Dois olhares sobre Tulipa Ruiz

“Efêmera”, Tulipa Ruiz (YB Music)
por Tiago Agostini

Há algo de especial na voz de Tulipa Ruiz. Talvez seja o timbre doce que perpassa as melodias simples, cresce nos momentos certos, ou a maneira com que sobe aos agudos mais difíceis com a facilidade de quem atravessa uma rua deserta. Mas não é de arroubos técnicos que “Efêmera”, disco de estréia da Tulipa, é feito. De boas cantoras, afinadas, o Brasil está cheio. O sentimento sincero presente na voz de Tulipa, porém, é algo raro de se encontrar.

Tulipa é menina mulher vestida de simpatia pura. Moça de riso fácil, canta sobre essas coisas simples pelas quais nós, jovens de 20 e tantos anos, passamos todos os dias. Mais do que isso, canta com o ponto de vista daqueles que ainda são ansiosos e temerosos com o futuro, mas mesmo assim acordam todo dia e saem por ai de cabeça erguida. Um eterno momento de olhar no espelho e descobrir que a silhueta mudou durante a noite.

“Efêmera” é inebriado com uma dose de sinceridade poucas vezes alcançada por um artista iniciante no Brasil. Ouvir cada uma das 11 faixas do disco é se sentir transportado para o mundo de Tulipa. É sofrer com o platonismo de “Do Amor” ou a desolação de “Sushi”, unir-se pela melodia tortuosa na fuga inevitável de “Às Vezes”, ser mezzo canalha na desculpa de “Pontual” e derreter-se por completo na declaração de “Só Sei Dançar Com Você”. Tulipa canta abrindo o coração, e isso é coisa rara.

Se o timbre da cantora remete imediatamente a Gal Costa, a sonoridade de “Efêmera” vai além da Tropicália. Os arranjos são todos construídos de forma minimalista para parecerem simples, mas a união de linhas curtas mascara a sofisticação da produção. Na verdade, aqui nada é o que parece à primeira ouvida. Os riffs circulares e hipnotizadores de “Brocal Dourado” escondem uma psicodelia pop não viajona. Coisa fina.

No fim, o segredo de “Efêmera” é a jovialidade que o álbum transpira, talvez encontrando par na nova MPB apenas em Curumin. Não que isso diminua outros artistas, mas deslumbrados com os recursos técnicos eles acabam construindo trabalhos cada vez mais complexos e conceituais – e, muitas vezes, inacessíveis. Tulipa abusa da naturalidade para criar um álbum orgânico, que cresce aos poucos e faz 40 minutos passarem como um breve instante de felicidade. É pílula anti-monotonia que combate o mau humor. Tome quantas quiser. Não há risco de overdose.

*******

Tulipa Ruiz ao vivo no Auditório Ibirapuera
por Juliana Simon

Tulipa que é amiga de Mariana Aydar que teve Gustavo Ruiz como guitarrista que tocou com Dudu Tsuda no Trash Pour 4 e participou em temporadas de show de Marcelo Jeneci e que é filho de Luiz Chagas, que é pai também de Tulipa. Dudu Tsuda, que fez faculdade com Tulipa… Jeneci que compôs com Tulipa… muitos caminhos da nova música brasileira levam à jovem promessa, Tulipa Ruiz.

Entre amigos no palco, Tulipa apresentou as faixas de seu primeiro CD, “Efêmera”, no dia 30 de maio, no Auditório Ibirapuera. Já de cara, a música que deu nome ao álbum e a delicada “Da Menina” anunciavam um show animado, colorido, e a presença vocal e cênica sempre marcantes de Tulipa. A partir daí, a apresentação oscilou entre as boas surpresas (como a estranhíssima “Pedrinho” e as singelas “Aqui” e “Pontual”) e as decepções, como “Sushi” e “Às vezes”, que tiveram interpretações muito menos empolgantes que as registradas na gravação.

A presença de convidados seguiu a mesma linha. “Dia-a-dia, lado-a-lado”, com participação de Marcelo Jeneci, foi, sem dúvida, o ponto alto do show. Delicada, a canção feita a três mãos (Tulipa, Jeneci e Gustavo Ruiz) ainda não foi lançada e arrancou os aplausos mais emocionados da plateia. De surpresa, Tulipa chamou ao microfone Dudu Tsuda – escondido no teclado e piano – para cantar a divertida “Tip-toe Through the Tulips”. A aguardada “Só Sei Dançar com Você”, no entanto, perdeu a graça em dueto com Mariana Aydar, que dominou boa parte da música de maneira bastante insossa.

A influência da Tropicália, que já era evidente no trabalho de Tulipa, ficou escancarada quando a artista disse que cantar Caetano “é inevitável” e emendou sua versão para “Da Maior Importância”, do álbum “Qualquer Coisa” (1975).

Além da música, a produção visual chamou a atenção. Nas canções “Do Amor” e “A Ordem das Árvores”, as ilustrações projetadas no fundo do palco foram parte fundamental – às vezes protagonistas. A primeira, cantada à meia-luz, acompanhava uma animação de uma viagem de trem vista de dentro do vagão. A segunda, uma explosão de cores e ilustrações (porque além de cantora, Tulipa é formada em Multimeios e também capricha nos traços de desenho).

“Brocal Dourado” e o bis de “Efêmera”, que encerraram o show, ganharam uma “arte” inesperada: a parede retrátil atrás da banda subiu e o público, que já dançava, pôde ver o parque e a banda descendo para o fundo do palco e correndo pelo gramado em despedida.

O final relembrou a Tulipa dos shows mais descontraídos, em que a cantora parecia muito mais segura da força de seus “hits”. A confiança deve vir com mais tempo de estrada. Enquanto ela não aparece, o Auditório Ibirapuera parece ostensivo demais para a simplicidade da cantora.

********

Tiago Agostini é jornalista e assina o blog Balada do Louco
Juliana Simon é jornalista e assina o blog Deixo Um Post It

13 thoughts on “Dois olhares sobre Tulipa Ruiz

  1. sim! dá muita vontade de ter tomar uma dessas, sem risco de overdose, depois de ler o texto. muita gente boa indicando essa guria – que só conhecia por ouvir cantar com o Cérebro. sucesso a todos!

  2. Parabéns, enfim você fez um texto com uma artista de verdade. Olha pra esse lado e esquece um pouco essa banda ruins que costuma exaltart.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.