Entrevista: Rodrigo Corrêa fala do podcast Balanço e Fúria e da editora sobinfluencia

entrevista por Bruno Lisboa

Educador, oficineiro, editor, músico, produtor de eventos e podcaster. Essas são apenas algumas das funções que Rodrigo Corrêa (ou Piá para os íntimos) tem acumulado ao longo de sua vasta carreira na ala cultural. Sua trajetória foi iniciada a mais de uma década, quando ajudou a produzir as edições da Verdurada, festival voltado a cultura punk/hardcore e seus desdobramentos, em Piracicaba (interior de São Paulo). A iniciativa durou até 2016 e fez história ao promover shows, oficinas e palestras que visavam um maior diálogo com outros movimentos sociais.

Para além da carreira de produtor, Rodrigo é membro da banda de hardcore Time and Distance, que aposta numa sonoridade raivosa, com letras que tem um discurso político de esquerda afiado alinhado a filosofia straight edge. Suas iniciativas mais recentes são o podcast Balanço e Fúria e a editora sobinfluencia (conheça a loja online). O primeiro tem como proposta trazer discussões pertinentes a respeito da interface entre a arte e a política. Já a segunda tem como objetivo fomentar material revolucionário em suas mais variadas facetas.

Nessa conversa, Rodrigo Corrêa fala sobre os dilemas da pandemia, o podcast Balanço e Fúria, o mercado editorial brasileiro e a sobinfluencia, o crescente movimento da cultura dos podcasts, as origens de sua relação com a cultura punk e o rap, o legado da Verdurada, o esfacelamento da cultura na contemporaneidade, planos futuros e mais. Confira!

Primeiramente gostaria de saber como tem sido a pandemia para você. O que tem feito neste período de confinamento?
A pandemia tem intensificado uma condição que já vinha se desenvolvendo, por um lado a ruptura do limite entre tempo livre/trabalho, a hiperconectividade e hiperprodutividade, e por outro, a precarização e a miséria. Nesse um ano de pandemia, acho que 90% do meu tempo foi ocupado pelo trabalho, mas a fruição estética e o exercício intelectual que tenho tido vem principalmente da troca com meus companheiros da sobinfluencia e no Balanço e Fúria, assim como eventuais encontros com meus amigos de banda, quando e como possível. Mas em resumo é isso, não sei se desenvolvi novos hábitos ou se administro da forma mais saudável a minha rotina, não tenho lido como gostaria, nem visto tantos filmes, mas o podcast e a sobinfluencia tem me movimentado em direção às coisas que são importantes pra mim, o aprendizado pela troca e o experimento da matéria que também servem de brecha para que seja possível produzir vida.

Você tem atuado em diversas frentes, mas gostaria de falar, primeiramente, sobre o podcast Balanço e Fúria, que traz à tona discussões pertinentes, a cada episódio, relacionadas a interface entre arte e política. Nesse sentido, como se deu a criação desta iniciativa? E ainda: quais são as suas motivações / intenções ao trazer para o público geral o apreço por esta temática?
Eu e meus amigos mais próximos consumimos podcast assiduamente desde algum tempo, e o Balanço e Fúria não é a primeira tentativa de podcast. Já houve uma com o Alex (que também constrói a sobinfluencia), mas não foi pra frente. Acho que os temas que cruzam o Balanço e Fúria, antes de tudo, respondem a curiosidades e associações muito particulares e muitas vezes, antigas. O podcast é só uma das plataformas que escolhi pra desbravar temas que me interessam e também estabelecer essa troca com pessoas que admiro. Alguns daqueles temas eu já havia esboçado elaborações usando outros meios, como um texto sobre punk e situacionismo que nunca se concluiu, assim como um projeto inscrito em um edital chamado “a história do Brasil cantada pelo rap”. Antes de atuar no ramo editorial, fui educador, oficineiro, basicamente. Minhas oficinas tinham como público os adolescentes, e de alguma forma, muitas das ideias materializadas no Balanço e Fúria já foram aplicadas nesses outros espaços, oficinas sobre a história do sample, resgatando a origem jamaicana, construção de cartografias afetivas, partindo do situacionismo e do skate, a construção de cartazes e fanzines, enfim… o Balanço e Fúria é só uma continuação disso em contexto de pandemia, se não fosse a pandemia, sem dúvida essas conversas se transformariam em oficinas ou qualquer coisa do tipo.

O Balanço e Fúria surgiu num momento em que as plataformas de streaming trouxeram à tona diversas iniciativas voltadas ao formato podcast. Nesse sentido como você vê o crescimento deste nicho? Quais as iniciativas você acompanha e recomenda?
De alguma forma, o podcast, pelo menos nesse espaço que nos situamos (hardcore/ punk/ contracultura/ hip-hop/ política), assume algumas características de fanzine, guardadas as devidas proporções. Existem podcasts pessoais, podcasts mais políticos, podcasts de entrevista, podcasts mais musicais, assim como os fanzines eram (ou são). Além disso, o fanzine também dizia sobre o sujeito/coletivo que o cria, revela algo de si, esse algo que o conecta com outras pessoas. Enfim, tudo isso pra dizer que há algo que aproxima o podcast do fanzine a meu ver (risos). Ironicamente, o boom dos podcasts me fez ouvir uma variedade cada vez menor, e cada vez menos tenho descoberto novos podcasts. É uma faca de dois gumes né, quando a coisa fica saturada, o que está na superfície acaba sendo o que adotamos, nesse contexto disperso e efêmero da virtualidade. Isso fora a forma como os algoritmos agem, a favor de determinados conteúdos em detrimento de outros. Minhas recomendações são:
Rádio aurora, o podcast da sobinfluencia
Fagulha podcast – Um podcast anarquista
Antinomia
Do rio que tudo arrasta
Sabe som?
Disconversando
Do it yourcast
Madcast
Torto Podcast

Engraçado que eu pretendia citar na pergunta este fator. Acredito que o podcast tem uma função parecida com o zine. Mas achei que seria uma viagem errada. Então não estou de todo errado!
Não tá não. (risos). Matuto muito sobre isso. Ou nós dois estamos viajando, o que tá tudo bem também (risos)

Nos episódios você aborda elementos da cultura punk / hip hop e seus desdobramentos, essencialmente. Como se deu a sua relação com estas culturas e de que maneira elas ajudaram na sua formação humana / intelectual?
É uma história tão longa, quanto clichê (risos). Mas, basicamente, as primeiras vezes em que tive acesso ao punk e ao rap foram através do skate. Quem era uma criança, prestes a se tornar adolescente na primeira metade dos anos 2010, inevitavelmente cruzaria alguma dessas expressões. Cresci em Piracicaba, interior de São Paulo, e uma das primeiras pessoas que conheci, aos 11 anos, foi um cara chamado Douglas, um pouco mais velho que eu, mas relativamente esclarecido em relação a alguns temas. Ele já era vegan e se dizia anarquista com algum embasamento a mais que a média das pessoas da nossa idade, além de ser um grande fã de rap, mas mais de Racionais MCs especificamente, claro. No começo esse fato me intrigava, pois ele não só ouvia, como frequentava os shows. Pouco tempo depois há um relativo “boom” do rap underground, e em Piracicaba frequentávamos as batalhas que aconteciam na praça central em meados de 2008/2009 eu acho. Isso aproximou algumas pessoas que organizavam shows de hardcore/punk de algumas pessoas que organizavam os eventos de rap, inclusive, se não me engano, a primeira vez que o Kamau tocou em Piracicaba, foi em um evento organizado por um coletivo de pessoas envolvidas com o hardcore e um coletivo de pessoas do rap. E talvez a maior contribuição que o punk e o rap tenham dado pra minha formação seja a de orientar a minha curiosidade. Não me considero uma pessoa de fácil aprendizagem, na escola nunca funcionou assim, mas a curiosidade com as coisas relacionadas ao que me interessava talvez tenha me deixado um pouco mais esperto. De alguma forma, é fácil percorrer um caminho em que você cruza o Nas, o Art Blakey e o James Baldwin, assim como você pode caminhar pela trilha do Discharge até chegar no John Heartfield, ou do Racionais Mcs e chegar no Movimento Negro Unificado. Enfim, acho que o punk e o rap são só mais uma forma de aprender.

Ainda falando sobre música, você é integrante da banda de hardcore paulistana Time and Distance. O grupo tem como bandeiras a defesa da filosofia straight edge e do espectro político orientado para a esquerda. Em tempos de esfacelamento da cultura e do recrudescimento de discursos reacionários qual a importância que a música politizada tem na contemporaneidade?
Essa é uma pergunta difícil de responder, pelo menos pra mim, ou pelo menos agora. Talvez em algum outro momento da vida eu tivesse uma resposta, mas hoje, acho que não tenho. Esse é o tipo de coisa que a gente sabe que é importante, mas não necessariamente elabora a partir da ideia de importância, só faz, só faz porque gosta, porque ama ou porque vive isso. É a mesma coisa com a sobinfluencia e com o Balanço e Fúria, que tem sua importância, óbvio, vivemos uma desgraça sem precedentes, o campo político ao qual pertencemos está perdendo e está perdido. Mobilizações que organizam nossas ações, nossos afetos e nosso imaginário, no sentido contrário dessa barbárie que vivemos, são necessárias e importantes. Mas ao mesmo tempo é tão importante quanto óbvio (bem naquele sentido da máxima brechtiana, dos tempos de defender o óbvio), é também simplesmente a coisa que compõe a nossa humanidade, o que a gente come, lê, ouve… com todas as contradições que um ser humano tem.

Você fez parte do coletivo Verdurada, iniciativa que unia shows, palestras e oficinas com orientação política. O festival encerrou as atividades em 2016 e fez história na cena hardcore/punk independente. Passados cinco anos após a última edição, você acredita que o evento deixou um legado para o que é produzido na atualidade?
Eu fiz parte do coletivo da Verdurada de Piracicaba. Lá a Verdurada aconteceu de 2009-2016. De forma geral, podemos considerar que a Verdurada, desde as primeiras em São Paulo, foi o primeiro evento nesse formato, interseccional, que estabelecia diálogo com outros movimentos sociais, que trouxe pautas para espaços culturais predominados por pessoas muito jovens, não afeitas a essas discussões, coisas que hoje em dia são muito comuns tanto no punk/hardcore, como em alguns outros lugares também. Acho que de forma não tão clara, a constituição de um imaginário que relaciona com uma certa política de pauta, ainda muito atrelada a alguns setores do hardcore, deve aos formatos e discussões propostos pela Verdurada, mas as coisas são muito diferentes hoje, o hardcore/punk, ou até mesmo o rock no geral não mobiliza uma juventude. Suspeito até que a música no geral tenha perdido esse lugar na cultura pop e em algum nível tenha ficado pra trás de uma cultura gamer ou qualquer coisa que o valha. Não sei, tá tudo meio estranho. Uma coisa sobre a Verdurada de Piracicaba que é importante mencionar: a Casa do Hip Hop era o nosso Jabaquara, e as pessoas envolvidas com a casa do Hip Hop foram essenciais na construção de cada Verdurada, atuaram na cozinha, pintavam as bandeiras, estavam antes do evento, ajudando a arrumar o espaço e continuavam lá depois de tudo ter acabado, mesmo sem nenhuma conexão com o punk ou o veganismo. A Verdurada de Piracicaba também se aliava à comunidade em que acontecia o evento, a Paulicéia.

“Por uma Arte Revolucionária Independente”, livro de André Breton e Diego Rivera lançado pela sobinfluencia

Mudando de assunto, você é um dos fundadores da já citada sobinfluencia, editora que tem trazido para o público publicações de obras que fomentam o discurso revolucionário em suas mais variadas facetas. Gostaria que você falasse sobre os motivos que os levaram a criar esta nobre iniciativa e como tem sido a recepção no mercado editorial brasileiro?
A sobinfluencia, a princípio, era um nome pra algo que eu costumava chamar de “exposição” (risos). Em 2016 comecei a fazer algumas colagens, e por algumas vezes expus essas colagens em um “evento”. Não sei mais como classificar, mas em um momento passei a chamar de “sobinfluencia”. A mesma passa a se transformar lentamente em outra coisa a partir do momento em que a Fabiana (que também constrói a editora) me apresenta esse cenário em que diversas editoras independentes fomentam suas publicações. A primeira manifestação da sobinfluencia em papel foi através de um fotozine, feito em colaboração com o coletivo flanantes em março de 2019, se não me engano. Mas só em janeiro de 2020 a sobinfluencia estabelece de fato sua intenção de ser uma editora, com meus companheiros de vida Fabiana, Alex e Gustavo. Acho que não preciso elaborar muito sobre as dificuldades de se construir uma editora no Brasil pandêmico de Bolsonaro. Ela é total. Mas ao mesmo tempo é como se não tivéssemos outra escolha, é isso o que temos a fazer. Todos nós temos outras fontes de renda, damos aula, trabalhamos para outras editoras. Enfim, a sobinfluencia ainda não nos mantém fisicamente, materialmente, mas nos mantém vivos. É o buraco em que a gente enfia a mão pra arrancar algo que nos fale sobre o subterrâneo das publicações autônomas da Itália dos anos 70, sobre os jogos surrealistas, sobre a deriva situacionista, sobre a necessidade de se relembrar a Comuna de Paris, sobre o marxismo ameríndio de Mariátegui ou o banditismo social de Gino Menghetti. Enfim… é algo por aí. (risos)

Por fim, gostaria que você falasse sobre planos futuros. Sei que você se dedica a diversas iniciativas e imagino que você seja movido pela inquietude. E, talvez, por esse fator você deve ter engatilhado uma série de iniciativas. O que podemos esperar ainda em 2021?
Difícil projetar planos em momentos como esses (risos). Mas quando for possível, além de intensificar as atividades da sobinfluencia e retomar a banda, gostaria muito de tornar o Balanço e Fúria algo presente/presencial/material, um espaço para trocas humanas, oficinas, não sei, um livro talvez. Como eu disse, o podcast foi só uma plataforma que escolhi pra escoar assuntos que já me atravessavam. Pode ser e quero que o Balanço e Fúria se transforme em algo maior, assim como a sobinfluenica. Vamos devagar, tateando esse solo, chegando e vendo o que pode ser feito.

– Bruno Lisboa  é redator/colunista do O Poder do Resumão. Escreve no Scream & Yell desde 2014.

 

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