Literatura: “O Gosto da Liberdade”, de Alejandro Puyana, devolve à Venezuela a sua condição de país, história e gente

texto de Jorge Wagner

Ano de eleição costumava ser aquela época em que ouvíamos bastante o famigerado “vai pra Venezuela” daquelas pessoas que deveriam ter ido para a Argentina após a eleição do Milei. A frase, no entanto, parece ter caído em desuso. Depois da captura de Maduro e da invasão do país por Trump e pelos sempre muito bem-intencionados Estados Unidos da América em janeiro deste ano para roubar petróleo à vontade, não acredito que vamos ouvi-la tanto assim no atual período eleitoral.

Entre retóricas de palanque, crises cíclicas e reviravoltas geopolíticas drásticas, a Venezuela virou esse fantasma frequente no debate brasileiro — um país que tanto foi sem nunca ter de fato sido, atacado ou defendido com igual vigor por gente que conhece menos história e mais slogans.

Lançado originalmente em 2024 (e em inglês) com o título de “Freedom Is a Feast” e recém-publicado em boa hora no Brasil pela Editora Pinard com tradução de Lígia Azevedo, “O Gosto da Liberdade”, de Alejandro Puyana, autor venezuelano radicado em Austin, no Texas, vem justamente para tirar a Venezuela desse jogo barato de ataque e defesa e devolvê-la à condição de país, história e gente.

Ao longo de aproximadamente 450 páginas, a trama acompanha Stanislavo, jovem privilegiado que, em 1964, vira as costas para sua realidade confortável para se unir ao movimento guerrilheiro de esquerda nas selvas venezuelanas, movido por ideais de justiça e transformação social. Décadas depois, em 2002, acompanhamos María, uma mulher qJue tenta sobreviver em um país ainda partido pelas tensões políticas. As duas trajetórias se cruzam em um grande drama sobre família, ideologia e as marcas deixadas pelas fraturas políticas de um país cuja história, no romance de Puyana, extrapola qualquer frase reducionista que já tenhamos ouvido por aí.

Puyana, venezuelano radicado em Austin, Texas, se esquiva da simplicidade dos maniqueísmos e das panfletagens, apresentando ao leitor um país plural, vivo e repleto de contradições, cinismo, frustrações e tragédias.

Contrastando o desmoronamento do idealismo romântico dos anos 1960 com a crueza sufocante das décadas seguintes — culminando no golpe contra Chávez, em abril de 2002 —, o romance escancara o preço cobrado pela história tanto aos que tentam moldá-la quanto aos que buscam apenas sobreviver a ela.

De texto ágil e cativante, acrescentando certo sabor de melodrama latino ao cenário histórico, O Gosto da Liberdade devolve nome e rosto à Venezuela que costuma desaparecer atrás das caricaturas de comícios e grupos de família. É a Venezuela do jovem que pegou em armas em 1964 imaginando um país melhor e da mulher que, quase quarenta anos depois, só tenta atravessar mais um dia sob os escombros do mesmo sonho.

– Jorge Wagner é jornalista, produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell. Lançou em 2023 o álbum “Toda Forma de Adeus“. 

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