Música: The Boatman’s Call, Nick Cave

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“The Boatman’s Call”, Nick Cave & The Bad Seeds
por André Pagnossim

Quando morou no Brasil, durante o período de 1989 a 1993, Nicholas Edward Cave entusiasmou-se com a tardia descoberta de uma palavra da língua portuguesa, a única no mundo, que definia um sentimento que atormenta a raça humana há incontáveis anos. Tal sentimento expressa uma indizível sensação de triste lembrança por algo que está longe de nosso alcance.

Esta palavra é “saudade”.

No disco que gravou naquela época em nosso país, “The Good Son”, Cave tentou passar em suas canções tal sentimento. O resultado foi o disco mais intimista de Cave até então, pois, despido de suas “máscaras” (leia-se os personagens e alter-egos de seus discos anteriores), o artista pôde cuspir para fora todas suas angústias de forma mais calma e serena, com um clima de esperança no ar. Enfim, como a saudade.

Após dar ao mundo em 1996 um disco banhado em sangue, “Murder Ballads”, Nick Cave sofreu um baque. Sua musa e amante à época, a também artista P.J. Harvey, abandonou-o. Sufocado novamente com a saudade, aquela nova definição para um sentimento que persegue a humanidade há incontáveis eras, Cave sentou-se ao piano para compôr aquele que seria, para muitos, a obra-prima de sua carreira com os Bad Seeds: “The Boatman’s Call”, de 1997, uma compilação de canções tristes, muito tristes, sobre o sentimento da perda, da solidão e… do amor. Cave já disse uma vez que todas as suas canções são canções de amor, mesmo as mais absurdamente violentas. E quem somos nós para discordar?

“The Boatman’s Call” é nada mais nada menos que um enorme manifesto de um homem atormentado com o mundo que o cerca. Um homem que canta sobre uma amante que se foi, sobre a maldade no coração das pessoas, sobre o Deus que está sempre a seu lado, mesmo nos momentos em que não ‘O’ reconheça. Um álbum negro com letras impressas em vermelho. Melancolia e saudade. Saudade na capa: o artista sozinho, olhando fixamente para o lado, num triste preto-e-branco (cortesia de Anton Corjbin, renomado fotógrafo e diretor de clipe que já trabalhou com artistas como U2 e Depeche Mode).

Saudade no título: “O Chamado do Barqueiro”. O Barqueiro, figura solitária, que leva as pessoas até seus destinos, remando quase automaticamente seu veículo por toda uma vida, por águas calmas e escuras. O Barqueiro que nos chama para levar-nos para lugar nenhum, lugar que temos esperança em encontrar aquilo que procuramos, aquilo pelo qual temos este terrível sentimento de lembrança por estar longe.

Saudade na música: nunca em qualquer outro disco a voz de Cave foi tão serena. Esqueça os berros de “From Her to Eternity”, nada mais de uivos de “Henry’s Dream”. Cantando em tom grave e quase sussurado, Nick Cave é embalado por um Bad Seeds igualmente lírico em seus instrumentos. Piano, baixo e violino marcando quase todas as músicas. Uma guitarra que em quase nada lembra o Blixa Bargeld de anos atrás, e uma bateria tocada com vassoura quase silenciosa, transformando a batida outrora pesada da caixa e prato de condução em veludo. Vagarosamente, nossos ouvidos vão sendo preenchidos por uma, duas, três, doze obras-primas da música contemporânea, num mundo pop mtvístico tão plástico que, ao ouvirmos tal disco, temos a alma completamente lavada.

O Barqueiro do título já é citado na canção “Lime Tree Arbour”, um arrepiante poema sobre o amor entre um homem e uma mulher. Tema tão banal, não? Porém, como não cair de quatro diante de versos como “Through every breath that I breath and every place I go/There is a hand that protects me, and I do love her so”. Cave, com sua voz gravíssima e seu órgão Hammond, acompanha os Bad Seeds nessa lírica jornada de um casal em comunhão com a Natureza, e vice-versa.

“People Ain’t No Good” poderia muito bem ser classificada em alguma lista das “músicas mais tristes de todos os tempos”. A revolta de Cave contra a maldade no mundo aqui é relativamente branda, pois trata-se de uma revolta contraposta a um sentimento de nostalgia (ou saudade). “The sun would stream on the sheets/Awoken by the morning birds/We’d buy the sunday newspaper/And never read a single word”, canta Cave, logo antes de chorar que as pessoas não são boas.

A relação entre a espiritualidade e o amor por uma mulher não é novidade na obra de Cave, mas ela toma forma total em “Brompton Oratory”, com as evocações da amada sendo comparada à vida de Cristo e dos Santos. Cave, ao olhar para as estátuas de pedra dos Apóstolos, comete um dos versos mais maravilhosos já escritos: “And I wish that I was made of stone/So that I would not have to see/A beauty impossible do describe/A beauty impossible to believe”. Termina a declaração de amor; amor não, dependência de alma à amada, dizendo que nenhum Deus e nenhum Diabo poderiam fazer o que tal mulher lhe fez: levá-lo a ajoelhar-se ao chão.

Deus e espiritualidade são temas recorrentes às canções de Cave desde os velhos tempos do Birthday Party. Mas se nas canções dessa banda seminal ao pós-punk, Cave era quase totalmente ligado ao Velho Testamento, com suas pragas, catástrofes e matanças desenfreadas, hoje ele prefere basear-se na serenidade do Novo Testamento para escrever suas letras. “There is a Kingdom”, quinta faixa do disco, poderia muito bem ser um hino religioso de alguma igreja pentecostal. Esta canção é um voto de amor de Cave a… Deus. Mas com um mar de diferença com a pieguice geral das músicas “gospel” feitas hoje em dia, que mais parecem sermões pobremente musicados que qualquer outra coisa. “There is a Kingdom” é uma canção tão triste e bela que sua introdução é uma referência quase explícita a “Perfect Day”, de Lou Reed.

“(Are You) The One That I’ve Been Waiting For?” trata daquela sensação visceral – que todos passamos várias vezes durante a vida – de acabar de descobrir (ou pensar que descobriu, o que é sempre mais provável) a pessoa certa. Acompanhado por um arranjo devastador, Cave sussurra palavras igualmente devastadoras, questionando no título da canção uma realidade que já é certa. Tal letra traduz com exatidão uma declaração de Cave onde ele dizia que, logo que começa um relacionamento, ele tem em mente que isso não durará por muito tempo. Em certo momento da música, Cave compara o Amor aos astros no céu: “The stars will explode in the sky/But they don’t, do they?/Stars have their moment, and then they die”. E conclui com uma reflexão sobre o final de um relacionamento, que mesmo sendo extremamente desgastante e deprimente, nos ensina algo: “Of sorrow entire worlds have been build”.

“Where Do We Go Now But Nowhere?” traz lembranças passadas ao lado de uma mulher, lembranças essas pouco agradáveis, porém, extremamente necessárias para se levar adiante um relacionamento que termina com a morte da amada. Através de versos muita vezes surreais que contam episódios de tal relacionamento, Cave termina o relato com as palavras “If I could relive one day of my life/If I could relive just a single one/You on the balcony, my future wife/O who could have known, but no one?”. E repete várias vezes o mórbido refrão: “O wake up, my love, my lover, wake up…”.

“West Country Girl” fala de uma mulher, como diz o título, vinda da região oeste do país, cuja beleza destroça imediatamente o coração do narrador, levando-o à obsessão. Uma canção de letra muito descritiva, concebendo à mulher amada um “corpo divino com suas quatorze estações”, e termina com outro verso fantástico de Cave: “Well, who could ask much more than that?/A West Country Girl with a big fat cat/That looks into her eyes of green/And meows, “He loves you”, then meows again”.

“Black Hair” é um manifesto lírico a um grande amor que foi embora de trem (“Today she took a train to the west”). Cave descreve o físico e o psicológico da amada de forma apaixonada e sempre relacionando-os com seus cabelos negros: “And all her mystery dwelled within her black hair/And her black hair framed a happy heart-shaped face”. Alusão explícita à cor dos cabelos de Polly Jean Harvey. O instrumental da canção é muito simples e belíssimo: apenas um órgão por Cave e um acordeon por Warren Ellis.

Estilhaços de “Murder Ballads” são encontrados na décima canção do álbum, “Idiot Prayer”. É a história de um homem que está morrendo, e ele não sabe se encontrará seu antigo amor, já falecido, no Céu ou no Inferno. Muita ironia cerca a letra, como no verso “Is Heaven just for victims, dear?/Where only those in pain go?” ou então “If you’re in Heaven then you’ll forgive me dear/’Cos that’s what they do up there/But if you’re in Hell, then what can I say?/You probably deserved it anyway”.

“Far From Me” é a que leva a autobiografia do disco às últimas conseqüências, pois é uma canção cujo processo de escrita acompanhou todas as etapas de seu relacionamento com a mulher em questão. Cave escreveu seus primeiros versos justamente no início do relacionamento, onde tudo era belo e florido. Conforme o relacionamento foi se desgastando, os versos seguintes iam tornando-se pessimistas e pungentes, até explodirem em melancolia e até cinismo (“You were my brave-hearted lover/But at the first taste of trouble went running back to mother”). Assim, como diz Cave em seu ensaio “The Secret Life of the Love Song” (que disseca o processo de composição e motivo de existência da canção de amor), “Far From Me” foi uma canção que ganhou vida própria e acabou dominando seu próprio autor, direcionando o rumo que sua vida tomava.

E por fim, a primeira canção do disco. Nick Hornby, autor de “Alta Fidelidade”, numa genial crítica ao disco de Nick Cave and The Bad Seeds, “No More Shall We Part” (link no final), comenta que “The Boatman’s Call” já é, em seu primeiro verso, diferente de tudo o que é produzido atualmente na música popular. Ele fala sobre a canção “Into My Arms”, e do verso “I don’t believe in an interventionist God”. Hornby justifica seu comentário dizendo que, na música contemporânea popular, Deus é tratado superficialmente, em versos como “Fuck God” ou “God, I love that chick!”. Para a música de Nick Cave, nada é tão simples assim. Ao abrir “The Boatman’s Call” com esse verso, “I don’t believe in an intenvertionist God/But I know darling that you do/But if I did I would kneel down and ask Him/Not to intervene when it came to you”, nos é dada mais uma vez a prova definitiva de que Nick Cave é um dos grandes letristas da música, podendo facilmente ser posto ao lado de Bob Dylan, Leonard Cohen e tantos outros que têm esse raríssimo poder de fazer o ouvinte refletir sobre o fato de que um dos motivos da vida valer a pena é o simples fato de existir música assim.

Texto publicado no Scream & Yell originalmente em 28/08/2005

Leia também:
– Discografia de Nick Cave comentada, por Leonardo Vinhas (aqui)
– “Doce Miséria – A suavização de Nick Cave”, por Nick Hornby (aqui)

6 thoughts on “Música: The Boatman’s Call, Nick Cave

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