Crítica: “Lost Weekend” é mais uma joia na trajetória artística de Phoebe Bridgers

texto de Samuele Conficoni

Seis anos após o magnífico “Punisher” — e após o lançamento, no final de 2020, de um EP com Rob Moose apresentando releituras orquestrais de faixas de “Punisher”, do álbum de 2023 do Boygenius (“o” disco daquele ano no Scream & Yell) e de alguns singles e participações especiais —, Phoebe Bridgers retorna com “Lost Weekend” (2026). É um terceiro álbum sólido, maduro e repleto de camadas — mais uma joia em sua trajetória artística —, demonstrando mais uma vez sua habilidade de combinar linhas melódicas suaves e graciosas com uma sensibilidade poética que é profundamente melancólica, porém intensamente forte e, por vezes, marcada por uma profunda desilusão. Esse estilo lírico, marca registrada de seu trabalho, brilhou intensamente em seus dois lançamentos anteriores. Antecedido por “Lost Boys” — seu primeiro single solo desde “Sidelines”, de 2022 —, “Lost Weekend” é um disco intenso e profundamente pessoal, no qual a visão artística de Bridgers emerge com coerência e clareza impressionantes.

Assim, Phoebe Bridgers retorna após um longo silêncio — aquele tipo de silêncio de que grandes artistas frequentemente precisam para uma reflexão solitária depois de lançarem uma obra-prima. “Punisher” foi exatamente isso; de fato, seu legado só cresceu com o passar do tempo. Nesse intervalo, ela conquistou a aclamação da crítica e do público com o álbum de estreia do Boygenius — o supergrupo formado com Julien Baker e Lucy Dacus, as duas também contribuem com faixas neste novo disco. Aos 31 anos, Bridgers já é, há algum tempo, uma das cantoras e compositoras mais queridas e celebradas dos Estados Unidos. Este terceiro álbum poderia tê-la colocado diante de uma encruzilhada complexa, forçando-a a enfrentar o dilema hamletiano de manter o caminho que vinha trilhando até então ou tentar uma espécie de revolução; no entanto, como costuma acontecer com artistas do calibre de Bridgers, sua grandeza reside na capacidade de harmonizar ambos os aspectos de uma maneira surpreendentemente original.

Ao longo de dezesseis faixas e cinquenta e dois minutos de música, Bridgers se perde, se encontra e se perde novamente em uma narrativa não linear, fragmentada e vertiginosa. Ela percorre um vasto espectro de estados de espírito e emoções — muito semelhante à obra-prima de Billy Wilder que provavelmente inspirou o título do álbum: aquele “fim de semana perdido” (“lost weekend”) de pesadelos sufocantes e demônios interiores malévolos que assombravam o protagonista alcoólatra daquele filme de 1945. Aqui, no entanto, não há um vício ou impulso específico desencadeando a narrativa. Há um “fim de semana perdido” envolto na névoa do arrependimento e da dúvida; há “garotos perdidos” que “nunca crescem, nunca envelhecem” em um presente eterno — algo que é, ao mesmo tempo, uma libertação da ansiedade, um hino ao ato de se perder e também uma forma de tormento; e há Bridgers “tentando não olhar para baixo” enquanto reafirma que “O que quer que aconteça depois, não importa / Você não precisará acreditar em mágica”. É um estado de perder a alma e a mente em algo maior do que si mesma — algo que se torna um obstáculo que nos impede de esquecer, mas também um ponto de partida para a reconstrução.

A estrutura musical e as escolhas de arranjo de Bridgers também se alinham a essa jornada complexa: as abordagens melódicas na maioria das faixas seguem caminhos que ela já havia traçado em “Punisher”, embora com variações e inovações notáveis ​​em cada canção. Aquelas melodias hipnóticas e envolventes — do tipo que nos abraçam e nos prendem, fazendo-nos estremecer —, que remetem a passagens de Sufjan Stevens, Elliott Smith e, antes de ambos, Nick Drake, brilham em toda a sua beleza em muitas das melhores faixas do álbum. Exemplos de destaque incluem as verdadeiras joias “The Governor’s Waltz” — uma canção de pop-rock elegante e etérea, na qual a força tóxica e desestabilizadora de um relacionamento complexo (aquele que Bridgers viveu com Paul Mescal entre 2021 e 2022) aperta o cerco em torno da artista, conduzindo-a por uma montanha-russa emocional atordoante e avassaladora que culmina em versos poderosos e dramáticos como “Eu sei que você nunca pensaria realmente em pular / Mas faça isso por mim” — e “Still Standing”, uma canção hipnótica e contida, onde a doçura da música e do arranjo dialoga com a letra, ora fundindo-se a ela, ora entrando em conflito, tudo isso desembocando em um longo final de sonoridade ambiente e caráter quase religioso. Outro diamante é “Kill Me”, uma faixa de jangle-pop-rock incisiva e dinâmica na qual Bridgers esboça uma reflexão cínica, porém intensa, sobre a passagem do tempo; seu olhar aguçado e clínico concentra-se nas peculiaridades repetitivas que definem os relacionamentos e sua evolução através do espaço e do tempo. “Ele tem gosto de flor com pétalas químicas”, canta Bridgers com grande intensidade emocional, referindo-se ao seu namorado Bobby enquanto tenta, simultaneamente, universalizar esse sentimento de alegria misturada à apreensão.

As aberturas melódicas, repentinas e arejadas da rítmica e impetuosa “Liberty Tree” arrebatam e impactam o ouvinte; nela, Bridgers confronta a si mesma e o mito de Ícaro enquanto canta: “Voando perto do sol de óculos escuros”. Fiel ao seu estilo característico, ela associa uma memória vívida e nítida a um conceito filosófico mais abstrato: “Apaixonando-me naquela noite, depois da nossa briga / E o passado parece cada vez mais brilhante”. Já “As Above” — que introduz o desfecho intrincado e refinado do álbum — é sustentada por delicados arpejos de piano e efeitos de sintetizador que criam uma atmosfera segura e serena. Ao se desenrolar para o ouvinte, a faixa revela uma natureza folk-gospel geométrica e em camadas, definida por progressões de acordes intrigantes, com vocais e texturas instrumentais tornando-se cada vez mais oníricos à medida que a canção chega ao fim.

Momentos que destacam a paixão de Bridgers pelo country-folk — um gênero geralmente presente, porém submerso em sua obra, reimaginado e recontextualizado em formas difíceis de definir à primeira vista — incluem “Never Going Back!” e “Haunted”. Na primeira, o ritmo obsessivo e a estética lo-fi da faixa são amplificados pela repetição quase maníaca dos versos: “Nunca mais vou voltar atrás / Como era antes não é como é agora”. “Haunted”, por sua vez, é uma canção folk hipnótica e imersiva, na qual a aproximação do refrão intensifica tanto o ritmo quanto os vocais de Bridgers; ela canta com um tom confiante e enérgico: “Até lá, vou ouvir / A canção da sereia / Não, não tenho medo”. O amor é explorado não apenas como um sentimento ou estado de espírito, mas — acima de tudo — como uma força que revoluciona o mundo interior do indivíduo e as relações entre as pessoas e o mundo. Há várias referências a Bo “Bobby” Burnham — namorado de Bridgers — aqui, assim como nas já mencionadas “Kill Me” e na afetuosa “Bobby”, uma canção explicitamente dedicada a ele. Nesta última, a tensão romântica e erótica paira no limite entre a expectativa e o florescimento do próprio amor — um equilíbrio precário e delicadamente fluido que o arranjo maximalista, com suas reviravoltas emocionais, amplifica com grande eficácia.

Os ritmos pulsantes e as rimas de “I Can’t Wait” — que conta com a participação de Cameron Winter sob um pseudônimo — conduzem o ouvinte aos recantos mais francos e sinceros da psique de Bridgers. Essa faixa, um dos pontos altos emocionais do álbum, tenta transformar a dor de um término em uma fuga irônica e cáustica da realidade; é uma canção de electro-rock-pop fascinante e sedutora, enriquecida por um dueto majestoso. Quando as duas vozes se entrelaçam, cantando “Hyde Jekyll Hyde / You and I forever” (Hyde Jekyll Hyde / Você e eu para sempre), percebe-se o poder e a eficácia de seus timbres ao se fundirem. A música intensifica subitamente a batida e o vigor instrumental e vocal, explodindo em um refrão que colide com a escuridão antes de dar lugar ao som solitário e esplêndido de uma gaita. “Não estou bem, mas estou melhor”, canta Bridgers no refrão; sua voz e seu estado de espírito refletem uma espécie de diversão cínica, enquanto quase se pode imaginar Jack Antonoff no cômodo ao lado, acionando suas guitarras e sintetizadores. A canção prossegue sua jornada por vielas sinuosas na tentativa de encontrar uma resposta eficaz: “Perdi a deixa, mas tanto faz / É agora ou nunca”, canta Bridgers em tom algo contido, antes de a faixa retomar seu passo sincopado e marcial — uma corrida que, mais uma vez, alterna entre clímaxes ascendentes e descendentes, levando a uma conclusão abrupta.

“Lembro-me do dia em que criei o mundo / Manchei de sangue minha camisa favorita”, canta Bridgers com um tom elevado e dramático nos momentos iniciais de “Other Plans”. É uma faixa de caráter quase teatral e litúrgico — dotada de rara profundidade poética — e um momento crucial do álbum, no qual Bridgers tenta, com esmero, encontrar um lado positivo na dor e na perda dentro da narrativa não linear e envolta em mistério que “Lost Weekend” conta. Ao cantar sobre um sentimento perdido quase instantaneamente — seja referindo-se a um parceiro ou, sob o olhar de um dos pais, a uma filha —, Bridgers cria uma canção sublime e graciosa. Seus tons pálidos e difusos evocam um sonho mágico, porém ambíguo, graças a um arranjo cinematográfico e imersivo e a uma letra breve, pungente e visionária, que culmina na declaração trágica e definitiva: “Nosso amor, nosso amor tinha outros planos para nós”. É um dos momentos mais intensos e comoventes de um álbum que captura o ouvinte, promovendo uma profunda identificação e despertando reflexão até sermos envolvidos em uma teia invisível onde presente, passado e futuro se confrontam e se perseguem ao longo de um continuum espaço-temporal que não conhece limites. E é também por isso que você quer começar a ouvir tudo de novo imediatamente.

Ouça o álbum na integra abaixo

Texto publicado originalmente no site italiano Kalporz, parceiro de conteúdo do Scream & Yell. 

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