entrevista de João Paulo Barreto
“É o Brazino, o jogo da galera…” Se você demonstrou um riso de canto de boca ao ler essa letra musical que costuma estourar fones de ouvido em certos momentos íntimos à frente do computador, é bem provável que se divirta bastante com “Muito Prazer” (2026), nova comédia dirigida por Jorge Furtado, cineasta por trás de jovens clássicos do cinema nacional como “O Homem que Copiava” (2003), “Saneamento Básico” (2007), além de ser a mente criativa por trás de um dos curtas pilares do audiovisual brasileiro, “Ilha das Flores” (1989).
Distante de qualquer julgamento moral ou de almejar buscar se aprofundar e discutir os danos que o vício em pornografia pode causar a uma pessoa, Jorge Furtado traz para seu roteiro uma leveza ímpar ao abordar tal tema através de um viés cômico. Trata-se de uma comédia que remete ao clássico estilo screwball comedy, gênero que se popularizou nas décadas de 1930 e 1940 no cinema dos Estados Unidos destacando diálogos rápidos, geralmente proferidos por personagens de sexo oposto e que, eventualmente, devem se envolver romanticamente, apesar de negarem desde o começo existir qualquer atração entre eles. Dentro do aspecto da comédia física, sempre traz um deles como alguém de gestos geralmente desengonçados e repentes acidentais.
“Eu gosto muitos de diálogos rápidos. No ‘Saneamento Básico” (2007) já é um pouco assim. Acho que a comédia tem uma velocidade, mas que a gente só descobre mesmo se o ritmo está certo quando tem o público junto. Porque tem uns espaços para rir. Tem aquele espaço de respiro. Mas gosto muito da velocidade das falas dessa forma. E a gente ensaiou muito. Ensaiamos e lemos”, destaca Jorge Furtado em entrevista a Scream & Yell .
Em “Muito Prazer”, esse casal repleto de uma química cômica palpável é vivido por Daniel de Oliveira e Luisa Arraes, que interpretam Rubem e Grace. Ela, uma ex-funcionária de um motel que faliu; ele, o herdeiro do imóvel após o falecimento do seu tio, antigo proprietário e chefe de Grace, que permaneceu morando no local, mesmo com o abandono do lugar em franca decadência. Repleto de dividas deixadas pelo seu tio, e para não perder o imóvel que deverá ser penhorado por conta dos juros bancários, Rubem decide reativar o estabelecimento com a ajuda da moradora Grace. Diante do prejuízo de um assalto, resolvem instalar câmeras e é daí que surge a ideia de filmar clientes para vender as imagens pornô.
No papo abaixo, Jorge Furtado aprofunda mais a confusão que essa decisão de seus protagonistas causam, além de falar sobre a função cômica do absurdo dentro do cinema. Confira!
O filme me cativou muito pela espontaneidade do elenco. O modo como todos conseguem uma conjunção muito palpável de conforto nas suas falas. É uma comédia de falas, de trocas rápidas. Lembrou-me um pouco aquelas comédias clássicas screwball, com seus diálogos rápidos.
Sim. É bem isso de comédia screwball. Eu adoro o elenco.
Pois é. Eu também. Queria te perguntar sobre essa ideia de colocar nesse roteiro essa coisa rápida de diálogos. Claro que a montagem ajuda bastante também, mas vai do seu texto essa ideia inicial.
Gosto muitos de diálogos rápidos. No “Saneamento Básico” (2007) já é um pouco assim. Acho que a comédia tem uma velocidade, mas só que a gente só descobre mesmo se o ritmo está certo quando tem o público junto. Porque tem uns espaços para rir. Tem aquele espaço de respiro. Mas gosto muito da velocidade das falas dessa forma. E a gente ensaiou muito. Ensaiamos e lemos. Escrevo texto, depois mando para os atores e a gente começa as leituras. Nas leituras, as falas vão arredondando. Tira, bota, vai mexendo, corta, bota do jeito deles de falar. Lembro quando escrevi alguns episódios de “Os Normais” (2001-2003) e era também uma velocidade daqueles dois, a Fernanda (Torres) e o Luiz Fernando. Eles falam rápido, um por cima do outro. E parecia muito natural. Apesar do texto ser preciso, e eles respeitarem bastante o que está escrito, parece que são falas deles. E aí com atores bons, comediantes, assim como os três, principalmente os três, mas a Drica (Moraes)… A Drica é um foguete. Impressionante. Fica muito natural. Parece que eles estão inventando aquilo na hora. Fica muito bom de ouvir.
É curioso que você citou o Luiz Fernando Guimarães e a Fernanda Torres. A química entre o Daniel Oliveira e a Luiza Arraes se assemelha um pouco a deles.
É, total. Já trabalhei com o Daniel muitas vezes. Com a Drica, também. Fiz uma peça infantil de teatro e também trabalhei com ela no “Rasga Coração” (2018), mas era um drama com um outro ritmo. Já o Daniel é um foguete. Fiz várias coisas com ele. Uma série, “A História do Amor” (2011-2013); também em “Sexo Oposto” (2008), que tem um texto muito rápido. Ele é um ator muito inteligente de comédia. Ele não perde nada. Tem uma cena que eu morro de rir. Sempre que vejo, acho graça. Depois que a Luiza diz para ele andar de cabeça erguida porque a curiosidade é um tipo de coragem, ele sai feliz, assim, olhando para cima. Aí ele tropeça, e pisa errado, e se desequilibra, e ajeita os óculos. Tudo muito rápido. É um clown perfeito que ele faz. Ele tem um ritmo de comédia, assim, impressionante. Ele é um gênio da comédia. E faz drama também. Mas o bom comediante faz drama, também. O contrário, não. Mas eles são bons comediantes.

Sim. Curiosamente, revi há pouco tempo “Morto Não Fala” (2018) e é curioso vê-lo conseguir sair desses dois tipos de atuação tão facilmente.
Sim, ali ele faz um negócio pesado, super pesado. E ele interpretou o Cazuza. Acho que de todas as cinebiografias musicais brasileiras, que são muitas, “Cazuza – O Tempo Não Para” (2004) é a que eu mais gosto. Acho a melhor de todas. E ele faz muito bem. E fiz uma outra série com ele, a “Nada Será Como Antes” (2016), que é um drama em que o Daniel brilha. Claro que ele parece sempre jovem. O Daniel não envelhece. Uma coisa de louco (risos). E a Luiza, eu acho impressionante. Uma grande atriz de sua geração. Uma das melhores. Ela faz comédia. Ela não perde uma fala. A cena dela com a Drica eu fiquei pensando que dava para separar, fazer um curta e mandar para festivais.
Sobre a montagem e a direção de arte do filme, a gente vê aquele motel no começo todo em frangalhos. Um desastre de se olhar, mas à medida que o filme se desenvolve, vai se construindo aquele novo visual. Como foi esse processo?
Acho fantástico o trabalho do Fiapo Barth e da Dayane Paz na direção de arte. Achamos aquele motel e foi uma daquelas coisas loucas de coincidência da vida. Porque quando escrevi o roteiro, coloquei assim: “É um motel decadente, blá blá blá. E lá no fundo, no último quarto, tem um quarto bacana, que é uma suíte pérola que ela arrumou para morar. É um quarto bonito onde ela mora. Ela produziu. Ela é uma artista e pintou, tirou e tal.” Estava tudo escrito assim. Aí a produção vai catar um motel. Eu vi dezenas de motéis em Porto Alegre, na periferia, em Novo Hamburgo, em São Leopoldo. Olhamos por tudo. Teríamos que detonar um motel. Pegar um motel funcionando, mais ou menos, fazer a direção de arte, deixá-lo destruído na arte, torná-lo decadente na arte e, depois, arrumá-lo de novo. Só que a gente achou um motel em ruínas. E tinha lá no fundo um galpão com aquele jardim lindo. Um jardim bonito do lado, assim. Uma locação perfeita. Porque estava podre aquele motel real. Ele estava muito destruído, mesmo. Quase que abandonado. Só tinham dois quartos funcionando muito precariamente. Estava bem desagradável até assim. Então, a gente achou este motel, melhoramos um pouquinho para não ficar insalubre, mas mantivemos a destruição dele como estava e construímos em um estúdio os interiores dos quartos e uma parte das duas fachadas com três quartos de cada lado, assim, com aquela rua no meio. Então, foi perfeito. Porque essa era minha maior preocupação: montar a locação com o estúdio. E o trabalho da arte foi maravilhoso. Hoje, na parte de fora, eu já não sei mais o que é locação e o que é estúdio quando assisto ao filme. Os interiores eu sei que são estúdio. Mas, sim, foi perfeito o trabalho da arte todo. E o motel, também, é o sonho do diretor de arte, né? Ter que fazer um quarto Roma, um outro Grécia, outro Egito (risos). Acho que eles divertiram. Em relação à montagem, bom, o Giba (Assis Brasil) é o meu parceiro de montagem desde sempre. Desde o meu primeiro curta, há 42 anos. Ele montou todos os meus filmes. Então, “Muito Prazer” é um filme feito já pensando na montagem do Giba. Já faço a decupagem pensando nisso. E a montagem é feita lá na (produtora) Casa de Cinema. Então, acompanho a montagem. Mas ele, também, se divertiu muito montando. Tinha muitas coisas assim nas cenas que eles estão filmando, que eles tem que montar o vídeo com o ponto de vista da câmera, dos detalhes, como as cenas em que eles estão filmando e tem que montar o vídeo com o ponto de vista da câmera do celular, e vai para a ilha de montagem e volta para o set. Ele gostou muito de montar.

E ainda sobre a montagem, como não falar do “susto” dado no personagem quando acesso um site pornô e a letra “É o Brazino, o jogo da galera” é anunciado. Momento de catarse total de gargalhadas no cinema (risos).
(Muitos risos) Aquilo ali foi uma revelação na primeira vez que passou o filme. Pontualmente, aquele momento é de uma gargalhada localizada. O Lázaro (Ramos) deu uma gargalhada. Ele me olhou rindo assim: “Porra, Jorge!” Quem já passou por aquilo, sabe que realmente está alto demais aquela música. E a gente teve mudar o nome, claro. Usamos “Bravido”. Não dá nem para entender direito. Parece “Brazino”, mas é um “Bravido”. Mudamos um pouquinho a música e o nome, mas aquilo no cinema é o momento que várias pessoas se revelam como alguém que já sofreu isso em algum momento (risos).
Nas falas técnicas que a personagem da Samantha Jones traz, é perceptível que você fez uma pesquisa muito grande para esse filme.
Sim. Primeiro, fiz uma pesquisa de toda a parte dos sites pornôs, que é um assunto que acho muito interessante. A pornografia sempre existiu. O (escritor francês Alain) Robbe-Grillet diz que “a pornografia é o erotismo dos outros”. Sempre houve. As obras de arte mais antigas são cheias de erotismo. A Pompéia, por exemplo, é cheio de arte erótica. Sempre houve isso na literatura. O cinema nem se fala. Acho que quando o cinema começou com “A Saída dos Operários da Fábrica Lumière” (1895), no outro dia já teve um filme pornô feito nos fundos da fábrica dos irmãos Lumière (risos). Porque sempre houve. Era muito tentador para o cinema filmar o sexo. Filmar uma coisa erótica. Lembro-me das locadoras de vídeo, que tinham uma sala separada só para vídeo erótico. E quando veio a internet, bom, aí explodiu. Porque passou a ser uma coisa pessoal, não precisava contar para ninguém e está totalmente disponível. E hoje, 30% da circulação do que corre pela internet, em termos de volume de dados, é pornografia. São sites eróticos. E foi isso que mais me interessou, na verdade. Eu pensava assim: “o que vai acontecer com os algoritmos?” Os algoritmos sugerem de tudo, desde tipos de exercícios, sugestões de comida, enfim, sugestões para tudo. Então, os sites pornôs, que no Brasil registram mais de 500 milhões de entradas por mês, só perdendo para o Google, eles são raio um X da sexualidade humana no planeta. As pessoas clicam e deixam registrado que gostam disso, que não gostam daquilo, e os algoritmos vão recebendo essas preferências de acesso, indicando outras coisas. Se você gostou disso, vai gostar daquilo. Então, teve toda essa pesquisa que você pode imaginar que arruinou o meu algoritmo. Passei a receber anúncios absurdos (risos). E os motéis, também, foi uma pesquisa interessante que fiz. Porque também tem suítes de todo tipo. Em Curitiba, tem um motel com uma suíte Lava Jato, acredita? Com uma gaiola, com fotos do Lula e do Moro. Quem vai querer transar em uma suíte com o Moro e o Lula dentro de uma jaula? Mas tem de tudo o que você quiser! E tem as suítes tradicionais, tipo Roma, Veneza, coisas assim. Então, tem essa arquitetura do erotismo, que é o motel, e tem o algoritmo do erotismo, que são os sites. Então, essa foi uma pesquisa. E a outra pesquisa, tu falastes da Samantha, ela é uma nerd que sabe tudo de internet. Aquele texto quando ela explica para eles o que vai fazer para que os acessos aos sites não sejam rastreados, aquilo eu pesquisei muito. Não só pesquisei muito, como depois consultei um especialista em computação quântica e em segurança cibernética. Na verdade, já estava bem certa minha pesquisa, mas ele mexeu um pouquinho porque existem milhares de métodos para você navegar na internet sem deixar rastros. Mas eu te confesso que quando a Samantha fala aquilo, hoje, eu não entendo absolutamente nada o que ela está dizendo. Parece para mim que ela está falando árabe (muitos risos). Mas ela falou como uma verdade, né? Ela disse que foi uma fala difícil. Porque ela teve que decorar aquilo para falar como se ela entendesse do assunto, mesmo.

E é curioso como o seu roteiro coloca aqueles personagens em suas transgressões, mas sempre fazendo com que eles mesmos se imponham freios nas ações. A frase “mas isso é crime” é dita diversas vezes, por exemplo.
Os personagens sabem que estão transgredindo. Eles sabem que estão cometendo muitos crimes. Não são poucos. Se o filme fosse um drama e não uma comédia, eles poderiam ser presos, poderiam ter matado alguém. Poderiam ter causado uma tragédia. Mas como é uma comédia, eles deram sorte. Mas todo o tempo, eles estão no limite. Acho que isso era a tarefa principal. Me preocupei bastante de ir passo a passo. Porque você vê uma evolução. Ele vai comprar uma câmera para a segurança do motel, mas acaba saindo com seis câmeras em uma promoção. Aí ela diz: “Mas o que vamos fazer com essas quatro câmeras? Vou botar nos quartos.” E aí ele diz: “Tá louca?” Ela responde dizendo que é só de brincadeira, que eles podem apagar depois, que não vão mostrar a ninguém. E assim eles vão criando essas justificativas para fazer aquilo tudo. Vão passo a passo e você, e a sua curiosidade vai junto com eles. Depois, eles têm a ideia de vender, mas que não querem prejudicar ninguém e vão apagar o rosto da pessoa, que não vão identificar ninguém. Mas aí a mãe reconhece o sinal de nascença da filha. Eu acho que os personagens na dramaturgia têm que fazer coisas que a gente não faria. Eles têm que exercitar as nossas emoções, nossos medos, desejos,, fazendo coisas que a gente não faria. Em “O Homem que Copiava” eles explodem uma pessoa e vão embora. Então, não os julgo moralmente. Não dá para julgar moralmente os personagens. Eles fazem coisas absurdas assim. E devem fazer. Acho que a dramaturgia é uma espécie de aeróbica para a alma. Você exercita sentimentos, medos e desejos. Eu não entraria nessa caverna nunca, mas o Indiana Jones entra. E eu estou quieto na segurança da sala do cinema e enquanto ele está correndo em meio às cobras e aranhas. É meio isso.
Você falou no debate no Cine Glauber, em Salvador, que, com “Muito Prazer”, você tinha esse interesse de voltar à comédia. Seu próximo projeto também será cômico?
Meu filme do ano que vem, se tudo correr bem e der certo, é “Os Supridores”, que é um livro do José Falero. É uma história que até tem um pouco de humor, assim, mas é um drama. É um drama que tem mortes e tiros. Vou filmar tiros. Muitos tiro. Será a primeira vez. Nunca filmei isso. Mas é um livro muito bom e com uma história incrível que já foi traduzido para a França, Estados Unidos. Um sucesso total escrito pelo José Falero, que é um brilhante autor gaúcho. Então, meu próximo trabalho não será uma comédia, não.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.
