18º In-Edit: “Apopcalipse Segundo Baby” é uma viagem pelo multiverso cheio de absurdo e de talento de Baby do Brasil

texto de Renan Guerra

Baby do Brasil é uma figura única dentro da história da música brasileira, poucos artistas sustentaram em si ao mesmo tempo tanto talento e tanta loucura. Ela já foi Baby Consuelo, foi a voz feminina dos Novos Baianos, gravou alguns dos discos mais inventivos do pop rock brasileiro, criou uma parceria profissional e amorosa com Pepeu Gomes e pariu o grupo SNZ – ela criou as crianças com nomes mais absurdos desse país, de Riroca a Krishna Baby, de Nãna Shara a Zabelê. Na mesma medida, Baby embarcou e espalhou algumas das mais absurdas e inimagináveis crenças e seitas, indo do lifestyle hippie nos anos 70 aos golpes de Thomaz Green Morton, o homem do Rá e seus garfos e colheres entortados nos anos 1980, chegando hoje em dia aos seus arroubos apocalípticos neopentecostais que ela segue praguejando por aí, em igrejas, palcos, trios elétricos em Salvador e até mesmo dentro da D-Edge, importante espaço clubber de São Paulo.

Como condensar uma personagem desse tamanho em um filme de 110 minutos? Esse foi o desafio enfrentado por Rafael Saar em “Apopcalipse Segundo Baby”, documentário que começou a ser filmado em 2008 e só chega ao público agorAa, dezoito anos depois. Para isso, Saar opta por um caminho não-convencional, tal qual sua personagem guia: “Subvertemos o modelo tradicional, deixamos de lado as entrevistas com personalidades e focamos na jornada autorreflexiva de Baby. Exploramos respostas e perguntas sobre uma figura que é um ícone da transgressão, buscando a definição de Baby no Los Angeles Times: de que ela possui o fogo e a fúria de uma Janis Joplin latina”, explica o diretor.

 

A partir disso o filme reconstrói as memórias da artista por meio de viagens a lugares fundamentais de sua trajetória, como Salvador, Niterói e Santiago de Compostela – isso é algo que muita gente esquece, mas Baby não é baiana, mas sim niteroiense. Em “Apopcalipse Segundo Baby”, os deslocamentos conduzem a artista por reflexões sobre sua infância, a fuga para a Bahia na adolescência, a vida comunitária ao lado dos Novos Baianos, a carreira solo e sua permanente busca espiritual. As mudanças de rota causadas pela religiosidade, inclusive, ajudam a construir uma parte do fluxo narrativo do filme. E nesse sentido é importante esclarecer: este não é um documentário jornalístico ou educativo, não há uma indicação clara de datas, de informações históricas, a preocupação aqui não é dizer “no ano tal Baby lançou o disco x” ou “no ano y Baby adentrou a seita z”. Essa escolha narrativa pode afugentar quem não é iniciado na “aula Baby”, mas também é um interessante convite a toda mística criativa – e doida – da “personagem”.

Rafael Saar é autor de identidade própria dentro do documentário brasileiro e isso o torna um dos realizadores mais interessantes de sua geração. A forma como ele se debruça sobre a obra de diferentes artistas é um convite especial para mergulharmos em possibilidades narrativas e sonoras únicas, como é possível ver em “Peixe Abissal”, sobre a obra de Luís Capucho e que levou Menção Especial do Júri no In-Edit Brasil 2023, ou ainda em “Yorimatã”, sobre a dupla Luhli e Lucina, prêmio de Melhor Filme do Júri no In-Edit 2015. Como dito, seu trabalho com Baby se inicia muito antes desses outros títulos e é interessante como esse processo lento com a artista o auxilia a construir um acervo único de imagens inéditas e de arquivo. Ao ver o resultado final dessa caminhada, nos parece que Baby assume riscos e experiências ao lado de Saar, se abrindo para a criação de cenas especiais e de revisitações únicas de sua história.

E aí pode surgir uma pergunta: a relação tão duradoura de Saar com sua protagonista impacta na liberdade narrativa do filme? Essa relação gera um abrandamento das histórias? Não necessariamente. “Apopcalipse Segundo Baby” não é de extremos: não busca enfrentar ou colocar sua protagonista contra a parede, na mesma medida em que não se deixa levar por um roteiro chapa branca. A bem amarrada montagem do filme consegue delinear as incongruências da história de Baby do Brasil, desde quando ela ainda se chamava Consuelo. Sim, o filme passa rapidamente por sua fase mística ao lado do charlatão do Rá ou também não se debruça tão profundamente sobre suas turvas crenças atuais, mas isso é uma escolha: a religiosidade, as crenças e as entregas urgentes a essas experiências funcionam como pano de fundo para a criação artística de Baby. Interessa ao filme muito mais como essas viradas religiosas reverberam no canto e na carreira de Baby, seja para produzir discos lindos ou para colocá-la em limbos criativos e comerciais.

Lançado no É Tudo Verdade 2026 e saindo do festival com a Menção Honrosa da Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens e um Prêmio EDT de Melhor Montagem em longa-metragem na competição paralela, “Apopcalipse Segundo Baby” chega ao In-Edit como filme ímpar; entre filmes didáticos demais e recheados de entrevistas expositivas, Saar nos convida a uma experiência mais sensorial em torno de uma figura controversa. Baby do Brasil já foi cancelada e desconsiderada inúmeras vezes e, objetivamente, não estamos aqui para questionar isso; não concordamos e nem compactuamos com diversas falas da artista, porém não se apaga seu impacto em nossa música e cultura popular. Nesse cenário, o cinema, a arte e a crítica ainda devem servir como caminhos para pensarmos e questionarmos nossa cultura e nossos valores, ainda devem ser veículos para refletirmos sobre inspirações e discordâncias. Pensar a figura de Baby do Brasil nos tempos atuais é uma possibilidade de pensarmos sobre liberdade e espiritualidade, na mesma medida em que questionamos o impacto dessas crenças e ações sobre a vida dos outros. O “Apopcalipse” da artista não deve e nem pode interferir na existência e nas liberdades dos outros.

As incongruências e os contrassensos são parte essencial da figura pública de Baby do Brasil, e isso coexiste com o fato de que ela é uma das nossas vozes mais absurdas e inventivas, uma de nossas artistas mais criativas e únicas, uma persona que bagunçou a MPB, o pop e o rock brasileiro. Num mundo dado a binarismos de certo e errado, é instigante (e até desconfortável) sermos bagunçados por aquilo que não se encaixa nisso. Por isso recomendamos que se mergulhe em “Apopcalipse Segundo Baby” sem preconceitos, se deixe levar pela narrativa e se abra para todas as questões que essa personagem única provoca. No final das contas não é pra isso que serve a arte?

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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