Meu disco favorito de 2021: Olivia Rodrigo, por Bruno Capelas

MEU DISCO FAVORITO DE 2021 #4
“Sour”, Olivia Rodrigo
escolha de Bruno Capelas

No início de 2021, eu comprei um novo celular. Pela primeira vez na vida, em vez de deixar todos os aplicativos soltos num menu em ordem alfabética, eu resolvi organizá-los em pastas. “Jogos”, “Streaming”, “Redes Sociais”, “Comunicação” e assim por diante… até chegar a uma singela pasta em que se misturam aplicativos de banco, cartão de crédito, conta de luz, operadora, plano de saúde, título de eleitor e, no devido tempo, o comprovante da vacina. Seu nome? “Vida Adulta”.

Sim, pode rir aí da sua casa: eu também acho graça quando tenho que resolver algum BO pelo smartphone e percebo minha imaturidade, mesmo já tendo quase deixado para trás o “alistamento militar astrológico” (também conhecido como Retorno de Saturno). É uma forma de autossabotagem — ou de disfarçar que um ou outro cabelo branco já ande visitando a minha cabeça.

Talvez também seja por isso tudo que um dos meus discos favoritos de 2021 seja o de uma moça que nasceu no século XXI. Mais: o primeiro capítulo da carreira dela foi ser a estrela de uma série de TV da Disney cuja trama envolve estudantes encenando uma peça baseada em “High School Musical”, outro filme de sucesso da mesma Disney (e, não por acaso, um dos filmes favoritos da minha irmã, uma década mais nova que eu ). Confuso? Não tanto quanto encarar a vida adulta – ou como ela mesma diz logo no começo do disco: “é brutal aqui fora, né?”

Não é que “Sour”, o disco de estreia de Olivia Rodrigo, traga dentro de si uma miríade de grandes novidades. Para quem é versado nos idiomas do pop, estão lá todos os sinais característicos de sua gramática & ortografia: baladas sobre decepções amorosas, rocks acelerados sobre vinganças e frustrações, coros feitos para serem cantados em estádios com palminhas e as mãos para cima (atenção ao trecho que começa aos 2:27 de “driver’s license”), uma capa & visual que oscila justamente entre a fofura e a ironia. Don’t stop me, you’ve heard this one before – Alanis, Lorde, Taylor Swift, No Doubt, até alguns ecos de Carole King e Carly Simon, está tudo lá, de um jeito ou de outro.

Mas talvez justamente resida aí o fato de que ele é um grande disco: Olivia não tem vergonha de acessar esses símbolos e torná-los seus (e, por consequência, de sua geração). Quer sentir a idade chegando? Preste atenção em “Brutal”, em que ela pergunta onde está seu “teenage dream”, à la Katy Perry. Ou ainda em “good 4 u”, cujo refrão se inspira declaradamente em “Misery Business”, do Paramore — possivelmente a última vez em que o universo pop (aquele das paradas de sucesso) teve tantas guitarras e diversão até os primeiros acordes de “Sour” existirem. Guitarras, sabe? A gente ainda lembra como elas funcionam, eu espero.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que ouvir Olivia Rodrigo é se sentir meio “cringe” (desculpem, é um texto de retrospectiva de 2021!), a forma como ela usa esses símbolos permite que qualquer ouvinte disposto possa se identificar com o que ela está cantando. Pagar boletos pode ser chato, mas será que dói tanto quanto finalmente ter uma carteira de motorista e terminar com o crush que mora longe, no subúrbio, enquanto vocês sonhavam com um rolê de carro? Será que ter que lidar com o barulho de uma obra interminável no home office é tão ruim quanto ver o amor da sua vida prometer que te ama e levar apenas duas semanas para encontrar outra pessoa? Ou pior: vê-lo feliz com a nova namorada, mas torcer para ele não ser mais feliz do que você?

Não sei quanto a você, mas são coisas que me tocam. Ouvir uma garota de 18 anos cantando “você disse ‘para sempre’, agora eu ando sozinha na sua rua” ou abrindo espaço para guitarras já de cara, sem medo de ser feliz, são coisas que me pegam de jeito. É algo que me faz lembrar de quando eu mesmo estava vivendo minhas primeiras paixões — e andava de bicicleta feito louco pelo bairro pra passar na frente da casa da menina que eu gostava.

Ao mesmo tempo, é algo que me faz perceber que, por debaixo da louça pra lavar, dos relatórios para entregar e dos investimentos no Tesouro Direto, ainda tem um coração jovem batendo aqui. Um coração que torce pra viver histórias emocionantes e intensas mais uma vez ou simplesmente balançar a cabeça ao som de riffs e refrões legais. E embora os cabelos brancos apareçam em profusão e a lista de apps da pasta “Vida Adulta” não pare de crescer, eu não quero saber: só por hoje, boto Olivia Rodrigo nos fones, pego minha bike e vou embora. A vida é mais legal assim: começando tudo de novo, me apanho sorrindo.

Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e, desde 2006, acredita que “maturidade é uma fase, adolescência é para sempre”. É um dos responsáveis pelo Programa de Indie, na Eldorado FM, e autor de “Raios e Trovões – A história do fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum”, editado pela Summus Editorial. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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One thought on “Meu disco favorito de 2021: Olivia Rodrigo, por Bruno Capelas

  1. Que lindo, Bruno.
    Explicou o que eu não tava conseguindo entender. Nem ouvi o disco, não havia sido tocado pela garota até ver a apresentação no tiny desk da npr. E o sentimento foi uma confusão de mais do mesmo, novidade e nostalgia. Talvez o q vc diz só faça sentido para a nossa geração… (Não sei os nomes das gerações, me perdoe… E só especulo que tenhamos crescido mais ou menos na mesma época)… mas bateu forte aqui. Vou ouvir agora o seu disco favorito, pensando que “disco” já entrega a nossa idade.

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