entrevista de Guilherme Lage
Em 1982, quem já tinha idade para se interessar por música foi perseguido por um hit inescapável: “I Ran (So Far Away)”, de uma banda até então pouco conhecida, A Flock of Seagulls, se tornou uma faixa introdutória do que viria a ser chamado naquela década de new wave – apesar de a nomenclatura ser descartada pelo vocalista Mike Score nesta conversa, é quase impossível dissociar sua banda do gênero.
O sucesso foi tão grande que, se no Brasil tivemos a presença de Edu Falaschi na abertura de “Os Cavaleiros do Zodíaco”, quem embalou as aventuras de Seiya e companhia na América do Norte na década de 2000 foi “I Ran (So Far Away)”, em uma versão da banda Bowling For Soup.
Naquele tempo, a MTV ainda não havia chegado ao Brasil, mas era só pisar em alguma pista de dança ou deixar um ouvido a postos para escutar a faixa na rádio. Apesar disso, o grupo não foi de forma alguma um “one hit wonder”. Músicas como “Space Age Love Song”, “Wishing (If I Had a Photograph of You)” e “Nightmares” ajudaram a sacramentar o A Flock of Seagulls como um sucesso global.
Mesmo com todo esse sucesso, a banda não chamava atenção apenas pela música, mas também com alguns penteados dos mais icônicos (Já viu Friends? Saiba que o “moicano” que Chandler usava em flashbacks dos anos 80 foi totalmente chupado do visual de Score, que orgulhosamente usou o penteado durante aquela década). Ainda assim, o grupo não chegou a trazer seus sintetizadores ao Brasil naquela fase.
Isso terá fim em 7 de outubro, quando o A Flock Of Seagulls fará uma apresentação única em São Paulo, no Cine Joia (ingressos aqui). Hoje em dia, o cabelo estiloso foi substituído por uma carequinha, afinal de contas, os anos passam e é comum que os fios sucumbam à gravidade ou às lâminas de uma tesoura. Apesar disso, Mike Score mantém a voz afiada, assim como o sarcasmo britânico. Perguntado sobre a demora para vir ao país, responde aos risos: “Perdemos o ônibus”.
Filhos de Liverpool, o A Flock of Seagulls hoje conta apenas com Score como sobrevivente da formação original. Mesmo com o lineup com sotaque norte-americano, a banda não esquece suas raízes inglesas. Há histórias para mais de metro para contar sobre a cidade que pariu Echo & The Bunnymen e ninguém menos que os Beatles, como relata o próprio Mike.
Na conversa coube ainda espaço para falar sobre a mãozinha dada pela MTV ao sucesso da banda, assim como sobre o processo de composição do disco mais recente da banda: “Some Dreams”, lançado em 2024. Confira!
“Some Dreams” saiu em 2024. Como foi lançar um disco de estúdio depois de quase 30 anos? Foi intimidador de alguma forma? Algo difícil de se fazer?
Não, não muito, porque nós tivemos alguns lançamentos orquestrais de músicas nossas. Acho que o “Some Dreams” tem uma sonoridade bem próxima do que fazíamos no primeiro álbum. Então eu meio que pensei: se as pessoas gostam daquele tipo de música, mesmo que tenha sido lançado há 40 anos, elas também vão gostar do som agora, mesmo que o som seja…como posso dizer, um pouco mais como a versão de hoje mesmo de música. Não é difícil para mim criar aquele tipo de som, mas algumas vezes eu não quero criar aquele tipo de música, quero fazer algo novo e colocar algumas surpresas, sabe?
Para mim, algumas músicas soavam meio que “coming of age”, como um rito de passagem. Falo de faixas como “Castles In The Sky”, “You’re a Fool”, mesmo que pareçam às vezes falar de saudade ou decepção amorosa, você parece focar em coisas como “é, isso é amadurecer, eu preciso viver a minha vida”. Era nisso que você pensava quando estava compondo?
Sim, a “You’re a Fool” é meio que aquela coisa, enquanto você encara a vida, tem bons momentos e maus momentos, e eu estava tentando dizer que às vezes, em um relacionamento, por exemplo, se você não consegue enxergar o que realmente está acontecendo emocionalmente, então você é um tolo. Em um relacionamento as pessoas precisam saber interpretar e entender umas as outras, dizer quando algo está te incomodando e tudo isso.
Então toda a ideia daquela é música é meio que “não olhe para fora, olhe para dentro do relacionamento”. É aquela coisa de olhar e pensar: ué, você está tentando fazer essa relação fracassar? Porque se você quiser que fracasse, só deixe fracassar, porque aí você é um tolo que não quer consertar as coisas. A maior parte das músicas é baseada nas minhas experiências pessoais, como me sinto sobre elas. Às vezes leva alguns anos para que você comece a entendê-las e fazer com que elas façam sentido.
Por exemplo, no começo da banda nós escrevíamos músicas mais voltadas para o sci-fi, porque não precisávamos colocar nenhum tipo de emoção real naquelas músicas. Mas como você disse, quando você amadurece, não é tão difícil dizer “é assim que eu me sinto”, sabe? Então eu diria que as músicas têm esse toque pessoal mesmo.
Você disse que tem facilidade para compor músicas assim, com sentimentos variados, alguns que você até chega a evitar. Então gostaria de te perguntar: sendo um multi-instrumentista, você acha mais fácil meio que transitar entre humores e vibes de cada música? “Agora quero compor uma música assim”? Mudar de instrumentos para compor deixa as coisas mais fáceis para você de alguma forma?
Hum, não acho composição uma coisa tão difícil se estou no humor certo. Depende de com qual instrumento vou escrever a música, às vezes escrevo na guitarra, às vezes no teclado, às vezes um ritmo de bateria um pouco mais básico. Acordo de manhã e a primeira coisa que faço é ir ao meu estúdio, e se surge alguma ideia, começo a trabalhar nela, se não surge, ou simplesmente não estou a fim e pego uma guitarra para tocar qualquer porcaria, eu simplesmente não continuo a trabalhar naquilo.
Há um ponto em que, vamos dizer que eu esteja tocando baixo e pense: ah, isso é legal, aí começo a cantar alguns versos por cima daquilo e penso: olha, isso é legal. Aí vou colocando as guitarras na faixa. Aí, vamos dizer, umas seis semanas depois, pego o teclado e começo a trabalhar naquela música de novo. O processo vai mudando conforme você vai trabalhando na música. Por exemplo, a “Some Dreams”, a faixa, costumo dizer que aquela música se escreveu sozinha, porque eu fui tocar uma parte dela e simplesmente saiu tudo de uma vez, sabe? (risos). Aí consegui fazer a letra rapidinho.
Já outras coisas, como a “Castles”, me tomaram alguns anos pra compor, porque não nasceu como uma música propriamente dita, era mais um arranjo musical mais elaborado. Mas é tipo aquela coisa de sentimento. Por exemplo, se você tem um amigo, namorado, namorada, alguém com quem você quer ter algo a mais e a pessoa não quer ir além com você, é meio que isso. É parecido com esse processo, é meio que tentar alcançar o impossível, sabe? Depende muito do humor, da vontade.
E como a ideia de colaborar com uma orquestra surgiu? Porque deve ser meio desafiador juntar uma música pop com a instrumentação de uma orquestra.
Bom, eu não pensava muito em gravar nosso material com uma orquestra, mas um dia recebi um telefonema da August Day Records e eles disseram “queremos tentar orquestrar suas músicas”, mas eles não queriam perder a música para a orquestra, queriam deixar a identidade e a essência ali. Eu nunca tinha pensado nisso, mas disse: vamos tentar, vamos fazer isso. E ouvir o disco depois, ver o que foi feito, eu pensei: caramba, isso é algo completamente diferente. Nós não estávamos no estúdio quando a orquestra tocou.
Nós gravamos as nossas partes e as gravações foram levadas para Praga, eu acho e a orquestra fez a parte dela. Acho que algumas partes eram uma orquestra de verdade, outras foram partes sequenciadas em Pro Tools e coisas assim, mas o resultado foi ótimo e por isso decidimos fazer um segundo disco, foi muito diferente e muito legal.
Vocês são de Liverpool, né?
Eu sou, hoje em dia o resto da banda é toda dos Estados Unidos (risos).
Em Liverpool vocês têm o Echo & The Bunnymen que é de lá…bom, os Beatles são de lá e vocês surgiram em uma década quando o punk estava começando a aparecer, assim como o heavy metal. Como esses elementos ajudaram a moldar o som de vocês no início da banda?
Bom, eu tenho que começar a responder te contando a verdade e dizendo que naquela época em que começamos nenhum de nós realmente sabia tocar (risos). Então, ouvíamos muitos discos. Claro, ouvíamos os Beatles, Echo & The Bunnymen e todas as bandas que vieram de Liverpool.
Também ouvíamos coisas como Pink Floyd porque gostávamos das guitarras, ouvíamos punk porque gostávamos da energia, então pegávamos todas essas influências e, assim, nem pensando realmente em conseguir um contrato com uma gravadora ou nada do tipo, só meio enfiando tudo junto (risos).
Era meio que “eu não ligo se é punk, vamos colocar umas guitarras tipo PInk Floyd na mistura” ou “vamos tentar criar uma algo atmosférico”, porque ainda era uma época bem influenciada pela “space age”, que era baseada em ter uma atmosfera bem legal.
Nós éramos influenciados por tudo, fosse bom ou ruim, se a gente gostasse estava valendo. Vivíamos meio que na vibe de dizer “eu adoraria ir ver essa banda tocar e ver como é”. Se não gostássemos, íamos ver outra banda e se não gostássemos, queríamos saber o que elas estavam fazendo de errado (risos).
E em coisa de um ano, nós meio que desenvolvemos isso no nosso próprio som e, assim que criamos nosso próprio som, meio que paramos de ouvir todo o resto, porque tínhamos nosso próprio trabalho acontecendo e decidimos nos focar no que nós mesmos éramos.
E o quão importante você diria que foi o papel da MTV na época da segunda “british invasion”? O trabalho da MTV foi fundamental para que vocês estourassem nos Estados Unidos, você diria?
Com certeza, acho que se a MTV não tivesse nos nomeado uma das bandas favoritas da emissora, provavelmente teríamos passado uns cinco ou seis anos tentando fazer algo acontecer, fazendo shows e tentando construir uma base de fãs. O que a MTV fez foi construir uma base de fãs para nós, nos colocou na casa de todo mundo, em tudo que mostrava algo diferente. A MTV nos colocou em todos os walkmans das pessoas.
Eu acho que isso abriu uma porta enorme para todas as bandas de new wave, mesmo achando que nós não somos uma banda de new wave, somos só uma banda boa, sabe (risos). Não queríamos ser trancados numa caixa junto com todo mundo. Só o que a MTV fez foi abrir umas mil caixas para todas essas bandas, bandas que teriam levado cinco anos para ser notadas, foram notadas em duas semanas. Então, MTV, muito obrigado (risos).
Alguns músicos dizem que a melhor coisa que aconteceu a eles foi que a arte atingiu as pessoas antes deles próprios. Vocês tiveram mega hits nos anos 80 e, algumas vezes, as pessoas conhecem sua música antes de necessariamente saberem o nome da banda, a arte vem antes. Isso é algo que você percebe que ajudou vocês?
Gosto disso, porque acho que não é absolutamente necessário saber quem escreveu a música que estou curtindo por agora, sabe? Você simplesmente gosta da música e o motivo de gostar é que ela te toca de alguma forma, entra na sua cabeça, entra no seu coração. Não acho que é tão importante saber quem escreveu uma música. Eu mesmo faço isso, sabia? Escuto algo no rádio e penso: nossa, que música ótima. Mas não saio atrás de saber quem foi que fez ou canta aquela música, só fico torcendo pra ouvi-la de novo logo (risos).
Há outras pessoas que ouvem algo e querem saber qual o tamanho de sapatos que você calça (risos), se você usa óculos, querem saber tudo sobre você. Acho que qualquer ângulo é muito legal, mas desde que as pessoas ouçam sua música, sejam impactadas por ela e a entendam, é o mais importante. Mas mesmo que seja uma música um pouco mais trivial, que te faz rir, sorrir, que alcance alguém de algum jeito, não é importante quem escreveu. É como você disse, é arte e a arte vem antes.
Essa é a primeira vez que vocês vêm ao Brasil, não é?
Eu acho que sim (risos). Demorou o que, só uns 40 anos? Nem foi tanto tempo, fala a verdade (risos).
E é isso que queria perguntar: por que vocês demoraram tanto? Vocês estão empolgados pro show?
Perdemos o ônibus! (risos). Eu sempre amo tocar ao vivo. Estou empolgadíssimo para conhecer os fãs no Brasil, encontrá-los. Queremos mesmo é chegar aí e fazer a coisa pegar fogo. Só de pensar que, puxa, venho de Liverpool, fiz uma música e ela afetou alguém no Brasil, isso é algo bem impressionante quando se pensa a respeito, sabe?
Faço música o tempo todo e geralmente faço pra mim, sem pensar muito nisso. Mas quando ela sai e atinge outras pessoas, é como se a música tivesse vida própria, sabe? Algumas vezes as pessoas se aproximam da gente e dizem: vocês são incríveis, fantásticos. E outras vezes, tem alguém que diz: ah, vocês são terríveis. E o que eu digo a elas é: olha, acho que você tem que ver a gente ao vivo, aí vai ver que somos piores ainda (risos). É tudo muito divertido, estar em uma banda é a coisa mais divertida do mundo.
Só um aviso: os brasileiros são bem loucos quando vão a shows, então é possível que o público cante mais alto que você.
Opa, aí sim! Tomara que seja isso mesmo que aconteça, porque se eles ficarem sentados em silêncio vou ficar bem triste (risos).
– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!
