Quatro dias na vida, Quatro shows

texto, vídeos e fotos por Marcelo Costa

PJ Harvey, Paradiso, Amsterdã – 31/05/2011

O Paradiso, em Amsterdã, é uma velha igreja do século 19 que foi transformada em salão de shows em 1968 (após uma frustrada invasão de hippies no ano anterior). De 1968 para cá já passaram pela casa quase todas as grandes lendas do rock. Dos Stones (que fizeram dois shows semi-acusticos no local em 1995) aos Sex Pistols, do Joy Division ao Arcade Fire, do Nirvana ao Wilco, a lista é imensa. Há um salão principal, dois anéis superiores (no total, pouco mais de 1500 pessoas por show) e mais duas salas para apresentações intimistas.

A turnê “Let England Shake”, de Pj Harvey, tem estado sold out em quase todas as cidades pela qual passa, e em Amsterdam não foi diferente. Os ingressos se esgotaram tão rapidamente que uma segunda data foi marcada, e também esgotou. Na noite do primeiro show nada de cambistas na porta (apesar de na internet ser possível comprar o ingresso por 90 euros – na bilheteria era 40), mas sim muita gente vendendo pelo preço que pagou. O problema é entender o holandês. Quando alguém oferece um ingresso na língua pátria, no mesmo instante vende. Só alguns segundos depois os “turistas” percebem a negociação.

No segundo dia, porém, a sorte bate no ombro. “Vocês querem ingressos? Eu comprei para os dois dias, e ontem foi sensacional, mas não vou poder ir hoje. Vou ter que ficar cuidando dela”. Ela, no caso, era um bebe em um carrinho, e os ingressos saem pelos mesmos 40 euros da bilheteria. Negócio feito, hora de ir à igreja. Cerca de 30 pessoas já estão postadas frente ao palco uma hora e meia antes do show, mas optamos por um local mais singular: um banco no terceiro piso, quase dentro do palco. O local enche rapidamente criando um clima intimista e então Polly Jean adentra o palco… vestida de preto.

Ao contrário dos shows anteriores da turnê (ao menos em São Francisco, no Coachella e no Primavera Sound), em que a cantora se apresenta de vestido longo branco, nesta segunda noite em Amsterdã, PJ aparece no Paraíso trajando luto, mas o show é muito mais alegre do que os anteriores. Boa parte do mérito é do público, que aplaude efusivamente todas as canções do difícil e belo disco novo da cantora, que é tocado absolutamente na integra (incluindo um b-side). Para surpresa de alguns, “The Sky Lit Up” surge na primeira parte do show, mas a dobradinha “Down by the Water” e “C’mon Billy” é o ápice.

A apresentação segue o mesmo roteiro que o show em São Francisco: ela não dirige nenhuma palavra ao público até o adeus, 18 músicas depois. Retorna para o bis clássico (“Big Exit”, “Angelene” e “Silence”) e se despede, mas os holandeses querem mais, e aplaudem por mais de cinco minutos até que a cantora quebra o protocolo da turnê e retorna para um segundo bis (“The Piano” e “Meet Ze Monsta”), e só não toca mais porque a noite já consumiu todas as canções que a banda tem ensaiado. “Tocamos tudo”, desculpa se Polly, que deixa o paraíso debaixo de uma grande salva de palmas. Amém.

Eric Clapton e Steve Winwood, Royal Albert Hall, Londres – 01/06/2011

O Royal Albert Hall, em Londres, é uma sala de espetáculos em frente ao Hyde Park inaugurada em 1871 pela rainha Victoria, que a batizou em homenagem ao falecido esposo Albert. O local é imenso e o salão oval pode receber até 8 mil pessoas. É uma casa charmosa, que nesta noite recebe o encerramento da tour que uniu Eric Clapton e Steve Winwood, ex-parceiros no Blind Faith. A reunião já ganhou lançamento em CD e DVD de um registro no Madison Square Garden, e baixou em Londres com covers de Jimi Hendrix e Muddy Waters além de hinos próprios do quilate de “Layla” e “Cocaine”.

O charme do Albert Hall, no entanto, não consegue evitar o distanciamento para aqueles que estão sentados nos segundo e terceiro anéis ou em pé na galeria superior. O som é perfeito, mas a visão várias vezes é prejudicada, o que impede uma interação completa com o espetáculo. Não tira o brilho da noite, mas não a torna mágica. A base do repertório do show são canções do Blind Faith, grupo que Clapton e Winwood tiveram em 1968 ao saírem, respectivamente, do Cream (o baixista Ginger Baker também se uniu ao projeto) e do Traffic (Ric Grech completava a formação).

Eric Clapton adentra o palco com uma Fender azul bebe que será trocada apenas uma vez durante a noite inteira (por uma preta em “Cocaine” – descontando o set acústico ao violão, claro) e abre o show com “Had To Cry Today”, que também abre o único disco do Blind Faith, homônimo, de 1969. Ele tem apenas dois pedais a sua frente, sendo que um deles é um wah-wah (que será usado em apenas duas músicas), e a economia nos efeitos engrandece o tour de force de riffs e solos mágicos que o guitarrista arranca de sua guitarra. Ela fala alto, e fatia a atmosfera do Albert Hall em pedacinhos.

Steve Winwood se alterna entre o piano, o violão e a guitarra, e apesar de não lembrar várias letras (um tele-prompter enorme a beira do microfone o auxilia), ainda canta muito. Mesmo Clapton, quando rasga a voz, emociona, mas o ponto alto da noite acontece sempre que o homem mostra porque um dia foi chamado de o Deus da Guitarra. Eric Clapton impressiona. Ele parece estar entregue ao instrumento, que ressoa na belíssima acústica de forma espetacular. A guitarra parece uma extensão do músico, e exprime os sentimentos do bluesman como ninguém.

O repertório não traz nenhuma surpresa. “After Midnight” se junta a “Presence of The Lord”. “Glad” (Traffic) e “Well All Right” surgem na sequencia, e o primeiro graaaande momento da noite acontece com “Hoochie Coochie Man”. Robert Johnson é lembrado com “Crossroads”, mas o público vai ao delírio realmente com a versão linda de “Georgia On My Mind”. O set acústico é aberto com “Driftin” e ainda conta com “Layla” (a mais aplaudida e cantada durante as duas horas de show) e “Can’t Find My Way Home”. Quem ainda não tinha se rendido a dupla o faz em “Voodoo Chile”, de Jimi Hendrix. E “Dear Mr. Fantasy”, já no bis, encerra a noite de maneira consagradora.

Art Brut, The Lexington, Londres – 02/06/2011

Um dos novíssimos locais de shows surgidos nos últimos dois anos em Londres, o pub Lexington arrisca na proposta de unir música, cerveja e boa comida. Na parte inferior o local abriga um pub com ótimas cervejas de torneira (incluindo a norte-americana Brooklyn) e um cardápio que já foi elogiado pelo Guardian (“o Hoppin’ John é particularmente saboroso – feijão-fradinho com pedaços de bacon e arroz”, cravou o jornal). A parte superior traz uma pista de dança (“A música oferecida varia drasticamente”, informa a Time Out) que, ocasionalmente, é ocupada por uma banda de rock.

A última semana do mês de maio (começo de junho) estava reservada, de segunda a sexta, ao Art Brut, sendo que as três últimas noites (quarta, quinta e sexta) ficaram sold out (o local não deve receber mais do que 200 pessoas). O quinteto mezzo alemão mezzo britânico está lançando seu quarto disco, “Brilliant! Tragic!”, que assim como o anterior foi produzido por Frank Black (Pixies). “Brilliant! Tragic!” é excelente, e caiu na internet no começo de maio, mas a lojinha da banda improvisada no Lexington oferece (além de camisetas e botons) o CD por 12 libras e o vinil (capa dupla, luxuosa) por apenas 15.

“Lost Weekend”, primeiro single do disco novo, dá boas vindas ao público e é um resumo do que será presenciado durante toda a noite: o desajeitado e extremamente espirituoso vocalista Eddie Argos falando pelos cotovelos enquanto o baterista (que toca em pé durante todo o show) Mikey Breyer mantém o peso pop da cadencia da canção, a baixista Freddy Feedback acaria as cordas e canta a letra e os guitarristas Catskilkin Ian e Jasper “Jeff” Future despejam belos riffs de guitarra para um público que está a fim de pular, jogar cerveja para o alto e dançar muito. O clima é o melhor possível.

A receita da festa é simples e o Art Brut não decepciona. “My Little Brother”, um dos hits do primeiro disco, é o segundo número da noite e toda mundo grita a letra ensandecida: “My little brother just discovered Rock and Roll / There’s a noise in his head, and he’s out of control”. “Alcoholics Unanimous”, canção que abre o terceiro disco, “Art Brut vs Satan” (que deve ter passado batido até pelos familiares da banda), acelera o ritmo da festa, e em menos de 10 minutos de show já tem gente flutuando sobre o público. A baixista Freddy, mesmo espremida no canto do palco e sem microfone, canta todas as letras – e essa é a quarta noite do Art Brut no Lexington.

“Axl Rose”, um dos destaques do disco novo com linha de baixo estilo Kim Deal e letra babona de Argos sobre o eterno Guns N’ Roses, leva o vocalista para o meio da galera. A banda faz um improviso, Argos faz umas piadas, e a música recomeça a toda fazendo todo mundo pular loucamente. O show mistura ótimas canções novas (“Martim Kemp”, “Sexy Sometimes” – faltou a chicletuda “Bad Comedian”) com hits (“Emily Kane”, “Former a Band” e “Modern Art”) e o pique de Eddie Argos impressiona: ele canta, pula, faz stage dive, improvisa histórias e diverte todo mundo. O show termina de forma insana (veja o vídeo) deixando clara a certeza: o mundo pop não é justo. Tai uma banda que merecia estar em capas de revistas, brilhando no Top Of The Pops e sendo sondada para shows no Brasil. Desde quando o marketing e o hype ficaram mais importantes do que a música? Deixa pra lá… e tente ver o Art Brut ao vivo. Vale muito.

The Kills, Roundhouse, Londres – 03/06/2011

O Roundhouse fica em Chalk Farm, bairro londrino depois de Camden Town, e quem conhece a capital inglesa sabe que o termo “do outro lado da cidade” pode ser usado com propriedade aqui (mas o metrô deixa o público na porta em menos de 20 minutos a partir do centro). O local foi construído em 1847 e funcionou como armazém durante décadas até cair em desuso após a Segunda Guerra Mundial. Foi recuperado no começo dos anos 60 e transformado em local de eventos artísticos recebendo o nome de Centro 42 e (entre 1964 e 1982) shows de gente como Doors, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Pink Floyd, Clash e Motorhead (entre outros). Passou a se chamar Roundhouse em 1996 e na primeira sexta de junho de 2011 está sold out.

Os culpados em fazer evaporar 3.300 ingressos são Alison “VV” Mosshart e Jamie “Hotel” Hince, que juntos atendem pelo nome de The Kills, e estão na cidade divulgando o quarto disco da banda, “Blood Pressures”, lançado oficialmente no mês de abril. “No Wow”, faixa título do segundo disco da dupla, abre os trabalhos. Uma enorme tela com estampa de oncinha reflete o trabalhado jogo de luzes no fundo do palco, mas todas as atenções estão voltadas para Alison e Jamie, que parecem enfeitiçar a audiência. “Future Starts Slow”, que abre o novo disco, é recebida com urros, e parece sintomático que o Kills está prestes a entrar no primeiro escalão do cenário indie.

“Heart Is a Beating Drum”, outra nova, traz Alison cantando muito e sacudindo a imensa cabeleira negra para frente e para trás. Ela se contorce, geme, parece tomar choque do microfone, da guitarra e do ar e deixa todo mundo em transe. Na segunda parte da canção pega uma Fender, e ajuda Jamie a dar mais corpo de barulho para a música. O público (metade masculino, metade feminino) vai ao delírio e se declara para a vocalista. “Kissy Kissy”, do primeiro disco, é um presente para os fãs das antigas (como se 2003 fosse um outro século), que ainda vibram com “U.R.A. Fever”, um dos singles do terceiro álbum da dupla, “Midnight Boom” (2008).

A nova fase de Alison e Jamie é exibida no blues eletrônico “DNA” e na esporrenta “Satellite“, que trazem ao palco um trio de backing vocals. “Tape Song” (outra de “Midnight Boom”) novamente leva Alison para a guitarra. A canção cresce e o refrão (“You’ve got to go straight ahead”) ecoa no Roundhouse. Duas canções novas (“”Baby Says” e “You Don’t Own the Road”) encaminham o show para o final, e o single “Sour Cherry” promove o caos no palco. Alison berra como se não houvesse amanhã e Jamie auxilia no vocal enquanto mastiga o riff sujo na guitarra até o final apoteótico. O duo agradece e deixa o palco. O público segue o ritual e entoa o pedido de bis.

Alison “V” Mosshart volta ao palco de roupa cintilante para cantar a baladinha sessentista “Last Goodbye”, que parte corações. Ela caminha suavemente como se estivesse andando de salto alto sobre um coração, e gesticula para o público como se quisesse tocar uma mão imaginária – e a audiência responde com urros. Outra música nova, o blues “Pots and Pans”, mantém o clima de boteco no ar, mas basta Jamie soltar na bateria eletrônica a batida simples de “Fried My Little Brains”, do disco de estreia, reconhecida pelo público nos primeiros segundos, para o local virar uma festa. O show termina deixando a sensação que o Kills já soou muito mais pesado e insano, mas ainda seduz a audiência como poucos.

Quatro dias na vida… quatro grandes shows. Se a vida fosse sempre assim…

Leia também:
– Primavera Sound, em Barcelona (aqui) e Coachella Festival, em Indio (aqui), por Marcelo Costa

9 thoughts on “Quatro dias na vida, Quatro shows

  1. O Roundhouse, pra mim, é só uma continuação de Camden e não achei que era do outro lado da cidade, pra quem morou em Richmond e foi ver foo fighters em Wembley… aí sim rs
    acho Camden bem perto do centro, pra quem mora em sampa tb não deve sentir essa distância…

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