Literatura: Em “Eva”, Nara Vidal caminha da delicadeza à brutalidade em poucas linhas

texto de Gabriel Pinheiro

Eva mordeu o fruto proibido, o pecado original. Este é um dos muitos mitos que têm como base a condenação e a repressão do feminino. “Eva” (2022) também dá nome à protagonista e ao novo livro de Nara Vidal, lançado pela Todavia Livros. O nome amaldiçoa a mulher desde a infância, criada em um ambiente de constante vigilância e opressão, pautado pela moral e pela religião, sob o olhar materno. De ritmo vertiginoso, o romance é narrado pela própria personagem em um intenso fluxo de consciência. “Há alguém louco neste relato e eu me sinto muito bem e lúcida”.

Para a mãe, Eva deveria ter se chamado Tereza, Francisca ou Rita. “A primeira decepção que eu dei à minha mãe foi meu nome”. Decisão paterna, este nome seguirá como uma sombra, uma pedra fundamental na conflituosa relação entre as duas mulheres. Para a mãe, Eva tinha o diabo no corpo. Primeiro ele se apossara de sua perna, “é o capeta fazendo com que ela rebole assim, assanhada, criancinha ainda”. Depois, da boca, “quando diabo ri é porque ganhou a luta”. Por fim, alcançou o ventre. “Corria veneno na minha veia”. Na infância, ela passa por uma série de rituais, rezas e benzimentos, como forma de apaziguar aquele ser que, supostamente, dominava o seu corpo.

O colo materno era o espaço onde o afeto e a violência andavam juntos. O sofrimento infligido, mas embalado por boas intenções, pelo amor sufocante. A relação que sempre fez doer, mas sempre foi para o bem, por motivos nobres. Não havia escapatória, aparentemente: os tentáculos e a voz pegajosa da mãe a apanhavam novamente para o seu domínio. Nem na morte. Ao perder a mãe, Eva mergulha em um luto profundo e conflituoso, assombrada por um espectro que resiste em partir: morreu em carne, mas segue vivo dentro da personagem. “Você não deixava que eu desse um passo sem sua permissão. Aí, agora, estou aqui, na tentativa de a cada semana tirar você daquela cova fedida de morte e arrancá-la de dentro de mim. Mas você persiste porque você morreu. Virou eterna. Uma imortal.”

A opressão e a violência marcam a existência da mulher, tornando-se padrões nas diferentes relações que Eva constituirá ao longo da vida, marcadas pelo abandono, pelo abuso e pela ausência de afeto. Eva não quis ser mãe, até que uma criança interrompe uma sequência de abortos. “Tudo que eu pude fazer para não ser mãe eu fiz. Cheguei a tirar de mim uma vida insistente umas quatro, cinco vezes. Mas o menino nasceu, no fim”. Ela busca sempre lembrar de esquecê-lo. Uma contradição: ter de lembrar para poder esquecer. “Se pensar mesmo, com franqueza, nunca fui mãe. Saiu de mim uma criança, um bebê do mesmo jeito que sai uma merda. Aquela excreção não teve o menor impacto.”

Em “Eva”, Nara Vidal foge dos estereótipos da vítima ou da heroína na construção de sua protagonista. A personagem é complexa em suas contradições, em um texto que caminha da delicadeza à brutalidade em poucas linhas. No fim, temos em mãos um pungente estudo acerca de temas como o luto, a violência doméstica, o trauma e o amor – ou, melhor, uma ideia de amor pautada pelo controle – e os seus efeitos irremediáveis sobre uma existência.

“Não falo com ninguém sobre mim porque as pessoas, também cheias de segredos, não têm coragem para ouvir. Não sabem o que fazer com a franqueza de um discurso. Ficam estarrecidas, desconfortáveis passam a te evitar.”

– Gabriel Pinheiro é jornalista. Escreve sobre suas leituras também no Instagram: @tgpgabriel.

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