texto de Paulo Pontes
fotos de Douglas Mosh
São Paulo viveu um dos começos de semana mais movimentados da sua história recente. No domingo, dia 25 de outubro, a capital paulista esteve no centro das atenções de todo o país devido à realização do segundo turno de uma das eleições mais polarizadas e decisivas da história do Brasil. Em meio ao fluxo contínuo do pleito e ao acompanhamento tenso da apuração dos votos, o Iron Maiden realizava a primeira de suas duas apresentações no Nubank Parque, como parte da “Run For Your Lives World Tour”, celebração que marca os 50 anos da fundação da banda britânica. Dois dias depois, na terça-feira, dia 27, a atmosfera na cidade já se apresentava em outro ritmo: com a definição das urnas concluída, o público pôde se desligar da pauta política (em partes, já que o candidato derrotado decidiu fugir do país) e voltar suas atenções integralmente para a experiência musical.

O tempo incerto que marcou o início da semana deu lugar a uma terça-feira firme e sem chuva na região da Água Branca. O clima paulistano, ligeiramente mais frio e fresco, serviu como pano de fundo para o movimento constante de milhares de fãs vestidos de preto que tomaram os bares, calçadas e acessos do estádio do Palmeiras desde as primeiras horas da tarde. No interior da arena, a expectativa se convertia em energia para o que viria a ser uma noite de heavy metal executada em nível de excelência.

Para abrir a programação da noite, a banda norte-americana Alter Bridge surgiu em cena o e entregou uma performance precisa e muito bem recebida. Diferente do cenário habitual enfrentado por atrações de abertura, que frequentemente lidam com limitações técnicas ou sistemas de áudio abafados, a sonoridade estava clara e equilibrada por toda a extensão do estádio. O vocalista Myles Kennedy conduziu o show com alcance vocal firme e afinação constante. Ao seu lado, o guitarrista Mark Tremonti demonstrou muita técnica, com riffs encorpados e solos estruturados. Com o público atento exclusivamente ao que ocorria no palco, a resposta da plateia foi crescendo gradualmente ao longo do repertório, atingindo momentos de grande adesão na reta final com a execução de faixas como “Metalingus”, “Blackbird” e “Isolation”.

Quando a tradicional vinheta de “Doctor Doctor”, do UFO, ecoou pelos alto-falantes anunciando o início da atração principal, a reação do público foi imediata. O bloco de abertura composto por “Murders in the Rue Morgue”, “Wrathchild”, “Killers” e “Phantom of the Opera” resgatou a urgência e o peso visceral dos dois primeiros discos da banda, estabelecendo um ritmo acelerado para o show logo nos primeiros minutos.

A proposta central da “Run For Your Lives World Tour” consiste em realizar um resgate focado unicamente no primeiro ciclo da trajetória do Iron Maiden, cobrindo o período da discografia lançado entre 1980 e 1992. Praticamente toda essa fase esteve representada na montagem do repertório, com uma única exceção: o álbum “No Prayer for the Dying” (1990), que não teve nenhuma música incluída na turnê. Em contrapartida, o álbum “Powerslave” (1984) ganhou posição de destaque ao ceder quatro composições para o setlist: a emblemática faixa-título, o clássico direto “2 Minutes to Midnight”, a monumental “Rime of the Ancient Mariner” e o hino “Aces High”.

Por não contar com nenhuma composição lançada após o ano de 1991, o anúncio desse repertório atraiu uma presença maciça de fãs veteranos que acompanham o grupo desde as primeiras décadas de estrada. Contudo, o que se observou no gramado e nos anéis das arquibancadas do Nubank Parque foi uma convivência natural e direta entre diferentes gerações. Havia uma quantidade notável de famílias acompanhando o espetáculo. No setor da Pista Premium, era possível visualizar diversas crianças acomodadas nos ombros dos pais, vestindo camisetas da banda e acompanhando cada execução com genuíno entusiasmo.

Um dos pontos de maior curiosidade (e inevitável apreensão por parte dos fãs) era o desempenho da bateria. Substituir o lendário Nicko McBrain, um dos maiores ícones da história do heavy metal, é uma missão ingrata para qualquer músico. No entanto, Simon Dawson segurou a bronca com extrema competência. Na contramão de algumas críticas precipitadas que circularam na imprensa especializada antes da turnê, o novo baterista não apenas passou longe de comprometer o show, como imprimiu uma personalidade segura em diversos trechos das canções. Sem tentar copiar roboticamente cada nuance de seu antecessor, Dawson trouxe uma pegada firme, precisa e com uma dose de energia renovada que casou perfeitamente com a urgência dos primeiros discos, conquistando o respeito de quem estava no estádio.

Outro grande trunfo técnico da noite esteve na equalização das guitarras. Em uma banda que conta com três guitarristas de estilos tão marcantes, o risco de o som virar um “muro acústico” confuso é sempre real. Na terça-feira, a engenharia de som do estádio esteve impecável: cada uma das três guitarras soava limpa, cristalina e perfeitamente distinguível na mistura final. A fluidez e a precisão do timbre de Dave Murray, a pegada mais pesada, cadenciada e cheia de feeling de Adrian Smith e a energia crua e direta de Janick Gers. Essa clareza permitiu que as célebres dobras de guitarra e os solos trocados soassem com uma definição raras vezes vista em shows de estádio.

Em cima do palco, o sexteto demonstrou notável disposição e fluidez de movimentos. Bruce Dickinson destacou-se pelo excelente rendimento vocal, sustentando notas agudas com clareza e mantendo movimentação constante por toda a extensão do cenário.

A produção cênica também apresentou evoluções significativas em relação a visitas anteriores do grupo ao país. A substituição das antigas telas físicas de fundo por um amplo painel digital de LED trouxe recursos visuais de alta definição, complementando a temática das músicas sem desviar a atenção da atuação dos músicos. Na execução de “Hallowed Be Thy Name”, a cenografia articulou uma transição na qual o vocalista simulava sumir da estrutura do palco para surgir projetado no telão, representando a figura de um prisioneiro em tentativa de fuga antes de sua execução, em uma das passagens de maior apelo teatral da noite.

Embora em um catálogo com mais de quatro décadas de história seja inevitável que algumas faixas queridas fiquem de fora (como a ausência de “The Evil That Men Do”, um maior espaço para o álbum “Fear of the Dark” ou a inclusão de composições como “Flight of Icarus”), a seleção apresentada manteve o ritmo e a dinâmica da apresentação sem oscilações. Canções longas e de estrutura complexa, como “Rime of the Ancient Mariner” e a belíssima “Infinite Dreams”, se alternaram com momentos de resposta direta do público, como ocorreu em “The Trooper”, “Run to the Hills”, “Aces High”, “Fear of the Dark” (aquela que todo mundo fala que enjoou, mas é a mais bem recebida em todas as passagens do Maiden pelo Brasil) e no encerramento festivo com “Wasted Years”.

Analisando a trajetória recente da banda no país, esta apresentação de terça-feira no Nubank Parque se posicionou como o melhor desempenho do Iron Maiden em solo brasileiro entre seus últimos quatro shows. O equilíbrio perfeito da sonoridade das guitarras, a integridade vocal de Bruce Dickinson, o encaixe seguro de Simon Dawson na bateria, a sintonia do grupo no palco e o setlist matador resultaram em uma noite de alto nível, na qual o Iron Maiden reafirmou a solidez de sua história e a permanência de seu legado na música mundial.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod
