entrevista de Alexandre de Melo
Trinta anos após a revolução do movimento Manguebeat sacudir a música brasileira com uma mistura de ritmos pernambucanos, maracatu, pós-punk e elementos eletrônicos, Fred 04, líder da Mundo Livre S/A, segue como uma das vozes mais inquietas do país.
Em uma tarde ensolarada, o veterano compositor conversou com a Scream & Yell (pela terceira vez) antes de uma apresentação especial da banda na capital paulista. No papo, ele resgata as memórias do início precário, quando construía trastes de guitarra com canos de bronze e encarava turnês sem verba de equipamentos, o aprendizado do cavaquinho durante um Carnaval em Olinda e a inspiração na obra do escritor Umberto Eco para criar a música e o conceito de “Computadores Fazem Arte”.
A entrevista também recupera como a biografia “Mundo Livre S/A 4.0 – Do Punk ao Mangue” (2024), escrita por Pedro de Luna (responsável, também, pela bio “Planet Hemp – Mantenha o Respeito”, 2018), ajudou a reabrir portas para a banda em grandes festivais, como o Lollapalooza. A reflexão sobre o legado ganha ainda mais força após a homenagem da Acadêmicos do Grande Rio, que levou o movimento Manguebeat para a Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2026 com o enredo “A Nação do Mangue”. Ele conta: “Foi muito bonito o desfile e fez a gente perceber mais o legado do movimento.”.
Fred relembra também os percalços do antológico disco “Samba Esquema Noise” (1994), reflete sobre a perda do valor simbólico da música na era digital, aborda a relação entre militância política e cancelamento na imprensa tradicional e revela os bastidores do próximo álbum de inéditas da banda.
É diferente tocar o “Samba Esquema Noise” hoje? O que você enxerga nessas músicas atualmente que não enxergava na época?
Tem música que a gente nem tinha como tocar na época da turnê original do disco. “Terra Escura” e “Sob o Calçamento (Se Espumar é Gente)”, por exemplo, foram faixas fruto de muita experiência de estúdio. “Terra Escura” não tinha um arranjo da banda pronto; tinha um surdo eletrônico e efeitos “borbulhantes” para dar um toque experimental, acompanhando a letra que fala da “pérola do mar”. Não tinha como levar aquilo para o palco até porque o nosso aparato instrumental era muito tosco naquela época. Isso foi até um trauma do “Samba Esquema Noise”. A gente tomou a postura de fazer o “Guentando a Ôia” (o segundo disco) na contramão justamente por esse trauma da turnê.
Da turnê ou da gravação?
Da turnê. Porque na gravação, a Warner deu carta branca para a gente gastar mais de 600 horas de estúdio, sem limite de tempo, convidando todo mundo. Tinha sessões de percussão absurdas. Mas quando a gente caiu na estrada para divulgar o disco, viu que não haveria adiantamento de verba para equipamentos. Diferente do Nação Zumbi, que assinou com a Sony e teve um adiantamento de R$ 10.000 só para equipar a banda e ser fiel ao disco, no nosso caso o adiantamento para o lançamento foi zero.
Eu não tinha nem guitarra. Gravei o disco com guitarras emprestadas dos Titãs, o Charles Gavin e o Nando Reis participaram do disco, e o selo Banguela era de membros dos Titãs. Eles disponibilizaram todo o equipamento deles lá. Um pouco antes de começar a turnê, o Beto, que era empresário em São Paulo, nos ajudou. Nosso empresário em Recife era o Gutierrez (Guti), que era amigo do Beto. O Beto pegou cheque pré-datado e comprou uma guitarra para mim em umas dez prestações.
A gente não tinha como transpor para o palco nem 10% das experimentações que fizemos no disco. Tinha gente que dizia: “Velho, o disco é uma coisa, o show é outra completamente diferente”. Eu só fui passar a gostar mais da minha voz a partir do segundo disco. Ouvindo hoje em dia, dá para ver uma mudança absurda, porque eu já tinha mais experiência de estúdio e gravação.
Musicalmente, o que te orgulha de tocar ao vivo hoje do “Samba Esquema Noise”?
Olha Alexandre, eu gosto pra caralho da versão de “Terra Escura” que a gente faz hoje, adaptada para o palco, mas também gostava muito da versão original. A própria “Sob o Calçamento”, que tocamos ao vivo hoje, teve que mudar muito porque a versão original tinha vários convidados e não conseguíamos transpor para o palco. Na época, a mesa era analógica; para mixar, precisava de umas oito mãos operando os canais ao mesmo tempo por causa da quantidade de elementos. Foi um trabalho árduo.
Fred, como surgiu a ideia da biografia “Mundo Livre S/A 4.0 – Do Punk ao Mangue”, escrita pelo Pedro de Luna?
Ele nos procurou. É importante falar que a biografia contribuiu bastante nas celebrações dos 30 anos do “Samba Esquema Noise”. O lançamento do livro fez uma grande diferença, até porque o Pedro é um cara muito intenso em termos de correr atrás. Ele é um pesquisador muito determinado, insistentemente indo atrás do melhor material possível, e atua tanto como pesquisador quanto como divulgador.
Foi como se a gente tivesse a sorte de contar com um “marketing digital voluntário”, porque a maior parte do material sobre o Mundo Livre S/A que chega em postagens no Instagram vem do Pedro, que está sempre escavando coisas até para ajudar a vender o livro. Isso foi um dos fatores para a gente retornar aos grandes festivais. O Lollapalooza (2026) foi um grande marco; o último evento desse porte de que tínhamos participado foi em 2005, o Tim Festival, em São Paulo e no Rio, junto com Wilco, Arcade Fire e The Strokes. Tinha sido há mais de 15 anos.
O que tem no livro que as pessoas vão descobrir sobre a banda?
Histórias de bastidores, por exemplo. Quando viajamos para o México para gravar um clipe sobre o Subcomandante Marcos e os Zapatistas, houve um estresse absurdo na alfândega e na imigração. A gente torcendo para eles não ouvirem o disco, porque as letras falavam “salve Marcos”. Por sorte e intuição, não colocamos isso no título da música, a faixa se chamava “Desafiando Roma”. O pessoal do Exército e da imigração checava tudo.
São episódios que não são comuns de acontecer com uma banda de rock no Brasil. Ao contrário de outras cenas onde os integrantes eram filhos de diplomatas ou da classe média alta, o nosso baterista, quando entrou na banda, passava o dia carregando pneu de trator. Era um emprego informal porque ele era menor de idade. Passava o dia numa recapadora de pneus e de noite ia ensaiar. Esse era o nosso perfil, totalmente diferente do padrão de bandas formadas por filhos de embaixadores ou pessoas com mais facilidades. De repente veio O Rappa no Rio, a galera de Pernambuco toda, fazendo as coisas na unha e na raça. Minha primeira guitarra era tão barata que consegui comprar com a mesada.

Qual foi essa primeira guitarra?
Eu a chamava de “Rose”. Era uma semiacústica sem marca, feita por pessoal de igreja. O antigo dono tinha tirado os trastes para tentar fazer um baixo fretless, mas desistiu e queria trocar por uma caixa de cerveja. Eu comprei e tive que refazer os trastes. Como não vendiam trastes separados na época, você tinha que comprar o cano de liga de bronze por metro e ir cortando com material próprio. Eu não tinha ferramenta nenhuma: comprei uma serra e fui fazendo o trabalho sozinho. Meu irmão tinha a escala e eu vivia me cortando ao tentar regular a afinação.
Quantos captadores ela tinha?
Tinha dois captadores. E eu pirava porque ela tinha uma ponte com alavanca, só que a alavanca em si tinha se perdido, então eu tinha que fazer o efeito alavancando direto no mecanismo. Usei essa guitarra na garagem por uns três ou quatro anos. Depois consegui um emprego como radialista na Transamérica de Recife, passei a ser CLT e com o salário paguei as prestações de uma primeira guitarra nacional, se não me engano, uma Giannini ou Dolphin. Não era profissional, mas já vinha pronta. Minha primeira guitarra profissional mesmo só veio com aqueles cheques pré-datados depois do “Samba Esquema Noise”.
A Nação Zumbi tinha acabado de receber a grana da Sony para a turnê do “Da Lama ao Caos”. O Lúcio Maia tinha comprado uma Fender Telecaster, um amplificador massa, um cabeçote e vários pedais. O sonho de consumo da minha vida era uma Telecaster branquinha. Só que o Lúcio adoeceu poucos dias antes de um show no Rio de Janeiro. Como eu já tocava algumas músicas do Nação Zumbi na época da cooperativa (a gente fazia jam sessions juntos), eles me chamaram para substituí-lo. Lógico que o Lúcio é muito mais virtuoso na guitarra do que eu, ele cresceu com a ideia de ser um virtuoso. Ele não tinha a ambição de ser compositor na época. A gente até orientou o Chico Science quando o conheceu: “Chico, dá uma maneirada no estilo do Lúcio, porque ele quer solar como o Jimi Hendrix e não está combinando com o conceito do Manguebeat”. O Chico conversou com ele para conter os excessos. Se deixasse, o Lúcio passava a música inteira solando.
E como o cavaquinho entrou na sua vida?
Foi na época do meu primeiro emprego CLT como repórter de TV, nos anos 1990. Juntei o dinheiro das minhas primeiras férias e aluguei, com uma turma de cerca de 30 pessoas, o espaço de uma boate fechada em Olinda para passar o Carnaval. Nessa casa tinha um integrante de um grupo de samba que passava o dia bebendo cachaça e tocando cavaquinho. Quando vi a agilidade da palhetada e a afinação do instrumento, me encantei. Eu já tocava violão e guitarra, então peguei a afinação rápida. Assim que o Carnaval acabou, usei minha grana para comprar um cavaquinho. Em vez de tocar Cartola, comecei a tirar faixas do The Clash e do Sex Pistols no cavaquinho para ver como soavam. Acabou virando uma marca registrada minha.
E o Chico Science? Onde ele se encaixa nessa fase?
O Chico também era CLT na época, trabalhava no processamento de dados da Prefeitura de Recife. Nos conhecemos por causa da fita cassete de “Computadores Fazem Arte”. Quando ele ouviu, foi assistir a um ensaio nosso. O Chico tinha duas coisas marcantes: um espírito ativista incansável, ele não ficava só na ideia, ele botava pra fazer, por mais difícil que fosse, e um senso de coletividade absurdo. Ele gravava fitas com bandas novas e distribuía, articulava contatos com bandas do Rio e de São Paulo (como o Ira!). E, claro, tinha um carisma gigante no palco. Eu era um cara tímido, que tocava quase de costas para o público; o Chico já nasceu com a presença de um verdadeiro líder.
Você tocou em dois pontos interessantes: o circuito de festivais e o trabalho formal do músico. Hoje, o artista autoral consegue produzir tudo em casa, mas não sei se ganha mais dinheiro do que na época das gravadoras. Qual é a sua visão sobre isso?
É engraçado. Quando surgiu o MP3 e houve aquela disrupção do Napster com o compartilhamento digital, aquilo representou uma ameaça frontal à lógica do mercado e das gravadoras multinacionais. As poucas vozes que se levantavam para alertar sobre o perigo eram caladas. Na época do Ministério da Cultura sob o mandato de Gilberto Gil, existiam discussões pelo Brasil, como o movimento Fora do Eixo, sobre a transição para o digital. Eu era convidado para participar de painéis por ser o autor do manifesto e da música “Computadores Fazem Arte”, mas logo fui banido porque era uma voz fora do quadrado. A galera estava tão deslumbrada com a revolução digital e a libertação das amarras das gravadoras que aquilo virou um “fundamentalismo tecnológico”. A tecnologia foi colocada em um altar onde era proibido questionar qualquer efeito colateral. Quem questionasse era tratado como herético.
Bandas como o Metallica questionavam essa história de música de graça. Uma das coisas que eu apontava era a dinâmica da escassez versus abundância. Qual é a mensagem para o garoto que cresce consumindo MP3 de graça? A mensagem que o cérebro recebe é que aquilo é um produto sem valor. A música perde seu valor simbólico. O pessoal adorava o Napster, mas usava camisa com a capa dos discos do Led Zeppelin, dos Beatles ou do Iron Maiden. Nenhum daqueles discos, com aquele refinamento de produção e estúdios caros, teria sido possível sem o investimento das gravadoras. No nosso caso, uma banda de Recife que nem tinha instrumentos profissionais próprios teve passagem e hotel pagos para gravar em um estúdio profissional em São Paulo porque vendia disco. Mesmo que não fosse disco de ouro, as 40 mil cópias vendidas pagavam a estrutura.
Hoje todo mundo repete jargões sobre a sustentabilidade dos rios, das florestas e da economia, mas e a sustentabilidade da cultura e da música? Ninguém vai a uma feira livre e exige levar maçã ou alface de graça só porque vem da terra; houve trabalho para cultivar e transportar aquilo. Quando se subverte essa lógica por deslumbre com a tecnologia, a sustentabilidade da música é prejudicada. Teve um autor que escreveu o livro “O Culto Do Amador. Como Blogs, Myspace, Youtube E A Pirataria Digital Estão Destruindo Nossa Economia, Cultura E Valores” (Andrew Keen). Ele era um entusiasta da Web 2.0 e da Wikipédia, mas depois saiu do meio ao ver o rumo das coisas. A Wikipédia tinha criado uma lógica onde o conhecimento de alguém com título acadêmico passava a ser questionado em nome da “sabedoria popular”, algo próximo do negacionismo científico. As duas únicas menções de apoio ao livro dele que vi na mídia brasileira foram a minha e a do Caetano Veloso. O alerta do cara fazia total sentido.
Você compôs “Computadores Fazem Arte”, que foi lançada em 1994 pelo Chico Science & Nação Zumbi no álbum “Da Lama ao Caos”. A ideia está sendo revisitada. Você já usou IA para compor?
Nunca baixei ChatGPT nem nada do tipo, não sei nem usar. A única vez que baixei um programa para compor batidas no computador, passei o dia inteiro montando a bateria. Quando terminei e quis salvar, não soube como fazer e perdi o trabalho todo. Não tenho paciência para esse tipo de processo. A frase da música “Computadores Fazem Arte” é de 1989: “Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”.
Qual era o contexto dessa frase na época?
Em 1988, um amigo nosso que depois se tornou o DJ Dolores, o Hélder, que conhecemos na faculdade de Design da UFPE, foi contratado para trabalhar em uma ONG de educação em Olinda (a TV Viva, um projeto pioneiro de TV comunitária). Eles tinham verba internacional e compraram o computador de computação gráfica mais avançado do Nordeste na época, um Amiga (da Commodore). O Hélder começou a fazer vinhetas de animação e vinhetas de áudio nesse computador. Eu fiquei tão fascinado com aquilo que veio a ideia da música. Anos depois da música lançada, professores de Ciência da Computação vinham me dizer que a letra traduzia de forma intuitiva e visionária o impacto da tecnologia, virando até tema de redação de vestibular.
Hoje a IA produz “arte em escala industrial”, mas os artistas muitas vezes não estão fazendo dinheiro. Quem foi a inspiração para essa segunda parte da frase?
A inspiração foi o Umberto Eco. Como acadêmico e historiador da arte, ele tinha o salário dele na universidade na Itália. Mas ele ficou rico aplicando esse conhecimento como romancista, quando lançou “O Nome da Rosa” (1980). A narrativa desse livro traz uma erudição absurda sobre os Templários, os conventos, a pigmentação das tintas… Ele pegou a sabedoria acadêmica e a transformou em fonte de renda como escritor de ficção.
Eu também tinha pesquisado a origem etimológica da palavra “arte”. No grego, uma das vertentes vem de techné, que se refere à habilidade manual ou técnica, seja o oleiro fazendo um vaso, alguém com habilidade culinária ou alquímica. O computador representa o auge da habilidade técnica da civilização.
Na época da faculdade, trabalhei como revisor em uma editora, bico que o Chico Science me arrumou. Tinha um ilustrador lá que desenhava os fatos dos jornais com uma rapidez incrível. Quando entrou a editoração gráfica por computador, aquele profissional perdeu o emprego, porque o computador fazia os títulos, a montagem e o tratamento visual com muito mais velocidade e recursos. “Computadores Fazem Arte” foi pensado nesse sentido: a arte-final, antes feita manualmente pelo ilustrador, passou a ser executada pela máquina.

Nos últimos anos vivemos um período conturbado. Agora temos novas campanhas eleitorais e parece haver um certo silêncio, uma apatia.
Eu acho que existe um cansaço. A gente gravou o disco “Walking Dead Folia” (2022) em plena pandemia, no auge do escândalo das vacinas. O conceito inteiro do álbum, incluindo a capa, que tentaram censurar citando a Polícia Federal, e faixas como “Baile Infectado”, era um libelo sobre o que estava acontecendo naquele momento. Foi um período em que todo mundo sentiu a necessidade urgente de se posicionar porque envolvia uma tragédia com mortes.
Hoje vejo uma ressaca, um cansaço. Claro que alguns nomes vão continuar se posicionando firmemente, como o Chico Buarque ou o Caetano Veloso. Mas, no geral, a cultura do cancelamento se sofisticou muito com a atuação do “gabinete do ódio”. Veja o caso do Ira!, que teve quase uma turnê inteira cancelada no Sul por causa de posicionamentos.
Na gringa é diferente. Um cara como o Roger Waters pode ter shows cancelados por defender a causa Palestina em Gaza, mas ele já tem a vida ganha para quatro gerações. No Brasil, o músico que está tentando construir uma carreira sólida sente o impacto direto no bolso.
Com tudo o que aconteceu, você parece estar em um momento de resgatar esse legado. Como você vê seu papel hoje?
Em 2006, a Rolling Stone Brasil publicou uma lista dos 100 maiores nomes da música brasileira de todos os tempos. Eu fiquei em 85º lugar, à frente de nomes incríveis como o Belchior e o Pixinguinha. Logo depois disso, comecei a tomar posições mais radicais. Com a polarização política crescendo a partir de 2010 e a operação Lava Jato, fui praticamente banido dos grandes veículos de imprensa.
Quando lançamos o “Novas Lendas da Etnia Toshi-Babá” (2011), o disco vazou no YouTube antes do lançamento oficial. Um crítico do jornal O Globo ouviu e fez uma resenha excelente, elogiando. Mas a Folha e o Estadão usaram o fato de O Globo ter “furado” como pretexto para não dar uma linha sobre o álbum, que mais tarde ganhou o Prêmio da Música Brasileira.
O “Samba Esquema Noise” e esse retorno aos grandes festivais me deram a oportunidade de resgatar a relevância do meu legado na música brasileira. É como se o mercado estivesse me dando uma segunda chance. Por isso, hoje minhas prioridades são um pouco diferentes, o que não significa que deixei de ser um cara engajado. Quem conhece minha história sabe o que já paguei e enfrentei. Recentemente, em Recife, participei sem cobrar nada do single de campanha da Rosa Amorim, candidata a deputada federal pelo MST. Ela é uma liderança importante, a única parlamentar do movimento lá atualmente. Acho que quem se preocupa com a preservação da democracia no Brasil precisa olhar com atenção para a formação do Parlamento.
E como está a dinâmica da banda e a preparação de novo material?
Nosso baixista, o Pedro Diniz (Rasta), mora na Califórnia. A esposa dele foi fazer pós-graduação em Educação na Universidade da Califórnia e ele foi junto. Ele é produtor e continua muito ativo no mercado de lá; foi ele quem articulou nossa participação no Lollapalooza e quem vendeu vários dos nossos shows recentes. Ele é o nosso braço na Califórnia.
Ele está produzindo uma música inédita do nosso próximo disco que fala sobre o estado atual da sociedade global. O título original era “L.A. Disney”. A gente pensa em mudar para “Idiot.ice”. A letra é cheia de trocadilhos e tiradas com figuras e expressões icônicas do cenário mundial, escancarando o surrealismo do contexto atual. Como o Pedro está morando lá e me contando os relatos da rotina nos Estados Unidos de Trump, acabei adaptando o conceito.
Além disso, temos uma parceria pronta com o Chico César chamada “Coco Louco”, que ficou sensacional. É um disco bem “mangue”, voltado para os ritmos de raiz, como a batida de coco misturada com cavaquinho e efeitos eletrônicos. Já temos “Coco Louco” gravada e mais cinco ou seis faixas em fase de pré-produção. O processo de gravação deu uma pequena pausada porque o estúdio parceiro entrou na produção de campanhas políticas para as eleições, mas continuo produzindo em um estúdio menor do meu próprio bolso.
Além disso, tive a primeira sessão de estúdio para um projeto em parceria com o Apollo Nove (ex-integrante do Planet Hemp e produtor de nomes como Paralamas do Sucesso, Rita Lee). Estamos criando um espetáculo musical no formato de uma “ópera distópica”, mesclando elementos acústicos e eletrônicos para abordar as distopias tecnológicas. Já registramos a primeira faixa em inglês.
E, em novembro, vamos tocar no festival Clássicos do Brasil, em Recife, onde uma equipe da TV pública franco-alemã (Arte TV) enviará uma diretora para gravar um documentário sobre o movimento Manguebeat, tendo o show do Mundo Livre S/A como um dos destaques exibidos na Europa.
Os shows do Mundo Livre S/A estão com mais produção. Como começou essa fase?
A experiência do Lollapalooza foi incrível porque nos estimulou a montar um show com pegada de megaprodução. Levamos a maior equipe técnica da nossa história. Como tocamos às 14h e não tínhamos recursos de iluminação noturna, focamos no conceito audiovisual dos telões, trabalhando com um DJ de Recife para criar projeções exclusivas para cada faixa. Também trouxemos músicos de apoio e um guitarrista convidado para dar mais peso ao som. Isso nos recolocou em um padrão de show de grande porte (mainstream).
Vocês também estão preparando o lançamento em vinil do “Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa”, certo?
Sim, vamos lançar a primeira versão em vinil do “Novas Lendas da Etnia Tosi-Babá”. A arte do álbum é do Derlon, um grafiteiro fantástico que mistura o estilo Armorial com a arte pop urbana. Esse álbum traz no encarte o manifesto “A Cyber-Selva e o Novo Fundamentalismo”, onde eu alertava justamente sobre a fragilidade do consumo exclusivamente digital.
Qual é a fragilidade do consumo de música exclusivamente digital?
Essa semana eu vi um carinha defendendo isso. Ele falava da importância do retorno do vinil, do DVD, do CD. Se uma Big Tech compra uma plataforma como o Spotify e muda sua política de catálogo, faixas e discos inteiros podem desaparecer do dia para a noite. Já pensou querer ouvir um Stevie Wonder e não poder mais? E veja, eu escrevi sobre isso lá atrás, no encarte do “Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa”. Ter a mídia física é a única garantia de que você é dono daquela obra. Alexandre, além de tudo o que eu citei, livro, festivais, celebração de disco e o caralho, que trouxe uma nova vida para o Mundo Livre, a venda do nosso trabalho em vinil pela Noize Record foi fundamental.
Fred, para fechar, quais novos nomes e projetos têm chamado sua atenção?
Alexandre, na nova cena de Pernambuco, preciso citar a dupla Barbarize (Yuri Lumin e Bárbara Espíndola) faz um trabalho incrível, inclusive participei de uma faixa do álbum recente deles (“Mãe”). Também tem o Mago de Tarso, que se autodenomina “caranguejo do trap”. Tenho ouvido bastante art rock nórdico e islandês, o Bezerra da Silva da fase de coco, o disco recente do Criolo e o trabalho do pianista Amaro Freitas.
Alexandre de Melo (@aledemelo_) é jornalista, escritor e documentarista. Escreveu o livro “Ondas Tropicais – A História da primeira DJ” e atuou em coberturas musicais no UOL, Billboard Brasil e grupo MIX.
