Faixa a faixa: Daniel Groove apresenta “Quarto Secreto”, seu quarto disco solo

texto de Marcelo Costa
faixa a faixa de Daniel Groove

Durante a pandemia, com o confinamento instalado e cada pessoa mergulhada (com seus anjos e demônios) em seu próprio universo, todos precisavam encontrar um lugar de segurança para o corpo e a alma. Esse caminho para se manter são e combativo é o fio condutor de “Quarto Secreto” (2026), quarto álbum de Daniel Groove, um enredo amoroso que por vezes recupera lembranças, e em outras faz projeções de futuro. São oito faixas inéditas, parcerias de Groove com Daniel Ratto, Danilo Guilherme, Dito Bruzugú, Marcos Vitoriano, Rian Batista e Saulo Duarte.

Em conversa com o Scream & Yell quatro anos atrás, no backstage do Festival Casarão, em Porto Velho, Daniel Groove manifestava o desejo de sair da zona de conforto: “Acho que fiz bem o meu ‘Love Me Do’ e agora quero fazer meu ‘Sgt Peppers’”, explicava, mas sem saber ainda o rumo que seu vindouro quarto disco teria. “Quarto Secreto” reafirma a vocação pop de Groove, mas, pela primeira vez, o traz utilizando diferentes estéticas sonoras para cada canção, com arranjos que remetem aos momentos e recordações em que as histórias de seu personagem se passam no tempo.

Com produção musical de Rian Batista e direção artística do próprio Groove ao lado de Flávio Alves, “Quarto Secreto” foi gravado no Estúdio Canto da Coruja (Piracaia/SP), e mixado e masterizado por Ricardo Prado. Na banda que gravou o álbum, dois Cidadão Instigado (Rian no baixo e Clayton Martins na bateria), a guitarra elegante de Carlos Gadelha (O Jardim das Horas) mais Ricardo Prado (teclado) e participação especial de Estevan Sinkovitz tocando guitarra em quatro canções. Com capa de Dani Porto, o álbum é um lançamento do selo Sete Sóis, com distribuição da Tratore. Abaixo, Daniel Groove comenta sobre cada uma das oito faixas de “Jardim Secreto”.

“QUARTO SECRETO” faixa a faixa por DANIEL GROOVE

01) ‘Flor de Jasmim” – Ao entrar nesse quarto lhe é ofertada a oportunidade de se confrontar, como nunca antes, de se olhar no espelho como se fosse a primeira vez. A gravidade da situação ajuda a ver com clareza o que realmente importa. Juntou o que tinha, nem era muito, um punhado de canções e algumas coisas pra dizer.

02) “Recorte do Tempo” – O abatimento chegou, já são muitos dias, já são muitas vidas perdidas e o nosso personagem segue coerente com a sua tristeza, carregando muito peso em seus braços, muitas dúvidas… mas ele é salvo pela chegada de uma filha, que força o nosso personagem a fazer um recorte no tempo pra transformar esse quarto de tristeza num quarto que guarda o segredo de uma força escondida, de um desejo secreto.

03) “Seu Rapaz” – Hoje foi um dia difícil pro nosso personagem e na ausência de algo bom pra pensar ele se salvou com uma lembrança da época em que era jovem, alegre, quase puro… Quase puro mas já com a capacidade de prometer o que não poderia cumprir.

04) “De Mim Nada Sei” –  É uma canção sem metáforas, a letra diz exatamente o que ela quer dizer e é o oposto de “Enquanto eu acreditar eu vou correr”, uma canção de “Giramundo”, meu primeiro disco. Se lá, a letra começa com “quando eu cheguei em casa aquele dia, de repente eu vi que eu estava exatamente onde eu queria mais estar”, aqui há um entendimento de que não se pertence mais àquele lugar. Já houve o tempo de ser, mas já foi e a certeza de que amar também é deixar ir. Amar tem que ser um sentimento libertário.

05) “Canção Pro Meu Medo” – Em algumas ocasiões se fez necessário sair do quarto, sair de sua zona de segurança. Da primeira vez que isso aconteceu eu estava no trânsito, engarrafado, tudo parado e aí veio, pela primeira vez, uma crise de pânico. Não tinha onde encostar, não tinha a quem pedir ajuda. Era o jeito, receber o medo, aceitar. Pensei em como resistir a tudo aquilo e resolvi lutar com a arma que tinha, no caso, a música. Resolvi que, em vez de congelar, ia fazer uma canção para o medo. Lembrei daqueles bailes antigos de carnaval, do clube, criança dormindo no colo da avó. Lembrei da segurança daquele colo, do cheiro de café com cigarro, lembrei que era fevereiro e que tudo que queria naquele momento era ver março chegar.

06) “Cores ao Sol” – Hoje ele acordou pensando no que fazer pra não pirar. Resolveu lembrar de casa, se imaginou na praia, na praia de Iracema vendo o pôr do sol com a ponte ao fundo. Pensou em gente jovem vestindo roupas coloridas, uma mulher bonita e misteriosa com a canga tremulando ao vento. Quase sentiu os pés pisando na areia… entrando entre seus dedos. É o que o Sol diz todo dia: hello, goodbye… a tarde sempre cai. Mas respirou fundo e tentou não pensar na mensagem opressora que o sol teima em nos dar, como quem grita “menos 1, menos 1”. Fez força mas conseguiu, conseguiu agradecer pelo privilégio de só por hoje estar vivo.

07) “Super Herói” – Daniel com dois super-heróis balançando suas meninas na rede, um hábito que ele herdou de sua mãe, algumas de suas memórias mais bonitas são embaladas pelo balanço da rede e a voz de sua mãe. Essa canção foi feita e refeita muitas vezes balançando sua nova filha e, por fim, balançando a neta, que Daniel perdeu para uma doença em 2024. Super-herói fala de um pai brincando com suas meninas, fazendo de um homem só uma capa, fazendo de suas tristezas histórias impressionantes para simplesmente tirar delas um sorriso. “Super-herói” é, antes de tudo, uma canção de amor que deixa mais do que uma mensagem de saudade ou de tristeza, mas de confiança no novo tempo que há de chegar. É uma canção para homenagear suas filhas e em memória de sua neta.

08) “Sereno Doido” – Chegou a hora de sair do quarto. Nosso personagem está atrasado porque vai tocar e é dia de Carnaval. Ele está com a filha de mãos dadas, passando pelos carros no engarrafamento, em plena contramão. Como se não pudesse piorar a situação começa a cair um sereno que ameaça virar uma chuva torrencial. Mas não dá tempo de se abater, ele olha pro lado e vê a filha sorrindo com os pingos da chuva caindo no rosto. Ele descobre que está feliz, depois de muito tempo, feliz. Chega quase a sentir remorso por isso mas resolve agradecer. Bom mesmo é ser feliz na chuva, em plena contramão!

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. As fotos que abrem o texto são de Alisson Freitas

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