texto de Leandro Luz
“Chronovisor” (Jack Auen e Kevin Walker, 2026) se ampara na tradição do mocumentário para construir uma narrativa acadêmico-investigativa liderada por uma professora francesa chamada Béatrice Courte, interpretada por Anne Laure Sellier. Ela está em busca de pistas sobre o chronovisor, invenção que, supostamente, seria capaz de reproduzir imagens de qualquer evento da história da humanidade.
De acordo com teorias da conspiração, registros secretos em arquivos do Vaticano e artigos escritos por monges beneditinos, a tal “máquina que fotografa o passado” teria sido criada na Itália nos anos 1950. Com receio de que caísse em mãos erradas, o dispositivo teria sido escondido ou roubado por um desconhecido. A dupla de diretores lança mão de um estilo que valoriza a ilustração do método de pesquisa por meio de composições fixas e um uso radical do analógico.
Filmado em Super 16mm, “Chronovisor” é composto basicamente por planos da professora sentada em bibliotecas enormes ou no pequeno quarto de seu apartamento investigando elementos de sua nova obsessão em livros, fitas cassete, jornais, revistas e fitas VHS. As imagens e os sons desses materiais também são incorporados à narrativa fílmica. A bricolagem ganha a tela e a duração do filme. Auen e Walker não parecem ter medo de apostar na própria dinâmica procedural para conduzir boa parte do filme.

Um falso documentário analógico em sua essência, portanto. Anne Laure Sellier, intérprete da protagonista, não é uma atriz profissional, mas uma acadêmica da vida real, professora titular da Cátedra de Ciências do Comportamento na HEC Paris. De acordo com os diretores, esta era uma personagem que precisava desse estofo para funcionar propriamente. De fato, Sellier carrega consigo uma postura inabalável em suas intermináveis leituras e análises de documentos antigos. A janela reduzida (1.33:1) da fotografia bem cuidada de Leo Zhang também enfatiza a ideia de que estaríamos testemunhando uma apuração real de um compêndio de ideias alucinadas sobre um dispositivo misterioso.
Poderíamos fazer uma série de comparações deste filme com a literatura mundial, mas a própria sinopse já adianta o trabalho e traz os nomes de Jorge Luis Borges e Umberto Eco para o centro do debate. Para quem já leu algum trabalho dos dois autores, a comparação não é nada descabida. As grandes e pequenas referências manipuladas em “Chronovisor” não tiram o seu frescor. O que vemos ser narrado no filme é justamente o que outras obras costumam deixar de fora de seus enredos. Imaginem as tramas condensadas e frenéticas de filmes como “Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida” (“Raiders of the Lost Ark”, Steven Spielberg, 1981) e “O Código Da Vinci” (“The Da Vinci Code”, Ron Howard, 2006), por exemplo. Agora pensem nas leituras, nas análises e nos esquadrinhamentos feitos pelos protagonistas desses dois filmes, suprimidos em frequentes elipses. É o oposto que vemos aqui.
Outro autor, este menos conhecido, também pode ser trazido à baila para discutir a respeito da lógica empregada em “Chronovisor”. Em “Seu rosto amanhã, vol.1 – Febre e lança”, o escritor espanhol Javier Marías inventa um narrador que é um ex-professor da Universidade de Oxford que, depois de se separar da mulher, decide voltar à Inglaterra. Em uma das passagens mais marcantes do romance, ele conversa com outro professor aposentado, bem mais velho, que o apresenta a um grupo de antigos espiões do núcleo do Serviço Secreto britânico que atuaram contra o nazismo durante a Segunda Guerra. Ao ficar sozinho na biblioteca de seu mentor, o protagonista vira uma madrugada inteira obcecado com uma pesquisa sobre determinado assunto. Mais do que saber profundamente a respeito do assunto que o personagem busca, é a operação que importa para a narrativa.
“Chronovisor” termina com sequências desconcertantes do que seriam essas visões geradas pela máquina, quase transformando tudo em um filme de horror. A imagem rasurada e o som ruidoso constituem a matéria principal desse estranho labirinto.
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– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
