entrevista de João Paulo Barreto
Um dos destaques da Mostra Competitiva Brasileira da 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” ganhou os prêmios de levou Melhor Atuação (para Verônica Cavalcanti e Luciana Souza) e Prêmio Olhar de Melhor Filme. Dirigido por Janaína Marques, “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” trata do trauma de uma reconciliação tardia entre Rosa e Dalva, filha e mãe, após anos de uma ausência forçada.
Também trata da frustração dessa reconciliação acontecer somente no campo mental de Rosa, e do desejo de que o passado pudesse ter sido diferente. Do desejo de que, desse passado, um presente menos traumatizante pudesse surgir para ela. Infelizmente, a realidade amarga se sobrepõe ao sonho e esse desejo de uma filha que busca nesse relacionamento materno e imaginário um lugar de conforto se torna algo fugaz. Porém, tal fugacidade deixa na vida de Rosa uma fagulha de reconstrução.
Ao precisar passar por uma ressonância magnética em um exame, Rosa (vivida por Verônica Cavalcanti) é orientada pela enfermeira a buscar relaxar durante o confinamento dentro do aparelho médico. “Pense em uma lembrança feliz. Tente visualizar pelo máximo de tempo possível”. O olhar confuso de Rosa diante daquele pedido e todas as dúvidas que a necessidade daquele exame médico disparam em sua mente a levam para um estágio de reencontro mental. Nele, uma viagem (ou fuga) em uma estrada do interior do Ceará junto à sua mãe, Dalva (vivida por Luciana Souza), liberta uma enxurrada de sentimentos. A reconciliação surge de modo violento, mas não deixa de ser bem-vinda naquele turbilhão que a mente de Rosa vive.
Assim, a estrada percorrida por mãe e filha naquele carro decorado como ponto de venda de cachorro-quente (em uma tirada cômica brilhante), juntamente aos diversos locais que ilustram aquele trajeto, vão construindo essa lembrança imaginária de Rosa. Um ponto de fuga em busca de um conforto mental para alguém cuja trajetória a faz merecer um respiro.
A violência doméstica, o feminicídio, assuntos tão em evidência na necessária denúncia, foi o fator que, lá atrás, trouxe o momento de virada negativa na vida da ainda criança Rosa. Durante uma discussão de vizinhos, Dalva, sua mãe, resolve intervir antes que um marido violento mate sua esposa durante uma briga. Acusada de homicídio, Dalva é presa e, assim, Rosa cresce sem a presença de sua progenitora e principal protetora. A discussão acerca de um tema urgente como o feminicídio se tornou algo central no longa.
Nessa entrevista ao Scream & Yell, a diretora Janaína Marques e a protagonista premiada Verônica Cavalcanti aprofundam o processo de criação do filme. Confira!

O filme traz esse tom de atuação que transparece bem em uma química e equilíbrio na sua construção de personagem com a da Luciana Souza. Como foi esse processo de criação para você?
Verônica Cavalcanti – Começamos a trabalhar nesse filme ainda durante a pandemia, sabe? Um período bem delicado. Trabalhamos a preparação de elenco ainda de forma virtual com o (cineasta) Armando Praça, que fez a preparação de atores. Eu era louca para trabalhar com Luciana. Já conhecia o trabalho dela, e acho que a sintonia entre nós duas partiu dessa preparação. E, também, daquele momento (pandêmico) em que estávamos. E partiu, também, de um momento em que eu, particularmente, estava com muita vontade de voltar a trabalhar. Depois de todo o isolamento, de todo o afastamento naquele período surreal, eu estava com muita vontade de voltar a trabalhar. E a primeira coisa que apareceu na minha frente foi esse roteiro incrível e maravilhoso que, ao ler, eu fiquei enlouquecida. Pensei: “Tenho que fazer esse filme de todo jeito” (risos). A preparação de elenco foi feita de uma maneira completamente diferente. Nunca tinha feito uma preparação virtual para trabalhar em um personagem. Mas acho que estávamos muito movidos por esse momento. Por essa necessidade de se encontrar novamente, de trocar com o outro, de fazer o trabalho da gente como ator, que estava tudo parado. Estávamos com muita vontade, com muito desejo assim de fazer o trabalho. E fizemos umas coisas, uns exercícios, que foram muito importantes para essa química entre a gente. Para essa aconchegar assim, sabe? Dessa mãe com essa filha, que era uma coisa bem diferente de tudo que eu já tinha feito. A gente escrevia cartas uma para outra, escolhíamos músicas que a gente cantava uma para outra. E havia muitas conversas com Janaína sobre questões do feminino, sobre nossas limitações, todas essas coisas que tem a ver com o universo feminino, com o nosso dia-a-dia, com nossas inquietações. Então, foi um processo que, apesar de virtual, foi muito significativo. Um processo muito forte entre nós. E quando nos encontramos em Fortaleza quinze dias antes começar a gravar, a gente estava como se tivéssemos vivido aquilo ao vivo e a cores. Estávamos muito próximas, muito familiarizadas uma com a outra. Luciana é uma mulher incrível. Uma mulher muito forte. Eu já sou meio que o contrário. E me apeguei muito a ela quando a conheci pessoalmente. Nos quinze dias que tivemos em Fortaleza para termos esse contato ao vivo, foi uma continuidade do que começamos no virtual. E essa coisa dela ser minha mãe e dela, Luciana, ser a pessoa que ela é, de ter o perfil que ela tem, foi algo que eu misturava tudo, sabe? Já estava tudo ali. Foi dessa forma. Luciana me ajudou com o tipo de pessoa que ela é. Ela já veio com isso aí para mim e isso já me abria caminhos para essa mãe que ia me levar a querer fazer essa viagem e encontrar esse lugar na vida.
E para você na função de diretora, Janaina, esse processo de voltar a trabalhar após o lockdown da pandemia também influenciou nessa sintonia com Luciana e Veronica?
Janaina Marques – Trabalhar com a Vero e com a Luciana foi processo muito prazeroso. Porque tudo o que a gente conversava era compreendido com muita facilidade. Acho que porque o roteiro carrega um território muito feminino. Um território que nos atravessa. E todas nós pudemos falar sobre esse território. Complementar esse território. Acho que fluiu de uma maneira muito orgânica. Primeiro porque esse roteiro foi filmado na pandemia. Era um momento onde o Brasil estava passando, por questões óbvias, por um processo muito sofrido e doloroso. E sinto que essa história carrega uma pulsão de vida. É uma história pra cima. Ela não é uma história que faz com que a personagem termine sofrida. Pelo contrário! É uma história sobre cura. Sobre resistir, sobreviver, viver. Então, acho que a história chegou como um presente por uma questão de contextos sociais, por uma questão de experiência existencial e por toda essa questão do feminino. Não só para as atrizes, mas para todo mundo da equipe que estava precisando desse fogo de vida, dessa punção de vida. Então, foi prazeroso trabalhar nesse filme naquele momento específico da história mundial que foi a pandemia. E especificamente no Brasil onde, enfim, carregávamos todo um contexto também social específico diante da política, diante de como o governo na época estava tratando a pandemia. Por tudo isso, o trabalho no filme significou um sopro, uma brisa. Encaramos isso com muita vontade. E as atrizes entraram nessa química primeiro porque acho que elas entenderam muito rápido a história. Segundo porque era algo que trazia cor e pulsões de vida. E acho que cada uma tinha algo a transmitir. E elas entraram em uma conexão muito forte. Somos do Nordeste. Temos tantas coisas em comum. E essa alegria que é muito natural do Nordeste. Então, a gente abraçou esse projeto com muita vontade. E isso chegou à tela.

A partir do roteiro original de Pedro Cândido e de Taís Monteiro, como se deram as mudanças para a inclusão dos novos elementos mentais nessa estrutura da história?
Janaina Marques – O texto original carrega muito bem o DNA dessa história de mulheres. Uma história de resistência e, também, de sobrevivência. A história possui, ainda, um tom cômico. E é uma história também sobre reconciliação. Acho que o que foi acontecendo muito durante o processo e que é algo muito natural foi que, ao ir desenvolvendo essa história, o caminho natural foi pensar de que forma a gente poderia contar essa história que estava no papel de uma maneira que fosse um pouco mais inovadora. De uma forma que torne o filme mais desafiador, digamos assim. E mesmo desafiador para mim, também, como diretora. Como uma pessoa que ama a linguagem cinematográfica e de que forma a linguagem cinematográfica pode apertar e nutrir esse roteiro. E aí, tivemos duas consultorias de roteiro. Uma foi com Daniel Tavares, que fez algo muito determinante durante essa consultoria. Guardei isso para mim e fiquei martelando aquilo. E houve um novo processo no BRLab, onde passei por uma imersão. Principalmente com uma das consultoras, que falou sobre algumas coisas do território feminino. Fui dormir e no dia seguinte me levantei e cheguei para meu companheiro, Pablo (Arellano), que é roteirista do filme, e disse: “Pablo, acho que a história deveria ser assim”. E começou a dizer: “Acho que a protagonista não deveria ser a Dalva, mas, sim a Rosa”. Comecei a narrar para ele uma espécie de sinopse do filme. E o Pablo, que escutava aquilo, entendeu que ali estavam os pilares para reconstruir, digamos assim, uma história, mas dentro de uma camada que é do código mental. Então, basicamente o que aconteceu com esse filme é que ele deixou de ter uma camada realista, naturalista e adentrou em um território de código mental nesse processo. E, nesse sentido, eu caí em cheio. Sou uma pessoa que gosta muito da linguagem cinematográfica. Gosto muito de encarar os desafios formais dentro do cinema. A forma do filme é o que mais me instiga. E aí foi quando esse filme me agarrou em cheio. Foi quando chegamos todos. Porque foi um processo coletivo de descobertas. Todos juntos chegamos a essa história final.
O filme discute de maneira bem forte a questão da luta contra feminicídio. Veronica, ter acesso a um roteiro que discute isso de forma tão poderosa nesse sentido e inserir esse poder na sua atuação te levou a uma construção diferente de sua personagem?
Veronica Cavalcanti – Sim. E foi uma questão que me emocionou muito. Porque, claro, essa questão da violência contra a mulher é um fato que me toca profundamente. E o início de todo o inferno na vida de Rosa é o fato da mãe ter sido presa porque defendeu uma mulher numa situação de feminicídio. A partir dali, ela perde a mãe e segue só. E ela só reencontra essa mãe nesse plano da imaginação com tudo que ela cria depois nessa viagem para elas duas. Então, acho super importante ter isso no filme. É algo, como eu disse, que me emociona muito. É uma questão que necessita de um olhar e de leis. Que necessita tão absurdamente de uma consciência masculina sobre várias coisas a respeito da mulher. E acho lindo que o filme tenha todas essas mulheres. Um elenco feminino enorme. E cada mulher que aparece no filme, para mim, é uma potência no sentido de mostrar: “Olha a minha luta!” É a caminhoneira, é a mulher que administra a pousada, é a cantora da pousada. A própria companheira da mãe dela, também. Eu queria muito que o filme dialogasse com esse olhar de sensibilidade para a mulher, para o ser feminino. Para as suas questões e para a batalha dela na vida. Para o lugar que ela tem o direito de ocupar, sabe? Para tudo isso. Para o que ela quer fazer da vida dela. Para os limites que ela quer ultrapassar. Acho que o filme fala muito sobre isso e eu queria muito que ele despertasse esse olhar assim de mostrar várias camadas de mulheres, de situações. E tudo para chegar a um lugar que a gente precisa, né? Um lugar de respeito, de compreensão. Um lugar em que somos legitimadas nas nossas potencialidades. Então, acho que o filme fala muito sobre isso. Eu sinto muito isso o tempo todo no filme A cada presença de uma mulher que aparece assim. Sinto isso muito forte.
Quando houve a mudança de protagonismo do roteiro original, também foi trazida essa proposta de mudança para trazer o foco para essa discussão, Janaina?
Janaina Marques – Na verdade, foram os quatro que escreveram. A Taís Monteiro, o Pedro Candido, o Pablo Arellano e a Xenia Rivery. Eu participei muito, assim, acompanhando todo o processo de roteiro e, claro, dando ideias, mas a escrita partiu desses quatro roteiristas juntos. Eu sinto que é um filme que, além de falar que a imaginação e o afeto são armas poderosas de resistência hoje em dia, sinto que é um filme que fala muito sobre sororidade. É muito bonito para mim pensar que uma filha que entra em um colapso mental e precisa se salvar porque, por alguma razão, acredita que está morrendo, quase com uma crise de pânico, escolhe fazer essa viagem mental com a mãe. Nessa jornada interior, que, de alguma maneira, dentro da máquina de ressonância, ela é motivada a fazer, é muito bonito para mim que essa busca dela por uma memória feliz, uma lembrança feliz, seja um memória com sua mãe. É muito bonito para mim que essa filha que, de alguma maneira, foi afastada da mãe em vida e tem o trauma que ela carrega, escolha fazer essa viagem mental com sua mãe, sabe? Para mim, é um filme que fala de ancestralidade, de sororidade, de quem a gente carrega dentro de nós mesmos. E quem podemos buscar também nesses mistérios da vida dentro de nós mesmos como uma chance de resistir e para se salvar. A questão do feminicídio está inserida no roteiro de um forma muito inteligente, no meu ponto de vista. Porque acho que fala muito da personagem de Dalva. E acho que ajuda muito a compreender esse processo de desconstrução da protagonista, da Rosa. Primeiro porque Dalva revela no filme que foi um acidente. Que ao tentar defender a vizinha, ela mata o vizinho. E nesse processo de defender a mulher, ela acaba presa. Então, ao ser presa, ela acaba não se livrando dos julgamentos dos vizinhos, dos julgamentos do próprio marido que faz com que Rosa escute por toda vida que a mãe foi criminosa, que a mãe não prestava. É justamente a desconstrução dessa camada que o filme, de alguma maneira, aborda. A desconstrução que nós temos de todo o julgamento que recebemos. Não só de nós mesmos, mas de outras pessoas. Então, acabamos por criar ideias de outras pessoas. E de nós mesmas, também. E em algum momento, precisamos nos libertar desses julgamentos, dessas ideias e temos que buscar a essência dessas pessoas. Porque, basicamente o que Rosa acessa é que mãe dela é muito mais do que qualquer julgamento. Ela é uma mulher cheia de desejos. É uma mulher com defeitos, também. Mas é uma mulher cheia de vida. E essa vida é o que a Rosa precisa. Essa mulher que é capaz de amar chega a um território de prisão, de penitenciária. E isso é muito metafórico e simbólico. Essa mulher que também ama outras mulheres. O grande amor da vida dela é uma outra mulher. Então, de alguma maneira, o filme é pura sororidade. São mulheres que se unem. São mulheres que se salvam. São mulheres que de alguma maneira escolhem por elas mesmas estarem juntas para resistir. Há forças que as oprimem e que as matam, também. Acho que é isso.
O filme, por ser uma viagem interior, trabalha bem, em sua direção de arte, esses aspectos oníricos, colocando em sua construção cênica essa ambientação a denotar o estado mental da protagonista. Como se deu essa construção?
Janaina Marques – Eu acho que o cinema é o território perfeito para a gente trabalhar o campo da imaginação, do desejo, dos sonhos, dos medos, das dores e dos traumas. Toda essa escolha de fazer um filme inserido do código mental é muito consciente nesse sentido. E quando você escolhe fazer um filme que tem como cerne uma jornada interior, subconsciente de uma personagem, você pensa: “como eu vou, de alguma maneira, trabalhar imagem e som e unir a isso?” Pensei que o caminho mais, digamos, atraente para mim nessa jornada era do artifício, mesmo. Aqui no Ceará, assim como na Bahia, e em inúmeras cidades do Brasil, a gente tem uma paisagem muito, digamos, turística. E uma das coisas que passava muito pela minha cabeça era como transformar essa paisagem em algo que trouxesse uma atmosfera mais onírica que nos permitisse trabalhar em uma espécie de artifício, mesmo. Então, toda a construção muito trabalhada, seja através da fotografia, da direção de arte, do som, teve muito a ver com uma questão relacionada a pensar o sonho, como o sonho acontece, como a questão do desejo, da função da vida. Teve também uma ideia de que Rosa poderia estar redesenhando a vida dela. Por isso, as cores são muito vivas. Porque cada quadro parece uma pintura. Como se a Rosa estivesse pintando a própria vida. Então, tem isso também. E a questão dos enquadramentos, a questão da organização das cores, mesmo. Isso para quebrar as camadas naturalistas e realistas, que é onde a gente não está. O filme trabalha isso e também trabalha com um intuito muito consciente de trazer confusões que são muito naturais do lado humano. Na verdade, a vida não faz sentido. O natural da vida é não fazer sentido. E de alguma maneira, eu sinto que o roteiro constrói uma história que atinge, sim, um sentido. As pessoas saem desse filme entendendo o que é que acontece com a personagem. Saem desse filme captando o sentimento da personagem. Mas, ao mesmo, tempo é também um filme que talvez não entrega todas as peças de bandejas. Não entrega tudo bem mastigado. Como talvez faria um filme, digamos assim, linear e narrativo. Aqui não. Aqui, também estamos abertas a gerar perguntas. E não em dar todas as respostas. E nesse sentido, convidamos o público a entrar nesse processo. E ao público participar, mesmo, desse filme. E é isso que a gente acha bonito nesse processo. De o filme coloca o espectador, digamos assim, como um participante ativo ao assistir o filme.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.
