Bob Dylan ao vivo em Brasília

por Pedro Palazzo

Robert Allen Zimmerman, 70, entrou no Ginásio Nilson Nelson, na terça-feira (17 de abril), em Brasília, com o jogo ganho. O show anterior, no Rio, dava a prévia do que viria: voz mais presente e disposição muito maior do que na passagem anterior pelo Brasil, em 2008. Se algo desse errado, na pior das hipóteses, era a chance de ver um mito de perto, criando novas versões de velhos hinos. Já era lucro. Mas foi muito mais que isso.

Bob Dylan cantou e dançou para um público maravilhado e satisfeito. O volume de seus microfones estava nitidamente mais alto que os do resto da banda, mas a discrepância foi sendo gradualmente reduzida. Na metade final do show, já havia equilíbrio entre os instrumentos e a voz. Nada, porém, foi capaz de reduzir o dano da péssima acústica do local.

Dylan estava animado e, discretamente, interagia com o público: meio sorriso e/ou meio passo de dança bastavam para arrancar gritos da plateia. No set list, o artista mesclou clássicos da década de 1960 com hits de bálbuns mais recentes. A execução da maioria das 17 canções seguiu o rito que o compositor vem perpetuando: novos arranjos e letras mais declamadas do que cantadas. A banda de apoio toca quase que o tempo todo com os olhos fixos nos acordes do teclado ou da guitarra do maestro.

O início, já clássico, com “Leopard Skin Pill Box Hat”, ganha os ouvintes. Dylan mantém o ritmo com “Don’t Think Twice, It´s All Right”, em que basta assumir a guitarra para causar uma comoção. Duas músicas. Dois clássicos. Dez minutos e o público – dos novos aos velhos – estava garantido. Era a vez de mesclar no repertório canções de discos.

Dai em diante, o repertório seguiu a mesma tônica de suas últimas apresentações, com alguns números praticamente fixos no set list (“Things Have Changed”, “Tangled Up In Blue”, “Beyond Here Lies Nothin’”, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, “Highway 61 Revisited”) e algumas boas surpresas, como por exemplo “Blind Willie McTell”, um outtake do álbum “Infidels”, de 1983, que ganhou lançamento oficial no volume triplo “The Bootleg Series 1-3”, de 1991.

Álbuns dos anos 90 e 00 também tiveram vez no repertório. Destaque para “Love And Theft” (2001), representado por “Summer Days” e “Honest Whit Me”, e “Modern Times” (2006), do qual marcaram presence “Spirit On The Water” e “Thunder On The Mountain”. Decano na arte de entreter – somente a Never-Ending Tour está prestes a completar 24 anos –, Dylan misturava baladas a peças com doses cavalares de ironia. Um deleite.

O público, variado, cantou pouco. Mesmo quem sabia todas as letras e reconhecia rapidamente as músicas, preferia, sabiamente, ouvir a cantar. A exceção ficou por conta de “Like a Rolling Stone” e “All Along The Watchtower”, já no trecho final da noite, que haviam fechado o show do Rio, dois dias antes (e que fechariam também a primeira apresentação paulista, dia 21/04). Para o bis, o bardo presenteou o público com uma inesperada “Rainy Day Woman #12 & 35”. Deixou todo mundo chapado.

Set List
Leopard-Skin Pill-Box Hat
Don’t Think Twice, It’s All Right
Things Have Changed
Tangled Up In Blue
Beyond Here Lies Nothin’
Simple Twist Of Fate
Summer Days
Spirit On The Water
Honest With Me
A Hard Rain’s A-Gonna Fall
Highway 61 Revisited
Blind Willie McTell
Thunder On The Mountain
Ballad Of A Thin Man
Like A Rolling Stone
All Along The Watchtower

Bis
Rainy Day Women #12 & 35

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– Pedro Palazzo (siga @o_sonoplasta) é jornalista e escreve no jornal O Popular. Primeira foto por Pedro Palazzo. Segunda foto por Marcelo Costa, do show de Dylan em São Paulo.

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