Entrevista: Jello Biafra rememora passagem pelo Brasil e fala de tretas, postura punk, política e, claro, sobre os Dead Kennedys

entrevista por Homero Pivotto Jr.

Não são poucas as credencias que Jello Biafra ainda ostenta atualmente: vocalista e compositor à frente do Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine, fundador & patrão na gravadora Alternative Tentacles, protagonista da série de vídeos sobre assuntos diversos chamada What Would Jello Do? (O que o Jello faria, em tradução livre) e artista de spoken word. Isso sem falar em seus feitos do passado, como ser candidato a prefeito de São Francisco (1979), na Califórnia, e indicado pelo Partido Verde dos Estados Unidos como possível concorrente à presidência da república, em 2000, quando a agremiação escolheu outro candidato em votação interna. Não esqueçamos do projeto LARD (com Al Jourgensen, do Ministry) e colaborações com gente do Melvins, D.O.A e Nomeansno — além do Pailhead, ao lado de Ian Mackaye (ex-Minor Threat e Fugazi).

Afeitos à trajetória do sarcástico cantor devem estar se perguntando: e o Dead Kennedys? Há uma razão para isso não ter sido mencionado antes. Pois é justamente a posição de frontman na lendária banda punk estadunidense, função que o fez ser reconhecido mundialmente, que o veterano Eric Boucher (nome oficial) é enfático em salientar que ficou no passado. A visibilidade da falta de vínculo hoje em dia, segundo ele, é inversamente proporcional aos louros que ainda são colhidos graças ao legado do conjunto que segue ativo — com East Bay Ray (guitarra), Klaus Flouride (baixo) e DH Peligro (bateria), da antiga formação, junto com Ron “Skip” Greer ao microfone. Muita gente não tem conhecimento da informação sobre o rompimento, conforme Jello, e seus antigos colegas — que detém os direitos pelo nome do grupo após batalha judicial — não fazem questão de esclarecer.

Inclusive, um episódio ocorrido no Brasil, em 2019, ratificou essa percepção do cara que escreveu letras de hinos contestadores como “Holiday in Cambodia”, “Kill the Poor” e ‘Let’s Lynch the Landlord”. Trata-se da polêmica que rolou em razão de um cartaz feito pelo artista Cristiano Suarez para divulgar uma turnê do DK sem Jello em solo nacional. A peça mostrava uma família de palhaços Bozos com camisetas da seleção brasileira (no lugar do símbolo da CBF havia uma cruz), armas na mão e uma favela queimando ao fundo. A crítica social — uma marca do saudoso Dead Kennedys — acabou inflamando os ânimos online graças à atual polarização política do país, fazendo com que a banda cancelasse as apresentações por aqui alegando que seria melhor para a segurança de todos. Após o episódio, Jello publicou um texto oficial, que foi um dos mais lidos do ano no Scream & Yell.

“Ainda tem gente que acredita que eu faço parte do Dead Kennedys. Porque muitos dos que viram o que foi divulgado pelo Ray pensam que tem a ver comigo, acreditam que ainda estou na banda. Afinal, esses caras nunca fazem questão de esclarecer que eu não toco mais com eles. Eu não apoio o atual presidente de vocês. E o pôster da turnê era fantástico! Espero que a informação siga se espalhando e que os fãs de punk e todo mundo saibam que estou com quem é contra esses merdas como Bolsonaro, como Trump e outros que querem ser ditadores militares sem se importar com quantos precisarão matar de Covid”, justifica Jello, atualizando seu posicionamento para os tempos pandêmicos.

Na entrevista que segue, feita por chamada de vídeo em meados de novembro, Jello Biafra explica melhor sua atitude sobre o famigerado pôster, conta recordações envolvendo o Brasil e sua relação com artistas da terra, e deixa bem claro de qual lado da história está.

Você escreveu “Nazi Punks Fuck Off” há quatro décadas — o EP “In God We Trust“, que contém a faixa, é de 1981. E, hoje em dia, a cena rockeira parece cada vez mais povoada de gente que talvez não seja necessariamente nazi, mas é conservadora, intolerante e preconceituosa. O que pensa do atual estado daquilo que se convencionou chamar rock? Por que acredita que esses pensamentos limitados encontraram eco em um espaço que, ao menos para mim, deveria ser combativo, desafiador e contestar regras estabelecidas?
Bem, o punk é algo de alta energia, de adrenalina, de diversão. Algo que, em seu extremo, ao menos o que considero bom, não é o estúpido pop punk. E desde o começo o punk usou de elementos extremos, incluindo andar por aí com suásticas. Tipo o Sid Vicious com camiseta desse símbolo apenas para chocar as pessoas. Já sobre o lance da filosofia do punk, você vai ter diferentes respostas se perguntar para mim, para o Circle Jerks, para o The Exploited, para o Fat Mike (NOFX). (O que importa é que) Isso atrai as pessoas. Porém, alguém que eu pensava estar do nosso lado, um grande amigo, que me transportava por Los Angeles sempre que precisava… Ele passaria por árabe até, toca numa banda chamada Love Canal. Pois então, o cara estava lá no dia 6 de janeiro (invasão do Capitólio, nos Estados Unidos) e isso me chocou completamente. Conheço muita gente que não pensa como eu e acredito que não dá para sair cancelando todo mundo automaticamente. Mas, não sei se quero ver esse figura de novo, pois é alguém tão esperto sendo tão estúpido. E multiplique isso por centenas, por milhares. Sabe como é, as pessoas são facilmente guiadas a temer medos imaginários e querer vingança sobre aqueles que são diferentes delas. Antes, as pessoas eram mais espertas e menos facilmente manipuladas pela mídia corporativa comercial. Você não veria alguém votar no Bolsonaro. Mas, enfim… O punk está por todos os lugares e fiquei abismado quando fui com o Guantanamo School of Medicine por uma turnê na Inglaterra, e várias pessoas diziam que ninguém era mais ligado em política. Isso me pegou de surpresa, pois um monte de bandas underground, principalmente de hardcore, continua bem políticas. No metal também, tipo o Ministry ou, infelizmente, do lado oposto, da extrema-direita, o Godsmack. Eles estão dizendo para as pessoas se alistarem e irem lutar no Iraque, mas os músicos mesmo não vão. Chamamos isso de chickenhawks (aqueles que são a favor da guerra, mas não vão lutar, querem apenas incitar para a batalha). Dick Cheney, Donald Trump, Rush Limbaugh, George W. Bush são exemplos. Essa gente quer travar a guerra e matar outras pessoas, mas nunca estiveram numa trincheira para saber o quão horrível é. Não sei se responde sua pergunta, mas isso sempre existiu. E agora, a mídia de massa está mais censurada, propagandeada e outras características que não queremos, para mostrar soldados ensanguentados e guerras nos noticiários da manhã. Quando eu era criança, vi afro-americanos sendo mordidos por cachorros apenas por terem marchado em busca dos seus direitos. Por sorte, a maioria dos pais trocava de canal para esconder isso das crianças, mas os meus não faziam isso. Até onde lembro, quando vi as revoltas raciais e os cães, minha mãe disse algo como “não entendo como alguém pode odiar outra pessoa por causa da cor da pele”. Nunca me esqueci disso. Acho que eu tinha uns cinco ou seis anos. Desde então, tenho forte sentimento contra o racismo. Então, com cerca de 10 anos, eu soube que o amigável policial dos livros de história não existia na vida real. E em alguns locais, como Denver e Colorado, perto de onde cresci, eles eram o inimigo. Não chegavam a ser esquadrões da morte, como em El Salvador. Não sei muito sobre a ditadura no tempo do Ernesto Geisel para mensurar o quão letal esses grupos foram no Brasil (nota do editor: foram extremamente letais). Em alguns locais do planeta isso ainda existe (nota do editor: também no Brasil, com as mílicias). Mesmo que alguns não sejam tão abertamente assumidos ou não matem tanta gente, há gangues dentro das polícias. É óbvio que Derek Chauvin, o cara que assassinou George Floyd, pensou que poderia se safar, mesmo com muitas testemunhas, porque ele sabe como funciona. Possivelmente ele já fez algo parecido a outras pessoas. É só um exemplo gritante de que temos gente assim por tudo.

Voltando a “Nazi Punks Fuck Off”: o que te inspirou a escrever esse som? É real que a faixa tem a ver com o Exploited ou roadies da banda?
Não, isso foi depois. Eu demorei a me dar conta de que o Wattie (vocalista do Exploited) é tão vaidoso a ponto de pensar que escrevi a música para ele. Eu tinha os discos dele e tal, porque coleciono material do punk britânico, mas não relacionei por um período a pessoa perigosa que ele poderia ser. Mas, originalmente, o tema foi escrito quando skatistas e surfistas jovens apareceram na cena (punk) em São Francisco trazendo consigo um lance “machista”, mais agressivo. Em vez do pogo, de repente, começou a rolar o slam dancing, também conhecido por mosh depois do termo nova-iorquino dominar geral. E essa galera ia aos shows fazer isso justamente para arranjar encrenca e então realmente bater nas pessoas. Tinha até quem subia no palco, fazia stage diviving batendo na cabeça dos outros por trás, e sumia. As maiores violências que já vi em shows, tipo nos do The Germs em algum lugar da Califórnia, eram causadas por uns grandalhões musculosos mais velhos. Eu pensava: “esses caras têm de ser policiais disfarçados”. Eles não prestavam atenção às músicas. Teve uma gig em que rasgaram a roupa de uma menina até. Para mim, essa gente era tão violenta e de comportamento tão fascista que agiam como nazistas. Eis a origem da música. Foi só depois de tocarmos esse som ao vivo que nazistas verdadeiros, que acreditavam nessa ideologia, começaram a sair do armário. Teve até um cujos pais eram da juventude hitlerista, e o cara usava uniforme da SS e tal. Depois ele se matou e, mesmo tendo feito isso porque a mulher o largou, os amigos do cara culpavam a mim e a música, que teria “partido seu coração”, já que o Dead Kennedys seria a banda favorita dele. Vai entender. Depois piorou: alguém detonou dinamite em frente a minha casa e rolou uma facada no palco enquanto tocávamos “Bleed For Me”. Tinha gente que me dizia para usar “Nazi Skins” em vez de “Nazi Punks”, mas não tínhamos skins na América, e eu não conhecia a ideologia desse grupo. De qualquer forma, a linha de pensamento dos skinheads já não era mais a original de quando o movimento nasceu e o pessoal curtia reggae e ska, entre outras coisas. Tem os Skinheads Against Racial Prejudice (SHARP), e eu me pergunto se essa galera vai aos shows para combater outros skins, se os eventos não seriam arruinados. Não entendo porque fazem tanta questão de salvar a coisa do “skinhead”, que é tipo uma moda chamada de movimento, com seu uniforme e tal. Bem, voltando ao Exploited… Eles fizeram umas datas com o Black Flag em 1981, e tocaram logo depois do Dead Kennedys. Parece-me que os caras não se entenderam muito bem no palco, o que os levou a reclamar depois sobre “o que eram os idiotas do Black Flag”, que recusaram cocaína que eles ofereceram. Acho que nós (DK) entramos nessa onda em que o Exploited tentava achincalhar bandas, principalmente as estadunidenses, para se promover. Isso é clássico, típico. É uma viagem sem cabimento ter de considerar outros como oponentes e se livrar deles, por assim dizer. E parece que o Wattie se empolgou com isso e até hoje acredita na história. Houve um incidente em Leicester, na Inglaterra, quando rolou uma treta forte. Tinha uns skins e valentões que achavam que a Frente Nacional Britânica era muito fraca e que, para tirar a Inglaterra da ruína dos “horríveis imigrantes, gente com cor da pele diferente e judeus”, era preciso mais violência. Esses caras eram mais próximos da Ku Klux Klan do que da já medonha Frente Nacional Britânica liderada por Enoch Powell. Ninguém na cena musical apoiava esse cara, a não ser o Eric Clapton, que até carregou o caixão do Powell e seguia negando ser racista. O Clapton continua se metendo em apuros, agora por ser o Senhor Antivacina. As pessoas o criticam e ele fica louco. A própria criação do Rock Against Racism, com o The Clash, Steel Pulse, Elvis Costello, Pete Townshend, tem a ver com isso. Essa turma se juntou para contrapor o que o Clapton fazia na época e mostrar que o rock era contra o racismo, menos alguns linhas duras, inclusive do punk. Tipo o Wattie, que me disseram ter sido expulso do exército por bater em muitas pessoas. Ele começou como um skinhead e percebeu que faria mais dinheiro se levantasse moicano. Bom, nesse show em Leicester, gente da Frente britânica apareceu. Além disso, tinha uns flyers espalhados alertando que se estava em território britânico. E não demorou para os fascistas mostrarem as caras. O MDC estava tocando antes de nós (DK) e alguns desses trogloditas subiram no palco e empurram Dave (Dictor, vocalista), que caiu na plateia e foi chutado por esses malucos. Dave precisou até ir ao hospital. Um cara que trabalhava nos ajudando com equipamento de palco, Mick McGee — que chegou a gravar como vocalista de uma banda chamada Mayhem —, nos alertou que não era apenas o Movimento Britânico que estava lá: tinha roadies do The Exploited também. Então, na hora que tocamos, tivemos de dar uma de Muhammad Ali nos esquivando dessa rapaziada que tentava dar socos. Em determinado momento, Mick disse a um deles: “Hey, qualé? Você já ficou na minha casa, segura a onda”. Então, os caras bateram nele. Creio que eu era o alvo, mas nunca me pegaram. Depois, ficou claro que era a crew do Exploited junto com a os violentos fascistas britânicos tentando atacar aos Dead Kennedys. Wattie não estava lá, pois tinha quem fizesse o serviço para ele. Até hoje nunca nos encontramos, e ele faz ameaças periodicamente. “Eu vou foder sua mulher, Jello”. Ok, Wattie, que comentário brilhante! Talvez “Fuck The USA” seja para… Adivinhem? Vai saber. Mas o lance é que “Nazi Punks Fuck Off” não é sobre ele, mas por alguma razão ele pensa que é. Por que eu perderia tempo escrevendo uma música para ele? Os comportamentos nazi e fascista violentos vão além dele, e muito além das fronteiras de qualquer país. E havia muita violência em São Francisco com essa galera que ia aos shows. Pensei: “Ninguém vai dizer nada sobre isso? Bom, talvez tenha de ser eu”. Então, escrevi “Nazi Punks Fuck Off” em 15 minutos. Eu tinha um walkman que carregava junto caso tivesse alguma ideia enquanto dirigia, e foi isso que rolou. E foi assim que tive muitas boas ideias para músicas. As pessoas não se davam conta de o quanto precisávamos de uma música como “Nazi Punks…”. Aí, teve uma gig com o Circle Jerks, com pits violentos e os surfistas marrentos de Santa Cruz, na qual um cara subiu no palco e tentou me empurrar durante a estreia de ‘Nazi Punks Fuck Off’ ao vivo. Ele costumava usar uma camiseta com suástica ou símbolo do poder branco, e tentou tomar o microfone da minha mão. Até falou umas bobagens, só que não conseguiu pegar o mic, e tiramos ele do palco. Mas foi bom, porque se alguém pensava que a faixa era exagerada, ficou provado que ela era necessária. Eu nunca mais vi o cara. Ao menos não vestindo esses símbolos que ele achava ok para um show de hardcore, e não eram. Então, a música serviu para espantar gente assim.

Vi em uma entrevista você falando sobre a faixa “Satan’s Combover”, do álbum “The Party Revenge Porn“, o mais recente do Guantanamo School of Medicine. E nessa ocasião, você mencionou o Bolsonaro. Teria sido o presidente do Brasil uma espécie de “inspiração” para o tema?
O lance é que “Satan’s Combover” não é sobre o Trump. É sobre essa doença, esse fenômeno, que ocorre no mundo todo e não começou com o Trump. Há Le Pen e a Frente Nacional na França ou a Frente Nacional Inglesa que evoluiu para o Partido de Independência do Reino Unido, que esteve por trás do Brexit. Tem também o Alternativa para a Alemanha que nega, mas é nazista. Agora, na Suécia também há partidos assim, na Itália e na Grécia, com a Aurora Dourada, um dos primeiros e piores partidos extremistas, mas que continua com cadeiras no parlamento. Eles são abertamente vocálicos sobre dar um golpe de estado lentamente. São uma gangue, vão a bairros de imigrantes em Atenas e outras cidades para causar destruição. Mandam as pessoas que têm comércio nesses locais embora, ameaçando matá-las se voltarem. Tem motociclistas envolvidos, policiais também. E não esqueçamos que a Grécia estava sob uma ditadura militar por mais ou menos desde o mesmo tempo que o Brasil esteve. É assustador, os caras da Aurora usam anéis com motivos nazistas, falam ‘heil’. Se não me engano, agora, três de seus maiores líderes foram acusados de assassinato e devem ficar na prisão. Não foi possível se livrar de todos, mas eles não têm mais o ímpeto que tinham porque as pessoas estão se dando conta de que não querem essa gente no poder. Alguns desses caras eram oficiais militares da época dos generais e querem a ditadura de volta, querem ser os novos ditadores. Que nem como o doido do Trump fez aqui. E ele teve algum sucesso, até os democratas terem coragem para votar reformas e rebater algumas terríveis leis que ele estava aprovando na Flórida, no Texas e na Georgia, onde é proibido levar uma garrafa de água para alguém que está esperando em uma fila quilométrica para votar porque fecharam a maioria dos locais de votação. Então, há sim um pesado golpe instrumental em andamento na América, ainda que lento. Dia 6 de janeiro, na invasão do Capitólio, foi só um tiro. Agora estão trabalhando com os governos estaduais para dar continuidade. Bush roubou as eleições em 2000 e 2004 abertamente e se sabe que, entre esses pleitos, ele colocou seu pessoal no poder. John Roberts como juiz-chefe dos Estados Unidos e extremistas religiosos fanáticos como Samuel Alito, juiz associado da Suprema Corte. Alguns desses caras consideram que a palavra definitiva não é da constituição, mas da bíblia. Não são apenas extremistas de direita, mas gente que se reporta a políticos que roubaram as eleições. Alguns desses caras sabem que não deveriam estar onde estão, que a corte é ilegítima. Então, só tentam ser o mais extremo possível. No sul dos EUA, por exemplo, estão passando leis antivotação e, no Texas, antiaborto, a ponto de criminalizar quem dirige para levar uma mulher a fazer um aborto. E a razão pela qual estão fazendo isso é porque eles têm essa maioria de seis contra três fundamentalistas religiosos extremos fanáticos na Suprema Corte. Estão tentando ver até onde podem ir.

O que o Jello faria a alguém que acha que música e política não devem se misturar?
O que posso fazer é o que já faço como artista. E gosto de fazer isso de um jeito bem na cara. Não vou me preocupar com microagressões, avisos de gatilho ou alguém me rotulando como pregador demais ou isso ou aquilo. Eu tenho algo a dizer e vou falar isso o mais graficamente claro possível, mesmo que alguém pense que é violento ou que o humor é doente. Sou um punk rocker, não político ou professor de faculdade. É desse lugar que venho, e é isso que faço. Acredito piamente no valor do choque. Não fico dizendo “me siga e pense como eu penso”. Eu apenas mostro às pessoas claramente aquilo em que acredito e os porquês disso. Até o mesmo o engenheiro de som que fez um álbum country que gravei há uns anos — ele já trabalhou com Willie Nelson, Kenny Logins, Tom Jones, Butthole Surfers — me falou que achava que eu seria todo cheio de mim mesmo. Mas, com toda a radicalização da política, boa parte do que eu estava falando, segundo ele, fazia sentido. Essa é a parte em que entra a comunicação: você quer dizer algo que precisa entrar na cabeça de quem ouve mesmo que ela não concorde com você. Por isso digo para não acreditarem em tudo que é bobagem na internet e nem confiarem automaticamente em informações estúpidas. Não compartilhe qualquer sandice. Também não gastem muito tempo postando coisas para suas bolhas. Mesmo na era digital, chame alguém próximo que discorda de você, que acredita em QAnon ou no Trumpzi (trocadilho que Jello faz com o nome de Trump e o termo nazi), e converse com essa criatura. Não dá apenas para cancelar essas pessoas da sua vida, não falar mais com elas. Sente com essa galera e explique. Se você não fizer isso, quem vai? Principalmente se for familiar ou alguém próximo. Tente achar algo em comum, questione porque ela acredita naquilo. As pessoas se importam, todos têm de fazer um dinheiro e alimentar suas famílias. Não é culpa dos mexicanos que não há emprego para você. A culpa é do banco, das corporações. É deles a decisão de tirar o trabalho do seu pai e abrir novos postos em um local precário na China, no Vietnã ou em Bangladesh. Agora lembrei outra do Wattie, do Exploited: uma vez ele foi entrevistado pelo fanzine Flipside e disse que não era racista, mas odiava os mexicanos porque eles pareciam paquistaneses.

Quando você veio ao Brasil pela primeira vez, em 1992, fez uma jam com caras do Sepultura e do Ratos de Porão. Como rolou essa reunião e o que se lembra da ocasião?
Bom, havia um escritor que fez um livro, um jornalista na verdade (Jello refere-se a André Barcinski). Ele tinha vindo para os Estados Unidos e entrevistou um monte de pessoas diferentes do rock e escreveu sobre isso. Era uma publicação sobre a viagem e fotos que ele fez (a vinda de Jello teve a ver com divulgação do livro “Barulho – Uma viagem pelo underground do rock americano”) entrevistando o pessoal. E ele me convidou para passar uns dias no Brasil, chamou o Al Jourgensen também. Tipo: umas férias gratuitas se ajudasse na divulgação da obra. O Al não quis fazer. Mas, enfim… Chegando no Brasil descobri que estava sendo anunciado show meu, e ninguém havia me comunicado ou pedido para eu tocar. Não fiquei muito feliz, mas pensei que seria pior se me negasse a fazer. Então, fui em frente e foi bem divertido tocar, fazer novas amizades com os caras do Sepultura e do Ratos de Porão. Eu nunca os tinha encontrado até então. Lembro que era uma entrevista atrás da outra também e, então, me deram a passagem de volta. Pensei: “opa, espere um minuto! Já estou aqui, pensei que iríamos fazer mais coisas. Falaram até em Amazônia ou Machu Picchu”. Bom, isso não rolou. Então, acabei ficando com outros amigos que fiz e fui conhecer um pouco do país. Era na época da Eco 92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, que rolou no Rio de Janeiro). Acabei me encontrando com o diretor de uma instituição que fazia ação direta em prol das florestas e dei dinheiro a eles para ajudar com contatos e atividades. O conheci num voo, estávamos tomando uns drinks juntos e… sempre fui bom com slogans. Um deles foi “Bush eco-wimp” e outro “Biotech is Godzilla” (nota: que se transformaria em uma música do Sepultura com participação de Jello). Fizemos cartazes com essas frases e uma delas até apareceu em um jornal de São Francisco. Então, nesse sentido, valeu a pena. Também houve uma grande marcha passando pela embaixada americana, em que havia três diferentes grupos de pessoas que não estavam conectadas umas com as outras. E foi uma confusão, porque ficavam uns esperando pelos outros sem saber direito o que era pra fazer. Aí, teve um amigo que fiz, acho que estudante de medicina, que era um dos poucos que tinha carro. Fui com ele ao Corcovado e em outros pontos, tipo um show do Mano Negra num morro. A primeira vez que os vi ao vivo foi na favela, um local pequeno. E era bem demorado para chegar lá, então ficamos curtindo e bebendo na rua. Foi bem interessante ver o quão divertido era as pessoas curtindo na rua, bebendo e tal. Então, finalmente estávamos na apresentação do Mano Negra. As pessoas lá pareciam metade interessadas, metade nem aí. Teve uma banda local, da vizinhança, acho que não era samba, com mulheres dançando com outras mulheres, e foi uma surpresa para mim. Então, me avisaram que o Mano Negra tocaria também em um local grande, tipo uma arena que parecia de tourada, e perguntaram se eu estava interessado em participar. Estava todo mundo curtindo bastante e me pediram para eu cantar junto. Estávamos tentando ver músicas que ambos sabiam, e eu nem tinha imaginado que acabaria no palco. Eles sabiam a versão do The Clash para “I Fought the Law”, que o Dead Kennedys fez uma releitura baseada na original do Bobby Fuller. Então, tocamos essa mais puxada para a versão do Clash e foi bem legal. Algo que eu chamaria de batida universal punk, mesmo que eles não fossem punks. Tinha um monte de percussão e ritmos de outras partes do mundo misturadas, vocais em diferentes idiomas, seja do Marrocos ou da Algeria. Eles fizeram um som em espanhol e a galera ficou quieta. Quando voltaram para temas em outras línguas, o público voltou a pirar. Acho que a atração principal do evento era uma banda de reggae do Brasil, não lembro qual o nome.

No outro dia, eles tocariam de novo e eu estava lá, segurando meu cartaz de “Bush Eco Wimp” explicando calmamente em um inglês simples o que significava “wimp” (covarde). E, de repente, havia novos amigos que, possivelmente, não sabiam quem eu era antes, mas foram à loucura. Porque eles sabiam sobre o Bush, a destruição da Amazônia. No outro dia, havia pessoas segurando e tremulando bandeiras anarquistas. Fiquei feliz em ter participado disso tudo, bem como do show com o Ratos e Sepultura. Uma lance legal do Brasil é que existe muitos tipos diferentes de música que não se costuma ouvir fora daí. Ou até artistas da Bahia que não se escuta em São Paulo ou Rio de Janeiro. Antes de chegar aí, eu já tinha ouvido falar em Dodo e Osmar, em trio elétrico, e coisas assim. Bom… Outra pessoa que percebeu meu mau humor por ser forçado a ficar sentado dando autógrafos quando pensei que faria outra coisa foi o Renato Russo. Ele me puxou de lado e disse que eu tinha de ser legal com as pessoas. Além disso, me convidou para ficar no apartamento dele. Não conhecia o cara até o amigo que me levou a favela explicar. Então, descobri que o Renato era um rockstar aí. Eu sabia que a Legião Urbana era uma banda grande, mas não imaginava que era tanto. Nem que o Renato tinha tantos amigos interessantes, porque ele também era gay e conhecia muita gente nessa comunidade. Fomos jantar fora com o Renato e comentei com um amigo que estava na ocasião, um jornalista de Boston: “olha as pessoas em torno do Renato, parece que estamos num filme do Fellini agora”. Então, em outra mesa estava a atriz Shirley MacLean, que foi para o Brasil participar da Eco 92. E o Renato ficou obcecado por conseguir um autógrafo dela para dar a mãe dele, mas não rolou, e foi total drama queen o resto da noite. Coisa do tipo: “Como ela ousa não assinar um papel para minha mãe?” Tinha outra pessoa na mesa, Luiz Fernando, acho que o sobrenome era Borges (cineasta e produtor musical). Ele pesquisava música brasileira, produziu e gerenciou algumas bandas da Tropicália, talvez até o Caetano Veloso. Esse cara me convidou para ir na casa dele e me mostrou um monte de material que eu desconhecia. Foi incrível! Conheci Marconi Notaro, Elba Ramalho… Tinha um disco em particular, que mostrava Elba com toda a cabeleira em capa gatefold e achei o melhor dela que ouvi. O mais impressionante é que o Luiz me deu os discos! “Gostou? Pega para você!” Voltei a encontrar o Luiz e ele queria me levar numa loja que tinha discos raros, mas não rolou. Aí fomos à outra que tinha um grande acervo de usados muito baratos. E o lugar fechava em 30 minutos. Então imagina a loucura: “isso vai, isso não! Vai, não!” Havia muitas coisas doidas, que pareciam bacanas, e eu acabei trazendo. Acho que os melhores álbuns que eu trouxe do Brasil foram desse lugar.

Há uma história interessante dessa sua passagem pelo Brasil: reza a lenda que você teria ficado descontente com algo e, então, para fazer o show, exigiu tomar banho numa jacuzzi. E era algo que só encontraram na casa do Renato Russo. Então, quando você voltou ao local do show para tocar, tinha o desenho de uma banheira com você dentro e o símbolo da Alternative Tentacles na frente. Além disso, estava escrito: jacuzzi über alles.
O Renato Russo nem tinha banheira no apartamento. O que eu lembro é que se eu iria tocar, precisava achar um local para me aquecer — e isso era em São Paulo, não no Rio… Bom, faço isso antes de qualquer show, pois preciso usar meu corpo: mergulho em água o mais quente possível. Anos depois, também passei a correr pelo backstage antes de subir ao palco. Do contrário, o público veria apenas eu parado em frente ao microfone. Mas sempre quero oferecer o máximo que posso com uma banda que detona ao vivo. Não quero apenas ser o punk velho tocando mal músicas antigas. É isso que fazem os outros membros do Dead Kennedys.

Mas lembra dessa brincadeira da ‘jacuzzi über alles’?
Nunca ouvi sobre isso até agora. Não lembro dessa história.

Você está ciente da repercussão que rolou no Brasil em razão do cartaz criado para uma turnê que o Dead Kennedys faria aqui, em 2019. O que pensa sobre o ocorrido? Principalmente a forma como a banda lidou com a situação até cancelar os shows alegando que era o mais seguro para todos os envolvidos?
Foi uma das coisas mais estúpidas que esses caras já fizeram. Ainda me sinto muito bravo com isso, e é mais uma evidência de por que não quero tocar com eles nunca mais. Eles não são os mesmos que eram, e não temos nada em comum além do fato de termos composto boa música juntos há muito tempo. Eles pensam que escreveram essas canções, mas não conseguem aparecer com novas composições enquanto eu continuo fazendo novos sons. Eles roubaram o nome Dead Kennedys e tudo mais em um processo cretino no qual mentiram no júri cheio de engravatados que lhes entregaram tudo. Nem nos meus sonhos mais selvagens imaginaria que eles seriam capazes de fazer o que fizeram nessa questão do cartaz, lidando com tão pouco respeito ao nosso legado. Talvez agora tenham desistido de colocar fotos minhas nas divulgações de shows. Mas eles ainda vão fazer isso por anos. Além disso, eles não apresentam o Biafra falso ao público. O cara imita até meus movimentos. Eu descobri, ainda, que o promotor do Brasil tinha esse amigo que fez a arte sensacional. Não usei o desenho em capa de algum disco meu ou algo assim ainda, mas fiquei impressionado com o trampo. E com a coragem pelo que foi feito, de fazer algo público contra o Bolsonaro. Até pela possibilidade de apanhar por aí. Além da bravura, foi algo em total acordo com o espírito do Dead Kennedys original, quando eu era a figura de frente. Eu sigo com mente, corpo e alma com o mesmo pensamento. E eles não estão nem aí. E de repente surgiu uma carta supostamente da banda, mas deve ter sido coisa do East Bay Ray (guitarrista) pela linguagem, que é como ele age: tal qual uma velhota. Ele parece o senador republicano Mitch Mcconnell, que travou a aprovação de recursos para prejudicar Joe Biden (presidente dos EUA). Ray pinta o cabelo, e se você pintar o cabelo do Mitch, alisá-lo e colocar uma guitarra em sua mão, vira o Ray. Isso não significa que o Ray é um direitista racista, ele está mais para uma Hillary Clinton liberal. Já quando se trata de dinheiro, ele é mais republicano. Bom, aí rolou essa treta e eu comecei a receber inúmeras reclamações do Brasil, o que é justo. E cara, eles dizem que não querem se posicionar sobre a política de outro país porque não sabem sobre o tema. Aham, sei. “Bleed for Me” (faixa do álbum “Plastic Surgery Disasters”, de 1982, do Dead Kennedys) era sobre a guerra suja… A Argentina foi uma inspiração. Bem com El Salvador e Guatemala. Não que eu não tenha pensado no Brasil também. E Reagan era abertamente apoiador de ditaduras militares, porque né, ele era anticomunista, dizia que eram “regimes repressivos moderados”. Em El Salvador se matava milhares de pessoas, muitos indígenas. Enfim, não é como se estivéssemos alheios ao que ocorre no mundo e não nos posicionássemos por isso. Eu sigo tentando aprender sobre questões de outros locais para que o que falo faça sentido. No caso do Brasil, em vez de se preocupar em entender a situação, Ray condenou o cartaz porque deve ter recebido ameaças de bolsonaristas pelas redes sociais. E aí, os verdadeiros fãs do Dead Kennedys, que entendiam sobre o que se tratava, atacaram a justificativa que supostamente seria do Dead Kennedys e eles ficaram putos, acabaram cancelando as apresentações dizendo temer violência. Um amigo de São Paulo disse que era só merda da internet, nada de mais. Até mesmo a imprensa da América queria que eu falasse sobre o caso. Tinha de haver um jeito melhor de resolver isso. Mas aí recebi um aviso de advogados dizendo algo como “sabemos que o Jello entende o que está acontecendo no Brasil, mas se ele falar algo vamos processá-lo novamente”. Eu soube ainda que Ray e a banda tinham recebido um adiantamento, que eles disseram que iam manter e doar para a caridade. Descobri que era algo em torno de US$ 42 mil, quase o total de garantias pela tour. Então, eu tinha de fazer algo. Pelo menos um episódio do What Would Jello Do? chamando à atenção deles. Então, falando com o César (Carpanez, da Highlight Sounds, amigo de Jello no Brasil), achamos melhor escrever um comunicado e traduzir (para o português). Isso porque ainda tem gente que acredita que eu faço parte do Dead Kennedys. Eu nem tinha pensado nisso! Porque muitos dos que viram o que foi divulgado pelo Ray pensam que tem a ver comigo, acreditam que ainda estou na banda. Afinal, esses caras nunca fazem questão de esclarecer que eu não toco mais com eles. Então, fizemos uma declaração em conjunto e ele passou para o irmão advogado, para dar uma conferida, enquanto ele estava no circuito de festivais vendendo produtos de sua loja. E foi frustrante, porque levou um bom tempo e achei que não teria mais efeito. Mas, não sei como aconteceu, a banda devolveu a grana para o produtor. Bom, essa parte estava ok, mas ainda tinha a questão da crítica ao Bolsonaro. Eu não apoio o atual presidente de vocês. E o pôster da turnê era fantástico! Acredito que o advogado horrível do East Bay Ray nunca soube que fiz esse pronunciamento. Espero que a informação siga se espalhando e que os fãs de punk e todo mundo saibam que estou com quem é contra esses merdas como Bolsonaro, como Trump e outros que querem ser ditadores militares sem se importar com quantos precisarão matar de Covid. Não bastasse, tem a péssima reputação dele (Bolsonaro) em relação à Amazônia, porque está deixando queimar a floresta como nenhum outro governante. E isso vai fazer o clima do mundo todo colapsar, fazendo que haja incêndios em outras cidades. Aliás, isso já está acontecendo há cerca de dois anos na Califórnia.

Estamos um tanto isolados politicamente, no momento…
É um pouco como aqui: não julgue todos os americanos pelas ações da pior parte de nós. Sabemos como o Império Romano caiu, como o Império Britânico declinou. Estamos no meio da versão americana da queda do Império Romano. Talvez o Trump fosse o Nero, mas ainda não tivemos o Calígula, e isso me preocupa.

Você mencionou anteriormente as mídias sociais,e elas são um tema recorrente no disco mais atual do Jello Biafra and The Guantanamo School of Medicine, o “Tea Party Revenge Porn” (2020). Sons como “No More Selfies” e “People With Too Much Time on Their Hands” são exemplos. O que pensa que essas ferramentas podem fazer pelas pessoas? Por que ao passo que elas meio que escravizam, também ajudam a democratizar a informação.
Esses recursos, e a Internet e os avanços são bons. Mas como qualquer ferramenta é preciso que você as use, não que elas te usem. E agora, tem ficado bem ruim aqui nos Estados Unidos com gente acreditando em coisas estúpidas que eles vêm na internet. Pior: ficam espalhando isso. Esses tempos descobri que eu tinha morrido. De novo! Eu teria sido baleado e tal. Foi tão feio, dessa vez, que pessoas de duas bandas diferentes da Alternative Tentacles ligaram para minha secretária eletrônica prestes a chorar pedindo para que não fosse verdade. É meio estranho ligar para as pessoas pedindo para elas te ligarem de volta dizendo que não estão mortas. Mas, enfim… Não se pode acreditar automaticamente em tudo que se lê, vê ou ouve. É preciso checar as informações antes de sair espalhando. Ainda mais agora, que se pode repassar merda para milhões de pessoas com apenas um botão. É muito perigoso.

E tem a questão de as pessoas confundirem opinião com argumento.
Sim, isso também é perigoso. Todos temos de ter responsabilidade de sermos bons detectores de besteira. Acho que ninguém deveria estar apto a se graduar na América sem antes passar por uma classe de alfabetização midiática, de compreensão da mídia. Mas essas disciplinas nem são ensinadas, e por uma razão: não querem que as pessoas sejam instruídas. Apenas desejam que o povo obedeça, que não questionem os governos ou as autoridades. Chegou um ponto que o Al Jourgensen disse que havia muita gente nas redes sociais querendo um novo disco do LARD. Aí, olhei nos perfis da Alternative Tentacles e não havia ninguém comentando sobre isso. Seria bacana mesmo ter algo novo do LARD, principalmente se gravássemos algo em vez de Al ficar anunciando algo que não existe a cada três ou quatro anos. Ele sonha com isso e é assim que acaba operando. Havia alguns projetos de sons, mas, por causa do covid, ele decidiu que não haveria apenas um trabalho do Ministry, mas outro que ele está finalizando. Afinal, não havia como fazer turnê, ele ficou trabalhando nisso. E muito material que eu pensei ser para o LARD acabou no Ministry. Bom, voltando à questão de nos tornarmos melhores detectores de mentiras… todos temos responsabilidade com isso. Não apenas de fazer isso, mas ajudar outros na questão, pois as escolas não farão isso ensinando sobre mídia. Então, é nosso dever fazer, seja para adultos ou crianças. Temos de fazer com que outros questionem, chequem dobrado as informações. A grande razão de termos Trump e Bolsonaro, de termos Brexit, é porque uma geração após a outra, são feitos cortes de verba para educação. E tirar dinheiro das escolas faz com que se criem pessoas cada vez mais perigosamente estúpidas. Não apenas desinstruídas, mas ainda por cima militantes, atacando outras que, por exemplo, vão se vacinar. A pólio, por exemplo, que estava praticamente extinta, está voltando em locais como Paquistão e Afeganistão. Pessoas que vão lá tentar vacinar a população são mortas por talibãs. Porque, né, vacinar alguém é algo tão contra o islã quanto um animal nu em alguma pintura, não ter barba grande ou deixar uma mulher sair de casa. É tudo uma forma louca de extremismo.

Recentemente Bolsonaro fez comentários dizendo que pessoas vacinadas contra a covid-19 podem desenvolver AIDS.
Eu só espero que as pessoas percebam o quão perigoso ele é e o poder destrutivo disso para a economia brasileira, e também para o resto do mundo com as queimadas da Amazônia e as tentativas de eliminar povos indígenas. Vocês têm uma eleição a caminho, abram o olho. A prisão do Lula serviu para que conseguissem colocar alguém como Bolsonaro e mais gente rica no poder para tirarem ainda mais dinheiro do país. Agora o Lula deve concorrer novamente, certo? E bem, goste você dele ou da Dilma ou não, pense pelo outro lado, que é ter Bolsonaro de novo. Se ganhar, ele vai ser ainda mais perigoso, pois sabe que poderá fazer o que quiser. Como na Itália, onde aprovaram leis que não se pode prender Berlusconi por crimes que podem ser imputados a qualquer outro cidadão. Além do próprio Bolsonaro, os filhos dele também deveriam estar na cadeia.

Trocando de assunto: como colecionador de discos, o que acha do título do EP “Record Collectors Are Pretentious Assholes” (Colecionadores de discos são cuzões pretensiosos), do Poison Idea?
(risos) Tom (Pig Champion, finado guitarrista do Poison Idea) e Jerry A (vocalista) eram colecionadores também. Isso era uma piada interna deles. Não é como o Special Duties que lançou um registro chamado “Bullshit Crass”, criticando o Crass a sério. O que posso dizer sobre eu ser um colecionador de discos cuzão pretensioso… Bom, em 1992 uma então banda nova chamada Gangrena Gasosa me entregou uma demo e disse que estavam tentando misturar som pesado com macumba. E é legal que eles buscavam algo diferente. E há muita música diferente no Brasil. Uma vez até falei para o Iggor e o Andreas que queria fazer um disco com eles de trio elétrico metal. Eles curtiram a ideia, mas nunca vingou. O que estou dizendo é que meu som é diferente de outros artistas punks porque escuto outros gêneros. Nunca se sabe de onde as ideias podem surgir. Posso escutar um disco do Ney Matogrosso e ter ideia de uma melodia completamente diferente na minha cabeça, algo que não aconteceria se eu escutasse sempre as mesmas coisas. Aí, registro no meu gravador e crio outras partes e talvez tenha uma nova composição. Algumas vezes crio assim. “Too Drunk to Fuck” surgiu dessa forma. Mas eu não roubei nada, foi só algo diferente que pintou na minha cabeça enquanto ouvia outra música. Eu acredito em acidentes mágicos. E se você quer que seu punk ou metal soe diferente, mais especial, não dá apenas para ouvir esses estilos. Escrevi um monte de coisas para o Dead Kennedys quando fui passar um Natal com meus pais no Colorado, para fugir da loucura, e lá ouvia outros estilos.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.

One thought on “Entrevista: Jello Biafra rememora passagem pelo Brasil e fala de tretas, postura punk, política e, claro, sobre os Dead Kennedys

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