugar.

    quanto as filas pra entrar, no sonar noite em barcelona é a mesmissima coisa, e é muito simples contornar: chegue cedo. quem chegou até 9h na sexta deve ter entrado rapidinho. nao é tao tarde assim né? no sabado teve menos filas pq as atracoes foram mais esparsas. fila pra bebida/caixa/comida/banheiro nao vi, só pegou quem quis.

    quanto aos furtos, parece que prenderem varias pessoas.

    quanto aos atrasos, maior ponto negativo. mas nunca passou de 30 min de atraso e no sonar barcelona noite tbm ja vi isso. o kraftwerk parece q atrasaram por causa da fila pra entrar. o ruim q isso atrasa todo o resto.

    meu top 10:

    1 little dragon
    2 mogwai
    3 james blake
    4 alva noto + ryuichi sakamoto
    5 kraftwerk
    6 ktl
    7 austra
    8 modeselektor
    9 squarepusher
    10 marky + patife

    sorry justice, vcs pararam nos anos 2000 (é assim q fala?)

  7. Ariel, tu tá em casa 🙂

    Também achei o som bom na grande maioria dos shows (embora os do Sonar Hall estivessem um pouco mais baixos – nada que atrapalhasse), e isso já é um grande mérito em shows e alguns festivais nacionais atuais.

    Mapas e placas de sinalização foram falhas mesmo. Mesmo no segundo dia me dava uns brancos de qual lugar era tal palco (e, por estar com crachá de imprensa, acabei atuando com informante de locais e atrações várias vezes nos dois dias – risos).

    Concordo com você: as pessoas deixam para chegar todas na mesma hora, que geralmente é quase perto de algum show que ela (e todo mundo) quer ver. Mas o festival poderia evitar isso permitindo que o voucher impresso funcionasse como ingresso (como alguns festivais europeus fazem). Acho até que chegaram a fazer isso após a fila ficar muito grande.

    Valeu pela comparação. A gente sempre fica esperando/cobrandoum festival perfeito sem saber que, mesmo lá fora, esses festivais têm seus problemas.

    Abraço

    Ps: Três votos para Sigur Rós em 2013

  8. Infelizmente não funcionou, terei mais críticas sobre o Sónar do que boas lembranças após a maratona de dois dias, isso pq sacrifiquei todos os shows até 01h do sábado para ver o Buddy Guy (e não me arrependo).

    o Kraftwerk é grande demais pra se sujeitar ao que foi o show deles sexta, infelizmente, brasileiro acha que, caso não existam guitarras, trata-se de uma rave. Ver gente dançando no show do quarteto alemão (ou trio, dependendo de onde vc estava, a coluna no meio da pista engolia um dos integrantes) como se estivesse na XXX esperando o Skazi entrar acabou com a atmosfera do show, vi 4 shows deles e esse foi, disparado, o mais frustrante, não por parte deles, mas pelo conjunto da obra msm

    concordo com o que foi dito no comentário acima, Sigur Rós seria legal no festival, mas infelizmente seria ainda pior que a experiência no Free Jazz, uma algazarra sem tamanho não deixaria ng entrar no clima

    enfim, depois de ler por aí que o Kraftwerk é um pilar do funk carioca e do trip hop, que o grupo não pede para o público levantar as mãos e que a Bjork cancelou o show por causa de uma inflamação na garganta, dá gosto ver um texto profissional.

    Meus shows:

    1. Chromeo
    2. Kraftwerk
    3. Modeselektor

  9. Cheguei em cima da hora na sexta, às 23h, e entrei com o voucher. Foi bem tranquilo, mas as filas – pra quem queria comprar ingresso e pra quem não tinha voucher – eram eternas. Assim que entrei ganhei programação com mapa. Usei o mesmo folheto para os dois dias, mas me ofereceram um novo no sábado também. Conheço gente que chegou às 21h de sexta e ficou quase duas horas na fila para trocar o voucher por ingresso e foi por isso que eles acabaram liberando a entrada e atrasando o Kraftwerk…

    Ah! O show do Doom (conhecido pelos perdidos que dá nas organizações) foi SENSA tbm.

    Ps: Quatro votos pro Sigur Rós em 2014.

  10. Aí, sério, qual a idade média desse povo que escreveu o artigo? 50 anos? 60?

    Eu, com meus 32 anos, aguentei tranquilamente os dois dias de shows dançando enloquecidamente até o último compasso do Gui Boratto na sexta e do Modeselektor no sábado (e depois ainda fique por lá até acabar o squarepusher) . Isso vindo do Rio e tendo dormido coisa de 5 cada noite.

    Essa galera tá cansada demais, viu… hahahahahaha

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