Três discos: Dwaal Troupe, Aimee Mann, The Goon Sax

resenhas por Gab Piumbato

“Lucky Dog”, Dwaal Troupe (Independente)
“Lucky Dog”, a faixa título do segundo álbum dos Dwaal Troupe, tem tudo o que os amantes de Big Star, Replacements e Wilco adoram. Power chords, progressões banais de acordes adornadas por ruídos e riffs tão simples quanto ásperos. Quase cinco minutos daquele tipo de canção cuja matriz é a inescapável “Happinness is a Warm Gun”. Para quem se liga na bateria, vale ouvir com mais atenção o trabalho de Kai Slater. Que faz tudo: toca também guitarra e sintetizadores, além de dividir os vocais com o baixista e pianista Charlie Johnston. Desi Kaercher e Francis Bazas completam o time. Aqui a etiqueta “power pop” soa antiquada: ideal seria chamar de pós-power pop. Tudo imediatamente reconhecível e ao mesmo tempo levemente desconhecido. É assim que o indie rock avança. Enquanto Jeff Tweedy perde o seu tempo escrevendo newsletters, Dave Grohl discursando em estádios abarrotados e Cat Power gravando seu milésimo cover, os teens do Dwaal Troupe têm 17 novas canções no pendrive. Momento predileto: fade out de “Pressure Point” conectado ao fade in de “Brain Dial”. Não há um segundo a perder: os Dwaal Troupe ainda têm o mundo para conquistar. Covers, discursos e newsletters não vão adiantar. Eles só têm a música para nos dar.

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Nota: 8

“Queens of the Summer Hotel”, Aimee Mann (Super Ego Records)
É sempre um espanto lembrar que Aimee Mann já é uma sessentona. O que não a impede de ser uma das eternas rainhas do indie rock americano. Sim, o Paul Thomas Anderson incluiu as canções dela em “Magnolia”, mas anos depois podíamos ligar na MTV brasileira e ver o Brendan Benson elogiá-la, para espanto da VJ que sequer entendia se “Aimee Mann” era homem ou um conjunto musical. Man o quê?? De volta a 2021, a conhecida Aimee Mann segue o seu caminho apostando em arranjos orquestrados, continuando a trilha soft rock do disco anterior (“Mental Illness”). Nessa idade, novidade não está no topo desse jogo. Mas a maestria é garantida: a beleza dos arranjos não esconde o peso das letras (“Planting all your seeds but in the dark” não é dos versos mais solares da temporada). Por sinal, assim como Dylan mostrou que era possível fazer uma pequena banda soar como orquestra, Mann também absorveu a lição de como escrever uma canção citando uma pintura (“At the Frick Museum”). Vale dizer que Mann compôs estas canções quando adaptava o trabalho de Susannah Kaysen (autora do romance que deu origem ao filme “Garota Interrompida”) para uma peça de teatro – Kaysen passou anos num hospital psiquiátrico. A curiosidade se torna ainda mais intrigante quando lembramos que o disco de seu marido, Michael Penn (irmão do Sean), “Mr. Hollywood Jr., 1947” também tem uma canção chamada “Walter Reed”, referente ao principal hospital usado pelo exército. Nela, Penn canta “I’m ranting while I’m raving / There is nothing here worth saving”. Mas as canções de Aimee Mann sempre merecem ser salvas, nem que seja para começar a tocar quando sobem os créditos.

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Nota: 8

“Mirror II”, The Goon Sax (Matador)
Então esta é a melhor banda australiana desde os Go-Betweens? Ao menos o pedigree não mente: Louis é filho de Robert Forster, um dos guitarristas que elevou a simplicidade à sua maior eficácia. “Mirror II” é o terceiro álbum desta jovem banda. Do breve solo estrangulado e distante às palminhas e vocais a capella presentes na faixa inicial, passeamos por uma boa parte da história do rock. Os adolescentes de The Goon Sax sabem o que fazem. E se for preciso sintetizador com aquele splash a la 80s, basta ouvir “Psychic”. Por sinal, mais um exemplar de baterista que faz às vezes de vocalista: Riley Jones. É preciso muita pachorra ou muita ingenuidade para cantar o verso “I’ll be your mirror” após o advento daquele tal de Velvet Underground. Mas The Goon Sax possui ambas, e a mistura de conhecimento e simplicidade é imperdível. Nenhum virtuosismo, apenas as notas certas para transmitir o sentimento. De nostalgia dum tempo em que o rock era nosso vocabulário – mais do que um gênero musical, a linguagem da amizade. Ouça o solo final de “The Chance”. Dá até vontade de montar uma banda.

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Nota: 7,5

– Gab Piumbato é jornalista e autor da melhor discografia comentada de Bob Dylan em português (aqui)

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