texto de João Paulo Barreto
Na cena de abertura de “O Fim da Rua” ( “The End Of Oak Street”, 2026_, novo filme do cineasta David Robert Mitchell, um diálogo sobre “Cosmos”, clássica série documental de Carl Sagan, dita os rumos que o texto assinado pelo diretor do jovem clássico “Corrente do Mal” (“It Follows”, 2014) pretende seguir em uma reflexão entre o apego pragmático da ciência versus a fé em algum deus que lhe conceda um mínimo de conforto mental diante do caos de uma situação absurda. Na tal citação, o astrônomo e cientista planetário compara a existência dos seres humanos no mundo à fugacidade da vida de um inseto. “Somos como borboletas que voam por um dia e acham que é para sempre.”
Em seu roteiro que aborda propostas narrativas envolvendo o conceito astronômico dos buracos de minhoca, fendas temporais, viagem no tempo e coloca uma pacata família do começo dos anos 1980 diante da aparição de dinossauros e outros seres jurássicos na rua onde vivem, Mitchell apresenta fatos importantes de se frisar em tempos atuais. Em uma época na qual a imbecilidade oportunista de negacionistas e terraplanistas ganhou voz, a proposta de frisar que o brotar de uma planta que surge em um jardim na época atual seria algo improvável uma vez que a extinção daquela espécie aconteceu há 200 milhões de anos se torna um ponto apropriado do momento em que o filme estreia. Em um período no qual pessoas afirmam que a Terra existe há seis mil anos, é com um sorriso de canto de boca que essa cena é encarada.

Mas claro que, com uma premissa tão fantasiosa e contando com a produção de J.J. Abrams, o filme de Mitchell não ficaria restrito somente a discussões filosóficas voltadas a uma análise da existência dos seres humanos na Terra, tampouco manteria unicamente um clima de tensão sobrenatural que emulasse o mesmo que o diretor trouxe com maestria a seu filme de 2014. Desta forma, a partir dessa ideia que parece oriunda de um episódio de “The Twilight Zone”, séria batizada no Brasil de “Além da Imaginação”, o diretor cria um ritmo de aventura que se equilibra com esmero pelo mistério que o absurdo de sua trama oferece. Afinal, estamos falando de um roteiro no qual, de repente, dinossauros e outros seres jurássicos são vistos em plena década de 1980 nos subúrbios de uma cidade dos Estados Unidos.
E se a década há quarenta anos é pontuada neste momento, é justamente para salientar como uma das marcas do diretor de “Super 8”, filme de 2011, surge no roteiro de Mitchell de modo orgânico, com a presença do seu elenco adolescente descobrindo uma maturidade que não sabiam que possuíam enquanto pedalam suas bicicletas por ruas que julgavam seguras, mas que os levarão por caminhos tortuosos. E nessa mescla de modos de criação cinematográfica dentro de uma proposta divertida de narrativa, “O Fim da Rua” une duas mentes inquietas em um resultado de entretenimento que consegue ser brutal e sanguinolento quando necessário, afinal estamos falando de carnívoros e brutais dinossauros, mas que, também, pontua uma narrativa profunda em sua análise dos dramas daquela família que se vê diante de um acontecimento insano. É quando os personagens vividos por Ewan McGregor e Anne Hathaway, junto ao elenco adolescente, encaram tal a surreal situação que estão vivendo de maneira pragmática, tentando encontrar alguma lógica para tudo aquilo enquanto sentam-se no chão em círculo.
A cena em questão é destacada aqui por conta não somente do seu diálogo, que encontra em seu texto a vazão religiosa de se abordar a busca de uma segurança mental através da fé em uma religião diante do caos e do medo da morte, mas, também, pelo modo como Mitchell decidiu filmá-la, colocando seus personagens em enquadramentos de rostos sobrepostos (ou overlaping face), estilo notoriamente utilizado e que teve uma das tomadas mais marcantes da história do cinema com uma clássica cena de “Persona” (1966), na qual Ingmar Bergman enquadra Liv Ullmann e Bibi Andersson em um momento pivotal de sua trama. O uso a referência é clara e salienta por parte de David Robert Mitchell justamente o modo como o nonsense de todo aquele pesadelo real afetou cada um de seus quatro personagens centrais de maneira psicológica.
Mas voltando ao já citado aspecto gore e sanguinolento citado, “O Fim da Rua” constrói com dureza seus momentos de tensão diante da resposta violenta que seus personagens precisam dar àqueles acontecimentos. Claro que, após a franquia “Jurassic Park” esgotar as possibilidades de inovações visuais quanto ao tema, a utilização de dinossauros em cena acaba seguindo uma cartilha de momentos aterradores. Assim, lá estão as cenas nas quais um carro que serve como refúgio é atacado por uma espécie que remete a um T-Rex e pterodáctilos atacam do céu o vizinho que, em um estado de loucura (olha aí outra análise psicológica da estupidez humana) sobe no telhado para atirar (!?) nas criaturas com simples calibre .38. Mas o momento em que uma espécie de enguia marítima gigante e silenciosa adentra à casa ainda figura como o mais horripilante dessa fábula.
Com a solução de um final feliz construído a partir das possibilidades criativas que o tema da viagem do tempo traz, “O Fim da Rua” consegue encerrar sua história destacando sua raiz nas criativas tramas oriundas da Twilight Zone. Uma boa sessão da tarde.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.
