Faixa a faixa: Pedro Sá comenta as canções de “Um”, sua estreia solo

introdução por Marcelo Costa
faixa a faixa por Pedro Sá

Pedro Sá é um dos grandes nomes da guitarra elétrica no Brasil, esse instrumento nascido nos Estados Unidos (a partir de modelos acústicos espanhóis) que se expandiu no rock, adentrou o jazz e veio se envolver com a música brasileira através de Sérgio Dias, Pepeu Gomes, Jorge Ben e Lanny Gordin, o que mais aproximou Jimi Hendrix do samba (algo que seria perpetuado por nomes como Gustavo Corsi, do Picassos Falsos, nos anos 80 e Guilherme Held nos anos 00). Pedro Sá segue essa linhagem e seu primeiro álbum solo, “Um” (2021), demostra sua paixão pelo instrumento e pelo sotaque brasileiro na música através de uma guitarra que é suave e doce, percussiva e suingante, grave, arisca e estridente (ou seja, expansiva, como esse instrumento – tocado muitas e muitas vezes da mesma maneira – repleto de possibilidades deveria soar sempre).

Um disco de guitarra, voz e efeitos eletrônicos, “Um” foi gravado com inspiração no método utilizado pela técnica de estúdio Wendy Carlos (artista trans americana que em 1968 lançara “Switched-on Bach”, disco revolucionário de peças clássicas relidas no sintetizador Moog) no álbum branco de João Gilberto (“João Gilberto” de 1973). Pedro contou em entrevista ao Globo: “Se você for reparar bem, o violão desse disco do João tem grave à beça e um agudo muito rico. É um som complexo, cheio de nuances. A Wendy abre o estéreo e joga os graves para um lado e os agudos para o outro, parece algo maior do que um violão só. E a voz entra nesse amálgama, fica uma coisa só, dentro do violão. Eu usava uma afinação normal de guitarra e acabava sempre me esgoelando quando cantava. Passei a afinar um tom abaixo, encontrei o lugar da minha voz e acabei curtindo a guitarra mais grave, com gordura”, explica.

Com uma bagagem extensa que inclui as bandas Mulheres Q Dizem Sim, Rubinho e Força Bruta, o projeto +2 (Moreno +2, Domenico +2, Kassin +2) e a big band Orquestra Imperial além de colaborações com Lenine, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhotto, Tom Jobim, Gal Costa e Maria Bethânia, entre tantos, sem esquecer-se de um de seus projetos mais aclamados, a Banda Cê, que acompanhou Caetano Veloso nos discos “” (2006), “Zii e Zie” (2009) e “Abraçaço” (2012), Pedro Sá conseguiu traduzir-se de maneira melodicamente poética em “Um”, que soa experimental e pessoal numa exploração do instrumento e de sonoridades que, em nomes citados pelo guitarrista no faixa a faixa abaixo, esbarra de Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola a Jimi Hendrix passando por poetas portugueses, italianos e os parceiros mais chegados (Domenico Lancellotti, Kassin e Moreno Veloso). Abaixo, Pedro comenta todas as canções de “Um”!

Faixa a Faixa: “Um”, por Pedro Sá

01. Colapso – Foi das primeiras músicas que fiz do disco. É fruto das experiências percussivas e poli-rítmicas que exploro na guitarra elétrica. É num compasso de 7/8, que é estranhamente dançante, pois há um compasso binário por trás que muda o acento forte a cada ciclo. Funciona, no disco, como uma introdução. Tem um baixo enérgico, e camadas que conversam com o funk carioca e juju music. Tem algo de “You Got Me Floating”, de Jimi Hendrix, também. É a faísca inicial, que nos põe alerta para o que vem a seguir.

02. Joá – Essa é um contraste em relação a “Colapso” pela sua leveza. A mais carioca das músicas do disco e curiosamente é parceria com um português, o genial multiartista Tomás Cunha Ferreira. Meu “irmão” luso. Os versos são de puro desfrute, urgência do viver. Há uma pureza, sem que se caia em um lugar comum.

03. Gaivota – A terceira música vem como um pedaço da paisagem, uma foto. Sempre fui fascinado por esse pássaro. Me lembro de ficar observando longamente seu voo. É uma perfeição. Pura elegância. Letra e música vieram quase simultaneamente de uma só vez. Com a experiência vivida dessa visão. Veio uma melodia modal e matemática que vai numa ascendente e depois desce como um grande mergulho. Justeza.

04. Dia – Essa foi a primeira canção que fiz para esse disco. Marco zero de “Um”. A partir dela comecei a desenvolver uma maneira de tocar, cantar e compor que me animaram a gravar um disco solo. Caminhando numa praia deserta de inverno no Rio veio essa canção, melodia e letra de uma só vez em minha cabeça. Chegando em casa peguei na guitarra para tocá-la e me deu um estalo, entendi que havia uma linguagem própria ali que eu poderia desenvolver e explorar. Tudo veio a partir dessa epifania na praia.

05. Pare de Correr – “Pare de Correr” é parceria com outro irmão, Domenico Lancellotii. Companheiro de tanta música, arte e vida. Fiz um motivo repetitivo em ostinato na guitarra. Mais uma levada poli-rítmica, dessa vez em 12/8. Em cima disso fiz uma melodia bem africana, toda em pentatônica que lembra algum canto dos Pigmeus do Gabão, ou algo malinês. Pensei imediatamente no Domenico , que é um poeta muito ligado ao ritmo para colocar letra. Otavio Paz dizia que o ritmo na poesia não é simples métrica e rima, é significado. Domenico é a perfeita compreensão disso. Pra minha surpresa ele fez uma homenagem ao meu filho, Nino, e à minha mãe Tetê. A avó ensinando o neto a observar e escutar a beleza e o drama da vida, da paisagem, dos animais etc. Nessa faixa há um solo de guitarra exclusivamente percussivo.

06. Um Conselho – Essa é um poema do grande poeta italiano Alfonso Gatto que tive a honra de musicar. Esse poema faz parte de uma série de poemas infantis. Giorgio Sica, figura genial também poeta e italiano, foi quem me apresentou à essa poesia maravilhosa, é sua a tradução para o português. Curiosamente conheci Giorgio numa creche, quando estávamos fazendo a adaptação de nossos filhos.

07. Maior – Um samba-canção que fala do sentimento do amor infinito. Termina com um “mar” de guitarras fuzz em camadas sobrepostas.

08. Quem – Uma noite, uma atração mágica. A rua noturna da cidade como cenário. Primeiro “acesa”, “de bar em bar sem ter destino”, depois “deserta”, silenciosa, íntima. Na gravação um chiado cálido faz cama para uma guitarra que conduz sem pressa.

09. Madrugada Acordada – Parceria com meu amigo mais antigo, Moreno Veloso. Outro irmão maravilhoso que a vida me deu. O refrão dessa música surgiu numa gravação quando estava passando o som. Pensei imediatamente no Moreno, meu amigo das madrugadas infinitas. Quando éramos adolescentes e no início de nossa juventude, varávamos madrugadas escutando discos, lendo livros, conversando, tocando, cantando. Considero que essas madrugadas foram uma espécie de universidade para mim. Além disso o silencio da alta noite e da madrugada sempre me encantou, desde criança. A faixa começa em fade-in e termina em fade-out, como se fosse a própria noite chegando e passando. Tem também o solo de guitarra mais “normal”, clássico, do disco. Um dos raros overdubs deste.

10. Há Um – Canção na linha de Nelson Cavaquinho ou Paulinho da Viola. Fala da solidão profunda. Que nos leva a duvidar de nossos sentimentos mais puros, pois boa sentimos sem referência, sem chão. Entrar em consonância com Há Um pode soar um desabafo.

11. Rota de Fuga – A última parceria do disco, dessa vez com Alexandre Kassin que escreveu a letra. Outro irmão de vida. Nasceu de um encontro que tivemos, de um longa conversa, eu estava me separando e andava escutando um ruído agudo constante internamente. Era o tinitus, me disse Kassin. Aparece quando estamos estressados. Depois do papo toquei a música e ele fez a letra na hora, que meio que resumia toda a conversa. Adoro esse nome, “Rota de Fuga”. Fiz o arranjo de forma que a canção é entoada uma só vez, sem repetir, direta. Curioso que há, de fato, um ruído constante, um rame da guitarra do início ao fim da gravação…

12. Mormaço – É uma das primeiras músicas que compuse e das que mais gosto. É uma imersão no mormaço em si, a sensação de estar num dia de mormaço na cidade. Uma certa opressão, quase uma angústia. Na gravação há um efeito de delay que modula a afinação da harmonia, como se o “chão” da música estivesse derretendo. Efeito que vai se intensificando até explodir no final totalmente distorcido, com solo quase atonal. Uma saturação desse mormaço, mas também uma explosão de liberdade.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne.

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