texto de Leandro Luz
Hong Sang-soo é disparado o cineasta que mais e melhor sabe filmar o “mundo do cinema” hoje. E isso não tem nada a ver com ativar estrelas hollywoodianas, recuperar gêneros cinematográficos clássicos ou recriar grandes momentos da história da sétima arte. Eventualmente, pode nem ter a ver com uma ideia nítida de cinefilia. Em muitos dos filmes do diretor – e “O Dia em que Ela Volta” (“그녀가 돌아온 날”, Hong Sang-soo, 2026) se encaixa perfeitamente neste grupo -, o que está em jogo é antes a maneira como a profissão das personagens ajuda a compor um instantâneo de uma vida do que as neuroses do cinema em si.
É possível expandir ainda mais, uma vez que parte desses personagens que habitam os filmes do sul-coreano nem trabalha com cinema propriamente. Alguns são escritores, dramaturgos, pintores, enfim, trabalhadores da arte por excelência. Em “O Dia em que Ela Volta” conhecemos Bae Jeongsu, interpretada por Song Seon-mi (em sua oitava parceria com Sang-soo), uma bem-sucedida atriz de cinema e de TV que ficou afastada das telas por uma década em função da maternidade. Para o seu comeback, ela escolheu um filme independente “de autor”, e o enredo apresenta essa atriz passando por uma bateria de entrevistas com a imprensa no lançamento desse novo trabalho.
Três jovens jornalistas ou críticas de cinema conversam, uma de cada vez, com Jeongsu em um restaurante especializado em comida alemã. A composição é sempre muito parecida: filmada em ângulo diagonal, sentada à mesa, a atriz ocupa o lado direito do quadro, com a face esquerda do seu rosto mais voltada para a câmera e a outra bem iluminada pela luz natural que emana através de uma janela; por sua vez, cada entrevistadora ocupa sempre o lado esquerdo no enquadramento. Interessa mais ao cineasta a luminosidade das expressões de Jeongsu a cada pergunta que recebe. O rigor da composição é confrontado com a variação da duração de cada conversa (a terceira parece consideravelmente mais curta) e com o tom adotado pelas mulheres ao perguntarem sobre o filme e, sobretudo, a respeito da vida íntima da artista. Sang-soo e as micro variações que costuma impor a suas narrativas. É bom lembrar que o seu interesse está nos detalhes, raramente nos grandes gestos.

Os esporádicos e cuidadosos cortes para os planos-detalhe das mãos e das louças fazem parte da linguagem que Sang-soo vem construindo há três décadas – especialmente nos últimos dez anos. Desta forma, valorizam-se os planos longos e a performance dos atores sem que o ritmo escape ao controle. Aliás, Sang-soo parece cada vez mais obcecado com o ritmo de seus filmes, e nem sempre o controla somente por meio do corte, mas em especial pela cadência interna de cada plano.
Embora o cineasta seja conhecido pela maneira peculiar com a qual escreve os seus roteiros – cena a cena, diálogo a diálogo, eventualmente na manhã de cada dia de filmagem -, o método utilizado não parece atrapalhar a precisão na qual os seus filmes são atuados e depois montados. A radicalização de seu cinema está diretamente ligada à escolha de filmar com uma equipe cada vez mais reduzida e de assumir para si as funções principais antes, durante e depois do set de filmagem: aqui, Sang-soo dirige, escreve, produz, monta, fotografa, compõe a música original e pensa o design de som; e o faz ao lado de sua companheira (de trabalho e de vida), Kim Min-hee, e de outros pouquíssimos colaboradores que ficam ao cargo de funções ligadas à produção e à distribuição.
Uma das escolhas mais eficazes em “O Dia em que Ela Volta” são os entreatos com a atriz fumando agachada em frente ao restaurante. São essas interrupções, esses breves intervalos de tempo que transformam um filme comum em um novo sopro artístico. A vida acontece de verdade nessas brechas. Para encerrar a obra, Sang-soo escolhe também uma situação ligeira para amarrar essa ideia, em uma das raras ocasiões em que uma personagem de seus filmes recusa “mais um drink”.
Mas, antes dessa última cena, há uma segunda parte, tão fundamental quanto a primeira. As entrevistas se encerram e Jeongsu vai para uma aula de teatro. Lá chegando, a professora pede um exercício simples: escrever e encenar o que se passou durante o seu dia. Depois de 30 minutos ou 1 hora de escrita e memorização, a atriz representa as mesmas conversas que vivenciou anteriormente, condensadas em um único diálogo que interpreta com a ajuda de uma colega de turma. A cena é espantosa, pois dá a ver uma série de reflexões que ampliam o víamos até então. Um espelho do processo de criação do próprio cineasta que abre possibilidades de discurso.
Se por um lado havia uma cordialidade excessiva entre Jeongsu e as jornalistas, no texto escrito e representado por Jeongsu – criado de memória, repleto de lacunas e cacos -, a conversa é mais seca e profunda. A atuação menos errática e mais concentrada. Sang-so, com este movimento, demonstra que o seu cinema pode parecer simples e improvisado, mas na verdade esconde uma concentração profunda, uma aplicação sistemática de métodos de trabalho e sistemas de controle que o faz ser um dos cineastas mais emblemáticos e distintivos de sua geração.
“O Dia em que Ela Volta” faz menção, em seu título, a outro trabalho do cineasta, “O Dia em que Ele Chegar” (“북촌방향”, Hong Sang-soo, 2011). Em comum, o fato dos dois protagonistas – aqui uma mulher, no filme de 2011 um homem – terem vivido um hiato em suas atividades profissionais – ela atriz, ele diretor de cinema – e os múltiplos encontros pelos quais eles cruzam. É interessante perceber como o cineasta ficou particularmente famoso pelos protagonistas masculinos e bobocas que criou em sua filmografia, mas que nesses últimos anos os seus melhores trabalhos têm se concentrado gradativamente mais no universo feminino. A vida, como quase sempre, ditando os rumos da arte.
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– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
