Cinema: X-Men: Primeira Classe

por André Azenha

“X-Men: Primeira Classe” é um filme que entretém, emociona, faz refletir, envolve o espectador como poucos do gênero e até do cinema – em âmbito geral – produzido atualmente. Se os fãs de quadrinhos – sempre exigentes – estavam receosos, podem dormir sossegados. Apesar das mudanças feitas em relação à origem dos personagens nos gibis, a essência da mitologia está lá: a busca por aceitação, o retrato de como o ser humano lida com algo diferente: geralmente com preconceito, medo.

Os mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby em 1963, e aperfeiçoados ao longo dos anos por Len Wein, Chris Claremont, entre outros autores importantes das HQs, são os índios na época do descobrimento, os negros durante a escravidão, os judeus perseguidos pelo nazismo, os homossexuais marginalizados em tantas épocas. Formam uma minoria incompreendida por grande parte da humanidade. Professor Charles Xavier, líder dos X-Men, e Magneto, seu nêmesis, seriam retratos de Martin Luther King, que acreditava na convivência pacífica entre negros e brancos, e Malcolm X, adepto do combate para estabelecer sua raça.

“X-Men: Primeira Classe” narra o primeiro encontro entre esses dois personagens fascinantes e como os acontecimentos seguintes os levam a tomar caminhos opostos, mostrados na excelente trilogia de 2000, 2003 e 2006. É um filme de começo. Mais ou menos o que “Batman Begins” foi para a franquia do homem morcego. Com a diferença de que os roteiristas precisaram encaixar as peças da história – Christopher Nolan reiniciou do zero a trajetória do Batman na sétima arte. Seria algo como George Lucas realizou na segunda trilogia “Star Wars”. Só que o resultado de “Primeira Classe” é muito, muito superior.

O roteiro é apenas levemente baseado nas primeiras aventuras dos heróis publicadas nos anos 60, e na série de gibis homônima de Jeff Parker e Roger Cruz, lançada em 2006 e 2007. Agora, são James McAvoy e Michael Fassbender quem vivem Professor X e Magneto. Ou melhor, apenas Charles Xavier e Eric Lehnsherr. A trama inicia igual ao primeiro “X-Men”, de 2000. Segunda Guerra, 1944. O jovem Eric vê seus pais serem levados pelos nazistas. A cena repete o que vimos no início do longa de 11 anos atrás. Depois, o rapaz é capturado por Sebastian Shaw (Kevin Bacon), que mata sua mãe. Enquanto isso, Charles Xavier é apresentado, de infância boa, garoto tranqüilo, que bem novo conhece Raven, a futura Mística.

Corta para os anos 60. Período de Guerra Fria. Saem os nazistas e entram os comunistas, novos inimigos da América. Eric (Fassbender) segue sua vendetta contra Shaw. Xavier (McAvoy) é jovem mulherengo, sedutor, esperto, confiante, ainda não utiliza a cadeira de rodas, e realiza importante trabalho de pesquisa genética.

Em outro ponto da história, descobre-se que Shaw é mutante e comanda o Clube do Inferno, acompanhado por Emma Frost (January Jones), a Rainha Branca. Eles pretendem levar os Estados Unidos e a União Soviética à guerra. Ou seja, o conflito nuclear que poderia resultar na extinção da raça humana, deixando o planeta livre para a soberania mutante. A busca de Eric por vingança e a colaboração de Xavier com o governo norte-americano, visando evitar a batalha nuclear, resultam na reunião dos dois. No entanto, quando vêem que Shaw tem outros aliados mutantes, a dupla passa a procurar outros da espécie e formar um time para combater os oponentes em igualdade de condições.

Apesar de escrito por várias pessoas, o roteiro surpreende. Faz a história progredir de forma inteligente, alternando drama, ação, romance. É coerente com o que foi feito nos três “X-Men” já lançados (fica a dúvida para Emma Frost, pois ela faz uma rápida aparição no filme solo do Wolverine). E constrói personagens complexos. Desde cedo apresentados como figuras extremamente diferentes, e que se completam, Charles e Eric despertam admiração igual no espectador. Torcemos pelos dois e os compreendemos da mesma forma. A maneira como são retratados e os fatos que se sucedem nos fazem compreender todas as atitudes tomadas pelas duas figuras na trilogia anterior, quando os personagens, mais velhos, foram vividos magistralmente por Patrick Stewart e Ian McKellen.

Se os três filmes anteriores (vamos ignorar “X-Men Origens: Wolverine”, o único equívoco da saga mutante nas telonas) já demonstravam o caráter adulto e profundo da mitologia dos X-Men, equilibrando bem drama e ação, “X-Men: Primeira Classe” vai além. É mais maduro e mais divertido. Fato curioso para um filme que mostra a juventude dos personagens. Aí entra um pouco da influência dos “Batman” de Christopher Nolan: não ter medo de tentar criar uma obra cinematográfica sobre super-herói coerente, profunda, que possibilita várias leituras, mas nem por isso abre mão da diversão.

Para o êxito conta a excelente escolha do elenco, desde os protagonistas até os coadjuvantes. Todos têm seus momentos, exceto January Jones, que mantém sua cara de nada conhecida da série “Mad Men”. A única contribuição da “atriz” se dá para os tarados de plantão, que terão inspiração em sua lingerie branca. Destacam-se McAvoy e Fassbender, que repetem a intensidade de suas atuações em trabalhos como “Desejo e Reparação”, do primeiro, e “Bastardos Inglórios”, do segundo. Jennifer Lawrence, que alçou o estrelato após a indicação merecida no Oscar por “Inverno da Alma”, é mulherão e sensibiliza a plateia ao encarnar alguém que precisa aprender a aceitar sua própria aparência. Ela é talentosa e vai longe. Kevin Bacon se diverte no papel de bandido, perfeito. E Nicholas Hoult, aquele que contracenou com Hugh Grant e “Um Grande Garoto”, também dá dramaticidade a Hank McCoy, o Fera.

Os efeitos visuais são maravilhosos, as cenas de ação espetaculares, assim como direção e arte e figurino – este remete diretamente aos uniformes dos heróis na década de 60 e consegue transpor para a telona as cores sem deixar os personagens ridículos. A trilha sonora composta por Henry Jackman, que trabalhou em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, colabora para o clima de tensão iminente. Jamais deixa o espectador sequer piscar os olhos. E Matthew Vaughn, de “Stardust” (2007) e o sensacional “Kick-Ass”, dirige firme toda a equipe. Fez o melhor filme de sua carreira até então. O longa não é 100% perfeito. Fora a face blasé de January Jones, a maquiagem concebida para o Fera está aquém daquela de “X-Men – O Confronto Final”, e uma cena de intimidade envolvendo Mística e Magneto soa um tanto forçada. Porém, o conjunto da obra deve ser celebrado. É raro exemplo de pré-sequencia que funciona e não é óbvia tal qual, por exemplo, o próprio “X-Men Origens: Wolverine”.

Nos anos 80, histórias em quadrinhos como “O Cavaleiro das Trevas”, “Batman: Ano Um” e “Watchmen” levaram os gibis a um novo patamar: de arte que também poderia e deveria ser encarada com seriedade. No cinema, as produções baseadas nos quadrinhos sempre foram olhadas com desconfiança por parte de críticos, premiações, e tidas pelo público como mero entretenimento. A trilogia “X-Men” abriu o caminho, os “Batman” de Nolan sedimentaram o terreno e “X-Men: Primeira Classe” surge para comprovar que filmes de super-heróis podem ser tão profundos e complexos quanto os demais. E têm uma vantagem. Diferente de obras alternativas, restritas a determinado tipo de expectador, chegam embalados de blockbuster, levando ao grande público reflexão, discussão e chamando a atenção para temas importantes. Oficialmente os heróis saltaram das páginas e estão atuando na sociedade.

PS: Há duas pontas que divertirão os fãs. Uma, fácil de ser reconhecida, é de Wolverine (Hugh Jackman), que manda Xavier e Eric para aquele lugar. A outra, que só os mais atentos perceberão, envolve Rebecca Romijn-Stamos, a Mística da trilogia anterior.

Leia também:
– “Batman Begins” faz esquecer os outros filmes da franquia, por Marcelo Costa (aqui)
– “X-Men Origins – Wolverine”, um passo atrás da trilogia, por Adriano Costa (aqui)

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– André Azenha (@cinezen) é jornalista e editor do site CineZen Cultural

13 thoughts on “Cinema: X-Men: Primeira Classe

  1. Achei o filme bem fraco. Apesar de interessante a tentativa de inserir o filme no contexto histórico, a trama repete fórmulas, como o Magneto que assume o papel de Wolverine do filme. Outro ponto é a diferença gigantesca das personalidades dos novos Magneto, Xavier e Mística com os dos filmes anteriores. Ok, eles são novos aqui mas muda muito, O Magneto “velho” é super irônico e esse novo é sérião. A mística é o oposto e o Xavier também. Fora uns atorzinhos do naipe de Malhação. E que mutantiznhos sem vergonhas! Mulher libélula que cospe bola de fogo, Garoto sonar, etc. Gosto muito da história dos X-men, mesmo não sendo fã de hq, mas acho que essa franquia já deu.

  2. Muito bom texto. Boa a analogia com M.L. King e Malcon X.
    Não sabia que aquele cara do About a Boy era o Fera. Melhorou, o guri.
    Eu só não peguei qual é essa cena da Mística. Pode dizer qual é?

  3. Oi Claudio, na hora em que a Mística jovem se oferece, na cama, ao Magneto, e ele diz que quem sabe quando ela for mais velha. Aí a Jennifer Lawrence se transforma numa versão mais velha, que é a atriz dos X-men anteriores.

    Paulo, quanto às mudanças do Magneto e do Professor Xavier, todos nós amadurecemos ou mudamos o jeito de ser com os anos. entre a trama desse filme e da trilogia, se passam mais de 30 anos, tempo suficiente pra ambos mudarem. abração,

  4. gostei bastante do filme, quero assistir mais uma vez!!!
    em tempo: acho que vi a Ororo criança quando o Xavier usa o Cérebro. Alguém mais viu?

  5. Daniel, o Henry Jackman trabalhou em “Dark Knight” como instrumentista tocando as músicas que foram compostas por Hans Zimmer e James Newton Howard. Em “X-Men: Primeira Classe” ele assumiu a função de compositor, e repete a dose em “O Gato de Botas”.

    Abraço

  6. O Mac já respondeu, mas vale ressaltar o trecho do texto: “A trilha sonora composta por Henry Jackman, que trabalhou em “Batman – O Cavaleiro das Trevas””. Não diz que ele compôs a trilha do batman, mas que trabalhou. Abraços

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