Sob o CEL: Fé em Bruce Springsteen

Fé em Bruce Springsteen
por Carlos Eduardo Lima

Eu não sou um cara religioso. Mesmo sobrevivendo 11 anos nas fileiras do Colégio Santo Agostinho, passando por aulas de Religião e realizando a Primeira Comunhão, não sou do tipo que frequenta igrejas ou demais templos supostamente sagrados. Isso não quer dizer que não surjam momentos em que é preciso dar uma reanimada na fé. E nela – na fé – eu acredito piamente, ainda que eu lhe atribua um sentido mais terreno e menos transcendental. De qualquer forma, esse não é um texto evangelizante, pelo menos, não intencionalmente.

Quem não gosta de Bruce Springsteen e se considera um fã de música pop, não pode ser boa pessoa. Metaleiros, ravers, tropicalistas, mangueboys, todos têm que ter respeito pelo Boss. Minha esposa, por exemplo, tinha a impressão que muitos têm, a de que Bruce é um americanóide, um yankee qualquer, uma vez que a imagem mais evidente do Boss é o esgoelamento em “Born In The USA”, lançado no longínquo ano de 1984. Tudo bem, é só explicar que a música e o disco são porradas bem dadas no governo de Ronald Reagan e sua política de beligerância com a então URSS, o surgimento dos yuppies, da Guerra nas Estrelas, do there’s no alternative, do ataque financeiro do capitalismo mais selvagem, que resultaria no fim de um monte de coisas legais. Bruce era uma voz atribuída ao americano mais humilde, das cidades pequenas, das fábricas, dos carros sendo lavados no portão de casa. Nada de politicagem, portanto.

O que chama a atenção na obra do Boss é sua absoluta honestidade e um talento para se desnudar em letra diante do público. É algo como um nu literário, um cara que não tem pudores e, pelo contrário, faz dessa forma de escrita o seu maior trunfo na hora de transmitir sua mensagem a um público que não precisa ser americano do norte, falar inglês ou conhecer os subúrbios de sua New Jersey natal. A mensagem de Bruce é universal, fala sobre ter sonhos, seguir seus princípios e não esquecer nunca de onde você veio, mesmo que a vida te leve para muito longe. E isso, meus amigos é quase tudo, né?

DVD’s do Boss têm propriedades terapêuticas em mim. Já escrevi um texto aqui no S&Y sobre o efeito que causaram em mim determinados momentos de dois shows do Boss lançados nesse formato, que deve estar com um link bem aqui. E,bem, aconteceu de novo. Dessa vez foi “The Promise: The Making Of Darkness On The Edge Of Town”. Esse documentário, com cenas gravadas entre 1976 e 1979, traz Bruce compondo seu quarto disco, “Darkness On The Edge Of Town”, lançado em 1978, que teve a dura tarefa de suceder o sucesso arrebatador de “Born To Run”, lançado três anos antes, responsável pela concessão do epíteto de “futuro do rock” concedido a Springsteen pela crítica especializada. Em meio a uma extensa filmagem da época, capturando Bruce e sua E-Street Band no estúdio, tentando achar sonoridades, timbres e letras certas, o momento mais emocionante fica com uma aparição do Boss na Sirius XM E-Street Radio (especializada na carreira dele), para conversar com 20 sortudos fãs, que estarão no estúdio para perguntar sobre “Darkness”.

Eu explico: no ano passado foi lançada uma caixa sensacional, com remasterizações, DVD’s de shows, sobras de estúdio e uma réplica do caderno de composições de Bruce, celebrando “The Promise”, nome dado a um “novo álbum” de sobras das gravações de “Darkness On The Edge Of Town”. Bruce explica que compôs cerca de 70 canções na época e que não teve como lançar todo o material. “Promise” traz mais 20 canções dessas sessões, incluindo a versão do Boss para “Because The Night”, single que ele deu para Patti Smith na época e que você deve conhecer pela simpática cover dos 10000 Maniacs. Em um determinado momento, vem uma pergunta sobre como ele (Bruce) lidava com o aprendizado dos filhos e suas músicas. Ele pensou um pouco e respondeu dizendo que viveu numa casa em que sua sabedoria havia sido formada pela exposição ao rádio de sua mãe tocando a parada de sucessos dos anos 60. Que ele não poderia pensar em nenhuma fonte maior de informação sem qualquer censura prévia que não viesse daquelas músicas, daquelas vozes, daquelas melodias e o que elas poderiam significar para um garoto americano nos 60’s, sempre lembrando que Bruce nasceu em 1949 sendo os anos 60 a década de sua adolescência.

Digo que isso é emocionante. E reafirma um monte de coisas sobre música e sua apreciação pelas pessoas. Claro que Bruce teve outras fontes de inspiração e informação, além de ter uma habilidade natural para a música, algo que nem todos têm. Eu, por exemplo, adoraria ser capaz de construir 1/10 do que ele fez com suas visões de Asbury Park, NJ, com minhas lembranças de Petrópolis e da Copacabana dos anos 80. Mas, modestamente, me dou o direito de compartilhar a mesma visão que o Boss possui sobre esse assunto. A música é capaz de te dar conhecimento, noção da vida, noção do mundo, se for devidamente levada a sério, ainda que inconscientemente. Era uma época em que as pessoas que compunham pop songs não faziam motivadas pelo dinheiro. Era mais interessante e primordial ter fama, o que, não necessariamente, significaria ter muita grana. Era mais interessante pegar aquela menina lourinha que não dava mole no recreio, tirar uma onda com os caras mais fortes e, como consequência disso, ter como bônus, uma capacidade de ser mais culto e ilustrado que a maioria que vai levar a vida sem fazer diferença ou deixar sua marca.

Bruce Springsteen deixou sua marca. Só pra mencionar outro DVD do cara, “Live In Hyde Park”, de 2009, é um dos maiores shows que eu já vi documentados em vídeo e traz Bruce e sua banda diante de uma monstruosa platéia londrina, num show ao ar livre, no qual ele tem momentos de intensa comunhão com o público. Por que não posso querer que isso seja uma regra e não uma exceção em termos de música pop? Se precisarem ver apenas um DVD para reafirmar sua fé em algo, veja esse. Da capacidade que esse cara tem em recuperar a fé das pessoas, eu posso falar.

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CEL é Carlos Eduardo Lima, historiador, jornalista e fã de música. Conhece Marcelo Costa por carta desde o fim dos anos 90, quando o Scream & Yell era um fanzine escrito por ele e amigos, lá em sua natal Taubaté. Já escreveu no S&Y por um bom tempo, em idas e vindas. Hoje tem certeza de que o mundo como o conhecíamos acabou lá por volta de 1994/95 mas não está conformado com isso.

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29 thoughts on “Sob o CEL: Fé em Bruce Springsteen

  1. Carlos Eduardo, compreendo perfeitamente o que tentas transmitir através dessa exposição a respeito da obra de Springsteen. Sou suspeito para falar, pois, apesar de ter me iniciado na música com o rock pesado, tenho Bruce como meu artista favorito em todos os tempos. Entendo mais perfeitamente ainda quando citas as “propriedades terapêuticas” creditadas a seus vídeos. Assisitir “London Calling: Live in Hyde Park” foi, mesmo estando dentro de casa, uma das experiências mais fantásticas que já tive. Uma celebração à música, à arte, à vida, à VERDADE.

    Parabenizo-lhe pelo texto. Sei quão difícil pode ser escrever algo a respeito de um artista desse calibre e que nos comove em semelhante nível. Já escrevi uma discografia comentada de Bruce para o blog no qual colaboro, e não hesito em dizer que foi o artigo mais difícil de escrever que já publiquei, dado o grau de cobrança impresso por mim mesmo.

  2. Quem não gosta de Bruce e é fã de música pop…
    Putz, não concordo nenhum pouco com essa máxima.
    Há uns 2/3 anos ganhei um disquinho dele – o nome tinha alguma coisa com Dream – no site da Rolling Stone Brazuca.
    A pergunta era mais ou menos assim: O que vc está fazendo pelo seu grande sonho?
    Respondi só pra tirar onda: Dormindo
    Os caras me deram. :>)
    Ouvi uma vez e dei para o zelador do prédio.

    “Quem não gosta de reggae bom sujeito não é” Jorge Du Peixe
    ” Quem não gosta de Raul… ” Minha

    Acho que essas duas correspondem mais aos fatos, Cel.

  3. Obrigado, Pedro e Danilo. É isso mesmo: escrever sobre o Boss nos traz uma cobrança grande, de, pelo menos conseguir ser tão verdadeiro como ele é em seu trabalho.

  4. Zé, meu caro, há um monte de discos interessantes do Bruce. Sugiro que você dê uma ouvida em Born To Run, Darkness On The Edge Of Town, The River e Nebraska.

  5. Belo texto Carlos.
    Springsteen é um artista que me emociona muito. Uma pena não ser tão conhecido e compreendido no Brasil. Será que um dia veremos o Boss por aqui? Enquanto a dia não chega vocès do S&Y poderiam preparar uma daquelas superdiscografias comentadas, né? A grandeza do obra do cara justifica. Abraço.

  6. Mais um texto brilhante do CEL sobre o Bruce. Provavelmente ajudará a arrebatar mais alguns fieis, assim como o texto “Bruce Springsteen é um habitante do planeta assim como você e eu”, fez comigo em 2006…

    Continue espalhando o evangelho! 🙂

    E, antes que eu esqueça, obrigado

  7. Escrevo com um pequeno atraso relacionado à publicação do texto. Mesmo assim, não poderia deixar de elogiar o trabalho de Carlos Eduardo. Comprei o blu-ray “London Calling – Live in Hyde Park” na semana passada. Não tenho palavras para descrever o que senti assistindo ao show.
    Nunca pensei que iria me emocionar com músicas que estava escutando pela primeira vez, e também não imaginei que iria assistir a um show de 3 horas e não pular nenhuma canção. Perfeito. Em época de eleições, tenho atuado como cabo eleitoral deste show, divulgando para todos que posso. Nunca vi nada igual.

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