Discografia Comentada: Bob Dylan

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por Gabriel Innocentini

“Bob Dylan é um artista de relevância quase inigualável na música popular moderna”, diz o biografo Howard Sounes na primeira frase de seu livro lançado em 2001 (no Brasil, no ano seguinte pela Conrad) sobre Robert Allen Zimmerman. O documentário “No Direction Home” (2005), de Martin Scorsese, jogou mais luz sobre um dos artistas menos compreendidos daquilo que se convencionou chamar de música pop, e se serviu para apresentá-lo a novas gerações, não explicou o mito (se pudesse, Dylan diria aqui que não há nada para explicar).

O fato é que Dylan representa um fenômeno cultural e social que permite vislumbres maiores sobre a música como partícula de uma sociedade. Um cara que começou escrevendo canções simples inspiradas em Woody Guthrie e folk singers do começo do século (muitos apresentados a ele pela coletânea “Anthology of American Folk Music”) até criar sua própria persona estética escrevendo canções políticas e arranjar, em 1965/1966, uma briga com os puristas ao amplificar suas canções, o que o aproximou da ala rock and roll conquistando tanto admiração quanto repulsa dos artistas folk.

Em 1965, no auge da polêmica conversão à eletricidade, Bob Dylan respondeu quando perguntado sobre o seu papel: “Sou um cara que canta e dança”. Nada mais certo. Existem vários Dylan: o pai de família, o pregador católico, o guardião da música tradicional americana, mas nenhum supera o Bob Dylan dos anos 60. A imagem de iconoclasta, hipster, descolado, todo de preto, com óculos Ray Ban, chapado de maconha e anfetaminas, ainda persiste. E olha que ele se acidentou quase que mortalmente, converteu-se ao cristianismo, retornou ao judaísmo, casou-se, separou-se, pariu filhos e viu amigos partirem, mas continua “andando em ruas que estão mortas”.

Em quase 50 anos de carreira, Dylan tem mais de 450 composições originais, sendo que uma delas é o hino dos direitos civis (“Blowin The Wind”) e a outra é praticamente a Cidadão Kane do rock (“Like a Rolling Stone”). Com quatro discos de inéditas lançados nos anos 2000, um livro escrito (“Crônicas”), além do documentário feito por Martin Scorsese, o melhor documentarista de rock da história, e de um pretensioso longa feito por Todd Haynes, Bob Dylan continua na ativa, sempre em movimento, como uma pedra que rola.

E o que é melhor: sem viver do passado, sem turnês de despedida, sem sujar seu nome. Raros são os artistas que seguem a sua visão interior de forma tão radical na indústria da música. De todos, Robert Allen Zimmerman é o maior. Respire fundo. E divirta-se. Com você, Bob Dylan.

Bob Dylan (1962)
O lendário caça talentos John Hammond, descobridor de Billie Holliday e Count Basie, contratou Bob quando ele ainda tocava em espeluncas no Greenwich Village, a zona boêmia de Nova York que reunia todos os cantores folk que significavam alguma coisa, além de escritores da beat generation. O contrato com a Columbia Records marcou também o início da parceria com o polêmico empresário Albert Grossman, considerado por muitos o responsável pelo sucesso de Dylan. Este álbum de estréia custou meros 402 dólares para ser feito, e fracassou nas vendas. Quase a totalidade das canções são covers de country blues em versões mais dinâmicas que as originais. Destaque para “Man of Constant Sorrow”, em que Dylan abusa da gaita para demonstrar a tristeza desse homem que deseja voltar ao Colorado, e para “House of Rising Sun”, cujo arranjo foi roubado de seu amigo Dave Van Ronk. Dylan assina apenas duas canções no disco: “Talkin ‘New York” e “Song to Woody”, uma homenagem a Woody Guthrie, que usava um violão com a inscrição “Esta máquina mata fascistas”. A autobiografia de Guthrie, “Bound for Glory”, foi uma das bíblias do jovem Dylan, ao lado de “On the Road”, de Jack Kerouac. Um disco de interesse apenas histórico.

Nota: 6

The Freewheelin’ Bob Dylan (1963)
Clássico definitivo desde a capa: Bob Dylan de jaqueta e jeans, sorrindo e abraçado a uma linda garota, Suze Rotolo, nas geladas ruas de Nova York. A foto é uma montagem: Bob e Suze passavam por um período conturbado na relação – ela o abandonara para tentar a sorte como artista na Itália. Não à toa, “Girl of The North Country” é um dos mais belos lamentos pela perda do ser amado. Melhor ainda é “Don’t Think Twice, It’s All Right”, com Dylan cantando com sobriedade numa das interpretações mais elegantes sobre uma canção de perda não acusatória e que não cheira a ódio. É apenas o reconhecimento de que ele deu seu coração, mas ela queria sua alma. “Talkin’ World War III Blues” é uma releitura animada de Hank Williams, cujo disco “Luke The Drifter” (1963) Bob ouviu até furar. “I Shall Be Free” tem versos deliciosos, de fazer inveja aos indies de hoje, com Bob cantando/contando que recebeu um telefonema do presidente Kennedy perguntando o que faria o país crescer. Ele responde: “Brigitte Bardot, Anita Ekberg, Sophia Loren”. A mágoa proporcionou um salto evolutivo nas letras, como defende o biógrafo Howard Sounes, mas foram mesmo as canções de protesto que fizeram a fama do álbum. Composta num bar em apenas 10 minutos, “Blowin’ The Wind”, o hino dos direitos civis, foi cantada por todos que lutavam pelas transformações sociais nos anos 60. “Masters of War” é uma das condenações mais pesadas e raivosas aos políticos que se escondem atrás das mesas e enviam jovens para as guerras. Dylan canta que nem Jesus poderá perdoá-los e que só ficará satisfeito quando estiver de pé sobre seus túmulos, para se certificar de que estão mortos. Em “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, Dylan reuniu, segundo Clinton Heylin, seu melhor biógrafo, “a magia e o mistério de uma balada de cinco séculos de idade, as verdades profundas de Dante, e o simbolismo apocalíptico dos poetas franceses e beats em seis minutos e meio de puro terror, pertinentemente ‘capturando o sentimento de vazio’ suportado por aqueles que viviam à beira do abismo”. E ele tinha apenas 21 anos quando fez tudo isso.

Nota: 10

The Times They Are A-Changing (1964)
“O que aflora na minha música é um chamado para a ação”. Se alguém captou o espírito de sua época, esse alguém foi Bob Dylan. A canção título é uma convocação e foi rapidamente adotada pelos ativistas dos direitos civis. Composta em cima de chavões (“the first one now will later be last”, “for the loser now will be later to win”), ela tem o famoso verso “don’t criticize what you can’t understand”, tematizando o conflito entre a nova e a velha geração. “The Lonesome Death of Hattie Carrol” é a narração jornalística com toques poéticos de um branco que matou a empregada negra. Impossível não se emocionar quando ele muda o refrão ao final, liberando o ouvinte para chorar a tragédia dessa história. “Ballad of Hollis Brown”, “Only a Pawn in their Game” e “When the Ships Comes In” compõem a espinha dorsal do álbum. Os sete minutos de “With God On Our Side” são uma reflexão tanto sobre a sombra da Guerra Fria quanto sobre os Estados Unidos. Mas a melhor estrofe é mesmo esta: “In a many dark hour I’ve been thinkin’ about this / That Jesus Christ was betrayed by a kiss / But I can’t think for you, you’ll have to decide / Whether Judas Iscariot had God on his side”. Num disco dominado pelo comprometimento político e social, duas canções quebram o clima. “One Too Many Mornings” é uma das mais tristes e sábias letras já compostas por Dylan, podendo figurar em “Blood On The Tracks” (1974) com muita dignidade: “You’re right from your side / I’m right from mine / We’re both just too many mornings / And a thousand miles behind”, canta Dylan aos sussurros. “Restless Farewell” encerra o disco, fazendo um balanço do dinheiro, das bebidas, das garotas, das amizades, pontuada por uma gaita melancólica: “And remain as I am/And bid farewell and not give a damn”.

Nota: 8,5

Another Side of Bob Dylan (1964)
“O cabelo de Dylan cresce à medida que sua consciência se expande”, afirma o poeta e musicólogo inglês Brian Hinton. O segundo álbum de Dylan em 1964 foi gravado em uma única sessão de 6 horas, e o cantor deixou claro a um jornalista da New Yorker suas intenções: “escrever a partir de dentro de mim”. O tema dominante do álbum eram os relacionamentos, como em “To Ramona”, “Ballad In Plain D”, “All I Really Wanna Do” e “I Don’t Believe You”, além de conter a primeira referência ao uso de drogas em uma canção de sua autoria: “Sometimes I’m thinkin’ I’m too high to fall”, em “Black Crow Blues”. O nome do disco também indicava uma oposição ao que vinha sendo feito por Dylan e marcava um tipo de ruptura – no caso, a coletânea de faixas indicava que ele não se restringia a ser um mero cantor de protesto. “Ballad In Plain D” é uma das poucas canções que Bob se arrepende de ter gravado, por citar de forma negativa a irmã de sua ex-namorada Suze. É desta canção um dos versos mais pungentes já escritos por Dylan: “The could-be dream-lover of my lifetime”, referência a Suze. Ele ainda tentava ajustar as “correntes de imagens brilhantes” que espocavam em sua mente a uma música vibrante, o que torna este um disco de transição. “Chimes of Freedom” ainda é um resquício dos temas sociais, enquanto “My Back Pages” (regravada com sucesso por The Byrds) assombrava o já perturbado John Lennon, que via recados ocultos de Dylan para ele em muitas canções.

Nota: 7

Bringing It All Back Home (1965)
Após três anos ao violão, Dylan queria mudar, tendo feito uma tentativa na Inglaterra com Eric Clapton, mas as coisas não deram certo. A invasão britânica, capitaneada por Beatles e Rolling Stones, aliada ao som dos Byrds e à versão originalíssima do Animals para “The House of Rising Sun” fez com que Bob se convencesse de que era a hora de partir para a eletricidade. O próprio nome do disco é uma declaração de intenções: “trazendo tudo de volta para casa”, ou seja, retomar a matriz do rhythm and blues e do rock and roll dos anos 40 e 50. Questionado por europeus sobre a conversão à eletricidade, Dylan afirmou: “Eu faço música americana”. Metade do disco foi gravada de forma elétrica com músicos de estúdio, começando com “Subterranean Homesick Blues”, uma música nervosa, que deu origem a um dos primeiros clipes da história. A guitarra solo guincha de indignação em “Maggie’s Farm”. “Outlaw Blues” e “On The Road Again” mantêm a pegada roqueira, que termina em “Bob Dylan’s 115th Dream”, uma releitura da história dos Estados Unidos. “Love Minus Zero/No Limit” é a transposição do dolce stil nuovo de Dante Alighieri para a música pop. O lado B do vinil era a contrapartida acústica. Dylan decidiu manter “Mr. Tambourine Man”, que já era um folk-rock nas mãos dos Byrds, apenas com violões, fechando o disco com “Gates of Eden”, canção com referência ao poeta William Blake sobre a salvação espiritual, “It’s All Right Ma (I’m Only Bleeding)” e a excepcional balada “It’s All Over Now, Baby Blue”, uma rara combinação em que a gaita soprada com força e a voz anasalada se casam à perfeição para relatar o fim do amor em imagens incomuns. A letra toda é um primor, mas convém destacar a abertura, uma pedrada no peito: “You must leave now, take what you need, you think will last / But whatever you wish to keep, you better grab it fast”. Curiosamente, os últimos versos podem ser lidos como um recado para os tradicionalistas do folk: “Strike another match, go start anew / and it’s all over now, baby blue”. Os puristas que ficaram chocados com o lado A do disco mal poderiam imaginar o que surgiria menos de seis meses depois. Ah, a garota de vestido vermelho da capa é Sally, esposa de Grossman.

Nota: 9,5

Highway 61 Revisited (1965)
Aquele jovenzinho rechonchudo, simpático e caipira da capa da estreia não existe mais. Agora, Bob Dylan assume um ar cool vestindo camisas de marca. A canção de abertura é, para muitos, a melhor composição da história do rock: “Like a Rolling Stone”. O crítico Greil Marcus escreveu um livro sobre ela, cuja letra nasceu de um conto de 20 páginas, que Bob retrabalhou na forma de canção. “Depois de escrevê-la, eu não estava mais interessado em escrever uma novela ou uma peça”, afirmou. Além de começar com uma batida seca, como um tiro, algo incomum na música pop, “Like a Rolling Stone” se beneficiou do teclado fora do tempo de Al Kooper, que viera tocar guitarra na gravação e desistira quando viu Mike Bloomfiel com o instrumento. Como não sabe as notas, Al Kooper entra sempre um segundo atrasado, o que só torna a canção ainda mais charmosa. O lado A ainda contém “Tombstone Blues”, apoiada numa batida nervosa da bateria e na guitarra estridente de Bloomfield, e “It Takes A Lot To Laugh, It Takes a Train To Cry”, bela balada dos versos “Well, I wanna be your lover, baby / I don’t wanna be your boss”. “Ballad of a Thin Man” tira sarro dos que leram a obra completa de Scott Fitzgerald, sem saber o que estava acontecendo. “And you don’t know what it / Do you, Mr. Jones?”. Mas nós sabemos: Dylan estava recriando o rock com uma densidade nas letras jamais vista anteriormente. O lado B se inicia com “Queen Jane Approximately”, quase uma continuação de “Like a Rolling Stone”. A canção que dá nome ao álbum amarra várias histórias, com direito à citação bíblica envolvendo uma conversa entre Deus e Abraão. “Just Like Tom Thumb’s Blues” segue o rastro de “It Takes a Lot To Laugh” para contar a história de um vagabundo. “Desolation Row” é a última canção de um dos maiores álbuns da história, registrada de forma quase minimalista: gaita, violão e guitarra. Difícil resumir uma canção de 11 minutos que reúne poetas modernistas como Pound e Eliot, figuras como Ofélia e Robin Hood, além da Cinderela e do Corcunda de Notre-Dame. Se considerarmos que é uma canção sobre relacionamentos, a estrofe final é puro Dylan, no que ele tem de melhor: sarcasmo e crueldade.

Nota: 10

Blonde on Blonde (1966)
O encontro do surrealismo com as drogas do dia. Al Kooper vai além: trata-se do disco ideal para ser ouvido às três horas da madrugada. E ainda é dançante. Entre junho de 65 e maio de 66, segundo Greil Marcus, “Bob Dylan não parecia ocupar um ponto de virada no espaço/tempo cultural, mas ser ‘o’ ponto de virada”. A sequência que começa em “Bringing It All Back Home” e termina aqui é somente a transição do pop para o rock. “Blonde on Blonde”, gravado em Nashville, é o primeiro registro em disco de Dylan com The Hawks, depois The Band, que agüentaria a pauleira dos shows no período de 65-66, verdadeiros conflitos entre músicos e platéia. “Todo mundo deve ficar chapado”, canta um alegre Dylan em meio a risadas e música de fanfarra logo na abertura do disco, com “Rainy Day Women #12 & 35”. Era um dos períodos mais criativos do compositor, que usava anfetaminas para suportar a atribulada agenda de compromissos. Ele ficou muito satisfeito com o resultado final: “O mais próximo que cheguei do som que ouço na minha cabeça foi em ‘Blonde On Blonde’. Aquele som fluido, visceral, metálico e brilhante como ouro”. “Visions of Johanna” é de tal complexidade que se tornou argumento recorrente para os defensores do Nobel de Literatura para Bob Dylan. Aqui não está em discussão se ele merece ou não, mas que outro compositor de música popular já foi cogitado a tal honraria? “I Want You” é tão bonita que faz sentido até cantada em português, na competente versão do Skank (“Tanto”). Repare na bateria de “Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again”. Imagine um blues sobre um chapéu com pele de leopardo, um lamento sobre dinheiro e amor frustrado e temos “Leopard-Skin Pill-Box Hat”. Woody Allen dá uma zoada em “Just Like a Woman” no filme “Annie Hall”, mas quem nunca viu uma mulher se comportar como uma garotinha? É o tipo de canção que apenas Dylan poderia compor. John Lennon encanou que “4th Time Around” era a resposta de Dylan a “Norwegian Wood”. Não dá para ouvir o blues nervoso e elétrico de “Obviusly 5 Believers” e ficar parado. “Sad Eyed Lady of Lowlands” encerra o disco com seus (para a época) inacreditáveis onze minutos. Os músicos sempre chegam ao clímax no fim da estrofe, pois pensam que a música vai terminar, mas ela segue. “É como sexo bem feito, na verdade”, afirmou o baterista Kenneth Buttrey. Dylan compôs para sua mulher, a modelo Sara Lownds. Um dos melhores álbuns duplos da história.

Nota: 10

John Wesley Harding (1967)
Eis o primeiro renascimento de Bob Dylan. Nas palavras de Clinton Heylin: “a primeira manhã depois da noite escura da alma”. Após o acidente de moto que quase o matou em 1966, Dylan passou um tempo tocando com The Band num porão em Woodstook. “The Basement Tapes”, contudo, só viria a público na década seguinte. Enquanto os Beatles exploravam todas as possibilidades de tocar em estúdio, o Velvet Underground adicionava ruído e degradação urbana ao rock e o Pink Floyd começava a sua viagem musical entorpecido de ácido, Bob Dylan lia a Bíblia na sua mansão. “Eu não sabia como gravar do jeito que os outros estavam gravando e nem queria fazer isso”. Impactado pela morte de seu ídolo Woody Guthrie (em outubro de 1967), ele escreve três baladas. “I Dreamed I Saw St. Augustine” é uma comovente canção sobre o santo que se arrependeu de seus pecados. “Drifter’s Escape” pode ser também uma homenagem a Hank Williams. “The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest” faz lembrar as composições do início da carreira: doze estrofes para contar uma história cuja moral é não se meter onde não deve. Elas foram gravadas em apenas três horas, numa única sessão com Kenny Buttrey na bateria e Charlie McCoy no baixo. O surrealismo de “Blonde On Blonde” cede lugar para a influência bíblica: estudiosos contaram 61 referências ao Antigo e ao Novo Testamento no álbum. Não há desperdício de palavras nem de fôlego: “cada linha deve significar algo”. Pela primeira vez, Dylan escreveu primeiro as letras e depois as musicou. O resultado é um disco econômico, tanto nas letras, agora mais simples, quanto no som, com presença marcante da gaita. Segundo Bob, “John Wesley Harding lida com o demônio do ponto de vista do temor”. “The Wicked Messenger” traz o aviso: “If ye cannot bring good news, then don’t bring any”. Todo o peso e agitação do período 65-66 estão ausentes aqui, por isso o choque de ouvir “All Along The Watchtower” no original: acústica e nua, nem lembra a tempestade elétrica de Jimmy Hendrix (o melhor cover já feito de uma canção sua, segundo o próprio Dylan). “I’ll Be Your Baby Tonight” já aponta para o próximo disco: uma canção doce sobre ficar em casa com o seu amor. “Poderia ter sido escrita sob o ponto de vista de uma mulher”, defendeu Bob, o que significa que Cat Power está marcando bobeira. Grava logo, Chan Marshall!

Nota: 8,5

Nashville Skyline (1969)
Na capa um Dylan sorridente, tirando o chapéu. Gravando com músicos de Nashville, a terra do country, Bob se volta para as raízes desse estilo, num processo que vinha desde quando tocava no porão com The Band. É deste disco que saiu “Lay Lady Lay”, escrita para o filme “Perdidos na Noite” e um dos maiores hits de Dylan nas paradas de sucesso. Contudo, ela não entrou na trilha sonora e Dylan também não gostava muito da canção, que se tornou seu primeiro single a atingir o Top 10 desde “Rainy Day Women”. Sua voz soa diferente, soturna. Basta comparar a regravação de “Girl From The North Country” (com participação de Johnny Cash) com a original registrada seis anos antes. “I Trew It All Away”, que foi regravada por Yo La Tengo em 1989 e Elvis Costello em 1995, pode ser vista como uma continuação de “I Walk The Line”, de Cash. A canção do Man In Black trata de como manter o amor. Já a de Bob é o lamento de um sujeito que não manteve o coração sob vigilância e que reforça a importância do sentimento: “Love and only Love it can’t be denied / No matter what you think about it / You won’t be able to live without it”. O jeito com que Dylan canta “Take a tip from one who’s tried” é de cortar o coração. “To Be Alone With You” e “Peggy Day” são as mais animadas, a primeira apoiada no piano de Bob Wilson e a segunda na guitarra solo durante quase toda a canção. “Tonight I’ll Be Staying Here With You” é prima da última música de “John Wesley Harding”, uma canção agradável sobre aproveitar os prazeres da vida com a esposa. “Nashville Skyline” soa despretensioso e leve, para ouvir numa tarde tranqüila, nada mais do que isso. Os filmes de Woody Allen, mesmo os ruins, têm sempre uma piada genial. No caso de “Nashville Skyline”, a única música a ser ouvida com atenção é mesmo “I Trew It All Away”. Nick Cave concorda: “É Mozart se levantando contra Beethoven em ruínas do seu trabalho anterior. Posso ouvir esta música antes de qualquer coisa pela manhã, ou no meio de uma noite escura, e ela faz o que uma canção deve fazer, me anima, me faz sentir-me melhor, me faz ter vontade de seguir em frente”.

Nota: 6

Self-Portrait (1970)
Segundo álbum duplo da carreira de Dylan. Fuja! Devidamente achincalhado na época (Greil Marcus debulhou o disco logo no título de sua resenha: “Que merda é essa?”), “Self Portrait” é visto hoje com mais simpatia. Injustificada, no caso: 24 canções reunidas de sete sessões de gravações ao longo de pouco mais de um ano. Dylan declarou que quis gravar seu próprio disco pirata, “para que as pessoas deixassem de comprar meus bootlegs. E elas deixaram”. “The Mighty Quinn (Quinn The Eskimo)”, gravada direto do festival da ilha de Wight, em 1970, é a primeira canção das “Basement Tapes” a ser apresentada ao público. Outra três canções foram resgatadas do festival britânico e se você quer saber como estragar um hino basta ouvir a versão de “Like A Rolling Stone”. Dylan agora parece satisfeito em estar na contramão da história: ele se apresenta de terno branco e barba, como um tio acolhedor. Apenas quatro anos depois da guinada para a eletricidade, Bob só queria ser um cara pacato. Em “Wigwam”, Dylan canta “la-la-la” em meio a um arranjo de metais. Se você agüentar até o fim sem dormir nem pular as faixas no meio, parabéns. Ele queria fazer um disco ruim e conseguiu. Mas se quiser encarar, não deixe de prestar atenção nas interpretações de Dylan em “The Boxer” (primeira vez em que ouvimos um overdub em seu vocal) e principalmente em “Take Me As I Am (Or Let Me Go)”.

Nota: 3

New Morning (1970)
A auto-sabotagem segue a todo vapor. Quatro meses após o fiasco de “Self Portrait”, Dylan retorna com um novo álbum. Perseguido pelos fãs e pela imprensa, Dylan pagava o preço da fama e do sucesso: cantor de protesto, voz da geração, etc. Para se livrar desse peso, a saída encontrada foi sujar o próprio nome. “Eu estava decidido a me posicionar além de tudo aquilo. Agora eu era um homem de família”. Apesar disso, “New Morning” é melhor do que o próprio autor quer nos fazer crer: não é o melhor Dylan, mas o Dylan possível. “If Not For You”, gravada por George Harrison, é um hino ao amor doméstico. Sim, Bob já teve dias mais inspirados. Em “Time Pass Slowy” temos um Dylan reflexivo, quase um ermitão, numa melodia bem casada entre piano e guitarra. No lado B, Dylan canta na faixa-título que está “so happy just to be alive”. “Sign On The Window” é o sonho acabou de Bob Dylan, obcecado com a idéia de ficar em casa curtindo a esposa Sara e seus filhos Jesse, Anna e Marie. Por falar em John Lennon, “One More Weekend” poderia estar num disco do ex-beatle. Esta música é a única em que Dylan sugere deixar a família de lado para satisfazer seu desejo sexual. “The Man In Me”, regravada pelo Clash, é o melhor que ele poderia fazer nesse período – uma bela canção sobre o comportamento masculino numa relação: “The man in me will hide sometimes to keep from bein’ seen”. Um pouco mais de esforço e dedicação e seria uma obra-prima. Jeff Dude Bridges cantou uma versão de “The Man In Me” na Lebowskifest de 2005. Tem no Youtube.

Nota: 6,5

Pat Garret And Billy The Kid: Original Soundtrack Recording (1973)
Trilha sonora do filme de Sam Peckinpah. Bob Dylan fez uma ponta como Alias, amigo de Kid, interpretado por Kris Kristofferson. As filmagens foram problemáticas, com Peckinpah causando terror nos bastidores. Sara perguntou a Bob o que eles estavam fazendo lá e ele não soube responder. O papel de Dylan foi tão pequeno que sua participação no filme se tornou quase irrelevante. Tem de ser muito fanático para ouvir este disco. Mas tem “Knockin’ On Heaven’s Door”, precisa mais? Não, não foi Axl Rose quem escreveu essa canção. Zé Ramalho fez uma versão: bate, bate, bate na porta do céu. Que ela jamais se abra para ele. De qualquer forma, esqueça o disco e pegue alguma coletânea com a canção. Vale mais.

Nota: 5

Dylan (1973)
Preste atenção: ninguém merece passar pela experiência de ouvir esse disco. Dylan tem apenas uma composição original no álbum, apesar do título ser ironica e apenasmente “Dylan”. Para Brian Hinton, deveria se chamar “A Vingança de Bob Johnston”, produtor que reuniu sobras de “New Morning” e “Self Portrait” para lançar esta coletânea de canções que serviam para aquecer a banda nos ensaios. A coisa toda é tão ruim que o próprio Dylan fez questão de retirar este disco do catálogo.

Nota: 0

Before The Flood (1974)
Como obrigação por ter retornado à Columbia, Bob Dylan precisava de um disco ao vivo. “Depois do dilúvio” marca também o retorno de Dylan às grandes turnês: quarenta shows em estádios e um saldo de doze milhões de pessoas. Sabe essa história de erguer o celular durante os shows? Antigamente, o público acendia os isqueiros. Se a platéia de Dylan não foi a primeira a fazer isso na história, foi certamente a primeira a ser registrada, como atesta a bela capa do disco. David Cavanagh apontou que a “próxima vez que se ouviu música tão biliosa foi com o The Clash”: Dylan grita, urra, e The Band segue no seu encalço. Marlon Brando: “As duas coisas mais barulhentas que eu ouvi na vida foram um trem e Bob Dylan e The Band”. Fora os bootlegs oficiais, não existe álbum ao vivo na discografia de Bob Dylan melhor do que este. Para ouvir sempre. A nota curiosa é a relevância do verso “Às vezes até mesmo o presidente dos Estados Unidos deve ficar nu” em “It’s Alrigh Ma (I’m Only Bleeding)”. O público delira, pensando em Richard Nixon e no caso Watergate.

Nota: 10

Planet Waves (1974)
Finalmente a década de 70 começa para Dylan. Depois de três anos incertos, Bob reencontrou a inspiração após compor “Forever Young” em junho de 73. “Planet Waves” foi gravado com The Band, sinal de que não tem erro. As letras refletem os problemas de relacionamento no casamento com Sara. Dylan está treinando para fazer sua obra máxima no ano seguinte, “Blood On The Tracks”, por isso a qualidade das letras aqui já é espantosa. “On A Night Like This” é o início perfeito, alegre, animado e um tanto quanto desprotegido. A faixa seguinte, “Going, Going, Gone”, é das letras mais depressivas já escritas por Bob. Tim Riley descreveu a guitarra de Robbie Robertson, que na prática foi o produtor do disco, “como um som engasgado, como se um laço tivesse sido amarrado em seu pescoço”. Para Brian Hilton, “Hazel” é “Just Like Woman” renascida. Ainda temos duas versões de “Forever Young”, escrita para o filho Jakob. A primeira ficou mais famosa, num tom de oração, enquanto a segunda é mais acelerada e tem metade da duração. “Dirge” conta apenas com o violão de Robbie e o piano de Bob e já começa com “I hate myself for lovin’ you”. No meio, ainda há tempo para cantar que “No use to apologize, what difference would it make?” e terminar com a afirmação de que ele ainda se odeia por amá-la, mas que deveria receber mais por isso. A última canção, “Wedding Song”, é redimida de sua letra sentimental pela interpretação contida de Bob Dylan. É possível ouvir os botões de sua camisa batendo no violão, o que só torna a música mais intimista. Um disco belo, atraente e com uma pitada de mistério.

Nota: 9

Blood On The Tracks (1975)
Tudo o que um ser humano pode aprender sobre o amor está em “Blood On The Tracks”. O melhor texto já escrito sobre este disco é do Martim Vasques da Cunha, no Wezen (leia aqui). Um dos problemas que este disco causou na carreira de Bob foi a autonomia que ele teve na produção. Insatisfeito com algumas canções, ele voltou ao estúdio e regravou-as, dando caráter definitivo a elas. Procure os outtakes e confira. Ora, mas qual o problema? O fato de Bob, nos anos seguintes, principalmente na década de 80, muitas vezes negligenciar verdadeiras obras-primas, descartando-as ao confiar demais em seu juízo estético. Se existe um compositor popular que não tem a menor idéia do que tem nas mãos, ele se chama Bob Dylan. Mas isto é assunto para depois. Agora temos um sujeito destroçado (“Tangled Up In Blue”) pelo fim da relação com a esposa (“she still lives inside of me, we’ve never been apart”), observando o fragmento de tempo em que tudo se esvai (“Simple Twist Of Fate”), chorando pelo fim do amor (“with a pain that stops and starts, like a corkscrew to the heart, ever since we’ve been apart”), feliz por ela ter sido um porto seguro (“Shelther On The Storm”), suando ódio por todos os poros (“Idiot Wind”), fazendo graça com as idas e vindas de seus relacionamentos amorosos (“mine have been like Verlaine’s and Rimbaud”), para terminar o disco com “Buckets Of Rain” e o reconhecimento de que “every thing about you is bring me misery”. Terminar? Que nada. “Blood On The Tracks” está fora do tempo. Você pode e deve criar sua própria maneira de se relacionar com cada canção. “We always did feel the same, we just saw it from a different point of view”, por exemplo, está na música de abertura. É para ouvir até o fim dos tempos. Se você está curtindo uma dor de cotovelo, então, é o melhor remédio. Jakob Dylan confessou: “É como meus pais conversando”. Não tenha pudor em intrometer-se na intimidade desse casal. Yoko Ono e John Lennon queriam mudar o mundo. Bob e Sara parecem mais como eu e você: só queriam dar certo juntos. O resultado é o álbum de Bob Dylan que deve ser colocado na arca de Noé quando o dilúvio chegar novamente.

Nota: 11

The Basement Tapes (1975)
As fitas do porão tiveram de esperar cerca de oito anos para vir a público, forçadas mais pelo fato de terem sido pirateadas em larga escala do que pela disposição dos músicos em lançá-las oficialmente. Depois do acidente de moto que quase o matou em 1966, Bob se recuperou tocando com The Band num porão em Woodstook, na famosa casa Big Pink. O responsável por ter gravado essas relíquias foi Garth Hudson (piano e órgão) em um equipamento estéreo remanescente da turnê de 66, ajudado pelos microfones Neumann e pelas mesas de última geração da época, as valvuladas Altech. Aqui estamos no terreno da Antologia da Música Folk Americana. O curioso é que “Basement Tapes” eclipsou “Blood On The Tracks” nas vendas, já que foram lançados com apenas seis meses de distância. Mais curioso ainda é que havia cinco horas de gravações e conseguiram deixar espaço num dos lados do disco duplo. Os críticos e fãs debatem qual seria a melhor seleção para organizar todo esse material. Quem quiser se aprofundar na discussão deve ler o essencial “Invisible Republic”, de Greil Marcus. Em todo o caso, podemos nos divertir com as 24 faixas selecionadas. Em algumas delas, temos apenas The Band sozinha. As melhores de Robbie Robertson e cia. são “Katie’s Been Gone” e “Bessie Smith”. Os músicos que acompanharam Bob Dylan disseram não saber muito bem a que ele se referia em algumas letras. Após o acidente de moto, ele passou por um surto e chegou a escrever 10 canções em uma semana. Se não é possível penetrar no significado de algumas composições, podemos vibrar com muitas delas, como “Going To Acapulco”, “Tears of Rage”, cujo contraponto vocal de Richard Manuel é de fazer chorar, “You Ain’t Goin’ Nowhere” e “This Wheel’s On Fire”, que se refere ao acidente que quase tirou a vida de Bob Dylan. Para os que gostaram, vale procurar por algumas obras-primas que ficaram de fora do álbum oficial: “Sign On The Cross”, “I’m a Teenage Prayer” e “I’m Alright”.

Nota: 10

Desire (1976)
Após “Blood On The Tracks”, Bob Dylan precisava mudar, pois aquele tipo de composição já estava esgotado. Em parceria – algo inédito em sua carreira – com o letrista e diretor de teatro Jaques Levy, as letras de Bob ganharam um ar teatral, uma qualidade cinematográfica. Como sempre, as gravações duraram apenas quatro dias (Bob afirma que não dormiu nesse período), e contaram com Scarlet Rivera no violino, Rob Stoner no baixo e vocais de fundo de Emmylou Harris, que tinha de se basear no movimento da boca de Dylan, uma vez que não tinha as letras para acompanhar. O violino confere um som meio cigano ao disco, o que faz dele único na discografia de Dylan. Para Jeff Tweedy (Wilco), “Hurricane” é uma canção que “só acontece uma vez a cada dez anos”. É uma excelente abertura para “Desire” e mostra que Bob ainda podia compor canções de protesto. “Isis” é praticamente um conto sobre casamento. “Mozambique” parece um exercício de Levy e Bob para encontrar rimas em “ique”. A faixa seguinte, “One More Cup Of Coffee” traz um belo vocal de Dylan, comparado a um segundo violino (e já ganhou uma versão rascante do White Stripes). O lado dois conta com letras longas (“Joey”, “Romance In Durango”, “Black Diamond Bay”), mas o diamante é “Sara”. A canção menciona a alegria das crianças pequenas, o feriado em Portugal e apela no fim: “don’t ever leave me, don’t ever go”. Sara passou pelo estúdio durante as gravações e Bob cantou a canção para ela: “Daria para ouvir um alfinete caindo no chão”, afirmou Levy. Resultado: uma bela canção e Sara de volta aos braços de Bob. Quem disse que histórias de amor não têm um final feliz?

Nota: 8,5

Hard Rain (1976)
Não tem The Band, mas Mick Ronson (guitarra, o gênio por trás das Aranhas de Marte de David Bowie), Gary Burke (bateria), Rob Stoner (baixo) e T-Bone Burnette (piano e guitarra) dão conta do recado. Gravado nas vésperas do trigésimo quinto aniversário de Bob Dylan, o disco ao vivo soa violentíssimo. “Maggie’s Farm” ganhou um novo riff de Ronson, numa interpretação que nada deve aos anos 60. “One Too Many Mornings” conta com um violino lamentoso de Scarlet Rivera, além da mudança da letra, cujo fim agora é “I’ve no right to be here and you’re no right to stay”. Paul Williams deu a melhor definição de “Memphis Blues Again”: “um bebê recém-nascido berrando sem amarras”. Esta versão de “I Trew It All Away” consegue ser melhor do que a original de “Nashville Skyline”: a slide guitar é de cortar o coração e Bob soa mais arruinado do que nunca ao acrescentar que “one thing for sure, there ain’t no cure”. Não bastasse tudo isso, ainda temos três releituras de ‘Blood On The Tracks”. A primeira, que abre o lado dois, é “Shelther From The Storm”, que faz pensar em The Clash. “You’re A Big Girl Now” tem quase o dobro da duração original, com andamento mais lento e uma interpretação para fazer qualquer ser humano chorar. “Idiot Wind” passa a régua, afogando o ouvinte em bile e ódio.

Nota: 9,5

Street Legal (1978)
Histórias de amor só têm final feliz no cinema. Eis um disco confuso. Na época, os críticos não gostaram: o som é abafado, parece que Dylan ganhou um dicionário de rimas e resolveu brincar com ele, fazendo referências místicas ao tarô, à astrologia, além de ter bebido em excesso na Bíblia e em Robert Johnson. Gravado no estúdio de Bob em Santa Mônica sem nenhum produtor renomado, o disco contou com procedimentos inusitados, como usar um páraquedas para abafar o som da bateria. Insatisfeito com o resultado, Dylan demitiu a banda inteira e a recontratou pouco tempo depois para terminar a turnê. Paul Williams acredita que este disco é “um pedido de ajuda”. Pode ser, e também é um disco de transição. Recém-separado, apesar da aliança na foto da capa, e a caminho da conversão ao cristianismo, Bob Dylan parece perdido e as letras afetam ressentimento, amargor e traição. Hoje em dia, existe uma tendência para ser mais benevolente com “Street Legal”, baseado num sentimento de que o disco é mais misterioso e profundo do que parece. De relevante, “Señor (Tales Of Yankee Power)”: uma canção que já aponta para a conversão religiosa, entremeada pelo fracasso do casamento com Sara. Não bastasse a confusão do disco, Bob ainda conseguiu enfiar um verso (“can you cook and see, make flowers grow, do you understand my pain”?) que causou fúria nas feministas, com toda razão. Para apreciar este disco é preciso embarcar na viagem. Fique na estação esperando o próximo trem.

Nota: 5

At Budokan (1978)
Este ainda não é o trem aguardado, mas também exige do ouvinte que se disponha a tolerar o lado A do vinil, com versões reggae (!) para “Shelther From The Storm” e “Don’t Think Twice, It’s All Right”. O lado B vale só pela reescrita de “Going, Going, Gone”. Preste atenção na transformação de “I Want You”, uma canção animada e alegre, em uma canção triste. Apesar da curta duração, ela se torna um grande lamento. É um álbum bastante popular, ouvido por muita gente que não conhece Dylan muito bem. Não é a melhor maneira de conhecê-lo. As interpretações são desinteressadas e algumas tentativas de atualizar as canções para o som da época (disco, Las Vegas) acabam destruindo toda a força que elas poderiam ter. “At Budokan” foi gravado em março de 78, no Japão. Alguns críticos reclamaram que a gravação do álbum se deu antes da banda atingir o ápice. Quem quiser tentar, pode baixar os shows dessa turnê na internet. Eu passo.

Nota: 4

Slow Train Coming (1979)
Não deixe passar esse trem. O mesmo homem que uma década atrás havia cantado não precisar de um metereologista para saber aonde o vento soprava, agora dizia que você deve servir Alguém. Depois de experimentar um contato com Deus em novembro de 1978, num hotel em Tucson, Dylan tirou os primeiros meses de 79 para estudar a Bíblia. O que começara a aparecer em “John Wesley Harding” se mostra agora em toda a Sua glória. Inicialmente, Bob escreveu as canções pensando em dá-las para Carolyn Dennis, sua futura esposa e cantora de apoio na época, gravar – “elas nem levariam o meu nome”. Com o baterista Pick Withers e o guitarrista Mark Knopfler, do Dire Straits, Dylan gravou todas as canções com o objetivo de converter os ouvintes e salvá-los da danação eterna. Para isso, ele usou até mesmo o nome de batismo (“pode me chamar de Zimmy”) na faixa de abertura, “Gotta Serve Somebody” – e recebeu seu primeiro Grammy por esta canção. A parte instrumental é realmente muito digna e a guitarra de Knopfler chega perto de cantar em alguns momentos, como em “Precious Angel”. Jann Wenner escreveu: “Fé é a mensagem, a chave para se compreender este álbum”. Em “I Believe You”, Dylan deturpa o significado dos versos “And I walk out on my own a thousand miles from home”, geralmente associados à natureza errante dos trovadores, para afirmar sua fé em Deus: “But I feel alone, ‘cause I believe in You”. “Slow Train” parece perfeita para ser usada como justificativa para as guerras empreendidas pela família Bush no Oriente Médio. O lado B segue no mesmo ritmo, com grande energia, vocais inspirados e um casamento perfeito entre banda e vocalista. É engraçado que Dylan alerte sobre “spiritual advisors and gurus to guide you every move”, justamente quando ele está nesta situação, seguindo os preceitos da Igreja Católica. Pode parecer incrível, mas “Slow Train Coming” é um dos discos de mais sucesso da carreira de Bob Dylan: alcançou o terceiro lugar nas paradas, recebeu o disco de ouro em 79 e o de platina em 80. Só para não deixar passar mais uma das distorções operadas por Bob Dylan neste disco: o trem, lugar mítico por excelência do blues, veículo mágico de viagem, de união, de separação, se torna agora um símbolo religioso.

Nota: 8

Saved (1980)
Os shows ficaram tensos novamente. “A eletricidade havia deixado os puristas do folk aborrecidos, mas a religião deixava todo mundo aborrecido”, resumiu Howard Sounes. Bob manteve a mesma atitude do período 65-66: simplesmente ignorou e fez o que achou que tinha de fazer. No caso, música cristã e longos, arrastados, chatíssimos sermões sobre pecado e redenção. É inacreditável, mas o mito do folk, o ídolo do rock havia se transformado em um tio carola, capaz de reclamar do “palavreado sujo” (logo quem!) dos jovens e de mandá-los a um show do Kiss “dançar rock até o quinto dos infernos!” (ops). Criticar este álbum é fácil. A bateria é uma coisa tenebrosa de tão horrível (um engenheiro de som botou fita adesiva no instrumento), a capa parece desenhada por uma criança e as letras são apenas para convertidos. Foi o único álbum a ser testado primeiro em turnê e depois gravado. A pauleira dos confrontos com o público fez com que a banda chegasse desgastada aos estúdios. Um músico confirma: tudo o que eles queriam era ir pra casa e ainda tiveram de enfrentar quatro dias de gravação. Mas vale bancar o advogado de defesa: encontre um solo de gaita de Bob Dylan melhor do que o de “What Can I Do For You?”. Se você ouve “Pressing On” e não tem vontade de se encontrar com Deus, vá ouvir Van Morrison e depois volte a ouvir esta canção. Uma Torre de Pisa de clichês, meu amigo, mas que interpretação! “Don’t look back”, aconselha o bardo. Muita gente desconfiava de que o sentimento religioso de Dylan fosse sincero. Keith Richards disse que Bob era um “profeta do lucro”. Podemos até discutir a qualidade dos trabalhos da fase cristã de Bob Dylan, mas parece inegável que ele de fato acreditava em tudo o que estava dizendo. “Saved” e “Shot of Love” talvez não sejam seus melhores trabalhos justamente pelo fervor religioso, mas é melhor colocar sua alma no que você faz, mesmo que ela esteja um pouco confusa no momento, do que criar uma obra de arte fria e perfeita. No entanto, não deixa de ser irônico que Dylan tenha escolhido o rock, a música do diabo, para salvar as pessoas do Armagedon.

Nota: 7

Continuação: Discografia Comentada: Bob Dylan (parte 2)

*******

- Gabriel Innocentini cursa jornalismo na Unesp de Bauru e assina o blog Eurogol

Texto publicado na(o) Terça-feira, Novembro 9th, 2010 e arquivado na seção Música. Você pode acompanhar os comentários postados aqui através do FEED RSS 2.0.


35 Responses to “Discografia Comentada: Bob Dylan”

  1. Cris A.

    Essa coisa de ficar dando notinha pras coisas… Podre.

  2. babee

    que responsa, hein? comentar essa discografia que é quase impecável :)

    e ficou excelente, parabéns!

  3. Carlos

    Parabens !!! Otimo Trabalho.
    Muito Bom !!! Ganhei o meu dia lendo essa materia.

  4. Wagner Xavier

    Realmente muita boa e oportuna a analise, grande responsabilidade analisar esta obra, mas no geral ficou muito boa mesmo.

    Como um unico senao, acho que o Time Out of Mind foi supervalorizado em relação ao discos como Blonde on Blonde ou Highway 61 Revisited..

    Parabéns pelo conteudo,

  5. Sal

    Legal, mas acho que o Empire Burlesque merecia mais…

  6. fabrizzio

    Trampo excelente. Parabéns ao autor.
    Sobretudo por ter tido a pachorra de escutar tanto o Dylan cantar.
    Isso que é amor, isso que é respeito - sem ironia alguma!

  7. José Henrique

    “O cabelo de Dylan cresce à medida que sua consciência se expande”
    Tirada excelente!!!
    Por isso que o Dylan que eu mais gosto é cabeludo da fase Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde.

    PS: Parabéns pelo trabalho - em todos os sentidos, cara!

  8. LUÍS CARLOS BATISTA

    Só uma correção. Bob Dylan não se converteu ao catolicismo, como dito no texto, mas sim ao protestantismo evangélico no final dos anos 70.

  9. Tiago Ribeiro

    Sensacional discografia comentada!.Só acho que o Modern Times merecia uma nota maior.
    Parabéns a você Gabriel pela a ótima iniciativa de fazer este belo trabalho.

  10. Mac

    Luís, não usamos “catolicismo”, mas “cristianismo”, um termo mais amplo que engloba tanto o catolicismo quanto o protestantismo. Assim, pode-se dizer que Dylan converteu-se ao cristianismo, mas vale muito seu acrescimo.

    Abraços

  11. LUÍS CARLOS BATISTA

    Valeu MAC pela resposta. A discografia comentada está magnífica, com ótimas informações e análises.

  12. LUÍS CARLOS BATISTA

    Como já disse os textos estão excelentes, um trabalho realmente fantástico. Mas não posso deixar de fazer uma leve crítica, dar 9,5 para “Bringing It All Back Home” (1965) é quase uma heresia…

  13. Sérgio P. Alves

    Ótimo texto. Obviamente que reflete uma opinião pessoal e portanto, a maioria vai discordar desta ou daquela análise. Também não curto muito essa coisa de ‘dar nota’ aos disquinhos, mas a moça acima foi bem grosseira!

  14. Paulo Schwinn

    Tudo bem, ‘New Morning’ não é mesmo um clássico, mas tem, na minha opinião, uma das mais belas canções que Dylan escreveu: ‘Day Of The Locusts’. Ouçam, pois é linda!

  15. Robson FLORENCIO PAIM

    Bob Dylan é um dos maiores representantes da música folk e um chico buarque inglês polêmico. Possui quase todos os LPs do rei da folk-music e alguns DVDs. Dylan representa os anos sessenta cheio de atitudes. As letras são realmente uma poesia. Adeptos de Bob Dylan:
    Lucas Teixeira da Silva (Minas Novas/MG), Lindomar Cabeleireiros, Maria Pinto Paim, Arcelino Firmino Maia, Evêncio Patrício Neto, Fábio Lobato dentre outros que curtem o bom e o melhor do rock and roll.
    http://geocities.ws/robsonflorencio/acervopaim
    http://geocities.ws/renaissancehaslam

    ROBSON FLORENCIO PAIM - DE CORGUINHOS DE IGUATAMA PARA BH.

  16. André LDC

    Gabriel, só uma correção: a música “Wigram”, no disco “Self-Portrait”, chama-se, na verdade, “Wigwam”. Curiosamente, fez muito sucesso no Brasil na versão de um conjunto instrumental chamado The Magnetic Sounds. Até hoje toca em momentos flashback de rádios FM.
    Porém, prefiro a versão original.

  17. Matheus

    Mac, a música “Peggy Sue” é na verdade “Peggy Day”. E respondendo ao Cris A.: se você não sabe, os críticos têm o costume de dar notas ou estrelinhas no final dos reviews.

  18. Roberto

    New Morning melhor do que Nashville Skyline? Nunca! Tirando a faixa-título e “If Not For You”, o disco só tem faixas mornas, sem sal. Essa é minha opinião (pode ser que mude quando eu ouvir o disco novamente).

  19. Fernão Vale

    Excelente texto e análise, estou lendo e ouvindo pros shows. Só uma coisa: 40 shows em estádios, 12 milhões de pessoas. Tem que ter umas 300 mil pessoas por estádio… Nem o Maracanã no auge… Deve ter um zero a mais

  20. achocds

    bob dylan é genio todo mundo bebeu dessa agua, esse idiota que reclamou da nota deve gostar de restard liga nao. parabens !

  21. achocds

    DYLAN É O MAIOR ARTISTA DA HISTORIA?UM GENIO REFERENCIA PRA TODO MUNDO.
    /

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