Entrevista: Emmanulle Boudier fala sobre a 17ª edição do Festival de Cinema Francês do Brasil

entrevista de João Paulo Barreto

Entre 29 de outubro e 11 de novembro acontece mais uma edição do Festival de Cinema Francês do Brasil que, em 2026, comemora seu 17º ano de existência promovendo e apresentando, para o público nacional, filmes da safra recente do cinema oriundo da França, bem como trazendo sessões especiais de clássicos da terra dos criadores do cinematógrafo. O evento acontece em cerca de 50 cidades brasileiras entre capitais e municípios de maior ou menor porte, ocupando, aproximadamente, 100 salas de cinema.

Um dos destaques da edição deste ano é a cinebiografia de quase cinco horas e meia de duração do general Charles De Gaulle, o militar que liderou a resistência contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial durante o período em que a França foi ocupada, com a anuência de parte do governo, pelas forças alemãs. Sucesso na França, com mais de cinco milhões de espectadores, o épico do diretor Antonin Baudry foi dividido em duas partes: “De Gaulle: A França Livre Parte 1” (“De Gaulle: Résistance”), com 160 minutos, e “De Gaulle: A França Livre Parte 2” (De Gaulle: Liberté”) com 157 minutos).

Na comédia, um dos destaques é “Bem-vindos a La Comédie Française”, filme que aborda as dificuldades de uma diretora teatral (Pauline Clément) que está a poucas horas da estreia do seu espetáculo quando tudo começa a dar errado e ela mesma precisará assumir um papel de atriz. Trata-se, também, de um mergulho no ambiente da mais antiga companhia teatral do mundo, La Comédie Française, fundada por Molière em 1680. É válido destacar que as sessões de “Bem-vindos a La Comédie Française” contarão com a exibição do curta de 30 minutos “Duas Pessoas Trocando Saliva”, filme vencedor do Oscar de Melhor Curta Metragem.

Outra comédia, essa com um viés romântico, “O Que é o Amor?” traz o ex-casal Fred Raimbaud (Vincent Macaigne) e Marguerite Hélias (Laure Calamy) precisando revisitar, perante uma autoridade eclesiástica, os erros de seu falido casamento para que ele possa se casar novamente na igreja. No âmbito da animação, o clássico francês de 1980, “O Rei e o Pássaro”, filme que representa um marco desse tipo de cinema, tendo influenciado, inclusive, Hayao Miyazaki e o Studio Ghibli. Outro clássico a ser exibido na mostra francesa é “A Grande Escapada”, comédia de 1966 com a direção de Gérard Oury.

No papo abaixo, Emmanuelle Boudier, curadora e co-diretora geral do evento, aprofunda mais o processo de curadoria do festival e fala sobre as dificuldades em relação a patrocínio. Confira!

Décima sétima edição do Festival de Cinema Francês. A cada ano, o leque de filmes é bem amplo. Há dificuldades na curadoria?
Não tivemos problemas em selecionar os filmes porque, como sempre, a cinematografia francesa apresenta uma diversidade muito grande. Então, teve muita produção boa. Há muitos filmes produzidos e que estiveram presentes nos maiores festivais do mundo, como o de Veneza, Locarno, Cannes. Sempre temos muitas opções de escolha. O problema é mais escolher do que faltar filmes. O mais complicado é que, agora, estamos em uma fase na qual o mercado está fraco, infelizmente. Tem poucos distribuidores brasileiros comprando filmes franceses. Sempre trabalhamos com filmes que possuem distribuidor no Brasil, porque, a função e o papel do festival, também, é de ajudar os distribuidores brasileiros. Isso é uma rampa para futuros lançamentos na salas. Então, quando tem poucos distribuidores brasileiros comprando, para nós, é difícil porque somos nós que temos que comprar todos os filmes. Como o festival acontece em mais de 50 cidades, cada filme tem entre 200 e 300 projeções. É como se fosse um lançamento comercial. Assim, pagamos os direitos dos filmes como se fosse para lançá-los nas salas. Não é como um festival que acontece numa cidade só, que vai fazer apenas uma, duas ou três projeções, paga um “fee” (taxa de exibição) e pronto. Nós temos que comprar os filmes para poder organizar o festival. Então, isso é uma coisa que, às vezes, é complicado. Porque temos que aguardar os distribuidores fecharem os acordos de aquisição dos direitos com os vendedores lá na França. Então, tem muito suspense, às vezes, porque pode demorar. Isso pode ser uma fonte de preocupação. Mas sempre dá certo. E este ano tem vários distribuidores cujos filmes são representados no festival. Tem a Vitrine Filmes, a Synapse, a Fênix Filmes, a Autoral Filmes e a California Filmes. Conseguimos uma boa representação da distribuição brasileira.

O festival sempre marca presença em cinemas de rua, como no caso de Salvador, com o Cine Glauber Rocha e o Circuito SaladeArte. Isso é bem importante para valorizar esses espaços.
Ah, sim. A gente faz questão de estar presente nessas salas porque nós defendemos muito os cinemas de rua. Além disso, gostamos de trabalhar com todo mundo. Então, tem cinema de rua, cinemas com um perfil de salas de arte e, também, tem cinemas de shopping. Trabalhamos, também, com o Cinépolis, com Kinoplex. Porque também é importante que os cinemas de shopping possam dedicar um espaço para outra cinematografia além dos blockbusters americanos. É uma negociação sempre bem difícil, mas, até agora, conseguimos, também, uma presença no shopping. Buscamos mapear o máximo possível todo o leque de cinemas para poder atingir o máximo possível de um público diversificado.

Um dos destaques do festival esse ano é uma produção de quase cinco horas e meia (divididas em duas partes) e conta a trajetória de Charles De Gaulle, um dos heróis da França na Segunda Guerra Mundial. E a cada ano, torna-se uma marca do festival trazer filmes que foram fenômenos de bilheteria no país.
Sim. Esse filme foi o mais marcante na França esse ano. Alias, não somente desse ano na França, mas, eu diria, dos últimos dez anos. É um díptico (N.E. obra em duas partes) espetacular. Uma super produção que totalizou mais de cinco milhões de espectadores na França. Teve um orçamento como poucas vezes houve no cinema francês. Foram mais de 70 milhões de euros. Teve uma frase de um crítico que eu li em um jornal, mas não me lembro agora o nome dele, que disse: “É um filme como os americanos costumavam fazer, mas que não fazem mais, e que são os franceses, agora, que estão fazendo”. Realmente, esse tipo de orçamento é muito difícil de se atingir na França, mas é uma produção muito grande e de muita qualidade, também. Nós gostamos desse filme não somente por essas razões, de orçamento grande, elenco incrível e muitos espectadores, mas, também, porque é um filme que tem um ponto de vista. Um filme que escolheu um período da história da França que foi a organização da resistência. Então, além de mostrar qual foi a luta desse homem que estava sozinho para organizar a resistência, totalmente sozinho, e como isso se desenvolveu, além disso, o filme tem uma mensagem. E foi o que o diretor falou na França: “Esse filme é a minha mensagem para as novas gerações. Nunca desistir da luta, mesmo quando tudo parece acabado, parece desesperador. Individualmente, cada um de nós pode resistir.” Acho essa mensagem muito bonita, muito contemporânea. É um filme necessário no período que a gente está vivenciando no Brasil, na França e no mundo inteiro.

Acho que a escolha do filme vai trazer para o espectador muita dessa reflexão nesse sentido também.
Espero que sim. Espero que sim. É a nossa mensagem. Houve um debate quando escolhemos essa imagem do general De Gaulle como identidade visual do festival. Porque ele é um militar, né? Perguntaram para nós: “Nossa, vocês vão colocar um militar como identidade visual do festival agora com a situação que o Brasil está passando?” E, sim, ele é um militar, mas não é qualquer militar. Ele é o militar que livrou a França do período fascista. Mas teve toda essa discussão. Sempre tivemos uns cartazes bem amorosos com casais se beijando, se abraçando, coisas de amor. E esse ano, realmente, escolhemos chamar atenção do público sobre um problema político.

Ano passado, a marca Varilux deixou de ser a patrocinadora master do evento. Como tem sido o processo de busca de novos patrocínios para manter o festival vivo?
Esta edição, para ser bem transparente, quase foi cancelada. Há três meses, estava cancelada. Porque temos muita dificuldade para juntar patrocinadores, já que a Varilux, que era a marca que, durante 15 anos, nos apoiou, deixou de ser o patrocinador master principal. Eles tinham o nome, o título do festival com a marca. Mas a Varilux foi comprada por uma empresa italiana chamada Luxottica. Essa nova diretoria não manteve a marca Varilux como prioridade dentro da Luxottica. Não é mais o carro chefe. Varilux é a marca de uma lente. E, agora, eles valorizam mais a comunicação e o apoio de outras marcas como a Persol, a Ray-Ban, por exemplo. E, assim, a Varilux começou a diminuir o apoio a tal ponto que, no ano passado, eles perderam o título como nome do festival. Tivemos que renomear como Festival de Cinema Francês do Brasil. Passamos a utilizar o nome genérico porque eles deixaram de ser o patrocinador que, sozinho, permitia a realização do festival. E é muito difícil compensar essa perda. Conseguimos outros patrocinadores, como o banco BNP Paribas, que ajudou muito a viabilizar o festival, mas isso dificilmente compensa. Então, estamos em uma configuração, este ano, muito “no osso”, sabe? Mantivemos 21 filmes em todo Brasil, em mais de 50 cidades e mais de 100 cinemas. Este ano, com uma programação muito boa. Muitos filmes em muitas sessões nas salas. Mas em edições anteriores, conseguíamos fazer coisas ao redor, como sessões ao ar livre, mandar os talentos para outras cidades além de Rio e São Paulo, como Salvador e Recife. Esse ano, a gente não conseguiu fazer. Mas conseguimos viabilizar o festival e estamos, agora, muito felizes por ter salvado essa edição, mas é difícil, é difícil. Mesmo com apoios, claro, como, por exemplo, a gente se beneficia dos mecanismos da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, mas, mesmo assim, se tornou muito, muito difícil. A verdade é que é uma luta. É uma luta grande. Mas é amor à causa, também. Para nós, é muito importante defender a diversidade cultural neste país. Nós vivemos no Brasil há mais de 22 anos, agora. Um dos nossos filhos nasceu aqui, os outros quase se sentem brasileiros. Para nós, estamos aqui defendendo a diversidade. Na medida do possível, criar opções para as pessoas verem outras coisas além do mainstream das produções americanas. Tentar formar plateias, também. Temos muitas ações educativas. Faremos uma ação educativa com o filme cult de animação “O Rei e o Pássaro” (Le Roi et L’Oiseau, 1980), de Paul Grimault, que é um filme que foi um marcador de época. Há o antes e o depois dele. Esse filme inspirou até o Miyazaki e os Studios Ghibli, sabe? Influenciou muito a animação mundial. Vamos exibir esse filme que, também, tem um pano de fundo político. É um filme suave, porque é infantil, mas tem um pano de fundo político porque se trata de um rei que quer se casar à força com uma moça e abusa do seu poder promulgando leis totalmente absurdas.

E um dos filmes vencedores do Oscar esse ano, o curta “Duas Pessoas Trocando Saliva”, também faz parte da programação, não é?
Sim. Ele vai ser exibido antes da sessão de um filme que eu adoro na seleção que é “Bem-vindos à La Comédie Française”. É o tipo de comédia que eu acho que os brasileiros gostam, também. E os atores são incríveis. São todos atores da “La Comédie Française”. Acho muito bonito esse filme por ser uma crítica um pouco desse mundo do teatro francês, mas, ao mesmo tempo, ele faz isso de uma maneira muito benevolente, suave. Uma forma muito gentil e delicada. O curta “Duas Pessoas Trocando Saliva” será exibido antes, e é um filme que eu adoro, também. O assisti antes dele ter sido premiado com o Oscar. Foi a produtora que me mandou e adorei. Achei um filme tão forte. É um filme que se passa em um mundo distópico. É uma obra muito original e crítica, muito fantástica. É uma coisa que não pode se classificar. Não é um filme de terror, não é um filme totalmente fantástico, não é um filme 100% só político. Ele está abrangendo muitos gêneros. É muito interessante a forma e a linguagem desse filme. Depois que assisti, fiquei na torcida para que ganhasse um César. Ele foi indicado, não ganhou o César, mas ganhou um Oscar. Então, fizemos questão de colocá-lo. É a primeira vez que selecionamos um curta para o festival.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar. 

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