entrevista de Marco Antonio Barbosa
O ano é 1992. Os jovens brasileiros ligados em música alternativa – o termo “indie” ainda não era amplamente usado – se inteiravam das novidades do cenário com a ajuda do programa “Lado B”, na MTV Brasil. O som da temporada era o shoegaze; entre um My Bloody Valentine aqui e um Lush ali, o videoclipe de uma canção intitulada “Pearl” também chamava a atenção. Nascia ali um microclássico. O nome da banda era Chapterhouse, e o álbum se chamava “Whirlpool”. Chegou a sair no Brasil, lembram?
Em breve, tudo aquilo teria sumido na poeira. O shoegaze virou piada, detonado pelos mesmos críticos que pouco antes o incensavam. O Chapterhouse encerraria suas atividades em 1994, apequenado pela ascensão do britpop. E o grupo nem ficou sabendo do fugaz sucesso que alcançou entre os indies brasileiros.
“Tínhamos uma certa noção de que ‘Pearl’ foi popular fora da Inglaterra. Mas (a gravadora Dedicated) nunca nos informou sobre os países específicos onde a música fizera sucesso. Então tocou bastante por aí, hein? Na programação normal? Legal, legal…” admira-se Andrew Sherriff, vocalista e guitarrista do Chapterhouse, em conversa via Zoom com o Scream & Yell.
O ano é 2026. A banda inglesa, que retomou as atividades em 2025, está prestes a desembarcar no Brasil para um show único em São Paulo (29 de setembro, no Cine Joia, com terraplana abrindo – ingressos aqui). Sherriff desembarca acompanhado dos membros fundadores Stephen Patman (guitarra) e Ashley Bates (bateria) e dos agregados Joe Light (guitarra) e Greg Moore (baixo).

O momento é propício. O shoegaze está na moda de novo. As guitarras ensopadas de reverb & distorção e os vocais sussurrados/suspirados inspiram toda uma cena global de bandas, da Coreia do Sul ao Brasil. E diversos veteranos da onda original, como Ride, Slowdive, Swervedriver e o próprio My Bloody Valentine religaram os amps e voltaram aos palcos. Um movimento ao qual o Chapterhouse se integrou.
“É bem legal que as pessoas tenham visto no shoegaze um estilo que merece permanecer, ganhar longevidade. Temos encontrado bandas novas, formadas por jovens, que compõem a nova geração do shoegaze. São pessoas adoráveis, que fazem ótima música. É interessante ver como uma série de subgêneros está surgindo. Existe hoje uma espécie de ‘folkgaze’, que mistura folk e shoegaze. E outras bandas são mais pesadas, meio como um ‘heavymetalgaze’. Sei de bandas latino-americanas que gravaram covers do Chapterhouse. É um estilo que transcende o tempo e as modas, algo que se tornou muito popular”, acredita o vocalista.
Para Sherriff, é como se o tempo tivesse feito justiça a sua geração, afinal. Imprensados de um lado pelo Britpop e do outro pelo grunge, os shoegazers dos anos 1990 perderam o fôlego rapidamente. “Claro que todos lembram do Oasis e do Blur, mas quase todas as outras bandas do Britpop foram esquecidas. Nós e os outros grupos do shoegaze fomos muito criticados porque não tínhamos ‘atitude’. Mas aquele hype todo acabou sendo bastante tóxico para os artistas. Havia muita gente se comportando muito mal.”
“O shoegaze, por outro lado, era composto essencialmente por pessoas que só queriam fazer música e não buscavam viver os clichês da vida de rockstar. É daí que vem o termo ‘shoegaze’ – cabeça baixa, fitando os próprios pés, né? Um som feito por caras que não se sentiam à vontade para saracotear pelo palco. O importante para nós era a música, e só a música.”
O Chapterhouse se reuniu ostensivamente para comemorar os 35 anos de “Whirlpool”, lançado em 1991. Em 2023, o grupo já havia se reencontrado para selecionar o repertório do boxset retrospectivo “Chronology”, que compila todas as faixas lançadas oficialmente entre 1990 e 1994, mais um catatau de demos e sobras de estúdio em seis CDs.
“Foi como um prelúdio para o retorno da banda”, diz Sherriff. “Entre ‘Whirlpool’ e ‘Blood Music’ (segundo e ultimo álbum, 1994), nós gravamos muitas faixas que acabaram arquivadas. Havia basicamente dois álbuns inteiros de material inédito, canções mais ou menos prontas, que só precisavam de um vocal definitivo ou algum outro detalhe. Então pensamos: vamos colocar tudo em ordem, fazer uma cronologia, e as pessoas poderão entender a progressão que percorremos.”
Daí para a ideia de meter o pé na estrada de novo… “Todo mundo perguntava ‘Quando vocês vão voltar a tocar?’ E o timing nunca era o ideal. Estamos mais velhos, todos temos filhos e família hoje.” (O vocalista vive hoje em Cornwall, extremo Sul da Inglaterra, a mais de 400 km de Londres.) “Mas então fomos convidados para fazer seis festivais nos EUA, o que nos permitiu ter tempo para ensaiar, programar a viagem e tudo mais. Daí foi uma bola de neve.” Segundo o vocalista, o reencontro com a plateia (a turnê já passou por Inglaterra, EUA e Canadá) tem sido marcado pela euforia. “Fizemos uma tour pela Inglaterra antes de irmos para a América e os ingressos do show em Londres esgotaram em um dia.”
Para a alegria dos “gazers” safra 1991, o Chapterhouse vem tocando “Whirpool” não apenas na íntegra, mas também na mesma ordem das faixas do LP. Sherriff admite que, nos anos 1990, nunca teria sequenciado um setlist dessa forma. “É inusitado. Abrimos com ‘Breather’, ‘Pearl’, ‘Autosleeper’ e ‘Treasure’, e é uma loucura, a sequência deixa todo mundo na plateia realmente animado. E depois fazemos uma segunda parte com b-sides e algumas músicas de ‘Blood Music’. Dá cerca de uma hora e meia no total – os shows mais longos que já fizemos!”
Ao revisitar o repertório de “Whirpool” para a turnê atual, Sherriff admite que o quinteto experimentou algumas surpresas. “A princípio eu achei que precisaríamos modernizar os arranjos, mudar o jeito de tocar. Músicas como ‘Guilt’ e ‘April’ me causavam muita preocupação; achava que soariam antiquadas hoje. Só que não”, conta ele. “Começamos a ensaiar e percebemos que o repertório soava muito melhor quando éramos fiéis às versões originais. Estamos tocando basicamente os mesmos instrumentos da época do disco. A diferença é que antes usávamos unidades digitais de multiefeitos, e hoje temos pedaleiras com um monte de pedais analógicos. A tecnologia é um pouco diferente e faz com que soemos um pouco mais contemporâneos. Acaba funcionando bem, é uma junção das duas abordagens – a original e a atual.”
Diferentemente de outros contemporâneos ressuscitados, como o My Bloody Valentine ou o Pavement, o Chapterhouse pretende lançar material inédito após o fim da turnê. “A ideia é começar com um ou dois EPs, e depois, espero, um álbum. E aí voltaríamos à estrada para tocar as músicas novas. Ainda é cedo para dar mais detalhes, mas sim, já começamos a compor novamente”, diz Sherriff. Em termos “realistas”, segundo o cantor, as primeiras faixas inéditas da nova encarnação da banda estariam no ar no segundo trimestre de 2027. E eles não pensam em ingressar na dança-das-cadeiras em que se transformou o mercado fonográfico. “Nem cogitamos em procurar uma gravadora. Será um lançamento independente. Hoje em dia, não faz diferença estar em uma gravadora ou não. A não ser pela questão do marketing, provavelmente.”
Mas antes de despachar as novas músicas, a banda finalmente cruzará a linha do Equador, mais de três décadas depois do fugaz sucesso na MTV brazuca. Além do show em São Paulo, a banda ainda toca no fim de setembro no Peru e na Argentina. Andrew Sherriff nunca se apresentou no Brasil… mas visitou o país há quase 30 anos. “Estive em São Paulo em 1997. Eu era técnico de som do Adam F. Lembra do Adam F.? Aquele cara do drum’n’bass?” O DJ inglês, conhecido pelo hit “Circles”, se apresentou no Free Jazz Festival daquele ano. Lembram?
– Marco Antonio Barbosa é jornalista e escritor e, como músico, já sampleou uma faixa do Chapterhouse em seu projeto Borealis.
