Entrevista: Aerson Moreira e o terceiro disco do Anum Preto

entrevista por Luciano Ferreira

No primeiro dia de janeiro de 2022, um sábado, o Anum Preto, pseudônimo adotado pelo músico Aerson Moreira, lançou seu terceiro álbum. Segundo Aerson, não houve qualquer razão para a escolha da data, mas em suas palavras foi algo que fluiu com suas “próprias urgências e incertezas” e também por conta da ansiedade, sentimento natural considerando que “Ponto de Mutação”, primeiro single do álbum, foi lançado em janeiro de 2021, quase um ano antes.

Com uma carreira discográfica iniciada em 2019 e uma trinca de singles que traziam “músicas de aspirações budistas”, Anum Preto (que é o nome de um pássaro) lançou na sequência os álbuns “Inferno Interno” (2019) e o autointitulado “Anum Preto” (2020) – todos disponíveis em sua página no Bandcamp, Spotify e Youtube.

Essa discografia apresenta uma mescla de elementos musicais do pós-punk de bandas atuais, com traços de lo-fi e ecos de synthpop e alguma aproximação estética com bandas oitentistas nacionais e também referências da MPB, tudo isso ao lado de letras repletas de reflexões, incertezas, desajustes.

“Anum Preto” (2022), também chamado de “Cidade de Muros e Segredos” (título da faixa de abertura do disco), surge como reflexo de sentimentos e atitudes amplificadas pelo contexto da pandemia. Sobre esse e muito outros assuntos, Aerson nos conta na entrevista abaixo.

Olá Aerson, como anda a sanidade mental nesses tempos pandêmicos e agora com essa “Guerra do Pútin”?
Olá Luciano, além de tempos de resistência para a saúde pública, trata-se também de resistência para a saúde mental e a saúde política. Tempo de manipulação de informações, de anti-vacina, dos negacionistas da crise climática, dos ultra-religiosos hipócritas, dos fascistas agressores, voltamos ao momento da história que tudo isso está normalizado, então é hora de buscar formas de resistir. Vejo a guerra como uma briga de egos imperialistas que em nada se importam com a vida. É um teatro para uma série de acordos entre bilionários que controlam o sistema que vivemos. É uma grande rede de chantagens, e a morte de pessoas inocentes é a moeda de agiotagem.

Voltando ao início de tudo, como surgiu Anum Preto e de que forma o nome da ave se liga a proposta sonora/estética?
“Anum” é um nome artístico que eu já levava antes de começar a fazer música da forma que faço hoje. Meus primeiros trabalhos foram os singles “Outros Planos”, “Escala do Tempo” e “Perdendo Os Meus Nervos”. São músicas de aspirações budistas que tenho, de representação da realidade, de um momento na minha vida que olhei para minhas descobertas pessoais e decidi transformar em música. Pela atmosfera ‘dark’ dessas músicas, o complemento para o nome calhou bem na época.

Podemos definir Anum Preto como uma one-man-band? E de que forma isso traz junto facilidades e dificuldades?
Eu definiria apenas como one-man, ou melhor ainda, one-person (risos), porque sou apenas alguém que gosta de criar músicas, que entende os próprios sentimentos dessa forma, e que às vezes a vida me dá a sorte de poder tocar para as pessoas. Em algumas ocasiões, tenho o apoio de pessoas queridas no palco, mas não sou uma banda, um projeto, sou apenas alguém falando do que está sentindo. Me habituei a gravar e produzir minhas músicas sozinho e desde então estou viciado nesse processo. Sou um mero aventureiro nesse âmbito, não tenho nenhum tipo de profissionalidade com produção musical, estou sempre aprendendo, lidando com as barreiras e as dificuldades, pois produzir é um mundo muito amplo, eu diria até infinito. Tenho limitações sobre os equipamentos que disponho, sobre os softwares que consigo utilizar, sobre minhas próprias capacidades musicais, vocais, mas não vejo atualmente como barreiras, não sei como farei música no futuro, mas no presente, na realidade, esses aspectos definem fortemente a minha música e minha estética.

Por que decidiu lançar seu último álbum já no primeiro dia do ano? Um sábado!
Nenhuma razão especial, apenas fluí com minhas próprias urgências e incertezas. Estava fechando com o selo (Young & Cold Records) e precisava estabelecer uma data em 2022, e eu ansioso que sou não vi por que não ser o primeiro dia do calendário.

Falando no álbum mais recente, que assim como o de 2020 é intitulado “Anum Preto”, ele passa a impressão de se conectar musicalmente mais com ‘Inferno Interno’ do que com o antecessor. Como você avalia essa conexão entre os discos?
A individualidade de cada álbum, musicalmente falando, jaz muito nas coisas que estou ouvindo, novos artistas, novos encantamentos, toda a musicalidade que está habitando as felicidades e infelicidades nos meus dias. Aliado a isso, o resultado também depende dos instrumentos, do método de gravação, dos aparelhos de som, dos softwares, tudo depende dos recursos que tenho à minha disposição naquele momento. Foi assim individualmente para cada álbum. Para mim, como artista, cada um teve seu próprio mundo nas suas mensagens, influências musicais, instrumentos utilizados, forma de produção, e dos fatores externos na minha vida que influenciaram sua criação.

Voltando ao segundo disco, aspectos lo-fi e referências nacionais dos anos 80 de artistas como Fellini são mais perceptíveis. São referências musicais pra você? Quais outras poderia citar, inclusive que são influências no teu modo de cantar?
Me identifico com o cenário musical do presente, da música alternativa, independente, de uma leva de artistas que produzem o próprio trabalho sozinhos, dessa revitalização dos anos 80 e 90 na música alternativa e tudo que está acontecendo agora. É nesse espaço que me identifico e me encaixo. Evidentemente que meu gosto musical me influencia em diversos aspectos, minhas músicas flertam com o pós-punk, a surf music, a MPB. Mas a atmosfera e estética nostálgica que há nas minhas músicas está mais ligada à forma como as produzo e aos recursos que tenho à minha disposição do que propriamente uma influência focada no passado, me sinto muito mais influenciado pelos artistas do presente.

Por que cantar em russo? Existe uma cena pós-punk bem interessante por lá com nomes como Motorama, Human Tetris e outras, você acompanha/tem contato? No álbum de 2020 tem até uma faixa chamada “Tetris Humano” e alguns de teus seguidores no Spotify são da Rússia…
É um processo de experimentação com algumas letras, algumas melodias, aliadas com o interesse que tenho em aprender outros idiomas. Daquele lado do planeta, acompanho e tenho grande admiração por Human Tetris e Motorama, assim como outras: Buerak, Ploho, Molchat Doma. Acho que nós artistas brasileiros temos potencial para alcançar o resto do mundo, e poderíamos estar correndo mais atrás disso. A forma que bandas cantando em russo chegam na América Latina não precisa ser diferente da nossa chegada lá. Gosto de saber que estou sendo ouvido em outros países, que posso ser um idioma curioso e incompreensível em algum lugar do mundo.

As tuas letras transmitem o sentimento de perplexidade ante as atitudes e relações humanas, ao mesmo tempo trazem a ideia do “Memento Mori”. O que poderia nos contar a respeito?
Minhas músicas nascem dos meus pensamentos sobre o nosso pequeno ponto de vista humano, sobre a infinitude e grandiosidade do planeta no espaço e principalmente no tempo. Para mim, ter consciência da própria finitude, é esclarecer para si a oportunidade única de coexistir com outras pessoas, com os seres vivos, com as rochas e com a natureza de modo geral, e o papel que cada uma dessas coisas tem. Eu sou dominado por esse conceito de existência sistêmica. Ao mesmo tempo sinto que somos vítimas de um grande projeto de destruição das relações, dessa consciência natural e de tudo que nos remete a ela, de um sistema que nos torna inimigos entre si e da natureza, que dilacera o entendimento da humanidade como também um objeto natural. Meu trabalho, minha música, meu estilo de vida, tudo é minha própria forma de rebeldia ante a isso.

Relacionamentos é um tema que aparece mais em ‘Cidade de Muros e Segredos’. Pode-se dizer que é um álbum mais confessional?
Olha, falo de muitas coisas, falo dos desajustes que acredito que existem no mundo e como eles me afetam, nos diversos meios que me afetam. Minhas próprias experiências não podem ser transmitidas, apenas os sentimentos, e nisso cada pessoa que ouve minha música pode ter sua interpretação baseada em suas experiências. Mas, no geral, minha confissão em forma de arte é meu entendimento em estar vivo, em entender meu papel com as pessoas, com a natureza, com o presente.

Em “Inferno Interno” você regravou “Tua Alma Há de Morrer Antes que a Carne”, da banda 1983. Qual tua relação com a canção e a música da banda?
Na época em que estava gravando esse álbum eu estava lendo “Assim Falou Zaratustra”. Naquele cenário musical em que eu estava surgindo pela primeira vez, acabei conhecendo a banda, conversando com alguns integrantes, me surpreendi de existir tal música e me identifiquei. Queria uma música para fechar aquele álbum e achei que seria uma ótima maneira, então expressei meu desejo de regravá-la e eles autorizaram.

Você volta a citar Nietzsche na faixa “Além do Bem e do Mal”. É uma influência? Quais outros autores te influenciam seja na literatura ou outras formas de arte?
Sim, o existencialismo me inspira, o epicurismo, a natureza, a arte urbana, filmes, séries, quadrinhos, desenhos. No meu entendimento, os artistas, poetas, escritores, a teologia, a filosofia, o conhecimento, todos estão desde tempos imemoriáveis tentando entender quem somos e qual nosso papel aqui, e ao longo da vida todos nos encontramos de alguma forma. Toda manifestação que toca minha alma e me faz pensar sobre essas questões me inspira.

O que te levou a cometer “Facebookcídio” e focar no Instagram?
Era um passo mínimo que estava a meu alcance. Na realidade, eu faria qualquer coisa a meu alcance contra o Facebook. Acho que não é nem necessário entrar no âmbito da podridão dos algoritmos dessa rede e sua influência na política, no imperialismo e no poder. É repugnante. Não penso diferente sobre o Instagram. Com minha saída do Facebook, o Instagram é o sobrevivente dentre minhas redes, para que eu ainda possa ter esse contato direto e próximo. Mas que não falta muito para eu sair dele também. O que sinto acontecer é que esses veículos que até poucos anos não existiam, fazem a nós artistas acreditarmos que precisamos constantemente dessas verdadeiras celas de exposição para sentirmos que estamos realizando nosso próprio trabalho. Criam algo que não existe para nos dizer que sempre precisamos deles. Sob muitas máscaras essa é a política do consumismo em plena execução.

Como tem sido a divulgação do novo álbum e você tem pretensão de apresentá-lo ao vivo?
Tive a grande sorte de ter apoio nesse álbum de três grupos independentes, dois brasileiros (Wave Records, e Vlad Tapes) e um alemão (Young & Cold Records). É muito positivo poder contar com eles para a produção e divulgação do meu trabalho, foi realmente uma grande surpresa para mim. Atualmente, meu repertório conta em grande parte com as músicas do novo álbum. Há músicas que pelos seus aspectos criativos, técnicos, ou de composição, ficam inviáveis de serem executadas ao vivo dentro dos formatos de apresentação que trabalho atualmente. Mas, de modo geral, as apresentações para o ano de 2022 serão bastante focadas nele.

Anum Preto tem urgência de algo? De quê?
Minha urgência é continuar fazendo minhas músicas, continuar mostrando minhas visões de mundo, continuar viajando, continuar conhecendo pessoas, continuar tentando descobrir quem sou e qual o meu papel.

 Luciano Ferreira é editor e redator na empresa Urge :: A Arte nos conforta e colabora com o Scream & Yell.

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