Entrevista: “América Latina é o mercado de música que mais cresce no mundo”, diz Hernán Halak, do MUCHO! Ciudad Sonora

entrevista de Leonardo Vinhas

Se você fosse olhar o calendário de shows internacionais no começo da década passada, encontraria poucos nomes latino-americanos na agenda. Até então, os palcos brasileiros recebiam, basicamente, artistas consagrados lá fora que estavam dispostos a investir para ganhar espaço no mercado brasileiro, ou poucas iniciativas feitas por festivais de médio porte, como El Mapa de Todos e RecBeat, que estavam dispostos a promover um diálogo entre as cenas independentes dos países vizinhos com o Brasil.

Estamos em 2026, e o cenário é muito diferente, em todos os aspectos. Nomes latino-americanos são uma constante nesse calendário, eles já não dependem dos festivais, e nomes tão diferentes quanto Bad Bunny, Ca7riel & Paco Amoroso, Mon Laferte ou Rosalía (que é espanhola, mas vamos colocá-la aqui por questões idiomáticas) podem lotar grandes espaços, e até estádios, em shows solo.

Essa mudança se deve a muitos fatores – tantos que o tema mereceria até mesmo um artigo dedicado –, mas um deles certamente é o trabalho firmado pelas produtoras Mundo Giras e Difusa Frontera, que, além da sua atuação individual, criaram conjuntamente o MUCHO! Inicialmente um festival (que você leu no Scream & Yell sobre as edições de 2017 e 2023), cuja última edição aconteceu em 2024 para dar lugar a um circuito de shows que se desdobra, agora, em uma plataforma, a MUCHO! Ciudad Sonora, com a proposta de reunir artistas históricos, nomes cultuados e representantes fundamentais da nova cena musical.

Nesse primeiro ano de atividade, a plataforma já trouxe o franco-espanhol Manu Chao para uma apresentação na Virada Cultural de SP (parte de uma turnê que incluiu quatro datas mais no país), e trará, ainda, Los Cafres (da Argentina, em agosto), Iseo & Dodosound (Espanha, em setembro), Milo J (Argentina, em setembro), Los Mirlos (Peru, outubro), La Bomba del Tiempo e Aterciopelados (respectivamente Argentina e Colômbia, ambos em novembro), além dos brasileiros Móveis Coloniais de Acaju em setembro. “Tem nomes muito fortes fora do Brasil que se apresentam no projeto e formam parte de uma aposta cultural para desenvolver ainda mais o mercado latino em São Paulo”, conta Hernán Halak, argentino residente no Brasil há anos, e fundador da Mundo Giras.

Por e-mail, Halak respondeu a algumas perguntas do Scream & Yell sobre esse bem-vindo projeto, o mercado latino e projetos futuros. E embora não tenha adiantado outros nomes que podem vir, deu pelo menos uma lista dos nomes que integram sua lista de sonhos. Quem sabe algum aparece pelos palcos brasileiros.

O que orientou a criação do projeto Ciudad Sonora?
Nos últimos anos, a música produzida na América Latina deixou de ocupar um espaço de nicho para se consolidar como uma das forças principais do mercado da música. Nesse movimento, São Paulo reafirma seu papel como um dos principais pontos de encontros culturais do continente onde as comunidades se encontram de forma natural, atraindo um público cada vez mais interessado em novas tendências sonoras. É nesse contexto que nasce MUCHO! Ciudad Sonora, uma plataforma anual dedicada à cultura latina e ibero-americana da cidade. O projeto pretende ocupar diferentes espaços da capital ao longo de 2026 com uma programação contínua de shows que celebram a força da produção musical da América Latina, da Península Ibérica e de suas diásporas culturais.

Certamente o Brasil também é latino, e é bem-vinda a presença do Móveis Coloniais de Acaju entre os selecionados. Mas o que levou exatamente à escolha deste artista para integrar o projeto?
O Móveis é uma banda que desde seus começos foi influenciada pelo ska, pelos ritmos latinos e pela tradição festiva. Construiu uma identidade que dialoga diretamente com a energia coletiva a de grupos emblemáticos da América Latina. O show da banda é uma celebração, marcada por uma grande seção de metais, forte interação com o público e uma intensidade cênica que remete à experiência ao vivo de artistas como Los Fabulosos Cadillacs, Los Autenticos Decadentes e até mesmo aos momentos mais festivos dos Paralamas do Sucesso. Existe uma conexão natural entre o repertório do Móveis e essa tradição latino-americana de transformar cada apresentação em uma festa coletiva. A presença do Móveis no projeto reforça justamente essa ideia: mostrar que a música brasileira não está à margem da América Latina, mas faz parte de uma rica rede de intercâmbios estéticos e culturais que atravessa todo o continente.

Quando a Mundo Giras começou, o cenário para artistas latinos era muito diferente. Hoje, a presença de nomes de toda a América Latina é uma constante, mesmo com os custos logísticos crescentes. A que você atribui essa transformação?
América Latina é o mercado de música que mais cresce no mundo, 16 anos consecutivos se posicionando como uma região em constante evolução, puxado pelo streaming com um 88% da receita total. Isso reflete diretamente no mercado de shows ao vivo e no motor da indústria.

Hoje, além dos custos aéreos, quais os principais desafios para manter esse circuito de shows girando?
Manter uma formação de público constante, a comunidade é umas das peças essenciais para poder manter a roda girando. Levar boas experiencias para as pessoas com grupos consolidados e grupos da nova cena, trazendo novidades e tendências.

Estamos em um mundo bastante dividido e agressivo. A Mundo Giras sempre teve uma proposta de integração. Podemos dizer que o trabalho de vocês hoje tem um caráter de resistência, ou mesmo de confronto?
Nosso trabalho na Mundo Giras é realizar projetos de qualidade que tenham a integração cultural como ponto de partida. Embora a música latina ainda seja um mercado relativamente menor no Brasil, enxergamos nele uma potência enorme, com um público cada vez mais interessado em descobrir novos artistas. A integração está no centro dos nossos projetos.

Você, antes de produtor, é um ouvinte, um apreciador da música em muitas formas. Sei que trazer Susana Baca ao Brasil foi um momento que você valorizou muito. Quais seriam outros nomes que você sonha em trazer para o Brasil e que ainda não conseguiu?
Muitos! Para nomear alguns: Los Fabulosos Cadillacs, Cazzu e Divididos da Argentina. Karol G da Colômbia. Peso Pluma, do México. Young Miko de Porto Rico.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.

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