Entrevista: Badsista reabre a noite com “Gueto Elegance”

entrevista por Victor de Almeida

O beat de “Chora na Minha Frente” abre o primeiro álbum de BADSISTA, “Gueto Elegance” (um dos 50 discos de 2021 para a APCA) e, também, marca o início de uma festa imaginada, narrada e vivida em primeira pessoa pela produtora musical e DJ paulista. Ao longo das 12 faixas, entramos em uma festa construída através de narrativas sonoras e textuais que embaralham os sentidos e as sensações da noite.

A cadência dos beats e BPMs, o grave pesado e preciso, a sobreposição rítmica-percussiva que levaram a fritação de BADSISTA do bairro de Itaquera ao Boiler Room ganham novas nuances em “Gueto Elegance”. É um disco que diz mais sobre a trajetória de Rafaela Andrade, pessoa física, do que sobre os últimos trabalhos lançados por BADSISTA. Gêneros como o funk, o house e techno são mesclados de maneira muito particular com dancehall, reggaeton e Miami bass mostrando a versatilidade da produtora reconhecida por trabalhos assinados junto com Linn da Quebrada, Jup do Bairro e Lei di Dai.

“Gueto Elegance” traz camadas e nuances delicadas dentro da música eletrônica. O agito e frenesi das faixas da primeira metade do disco – como “Bandida”, “Soca” e “Na Pista” – são contrastadas pelo clima meio contemplativo, romântico ou melancólico de um fim de festa em tracks como “Hoje Eu Quero Brilhar”, “Amor Que Não Posso Inventar” e “Sem Dar Tchau”.

Um ponto de relevo no disco é o atravessamento musical e o diálogo com diversas periferias, tanto no Brasil quanto da África. Nomes como Jup do Bairro, Ventura Profana (BA), Ashira (SP), Lari BXD (RJ) figuram na lista de participações especiais junto com MC Yallah (Quênia), Lord Spikeheart (Uganda) e Rey Sapienz (Congo).

Se por um lado, a pandemia e seus desdobramentos para a área cultural geraram uma série de prejuízos e cancelamentos muito sentidos por BADSISTA, que tinha seu 2020 quase todo reservado com apresentações no Brasil e fora. Por outro, possibilitou uma imersão no processo de produção de “Gueto Elegance”, incluindo uma residência em Uganda que, segundo a própria, transformou muito do que viria a ser o disco.

Ainda falando na pandemia, parece que o álbum, lançado no fim de novembro de 2021, inaugura também um outro momento. Um momento de reabertura da noite, das festas e de uma retomada dos encontros presenciais propiciados pelo avanço da vacinação no país. Mesmo em tempos marcados pela ansiedade, falta de perspectiva e dificuldades que o contexto pandêmico ainda nos impõe, “Gueto Elegance” ganha uma outra importância. É um disco que nos faz lembrar que, como coloca Luiz Antonio Simas, não fazemos festa porque a vida é mole, mas pela razão inversa. E fazer festa é, sim, importante.

Na ocasião do lançamento do álbum, o Scream & Yell conversou com BADSISTA sobre o processo de composição, gravação e lançamento de “Gueto Elegance”, os desafios para recriar o disco ao vivo e o desejo de tocar com banda. O papo também aborda estratégias de distribuição musical, monopólio nas plataformas de streaming e sobrevivência de uma artista independente durante a pandemia.

“Gueto Elegance” saiu já no final de novembro de 2021. Apesar de ser lançado no final do ano, época preterida por muitos para um lançamento, o disco encontra um cenário de “retomada” da música, das festas, dos encontros. Quando ouvi o disco a primeira vez, fiquei sentindo que tinha uma marcação temporal aí, talvez não tivesse outro momento para sair. Você sentiu isso também? É possível dizer que “Gueto Elegance” marca uma outra retomada pra Badsista?
Para mim, “Gueto Elegance” é o fim e o começo ao mesmo tempo, sabe? Isso que você falou, do tempo, é um momento em que as pessoas já estão meio que recuando, né? As pessoas vão lançar um single, uma coisa meio de verão e não um álbum. E ao mesmo tempo que vem num fim de ano, vem nesse momento de que as coisas aqui em São Paulo estão meio que voltando. Para mim, marca um momento de mudança e de transformação. Perante as coisas que eu fiz antes, mais minhas assim, sem ser com os outros artistas. Essas coisas que eu fiz antes estavam ditando muito. Eu me sentia um pouco refém da minha própria criação, sabe? Eu fiz um negócio naquele momento e aquilo parece que virou o meu todo. Eu não queria que o que rolou no Boiler Room, que foi uma coisa que teve um alcance muito grande, virasse a minha totalidade. Até porque eu já mergulhei em vários outros lugares. E aí, eu acho que tudo aquilo que eu estava fazendo antes foi muito legal. Condizia muito com o que eu vivi… Muitas viagens internacionais, vendo outros artistas, muitos festivais, vivendo outras coisas. E aquilo me contaminou bastante naquele momento. Mas agora, em 2021, não fazia muito sentido depois do rolou com todo mundo chegar com alguma coisa muito agressiva, trevas, acelerada. Eu curto viver o meu tempo, nem o passado, nem o futuro. Eu tenho tentado muito viver o agora.

O disco traz uma linha narrativa em torno da noite, da festa, dos climas da pista. Não apenas nas narrativas sonoras nas mudanças de BPM, nos graves que vão mudando ao longo do disco, nos gêneros que você flerta, coisas que você domina. Mas tem uma outra narrativa textual nos títulos e letras que é bem evidente também. A narrativa em primeira pessoa é uma das grandes chaves para entender o cenário que você constrói e que você se insere ao longo do disco. A festa é toda sob a sua perspectiva. Escrever e cantar foi um dos desafios do processo criativo de “Guetto Elegance”? Mesmo com tempo de carreira, como foi esse processo para você?
Eu não tinha percebido isso ainda. Canto desde muito nova. Deixei (de cantar) porque eu tinha cansado. Eu cantava em barzinho, mas uma hora deixei porque a coisa de DJ começou a acontecer e era onde eu estava fazendo mais dinheiro. E, por isso, foi algo de que acabei me afastando. Justamente porque não gosto de tudo muito. Quando algo começa a ficar repetitivo, eu meio que me canso. Foi o que aconteceu em 2019 com a fritação etc. Eu curto, eu gosto mesmo desse tipo de som. Toco porque acho massa, mas eu não queria cair, de novo, no buraco da repetição. Buraco que eu já tinha caído antes trabalhando com outras coisas, como na época do barzinho. Eu fiquei muito tempo sem pegar no violão, sem cantar. O violão sempre foi um porto seguro para mim que sempre fui muito tímida e era algo que me conectava às outras pessoas. Foi muito triste para mim não ter vontade de tocar. Eu sentia que eu tinha que ditar meus próximos passos. Assim como fiz antes quando comecei a ser DJ, a entrar no meio do techno. Aí cheguei num momento que ou eu continuava sendo a Badsista do Boiler Room ou eu faço outra coisa. Ser DJ é apenas uma das coisas que eu faço. O lance de escrever não era uma coisa tão próxima de mim como tocar e cantar. Eu escrevo desde nova e não gostava muito das minhas letras. Acho que eu fazia sempre uma poesia que não dava muito certo, ficava meio tosco. Mas uma das primeiras coisas que escrevi para esse disco foi “VSNF”. E eu ficava pensando em chamar fulano para cantar, vou chamar cicrano para colaborar comigo. E eu pensava: “foda-se”. A pessoa vai chegar para fazer o bagulho e não vai fazer o que eu tô pensando. Só eu poderia fazer o que eu tô pensando. E eu pensava: será que vou escrever uma poesia superdifícil? Mano, quer saber? Eu vou escrever as coisas que eu vi, vivi e do jeito que eu falo. Eu não tenho grandes líricas e palavras difíceis, eu gosto de falar e ser entendida. Tanto por uma pessoa intelectual quanto por alguém que não tenha conhecimento acadêmico. Eu tenho isso por causa da minha mãe, que terminou o fundamental e eu já tinha mais de 18 anos, mas que lê muito. Eu entendi que para você ser inteligente não precisa falar difícil. Falar difícil é mais uma forma de excluir. A comunicação para ser feita, precisa ser entendida por quem está ouvindo. Isso é muito precioso.

Eu tive a oportunidade de assistir a estreia do doc da Linn da Quebrada, “Quem Soul Eu”, onde se passa muito do processo criativo do último disco dela, “Trava Línguas”. Uma das muitas coisas que me chamou a atenção nos bastidores é o seu processo de produção e colaboração com Linn. Das soluções e criações que você trazia. Coisa que também acontece no trabalho de Jup do Bairro, que você também produziu. Essa última, “Sinfonia do Corpo” traz uma pegada que flerta a música ambiente que é um outro lado seu.
E dela também. Naquela música (“Sinfonia do Corpo”) eu tinha feito umas três versões. Eu mandei para ela um minuto de tecladinho, era só um loop. E ela foi e falou: “Vamos fazer”. A gente foi, gravou e voltou para mim depois de gravar voz. Aí eu trabalhei em várias baterias e fiz umas coisas doidonas que eu queria fazer e mandei para ela de volta. E ela: “Não gostei, quero só o tecladinho”. (risos)

(risos) Essas histórias de parcerias com a Linn e a Jup são ótimas. Falam muito do processo, né? Mesmo no seu álbum solo, “Gueto Elegance”, traz nove feats. A colaboração é algo que te move? O que as participações de “Gueto Elegance” dizem sobre o álbum?
Muita coisa do que está ali vem muito desse contexto pandêmico, sabe? Muita troca de mensagem pela Internet. Muitas pessoas eu só fui encontrar depois, tipo a Lari bxd, eu não conhecia pessoalmente. A gente se conheceu no dia da gravação. Ela é uma menina que não é conhecida e que eu descobri depois de uma vez que eu twittei que queria fazer uns trap com umas meninas e tal. E ela mandou uma gravação de celular e eu fiz essa música com ela. E eu falei que iria colocar no meu álbum, isso no final de 2019. Acho que ela já tinha desacreditado… (risos) No fim, ela me surpreendeu muito. Terminamos nossa sessão umas duas horas antes do que eu tinha estipulado. A música com a Ashira também nasceu pela Internet. Deixa ver… A Ventura eu também já conhecia, mas quando eu fiz um beat foi a primeira pessoa que eu mandei. Eu sabia que ela cantava. Ventura vem da igreja, ela canta muito. A família dela toda é muito musical e todo mundo da igreja. E ela tem esse timbre… Só quem cresceu dentro da igreja tem esse timbre. E eu queria que ela cantasse. Quando ela me mandou o que ela tinha feito para a música, eu quase chorei. Eu falei: “Essa música vai ficar muito linda, socorro”. (risos) Das últimas músicas para fechar foi com a Jup. Que é uma pessoa que é muito parceria de vida além do nosso trabalho. Além de Jup do Bairro e Badsista, a gente é muito parceira e muito amiga. Tanto que eu nem esperava ser tão próxima assim. E a gente usou a música para dar umas gongadas em algumas pessoas. (risos) Tudo nasceu muito nesse contexto pandêmico, né?

Não tem como fugir muito, né?
A não ser a track com a (MC) Yallah, com o Rey Sapienz e o Lord (Spikeheart) foram as únicas que eu gravei presencial. Que eu cheguei a ir para lá no meio do ano (de 2021).

A gente falou da parte das letras e das participações, mas, “Gueto Elegance”, me parece, traz uma outra mudança musical em relação a outros trabalhos seus como o “Lucy 3D”, por exemplo. O que você vinha lançando no Bandcamp. A fritação, que levou você a palcos como o Boiler Room, parece ganhar outras direções e outros significados no novo álbum. Faz sentido?
Eu gosto de dizer que não importa muito o estilo da música. O que eu quis trazer no “Gueto Elegance” é a sensação do som. O que o som ali te traz. Muita gente ficou naquele negócio: “que estilo que eu posso definir o álbum?”.

Tem tanta coisa ali, né?
Tem muita coisa ali porque não fico me prendendo a estilo. Numa mesma música eu posso ter uma bateria que é mais house e um baixo que é meio dancehall. O lance da “Lucy 3D” era de uma época que eu queria que as pessoas tocassem a minha música. Por isso eu colocava de graça, se as pessoas não pudessem pagar eu passava o link. Eu queria que isso rodasse além de mim. Mas quando eu quis fazer um álbum, eu não queria só juntar umas músicas e lançar. Para mim, por mais que ele tenha rolado de forma muito natural, tem esse grande eixo do gueto, da periferia musical, marcando todas as músicas, inclusive com a galera de fora. Que mesmo num contexto global e internacional, tanto eu quanto eles, a gente está na periferia da cena internacional. São outras periferias. São coisas que atravessam todo mundo. Ashira de ser de uma cidade satélite de Brasília. A Lari que é de uma baixada do Rio. A Jup que é do extremo sul, lá do Capão Redondo. A Ventura que é uma mistura de Salvador e Rio de Janeiro. Acho que isso acaba cruzando o álbum todo. Quando decidi fazer o álbum eu quis fazer algo que durasse, para que daqui a 10 anos a gente olhasse e pensasse: “é daora mesmo isso aqui, ela lançou isso aqui 10 anos atrás”. O álbum quis ser essa provocação sonora. Como o “Corpo Sem Juízo” da Jup, quando a gente fez a gente sabia que ia ser grande, mas não imaginava que ia ganhar o prêmio da APCA, artista revelação do Multishow. Mas é isso… A Jup veio na excelência. É uma pessoa que se preparou 10 anos para lançar o primeiro álbum dela.

Eu acho isso muito bom porque acaba que tudo é meio parte do processo, né? Inclusive, eu gosto muito de ouvir playlists de referências e ouvindo as inspirações de “Gueto Elegance” dá pra entender um pouco do olhar que você tem para música e o que te trouxe até o disco. O que tava tocando na sua casa. Nomes como Rihanna, Kelela e Mayer Hawthorne figuram com Rey Sapienz, MC Yallah e Soichi Terada.
Tem screamo também. (risos)

Exato. Poderia falar um pouco sobre o processo de pesquisa e de referências para o álbum? Você falou que tinha muito do processo pandêmico na produção do disco, esse quê de isolamento e pandemia também marcaram esses hábitos de escuta?
Na verdade, tem muita coisa ali na playlist. O Soichi Terada era algo que eu vinha ouvindo desde 2019. O Sandy B também. Essas referências que eu coloquei na playlist são coisas que eu tenho ouvido nos últimos anos, sabe? O Underoath que está lá, Alesana que são coisas do screamo e do post-hardcore são coisas que eu ouvia quando tinha 17 anos…

Tem até um Dance of Days ali no meio. A presença de “Linda, a dor não é tão glamorosa assim afinal” não deu para deixar passar.
Tem o Dance of Days que eu também ouvia nessa época. Lembro de um show do Dance of Days aqui em Itaquera num lugar pequeno. E a galera insana com Nenê Altro que, inclusive, transicionou, né? E eu depois falando com a Jup: “Mona, que doideira”. (risos)

Um dos primeiros shows que eu tenho lembrança de ir adolescente foi um show do Dance Of Days em Maceió…
Sim, aquela loucura, né? Aquele show… Gente, era uma loucura.

Na terceira música, Nenê já estava pendurado na grade da luz de cabeça para baixo…
E eu lembro das pessoas puxando ele. Uma loucura, gente. Eu pensando: “Já já vai quebrar os instrumentos, já já vai quebrar tudo”. (risos) Mas era isso, essa energia, tipo… Eu acho que eu venho me preparando para lançar esse álbum há muitos anos. Nesse álbum, eu junto tudo que eu aprendi desde quando eu comecei a mexer com música. Fazer música no computador, escrever, cantar, tocar… Sabe, tudo que tem tocado de instrumento fui eu que toquei… Os sintetizadores, o baixo, fui eu que toquei. Eu meio que amarro tudo que eu aprendi nesses anos nesse álbum. Eu acho que vem daí. E quando eu monto essa playlist, não é que eu estava ouvindo e pensando em fazer um álbum. O álbum foi nascendo natural, quando eu me dei conta eu já tinha quatro ou cinco músicas. E pensei: “essas músicas aqui juntas ia ficar massa”. Aí foi quando comecei a ficar mais focada em terminar o álbum. Por isso que eu falo que esse álbum é o fim e o começo de uma coisa. É o fim de vários anos de estudo e vivência, sabe? E ele é o começo desse novo passo. Eu me vejo muito empolgada para me mostrar no palco, não é só ficar apertando play, mudando pitch e mexendo no fader.

Interessante isso… Eu me peguei ouvindo o disco e pensando nessa Badsista do Boiler Room e que produzia outros artistas também. E é tanta coisa acontecendo ali que eu pensava: “como ela está pensando em fazer isso ao vivo”? (risos)
(risos) Eu já pensei sim. Na verdade, como eu ainda transito nesse rolê de festa eletrônica e não quero me separar muito disso, eu tenho preparado um live set, que eu fico ali com as CDJ, mas eu toco outros instrumentos que não só as CDJs. E canto também. Tô fazendo versões especiais das músicas para esse live set. Mas eu queria também fazer um show do álbum com banda. Queria bateria, guitarrista, tecladistas… Fazer uns arranjos para tocar com banda. Mas para fechar um show desse tem que ter alguém que pague por esse show, né? Seriam mais pessoas, não seria eu sozinha. Mas eu já estou me preparando, escrevendo uns arranjos no (Ableton) Live de como seria isso ao vivo com banda. E já estou preparando essas coisas em formato de live set como é uma coisa mais contínua flertando muito com o rolê de música eletrônica, trazendo as músicas do álbum. Aí eu dou uma espalhada das músicas pelo set. Mas eu pensava durante o processo de gravação do disco: “eu vou ter que cantar, caralho.” (risos)

É aquela coisa muito do produtor, né? Quem teve banda e executa, pensa com aquela cabeça, né? “Tá ficando ótimo aqui, mas como eu vou fazer para executar ao vivo essas 15 pistas de sintetizador?” (risos)
Vai ter que virar uma. (risos)

Exato. (risos) Tem outras duas coisas que eu queria saber de você, a primeira é que muita coisa da sua discografia está disponível apenas no Bandcamp. Compilações como “Lucy 3D”, “ZL Club Music pt. II, “Hits de verão (pt I e pt II)” foram lançadas em sextas-feiras durante 2021, acredito que dentro do Bandcamp Fridays, né? Pouca coisa desse material está disponível em outras plataformas, como o Spotify. Como você pensa as estratégias de disponibilização da sua música? Acho que essa é uma conversa que precisaremos ter na música o quanto antes. Pensar a sobrevivência musical passa também por saber trabalhar sua música em diferentes plataformas?
Total. A minha saída no Bandcamp é porque muita coisa do “Lucy 3D” eu uso vocal de funk e eu não posso distribuir isso. Eu ainda distribuí duas num gato total. (risos) Foi 100% no gato. (risos) Mas o lance do Bandcamp, para mim, ele vem mais num rolê financeiro. Ele é o dinheiro mais direto que eu recebo. Na primeira sexta-feira que teve, eu recebi 200 ou 300 dólares de venda. Eu que não estava tocando. Vou falar um negócio para você, eu fiquei muito frustrada em 2020. Eu estava “bookada” até outubro, eu não tinha mais data, sabia todas as cidades, países que eu ia estar. Eu ficava pensando: “hoje era para eu estar em tal lugar”. O que eu vou fazer? Fodeu. Sobrevivi com esse lance do Bandcamp Friday nos primeiros três e quatro meses. Era o dinheiro que eu fazia mercado, pagava minhas contas. Por isso, fiquei ali, colocando track.

Eu fico vendo o quanto de gente que incentiva “apoiar o artista” tocando a música no Spotify, né? Fazer 200 ou 300 dólares de play no Spotify é uma tarefa e tanto…
Nossa, para você ganhar 200 dólares no Spotify é mais de um milhão de plays. Não tem como, sabe? “Aí, taca streaming na lenda”. Não, gente. Não taca streaming. Se você quiser, bem. Mas, se você quiser ajudar mesmo, pede o link e me manda um PIX. Se você não tiver um cartão internacional ou uma conta no PayPal. Teve gente que fez isso comigo, falou que não tinha como comprar no Bandcamp e queria muito ter. Aí eu passei o link e a pessoa me fez um PIX. E a pessoa, ainda sim, ajudou. O Bandcamp foi muito essa saída financeira, sabe? E, também, as pessoas que me seguem no Bandcamp é uma relação que eu venho cultivando há um tempão. Eu fazia muito isso de colocar “name your price”, a pessoa paga se quiser ou pega de graça. Eu não gosto de elitizar o acesso à minha música. Se você me jogar no Soulseek, está tudo lá. Até meus sample packs. (risos)

Apesar de ser uma saída que acaba excluindo, afinal, não é todo DJ ou artista que tem uma conta no PayPal ou um cartão internacional para receber ou pagar. Eu acho que se tem que trabalhar com o que está posto aí, sem ficar muito refém do Spotify. Não dá para ficar trabalhando sem refletir essas dimensões do compartilhamento da música.
Sim, nossa, isso é chato mesmo. O negócio do Bandcamp mesmo. Ano passado eu saí nos destaques do Bandcamp porque eu estava rodando muito lá fora. É uma relação com a comunidade internacional que eu tô cultivando há muito tempo. As pessoas de fora estarem prestando no que eu faço aqui é resultado do trabalho que a gente está fazendo nesses anos. Queria muito que a gente tivesse algo aqui no Brasil, na nossa moeda. Que o dinheiro fosse mais direto para o artista. Eu me vejo muito refém das plataformas e por isso eu não estava colocando muita coisa nessas plataformas. Eu recebo de três em três meses 25 dólares… Eu vou ficar comendo de três em três meses? Acho que as pessoas não entendem, acham que o Spotify dá dinheiro, mas não dá. O dinheiro acaba vindo das gigs, mas e quando as gigs acabam?

E essa relação que você mantém fora do Brasil? Um tempo atrás você fez uma viagem à Kampala, Uganda. Era uma residência? Poderia falar um pouco sobre essa viagem? É possível dizer que ela repercutiu em “Gueto Elegance”?
Era uma residência. Eu fiquei um mês e meio lá. Quando cheguei, o álbum era outra coisa. Quando comecei a trocar com o pessoal de lá, eu mudei muita coisa. Teve música que cheguei a apagar o projeto inteiro, deixei só os vocais, e comecei do zero. Não tem como não se contaminar pelo que a galera tá fazendo, o que eles ouvem. As coisas são muito percussivas. Como as coisas são esquentadas, mesmo no pop. Às vezes, sinto que o pop brasileiro é muito imediatista. E lá as coisas são meio cozinhadas. É muito de ritual, de você ficar cozinhando um negócio, hipnotizando. A track com o Rey mesmo, eu não era muito próxima dele quando fui lá em 2019. Mas teve um dia que eu estava super entediada e eu cheguei lá no quarto dele, que lá é uma grande casa e eu cheguei para encher o saco dele. E eu falei que eu montava uma bateria em dois segundos. Aí ele abriu um projeto vazio no Ableton (Live) e falou: “Então, faz aí”. E foi assim que a gente começou essa música. Isso a gente começou meio-dia, ficamos até meia-noite. Depois contei para eles que essa faixa iria para o meu disco. (risos)

Uma última pergunta, o que você planeja para “Gueto Elegance”? O que podemos esperar de desdobramentos desse projeto?
Eu pretendo lançar um álbum de remixes, que eu ainda estou fazendo a curadoria de quem vai fazer o que. E mais uma vez vou gastar meu capital social. (risos) Chamar uma galera aqui do Brasil e algumas pessoas de fora que eu já colaborei ou fiz alguma conexão. Eu pretendo lançar algo no verão do hemisfério norte, eu quero lançar mais perto do verão deles. Para fazer um flerte com a galera de lá, serão versões mais para a pista, mais festa, para tocar, sabe? Essa vai ser a curadoria. Até agora.

– Victor de Almeida (@Victoranpires) é jornalista, Doutor em Comunicação pela UFPE e professor da Universidade Federal de Alagoas. Autor dos livros “Além do Pós-Rock” (2015) e “Circuitos Urbanos e Palcos Midiáticos” (2017).

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