Entrevista: Os Lábios

texto por Pedro Salgado, especial de Lisboa
foto por Arlindo Pinto

A genese d’Os Lábios, quinteto de Sintra, começou na banda The Profilers, em 2007. Insatisfeitos com uma direção sonora leve, slow-core e jazzy, de que ainda resultou o EP “Swing”, distanciaram-se do projeto original e, dois anos depois, procuraram a redenção num pop mais imaginativo e multi-funcional que se traduziu em Os Lábios.

Com a chegada do novo coletivo, as canções em inglês foram preteridas por letras em português e a formação incluía a vocalista San de Palma, o baixista Eurico Silvestre, os guitarristas Sérgio Franco e Telmo Dias, bem como Louco (baterista). E a ideia pioneira de um projeto paralelo ao inicial seria rapidamente ultrapassada.

O resultado da nova concepção musical traduziu-se num álbum: “Morde-me a Alma”. Percorrendo os 10 temas que o compõem, sobressai uma sonoridade colorida, vibrante
e claramente pop. Se o single “Ocupa o teu Lugar (Olho em Ti)” é todo ele groove e reflete o gosto da cantora pela new wave, “Diva Não!” parte de uma linha de baixo e uma batida que podia ser de música de baile, desaguando num interessante rock oitentista.

Despreocupação, provocação e alma. Estava encontrada a fórmula Os Lábios, que atravessa um disco em que ainda há espaço para música americana, pós-punk, indie, influências de A Naifa, Ana Moura e rock português dos anos 80, abrindo também caminho para um dueto em inglês, com Afonso Rodrigues, vocalista dos Sean Riley & The Slowriders, no tema “Bye Bye”.

Se San de Palma, composicionalmente, mistura as suas influências nas melodias que cria para as palavras, nos shows evidencia um lado pantomínico que, conjugado com uma eficaz gestão do bio-ritmo do público, faz das apresentações uma festa. Outro catalizador da celebração é uma versão de “O Corpo é que Paga”, de António Variações.

Os Lábios podem ser visitados em http://www.myspace.com/oslabios e o cartão de visita é criar pelo prazer de criar, certeza nas escolhas seguidas, numa filosofia de proatividade em que agir supera a palavra reagir. De Sintra para o Brasil, o baixista Eurico Silvestre conversou com o Scream & Yell. Confira:

Foi difícil a passagem do The Profilers a Os Lábios ?
Em termos de orientação musical e estética não foi difícil. Decidimos mudar de nome porque foram mudando imensas coisas no projeto desde o começo. Sentimos que a forma já não refletia o conteúdo e que o trabalho iniciado no The Profilers devia ser uma coisa completamente diferente do que acabamos por continuar a fazer. Em 2009 editámos um EP e nos shows promocionais desse disco só tocávamos um tema. Quando começamos a fazer esses espetáculos ainda não tinhamos tocado todos juntos. Durante essas atuações ao vivo percebemos que aquele não era o repertório mais indicado. Precisávamos de algo com mais cor, explosão e energia. Por isso, tudo acabou por ser natural. Foi mais complicado convencer a banda toda a mudar de nome. Isso porque sentíamos que já tinhamos público e alguma massa crítica e representaria começar de novo. Mas achámos que era por bem. Primeiro, era contraproducente ter um conjunto de canções cantadas em português e o nome do grupo ser em inglês. E em segundo lugar, precisávamos de uma coisa mais objetiva, fácil e comercial. O nosso som foi mudando devagar e Os Lábios começaram no início de 2009. O que originou tudo foram as canções em português que começámos a fazer nessa altura, que não tinham nada a ver com The Profilers. E no meio do ano, quando começámos a gravar o disco, pensamos em dividir aquilo em dois projetos diferentes. Paramos de compôr em inglês porque deixamos de falar essa língua. A San trabalhava num hotel como events manager e falava inglês todo o dia e quando terminou essa atividade deixou de escrever em inglês. Inspirados nuns poemas do nosso amigo Leonel de Jesus, e achando engraçada a ideia de fazer canções em português, trabalhamos neles. Quando chegamos ao estúdio, ainda como The Profilers, o Miguel Ângelo (produtor) não nos quis impôr nada, deixou-nos gravar, fizemos a pré-produção toda e algumas experiências. O resultado das primeiras sessões de gravação era uma amálgama pouco coesa de coisas. Tinha canções a la Profilers, quatro temas em português (que estão no disco), uma ou duas músicas em francês (uma não foi incluída neste trabalho, mas havemos de lançar). Não fazia sentido embalar uma coisa portuguesa de raízes portuguesas com um nome inglês e aí também houve uma preocupação comercial.

A new wave e os anos 80 percorrem boa parte do álbum. Foi uma opção criativa ou sentiram que fazia sentido recuperar essa estética?
Foi uma consequência natural da música que nós escutávamos. Concordo, já passaram 25 ou 30 anos e existe sempre a ideia do coolness. Passados 10 anos as coisas são foleiras (bregas), e duas décadas depois já são cool. Nós gostamos desse som. Ainda hoje escuto Heróis do Mar, António Variações. Mler Ife Dada, Radar Kadhafi e Corpo Diplomático. Sempre tentamos fazer canções em português, desde o início do The Profilers, e as músicas sempre soaram um pouco essa fase de pop portugues ingênuo de princípios dos anos 80. Todos gostamos da música portuguesa dessa época, porque não existia uma ideia pré-concebida sobre a criação. A música não era feita pensando se iria soar fixe (legal), não existiam preconceitos, era criar por criar. Nós somos assim, chegamos até a fazer cinco versões do mesmo tema devido a todos os membros da banda serem criativos, pró-ativos e trazerem ideias para as canções. Gostamos muito de punk, new wave e indie rock da última década e misturamos isto tudo. Não foi algo que tivéssemos pensado. Quando começamos a fazer canções em português, com mais frequência, encontramos um território em que nos sentiamos confortáveis e produtivos, deixando de lado o preconceito. O Miguel Ângelo ajudou-nos nisso, porque inicialmente jogamos fora muitas ideias interessantes em português.

Escutando o single “Ocupa o Teu Lugar (Olho em Ti)”, e vendo o clipe, senti o palpitar de uma banda coesa e um forte apelo internacional. Concordas?
Não temos nenhuma opção de internacionalização em termos de imagem (risos). Para nós não é uma obsessão chegar lá fora. À primeira vista, o que nós fizemos, foi abandonar o repertório em inglês, e o nome da banda, e cantar em português. As bandas portuguesas que mais exportam cantam em português. Isso acontece porque é muito mais fácil entrar num mercado com um produto diferente. Se fizeres indie rock em inglês e quiseres entrar em Inglaterra existem lá 700 bandas em cada bairro fazendo a mesma coisa, com mais vocabulário e recursos. Tentamos fazer as coisas bem feitas, (desde o videoclipe, à newsletter, roupas, estética, backdrop e a decoração de palco), apenas e tão só pela razão de fazer bem feito. Fico feliz por teres gostado do clipe. Hoje, o mercado é o mundo inteiro. Obviamente que a cena de espetáculos para uma banda portuguesa nova é Portugal e é suficiente se trabalhares bem. O mercado vive muito da facilidade que temos de produzir conteúdos. Podemos fazer uma coisa que pode parecer discreta ou inconsequente e de repente virar um fenômeno. Nós tentamos trabalhar com os recursos que temos, colocando a maior qualidade possível e sem negligenciar nada. Mas, claro que gostariamos de ir lá para fora.

Gosto particularmente de “Diva não!”. Quem é a “mulher pássaro” de que vocês falam na canção ?
Isto é absolutamente insuspeito (risos). É uma senhora italiana que nós não conhecemos, chama-se Patrizia Laquidara e é uma cantora conhecida na Itália. O texto foi criado por um amigo nosso que a conheceu nos meandros do cibermundo, dedicou-lhe esse poema e nós fizemos a adaptação. Aquilo é uma imagem sarcástica. As pessoas muitas vezes têm dificuldade em brincar consigo próprias e sentimos que era giro (legal) a San cantar aquilo. Quem estiver mal intencionado vai dizer que ela estava fazendo de diva. Toda a estrutura da canção e os contrastes foram um desafio para nós. É o tema mais despreconceituoso que nós temos. Fizemos a canção num clima bem humorado, descomprometido e em tom de ironia. A canção funciona muito bem ao vivo e reflete o nosso espírito de brincadeira.

Para onde pretendem ir Os Lábios?
Para o palco. Sempre! O nosso objetivo é tocar ao vivo. Trabalhamos muito para ter concertos com pessoas a assistir. Antes disso, shows com boas condições. Andamos na área, mais a sério, há cerca de quatro ou cinco anos. Já fizemos o caminho das pedras, descemos dois ou três degraus quando mudamos tudo. Agora pretendemos tocar o mais possível, porque isso permite-nos fazer mais e melhor. Queremos tocar para nos divertirmos e isso abre caminho a outras possibilidades. Não quero ser mal interpretado, mas a música não é só música e, por isso, preocupamo-nos muito com as coisas que podemos fazer à volta dela.

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Pedro Salgado (@woorman) é jornalista, reside em Lisboa e irá contar as novidades da música lusitana aos leitores do Scream & Yell.

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Leia também:
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