Entrevista: Kira Roessler lança novo disco e relembra colaboração com Mike Watt e seus anos de Black Flag

entrevista de Bruno Lisboa

Aos 65 anos, Kira Roessler segue inquieta. Quando o Germs acabou, em 1980, o guitarrista Pat Smear convocou Kira para uma nova banda, a Twisted Roots, que durou pouco, mas registrou um sete polegadas com três canções. Enquanto Smear se envolvia com o Adolescents (ganhando punch para acompanhar Nirvana e Foo Fighters no futuro), Kira iria dividir a sua vida entre o curso de engenharia aplicada na UCLA e o baixo do Black Flag em um dos períodos mais importantes da banda, entre 1983 e 1985.

Foram só dois anos acompanhando Henry Rollins, Greg Ginn e Bill Stevenson no Black Flag, mas foi o suficiente para gravar quatro álbuns (“Family Man” e “Slip It In”, de 1984; “Loose Nut” e “In My Head”, de 1985), um EP (“The Process of Weeding Out”, 1985) e participar de dois registros ao vivo (“Live ’84”, de 1984, e “Who’s Got the 10½?”, de 1986). “Foi muito mais um teste para saber o quanto eu conseguia ser forte, trabalhar duro e suportar as dificuldades daquela situação”, analisa Kira em conversa com o Scream & Yell, 40 anos depois.

Na sequencia, Kira se juntaria a Mike Watt no dos, projeto baseado na interação entre dois baixos e que se tornou uma experiência fundamental para sua maneira de pensar composição. Em vez de preencher todos os espaços, os dois instrumentos passaram a dialogar, criando uma música na qual o vazio também possui função. “Comecei a perceber que os espaços contam a história tanto quanto as notas”, explica. Com o dos, Kira gravaria dois discos nos anos 1980, um em 1996 e um quarto álbum em 2011. E ainda participaria do álbum “Minuteflag” (1985), que junta membros do Minutemen e Black Flag.

Agora, Kira Roessler retoma sua carreira solo iniciada em 2021 com “KIRA”, lançando “Enigma” (2026), seu segundo álbum, novamente escudada pelo irmão, músico e produtor Paul Roessler, que fez parte da The Screamers, banda essencial da cena punk de Los Angeles nos anos 1970. Juntos, Paul e Kira desenvolveram um método próprio de trabalho, no qual uma segunda linha de baixo pode se transformar em uma parte de piano. “Posso simplesmente dizer: ‘Tenho algum tempo. Você tem algum tempo?’. Então vou até a casa dele e fazemos música”, conta.

A música, entretanto, é apenas uma das formas de escuta presentes em sua trajetória. Há mais de duas décadas, Roessler trabalha no cinema com edição de diálogos. A atividade exige uma atenção minuciosa aos detalhes sonoros, enquanto a composição musical, segundo ela, está ligada a uma percepção mais emocional e ampla. “Por isso digo que o trabalho com som é muito técnico, enquanto o trabalho com música é mais emocional e criativo”, analisa. Seu trabalho já lhe rendeu um Oscar: Kira estava na equipe premiada pela Academia pela Edição de Som de “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015).

Nesta conversa com o Scream & Yell, Roessler percorre essas diferentes etapas de sua vida e carreira: o período no Black Flag, a experiência com o dos e Mike Watt, sua evolução como baixista e cantora, o processo de composição de Enigma e a parceria com Paul. Também fala sobre a recepção ao novo álbum, a dificuldade de encontrar público em um mercado musical cada vez mais fragmentado e as mudanças provocadas pelas redes sociais e pelo streaming.

Mais do que uma retrospectiva de uma carreira que atravessa diferentes momentos da música independente norte-americana, a conversa revela uma artista ainda profundamente interessada em descobrir novas formas de expressão. Quando perguntada sobre o que continua motivando sua criação depois de tantos anos, Roessler responde de maneira direta: “Ainda estou tentando encontrar uma maneira de processar minha vida, basicamente.” Ouça o disco “Enigma” e leia a entrevista na íntegra abaixo!

Olhando para sua carreira, você transitou pelo punk, pela música experimental, trabalhou com o dos, lançou discos solo e construiu uma carreira no cinema. Você vê todas essas experiências como conectadas?
Minha experiência na música, desde quando eu era criança e estudava piano até o meu novo disco, tem definitivamente uma linha de continuidade. Existe uma conexão em todo esse percurso. Minha carreira com som parece um pouco separada. É algo mais técnico, mais intelectual. Já a música é minha parte criativa. É quase como se fossem duas partes diferentes de mim.

No lado musical, existe uma conexão que vai desde o punk rock, passando pelo piano e pelo dos. No dos, aprendi a fazer essa música com dois baixos, algo que continuo fazendo na minha carreira solo. Escrevo todas as minhas músicas com essa interação entre dois baixos. Depois, meu irmão transforma a segunda linha de baixo em piano. Mas tudo ainda tem aquela sensação do dos, que remonta aos meus dias no punk rock. Portanto, existe uma conexão muito forte.

Seus anos com o Black Flag são uma parte importante da história do punk. Quando você olha para aquele período hoje, o que mais se lembra de ser uma jovem musicista naquela cena?
O período no Black Flag, especificamente, não foi uma época muito criativa para mim. Eram principalmente as músicas de Greg e as partes que ele queria que eu tocasse. Meu papel era ser um forte apoio para a banda e para o grupo. Era quase como um treinamento para um esporte coletivo. Fisicamente, era muito difícil. Estávamos todos lutando pelo mesmo objetivo, como uma equipe, para criar algo muito grande, alto e forte.

Aquele período me parece, particularmente, um teste físico em muitos sentidos. Antes do Black Flag, eu era mais criativa, escrevia músicas, tinha diferentes bandas e participava mais da criação. Durante o Black Flag, foi muito mais um teste para saber o quanto eu conseguia ser forte, trabalhar duro e suportar as dificuldades daquela situação.

É interessante porque eu estava ouvindo hoje, por exemplo, o álbum “Slip It In”. Se bem me lembro, foi o primeiro disco do Black Flag que ouvi! Gosto muito dele.
Foi o primeiro disco em que toquei. Naquele momento, eu ainda estava desenvolvendo força suficiente para fazer o trabalho e estava chegando aos meus limites para conseguir gravá-lo. Mas tenho orgulho de todo o registro. Tenho muito orgulho do fato de que, durante um período de alguns anos, estivemos todos em sintonia fazendo música juntos, uma música muito forte.

Acho que o seu jeito de tocar baixo trouxe uma abordagem musical diferente para o Black Flag. Quando você ouve aqueles discos hoje, como se sente em relação à sua contribuição para o som da banda?
É curioso porque, novamente, a composição e o estilo já estavam definidos para mim. Mas o que aconteceu foi que, quando Greg e Chuck deixaram de trabalhar juntos e o baixista que estava na banda antes de mim saiu, houve uma mudança. Chuck Dukowski é um baixista que toca como um cavalo galopando. Meu estilo é ficar um pouco atrás da batida, apoiando-me um pouco em cada tempo, quase atrás do tempo.

Então meu estilo produziu uma pequena mudança. Essa foi parte da razão pela qual acho que quiseram que eu estivesse na banda naquele momento. Eu criava uma espécie de resistência física, quase como se estivesse puxando para trás enquanto eles galopavam. E funcionou bem. Durante um período, estávamos todos em sintonia com o que queríamos fazer. Queríamos tocar tudo com muita força, cada batida com muita intensidade, e depois acelerar para conseguir tocar com muita força e velocidade. No começo, tocávamos muito lentamente para acertar cada batida juntos e depois trabalhávamos para aumentar a velocidade. Acho que esse estilo acabou se transformando em algo muito forte.

Você canta e escreve músicas há décadas, além de tocar baixo. Como sua relação com sua voz mudou ao longo da sua carreira?
Mudou muito ao longo dos anos. No começo, minha composição era simples e, de certa maneira, todas as partes ficavam umas sobre as outras. A linha de baixo e a parte vocal estavam praticamente no mesmo lugar, e eu não tinha uma boa percepção de como separar a voz e transformá-la em um instrumento próprio.

Com o tempo, trabalhando mais com minha voz, aprendi a transformá-la em um instrumento separado. Isso me permite criar mais interação entre o baixo e a voz, em vez de simplesmente colocá-los um sobre o outro. Posso criar uma linha melódica ou uma mudança rítmica diferente do que o baixo está fazendo. Isso continua evoluindo. Trabalho com a maneira como todos os meus instrumentos — minha voz, meu baixo, o piano e a bateria — podem não tocar exatamente sobre as mesmas coisas. É quase jazzístico, porque deixamos espaços.

Essa foi uma evolução através do dos, em grande parte. Aprendi ali a trabalhar com essa interação e, agora, estou criando essas interações de três e quatro partes no meu canto e na minha música. No começo, tudo era muito simples e sobreposto. Agora, existem muito mais interações e vozes separadas.

Você acha que ser baixista influenciou a maneira como canta e escreve melodias? Existe uma conexão entre essas duas formas de expressão?
Ainda hoje me sinto como uma baixista que canta, e não como uma cantora. No começo, minha voz parecia muito instável para mim, porque cantar e tocar baixo ao mesmo tempo é muito difícil. Os ritmos podem ser muito diferentes. Demorou um pouco até que a parte vocal das minhas músicas conseguisse se separar do baixo. Mas o baixo é a base de tudo o que minha voz faz. O baixo é a causa, e a voz é como uma resposta ao baixo.

Quando você cria uma música, o que vem primeiro: o baixo, a voz ou a letra?
Tudo começa com uma ideia. Você conhece a música “How Could You” (do disco “Enigma”)?

Sim!
Podemos usá-la como exemplo. Eu estava em uma discussão e fiquei emocionada. Fui para o meu quarto e escrevi apenas “How Could You?”. Depois me acalmei, olhei para aquilo e ri. Era quase engraçado, de tão dramático. Então trouxe meu senso de humor para a música e comecei a pensar naquilo de forma irônica. Pensei em como poderia expressar a emoção de alguém que fez algo errado comigo, como transformar aquela raiva em algo realmente dramático.

A ideia começa assim, e depois o baixo vem. A letra ainda não está pronta; existe apenas uma pequena ideia. Então o baixo começa, de alguma maneira, a criar uma base. A letra muda para se adaptar ao baixo. Depois surge a linha melódica, pensando em como aquelas palavras vão funcionar com o baixo. Então escrevo outro baixo para criar uma interação. Às vezes faço os dois baixos antes da voz e, às vezes, escrevo o segundo baixo depois da voz. Mas sempre termino com dois baixos e uma voz. Depois levo isso para meu irmão, que toca piano, ou para meu baterista, ou para os dois, para trabalharmos na criação das partes deles.

A ideia precisa vir primeiro. Tem que existir uma emoção que estou tentando expressar. Isso me permite trazer o baixo, que é como outro braço, uma parte do meu corpo. Posso começar a expressar aquela emoção com o baixo. Isso me ajuda a desenvolver a letra, a linha vocal e o segundo baixo. Portanto, é quase completamente guiado pelo baixo, com a exceção de que precisa existir alguma emoção, um sentimento ou uma ideia para começar.

Você trabalha com som no cinema há quantos anos?
22 anos.

Você passou muitos anos trabalhando com som tanto na música quanto no cinema. Seu trabalho com som mudou a maneira como você escuta sua própria música?
No cinema eu atuo como uma editora de som. Pego os diálogos que vêm do set e tento fazer com que soem melhor, preparando-os para o mixer. Para avaliar os diálogos, preciso ouvir o som que está por trás deles. Preciso ouvir esses sons e suavizá-los. Também tenho que perceber detalhes muito pequenos, como um estalo ou um clique no diálogo, alguma coisa que seja um erro ou que soe mal, e faço pequenas correções. É uma escuta muito detalhada. Meus ouvidos precisam estar extremamente atentos.

Com a música, não sinto que trabalho dessa maneira. Meu coração e meu corpo estão conectados. Eu me afasto um pouco dos detalhes e escuto de uma maneira mais ampla. Não é uma escuta tão detalhada. Por isso digo que o trabalho com som é muito técnico, enquanto o trabalho com música é mais emocional e criativo. A música é mais fluida. O trabalho com som é muito detalhado e concentrado. É difícil, mas de uma maneira diferente.

Quando falamos sobre cinema e o caráter técnico, temos muitos diretores que fazem um trabalho incrível. Pensando, por exemplo, em Christopher Nolan, existe algum diretor com quem você ainda tenha vontade de trabalhar?
Eu já trabalhei com Christopher Nolan antes de ele se tornar tão conhecido. Foi há algum tempo, em um filme de uma fase mais inicial da carreira dele. (“Insônia”, de 2002). Tive sorte. Trabalhei com muitos diretores importantes e interessantes. Também é desafiador trabalhar com um diretor novo ou inexperiente. Para mim, trata-se do desafio. Preciso encontrar uma maneira de deixá-los satisfeitos com todas as vozes, todos os diálogos e todo o material gravado em estúdio. Preciso reunir tudo isso em uma faixa com a qual eles estejam satisfeitos.

Acabei de terminar um filme em que reuni todo esse trabalho de edição de diálogos com todas as gravações feitas em estúdio, o que chamamos de ADR (do inglês Automated Dialogue Replacement – Substituição Automatizada de Diálogo) quando entramos em um estúdio para gravar material que será incluído na faixa. Também trabalho com as vozes de fundo, todas as pessoas conversando atrás dos atores principais. Você reúne tudo isso e chega a um ponto em que o trabalho está terminado e o diretor está satisfeito.

Esse é o momento em que penso: trabalhei muito, estou muito cansada de tudo isso, mas consegui deixá-lo satisfeito. Não importa se o diretor é uma pessoa importante ou não. O que importa é ver no rosto dele que conseguiu o resultado que queria. É daí que vêm minhas boas emoções: dessa sensação. Ao mesmo tempo, tiro muita inspiração para minhas composições da frustração, da tristeza e da raiva que surgem durante o trabalho. Mas, no final, existe um momento em que você vê que ele ou ela relaxa e se sente completo e satisfeito com o trabalho. É uma sensação muito boa, independentemente de quem seja, porque você trabalhou muito para chegar àquele momento.

Vamos falar sobre seu novo álbum. Eu o ouvi desde que você me enviou uma prévia e gostei muito. Para alguém que conhece seu trabalho com o dos ou com o Black Flag, ele apresenta uma nova maneira de enxergar sua criatividade. Agora que “Enigma” foi lançado, como você vê o álbum em relação ao seu trabalho solo anterior? O que mudou entre os dois discos, pensando apenas nos seus discos solo?
Meu primeiro disco foi resultado de uma longa carreira escrevendo músicas no meu quarto e enviando-as para um guitarrista em Cleveland, para meu irmão e para um baterista. Construímos essas músicas sem estar no mesmo lugar, pela internet, enviando arquivos de um lado para o outro. Foi uma espécie de culminação de todas essas músicas que havíamos construído dessa maneira. Meu irmão disse que eu deveria lançar algumas delas e sugeriu que eu fizesse isso.

O primeiro disco foi baseado nessas músicas que eu vinha desenvolvendo ao longo de todos aqueles anos. Escolhi algumas para contar uma história naquele álbum. Depois que o disco foi lançado, tocamos ao vivo algumas vezes. Formamos uma banda com um baterista, um pianista e eu. Criamos um trio e tocamos ao vivo. Isso mudou a dinâmica da maneira como estávamos fazendo música. Depois disso, no segundo disco solo, gravamos tudo ao vivo, no mesmo ambiente. Foi muito diferente na maneira como o criamos. Foi muito mais parecido com uma banda, como antigamente, quando você entrava em um estúdio, gravava as faixas básicas e depois acrescentava piano e voz.

Acho que o resultado é que ele tem muito mais uma sensação de banda e existe uma conexão entre todas as músicas. Há um movimento fluido entre elas porque foram gravadas da mesma maneira. Sonoramente, elas têm uma conexão umas com as outras. Têm um terreno comum. Então acho que é bastante diferente.

“Enigma” tem um som muito aberto e minimalista, com bastante espaço nos arranjos. Há um pouco de jazz e um pouco de groove. O que atrai você nesse tipo de espaço musical?
Acho que meus muitos anos tocando no dos com Mike (Watt) fizeram com que nossa composição se tornasse muito baseada em como criar espaço um para o outro, como encontrar os espaços vazios e criar espaço. Era uma banda minimalista. Éramos apenas dois baixos. Por causa disso, desenvolvi essa base de pensar sobre interação, e a base da interação é deixar espaços. Comecei a perceber que os espaços contam a história tanto quanto as notas. De certa maneira, eles contam sua própria história e permitem que você sinta as emoções um pouco melhor. Você consegue mergulhar na emoção que estou tentando transmitir. Quero que você sinta essa emoção. Acho que o espaço permite que você permaneça um pouco mais dentro dela.

Quando ouvimos o disco, para alguém como eu, que não é músico, cada música pode parecer simples à primeira vista, mas existe muita coisa acontecendo nos baixos, nos vocais e nos pequenos detalhes. Quando você compõe, começa pela sensação geral de uma música ou por uma ideia musical específica?
Como conversamos, existe um sentimento, uma emoção ou uma ideia básica que inicia a música. Isso me permite permanecer dentro daquela ideia enquanto escrevo a linha de baixo e a linha vocal. Posso mergulhar naquela emoção e, de alguma maneira — e nem sempre sei como — ela faz com que a linha de baixo siga por um determinado caminho.

Não sei por que, quando digo “How Could You?” e escrevo essa ideia, surge aquela pequena linha de baixo com influência jazzística. Não consigo explicar o que cria essa conexão. Mas alguma coisa me permite ter o baixo nas mãos e aquela ideia na cabeça e começar alguma coisa. Então construo a partir disso. Tenho uma pequena parte de baixo que se conecta àquela pequena ideia e uso essa linha para criar outras partes. É muito difícil explicar por que a música soa da maneira que soa. Para mim, trata-se de permanecer dentro daquela ideia ou emoção e permitir que ela saia de dentro de mim.

Kira e Paul em estúdio

Você trabalhou com seu irmão, Paul, no álbum. O que existe de especial em fazer música com alguém que conhece você e sua música há tantos anos?
Eu o conheço desde o dia em que nasci (risos). Ele é meu irmão mais velho. Conheço-o durante toda a minha vida. Então, de certa maneira, isso faz sentido. É também estranho, porque estou expondo a ele minhas emoções, pensamentos, raiva e dor. Mas parte do que estou tentando fazer é fazer as pessoas sentirem essas coisas.

Ao longo dos últimos 10 ou 15 anos, Paul e eu desenvolvemos um processo. Eu escrevo uma segunda linha de baixo e ele a leva para o próximo passo a partir de suas ideias como pianista. Ele pega o piano e, às vezes, cria acordes. Outras vezes, simplesmente faz exatamente o que a segunda linha de baixo está fazendo. Ele desenvolve essa parte sem que precisemos conversar muito sobre isso. Ele usa essa interação e essa ideia emocional e segue seu próprio caminho. Como fazemos isso há tantos anos, ficou mais fácil. Posso simplesmente dizer: “Tenho algum tempo. Você tem algum tempo?”. Então vou até a casa dele e fazemos música.

Desde “Enigma”, continuo fazendo isso. Vou até lá e fazemos músicas. Essa é uma parte da maneira como interagimos: fazemos música juntos. E isso se tornou algo com o qual realmente nos sentimos bem. Acho que ele tem muito orgulho desse disco. Ele colocou o coração nele, assim como eu. Acho que nós dois sentimos muito orgulho do resultado. E poder ter isso com ele é especialmente importante porque ele nem sempre achou que eu fosse uma boa compositora. Como ele é meu irmão mais velho, eu queria que ele tivesse orgulho de mim.

Tem sido muito bonito ouvi-lo dizer recentemente: “Uau, sua composição realmente evoluiu”. Ele me elogia, e isso não é algo que você recebe sempre de um irmão. Então tem sido muito bom receber essa afirmação e essa confiança que ele me dá, porque ele diz que ama as músicas.

Também trabalho com Dave Back, o baterista, de maneira semelhante. Eu o conheço há cerca de 15 anos e também desenvolvemos uma espécie de linguagem própria, um processo. Levo alguma coisa para ele. Às vezes existe uma parte de piano, às vezes são apenas dois baixos. Então conversamos, tocamos e depois conversamos novamente. Dizemos: “Talvez pudéssemos criar um pouco mais de interação com a segunda linha de baixo”, ou “talvez aqui você devesse trabalhar mais com a primeira linha de baixo”. Então desenvolvemos a parte de bateria praticamente da mesma maneira que desenvolvemos a parte de piano. Isso se transformou em uma relação muito bonita entre nós e dentro da banda. Mesmo que não toquemos juntos o tempo todo, somos muito próximos e muito conectados.

E o resultado é muito bonito. Você disse que está orgulhosa do disco e que seu irmão também está. Você chegou a perceber as reações das pessoas ao seu redor? Agora que o álbum foi lançado, teve algum tempo para ouvir as reações. Alguma coisa sobre a maneira como os ouvintes entenderam Enigma surpreendeu você?
Eu só ouço um lado, porque só ouço as pessoas que gostam do disco. As pessoas não chegam até mim para dizer que o disco é terrível. Então não tenho acesso às reações negativas. Só ouço as positivas. E tive muitos retornos positivos das pessoas que ouviram. Mas, hoje em dia, é muito difícil fazer as pessoas ouvirem sua música. Existe muita música disponível. É muito difícil encontrar um público, encontrar pessoas com quem se conectar. Todo mundo está muito separado. Então, a menos que eu toque ao vivo — e pretendo fazer isso —, não consigo sentir essa reação pessoalmente. Essa é realmente a única maneira de obter uma resposta honesta sobre um disco. Você recebe uma resposta honesta quando está ao vivo diante de uma plateia.

Pode ser muito direto. As pessoas podem começar a conversar durante sua apresentação. Você consegue ouvi-las falando sobre seu canto enquanto você está cantando. É difícil. Mas também pode ouvi-las quando ficam realmente quietas e perceber que estão prestando atenção. O público oferece esse retorno imediatamente. A reação a um álbum é muito difícil. Não sei se alguém quer comprar o disco. Não sei se alguém gosta dele. Simplesmente não sei. Acredito que a maneira como as pessoas se relacionam com a música mudou de muitas formas, e é difícil descrever exatamente como.

Vamos falar sobre o duo dos com Mike Watt É um projeto muito incomum: dois baixistas criando música sem os instrumentos habituais de uma banda de rock. Quando ouvi esses discos pela primeira vez, fiquei impressionado. É incrível que vocês tenham feito esses discos há tantos anos. O que você descobriu sobre as possibilidades do baixo através do dos que talvez não tivesse descoberto em outra banda?
Trabalhar com Mike não é como trabalhar com qualquer outra pessoa. Então precisamos começar falando das bandas. As personalidades e a química entre as pessoas são uma parte importante do que cria a música. Minha relação com Mike é muito complicada. Mas essa é a base. É o que está por baixo da banda. No dos, isso se transforma um pouco em uma espécie de guerra de baixos. É como se estivéssemos lutando. É como um cabo de guerra, quando duas pessoas ficam em lados opostos de uma corda e puxam em direções contrárias. Muitas vezes, com Mike, ele queria as coisas de uma maneira e eu queria de outra. Então precisávamos lutar para encontrar maneiras de realmente nos conectarmos novamente.

Nós dois temos ideias muito diferentes sobre como as coisas deveriam ser. Mas Mike estava muito interessado nessa ideia de interação. Ele estava muito interessado em deixar espaços, e aprendi muito sobre isso com ele no dos. Eu já havia começado a fazer música com dois baixos antes do dos. Eu fazia histórias para dormir para meus sobrinhos. Escrevia duas linhas de baixo, gravava-as em uma fita cassete e dava as fitas para eles quando eram pequenos.

Então comecei com Mike a partir de algumas dessas músicas de histórias e também fizemos algumas improvisações. Já sabíamos um pouco como era trabalhar dessa maneira. Mas tivemos que descobrir como criar uma estrutura, e isso foi muito difícil. No dos, tudo gira em torno da composição. Nós não improvisamos. É tudo muito estruturado, e é complicado criar aquelas duas partes que tenham o equilíbrio certo entre si. Ele me ensinou muito sobre isso, mas foi uma grande luta. Nós lutávamos muito com cada música. Havia uma dificuldade em cada uma delas. Havia discordância. Eu queria experimentar alguma coisa e ele dizia que era difícil demais, complicado demais ou simples demais. Às vezes eu não gostava de alguma coisa. Havia muito disso.

Você viu a indústria da música mudar desde a cena independente dos anos 1980 até o mundo atual do streaming e das redes sociais. O que você acha que os músicos ganharam com essas mudanças? E o que perderam?
Tudo mudou. Antigamente, conseguir que uma gravadora lançasse seu disco era o grande desafio. Você precisava encontrar alguém que ajudasse a colocar o disco no mercado. Eu ainda preciso de alguém que me ajude a lançar este disco. Então algumas coisas continuam iguais. Para lançar um disco físico, normalmente ainda é preciso fazer uma parceria com uma gravadora, mesmo que seja uma gravadora pequena ou independente. Antigamente havia a SST (gravadora californiana icônica). Agora, no meu disco, existe a Org Music. Ainda é a mesma coisa: existe uma organização disposta a colocar algum financiamento para criar esse produto. Mas o que mudou muito é a maneira como promovemos esse produto e como fazemos com que ele chegue às pessoas.

Hoje existem as redes sociais. Se você é bom em criar conteúdo e despertar interesse nas redes sociais, pode fazer com que muitas pessoas se interessem. Existe uma nova maneira de despertar o interesse das pessoas. Não é apenas tocar em um show e esperar que as pessoas apareçam. Você pode colocar sua música no mundo. Veja o que Phoebe Bridgers acabou de fazer. Nos Estados Unidos, ela disse que faria vários shows, mas anunciaria os shows apenas no dia em que aconteceriam. Ela tocaria em cidades pequenas, os ingressos seriam vendidos por ordem de chegada e os preços seriam definidos por ela. Ela simplesmente disse: “Vou fazer do meu jeito”. Sem Ticketmaster.

Ela mudou todas as regras!
Ela disse: “Não vou tocar nas grandes cidades. Vou tocar nas pequenas cidades”. Ela mostrou o que as redes sociais podem fazer. Elas podem permitir algo muito mais independente. Mas, para isso, é preciso ter uma presença muito grande nas redes sociais, e isso não é fácil de conseguir. Ela tem alguém colocando conteúdo o tempo todo. Se você a acompanha, há sempre alguma coisa chegando: vídeos, fotos, músicas. É o dia inteiro. Para mim, nas minhas redes sociais, eu estou trabalhando no meu emprego. Então penso: “Meu Deus, preciso criar conteúdo. Preciso criar mais conteúdo. Preciso parar e fazer um vídeo”. (risos)

É difícil. Até mesmo fazer isso, criar algo que me mantenha aparecendo naquele espaço, exige muita energia. Mas os jovens de hoje estão conectados dessa maneira. É assim que eles se conectam uns com os outros. Então será diferente para eles. Será diferente para os artistas jovens. Você já está vendo isso acontecer: jovens artistas constroem um público através das redes sociais, e isso se transforma em vendas de discos e, depois, em pessoas indo aos shows. Está acontecendo. Só não necessariamente está acontecendo com nós, pessoas mais velhas. Antigamente, havia essas gravadoras que decidiam quem seria grande. Agora, pelo menos, existe uma questão de comunidade. Trata-se de construir uma comunidade, e isso é algo que você talvez consiga fazer.

De certa maneira, isso nos conecta ao começo do punk, porque tínhamos uma comunidade que ajudava uns aos outros a fazer shows e gravar discos.
Acho que a comunidade sempre foi importante e está criando uma nova maneira de fazer as coisas. Você pode ter uma comunidade espalhada pelo mundo, interessada em determinadas coisas. Isso é interessante. É apenas algo novo.

Nosso tempo está quase acabando, mas tenho mais duas perguntas. A primeira é sobre tecnologia, que está mudando muito rapidamente tanto a música quanto o cinema, incluindo o crescimento do uso de inteligência artificial. Como alguém que passou a vida trabalhando diretamente com som e música, como você se sente diante dessas mudanças?
No meu trabalho técnico, vejo a inteligência artificial simplesmente como uma ferramenta. Uma das coisas que faço é retirar ruído dos diálogos. Tento deixar os diálogos mais claros, e existem ferramentas baseadas em inteligência artificial que fazem esse trabalho. Mas elas ainda precisam de mim para ouvir e decidir se fizeram o trabalho corretamente ou se preciso mudar a maneira como fizeram. Ainda preciso ouvir e decidir: a voz continua soando orgânica? Continua soando natural? Ou a inteligência artificial estragou a voz e agora preciso fazer isso de outra maneira? Então ainda sou eu usando a ferramenta. Não sinto que a ferramenta esteja fazendo o trabalho. Eu tenho que fazer o trabalho. Preciso ajustar exatamente como a inteligência artificial funciona para mim nessa área.

Na minha criatividade e no meu mundo musical, parece que não existe tecnologia. Sempre tive alguma maneira de gravar no meu quarto, de gravar pequenas demos. Sempre tive isso e ainda tenho. Então não sinto que essas tecnologias sofisticadas tenham mudado tanto a maneira como faço música ou como vivo no meu mundo musical. Exceto na maneira de fazer minha música chegar às pessoas. Isso mudou um pouco. Mas a maneira como faço minha música é praticamente a mesma. Eu costumava fazer isso com um gravador de fita cassete e agora faço com o Pro Tools em um computador. É apenas uma ferramenta diferente.

Para mim, por exemplo, depois que nossa entrevista terminar, vou usar uma inteligência artificial para ajudar a transcrever nossa conversa. E traduzir…
Exatamente. Quando pensamos na inteligência artificial como uma ferramenta, é uma coisa. Mas é diferente quando a inteligência artificial faz todo o trabalho. Sim. Mas você ainda vai olhar para o que a inteligência artificial fez e decidir: ela fez isso bem? O português está correto? É assim que falamos ou não? Está dizendo alguma coisa de uma maneira estranha Você ainda vai decidir como será o produto final. Você está usando-a como uma ferramenta.

Acho que os medos em relação à inteligência artificial são um pouco difíceis de entender. Eu vejo que seremos sempre nós que vamos decidir: “Você fez um bom trabalho” ou “Você não fez um bom trabalho”. Sempre seremos nós usando-a como uma ferramenta. É assim que vejo. Não acho que ela vá assumir tudo. Eu não posso simplesmente apertar um botão e fazer com que ela retire todo o ruído de um diálogo. Se pudesse, o diálogo provavelmente não soaria bem. Tenho que ajustar a quantidade certa de redução de ruído. Então ainda acho que existe esse elemento humano.

Depois de uma carreira tão longa e tão diversa, o que ainda faz você querer criar, tocar música ou trabalhar com som? Existe algo que você ainda esteja tentando descobrir?
Sem dúvida. Ainda estou tentando encontrar uma maneira de processar minha vida, basicamente. Quando minhas emoções ficam fortes, é muito natural para mim começar a transformá-las em uma dessas ideias sobre as quais estamos falando, que depois se tornam uma música. Não consigo imaginar minha vida sem uma maneira de expressar aquilo pelo que estou passando, aquilo que estou vivenciando. Se eu parasse, teria que sentir todas essas coisas e não fazer nada com elas. Então vou continuar encontrando maneiras de pegar as coisas que acontecem, sejam boas ou ruins, expressá-las e processá-las. Independentemente de alguém ouvir essa música ou não, continuarei fazendo isso no meu quarto, porque é assim que vivo.É assim que lido com a minha vida. Sinto que seria infeliz sem essa maneira de me expressar.

Muito obrigado pelo seu tempo, Kira. Como disse no começo, foi uma enorme honra conversar com você. Você é uma referência para muitas pessoas no Brasil. Muitas mulheres admiram você e o movimento punk. Quando você começou no Black Flag, a cena era caótica, violenta em muitos sentidos. Ter uma mulher como você, forte, fazendo uma música incrível para nós, é uma referência que continuará sendo lembrada.
Isso é maravilhoso. Eu não sei como teria sido ser um homem no Black Flag. Só sei como foi para mim. As mulheres têm um obstáculo que estão sempre enfrentando. Nós somos mais fracas fisicamente. Temos que superar isso e nos impor pelo que conseguimos fazer. Porque, como você sabe, os homens podem ser extremamente abusivos se não formos fortes. Então é nosso trabalho encontrar nossa força. Se existe alguma coisa que fiz que possa ajudar as mulheres a encontrarem sua força, então isso é algo maravilhoso.

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. 

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