Especial: “The Beatles – Get Back” | Peter Jackson fala sobre o mergulho nas imagens inéditas das sessões do “Let it Be”

edição e texto por João Paulo Barreto
entrevista por Scott Nance

“Eu estava no lugar certo, na hora certa”. Com essa definição básica dada sempre por aquelas modestas pessoas detentoras do toque de Midas, o cineasta Peter Jackson classificou seu acesso às 60 horas de filmagens e 130 horas de áudio inéditos das gravações do documentário “Let it Be”, dirigido em janeiro de 1969 (mas lançado em maio de 1970) por Michael Lindsay-Hogg. Em coletiva de imprensa via Zoom, na qual esteve presente o Scream & Yell, o diretor da trilogia “O Senhor dos Anéis” (2001) e do recente documentário “Eles Não Envelhecerão” (2018), que traz imagens colorizada digitalmente e inéditas da Primeira Guerra Mundial, falou sobre como teve acesso aos originais captados por Lindsay-Hogg e como se deu o processo criativo dessa viagem imersiva dentro daqueles dias de inverno, na Londres de 50 anos atrás. Tal imersão deu origem à minissérie em três episódios (e um total de oito horas de duração) que estreia nesta quinta, 25 de novembro, na plataforma Disney+.

“Eu estava em Londres em busca de algumas imagens do Museu Imperial de Guerra e que iria usar no ‘Eles Não Envelhecerão’. Na cidade, tive uma reunião com Jeff Jones e Jonathan Clyde (N.E. produtores da Apple Corps). Eles queriam conversar sobre A.R. (augmented reality ou realidade aumentada) e VR (realidade virtual). Eles deviam ter lido uma entrevista minha na qual falo que tenho interesse nesse campo. Então, queriam me consultar, pois estavam fazendo uma exposição dos Beatles”, relembra Jackson acerca do encontro ainda em meados da década passada. O que os executivos da Apple não esperavam era que, a partir daquele encontro, o cineasta lhe faria uma pergunta crucial. “Durante a reunião, eu não queria agir como um fã, mas uma coisa que eu sempre me perguntei nos últimos 40 anos foi sobre o que teria acontecido com todas as imagens não utilizadas em ‘Let it Be’?”

Quando Peter Jackson precisa frisar que “não queria soar como um fã” diante de uma pergunta acerca de algo tão importante como as imagens dos Beatles durante um dos seus derradeiros trabalhos juntos, bom, sabemos o peso disso. E sabemos, também, como ter um fã da estatura do cineasta neozelandês à frente de qualquer projeto sobre os Beatles pode significar. “Eu conheci Paul McCartney há muito tempo, em uma premiere de ‘As Duas Torres’ (2002). Ele me disse que era um grande fã de ‘O Senhor dos Anéis’, e eu lhe perguntei sobre a história dos Beatles fazerem uma adaptação com Stanley Kubrick. Se aquilo era verdade, mesmo. E era”, relembra o cineasta entre sorrisos. Assim, observar aqueles caminhos se cruzando quase duas décadas depois daquele encontro, e com Jackson, agora, colocando a mão na massa ao mergulhar nas dezenas de horas de material inédito do “Let it Be”, torna tal simbolismo ainda mais especial.

“Sempre tive curiosidade sobre isso. Eu sabia que Michael LIndsay-Hogg filmou muita coisa que acabou não usando. Eu não fazia ideia se havia sobrevivido. Não tinha ideia do quanto tinha. E nenhum livro falou sobre isso realmente”, pontua o cineasta. A resposta positiva dos executivos não poderia ter sido melhor para alguém que, apesar de tentar não soar como um fã em suas perguntas, possui os Beatles como símbolos formadores de sua própria bagagem cultural. “Os primeiros discos que comprei na vida foram as coletâneas ‘Azul’ e ‘Vermelha’, em 1972”, relembra o diretor que, à época dessa compra, tinha apenas 11 anos de idade. “Eu nunca comprei os discos de mais ninguém. Comprei todos os álbuns dos Beatles e os das carreiras solo e todo resto. Eu sou a pessoa mais limitada e entediante (risos). Não sei nada sobre outros artistas. Mas, sabe, por mim, tudo bem”. Sendo alguém cuja afetividade pela banda de Liverpool representava tanto na própria formação, ouvir dos executivos a resposta positiva de que, sim, eles tinham toda aquela quantidade de horas inéditas das sessões do ‘Let it Be’ fez Peter Jackson embarcar em um, até aquele momento, não programado projeto: “Oh, meu Deus! Como eu faço para ter acesso? Qual truque eu tenho que fazer para, de fato, assistir a essas imagens? Se vocês forem considerar alguém para esse projeto, lembrem-se de mim”, relembra a conversa. “Fui para aquela reunião no intuito de falar sobre Realidade Virtual, e sai com algo ainda melhor. Estava no lugar certo e na hora certa”, confirma.

Antes de ter acesso às imagens e dedicar horas e mais horas de sua rotina em sua casa, na Nova Zelândia, para adentrar naqueles dias em janeiro de 1969, Peter Jackson precisou criar uma meta de não fazer mais um filme sobre o quão miserável foi aquele período entre John, Paul, George e Ringo. Para sua surpresa, acabou assistindo a algo diferente. “As sessões do projeto ‘Get Back’ são notórias. Eu e qualquer fã dos Beatles sabemos disso. Eu li todos os livros nos últimos 40 anos. Mas todos esses escritores, obviamente, não estavam lá. Mas eles ainda descrevem as sessões como miseráveis, como sendo o período mais sofredor da banda. Os Beatles estavam se separando, estavam em disputas, havia câmeras filmando as brigas. Eles não podiam mais estar na companhia uns dos outros. Várias coisas terríveis no decorrer dos anos haviam sido escritas descrevendo aquelas sessões. Então, era tipo isso que eu esperava ver ao começar a assistir às imagens. Eu disse a eles: ‘olha, se essas imagens forem sofridas como devem ser, eu não farei um filme sobre isso. Mas eu ainda preciso assistir. Mas de forma nenhuma eu vou pegar um monte de imagens na qual vemos os Beatles sofrendo e farei um filme feliz’, E eu também não faria um filme de sofrimento”, relembra Peter Jackson, frisando: “se o filme ‘Let it Be’ foi o que eles permitiram que fosse visto, que diabos eles não queriam que nós víssemos? E agora eu teria que ser o cara que ia sentar em frente à TV e ver tudo aquilo. Eu não queria ser esse cara. Mas, ao mesmo tempo, eu queria”.

O Scream & Yell teve acesso a uma prévia de 42 minutos do documentário, que, em sua versão final em três capítulos, contará com quase oito horas no total. Nas imagens, uma prova de que o modo como o documentário de Michael Lindsay-Hogg preferiu seguir pelo notório caminho das pedras atravessado pela banda naquele fase final não foi o mais fiel possível ao que, na realidade, acontecia naquela época entre os quatro rapazes. Curiosamente, o documentário “Anthology”, lançado em 1995, também preferiu seguir por esse viés áspero da fase final, não mostrando a face mais leve daqueles dias em janeiro de 1969, e tendo até mesmo George, Ringo e Paul, então com pouco mais de 50 anos de idade, corroborando a existência daqueles momentos espinhosos, mas, no entanto, não adentrando no ambiente menos tenso que também existiu ali.

Porém, claro que havia rusgas e brigas. Claro que havia um desgaste perceptível. Mas não somente isso. Na prévia de 42 minutos liberada para a imprensa, vemos um John leve, recebendo o carinho de sua amada Yoko enquanto dedilha acordes no ensaio. Vemos George batalhar ao piano a composição de “Old Brown Shoe”, enquanto Paul o estimula a continuar (o baixista chega a sentar-se à bateria para lhe dar um compasso). Macca, inclusive, tinha ganhado a reputação de se tornar um tanto mandão naquela fase, algo que ao vermos essas imagens, chegamos a uma conclusão inversa: de que Paul, na verdade, era alguém bem encorajador. Em outro momento, vemos Ringo (que sempre será Ringo, o amigo de todos) compartilhar uma goma de mascar com Yoko, que a divide em duas dando a outra metade a John, em uma metáfora visual perfeita de como os dois passaram a ser indissociáveis.

Sobre esse período no qual Paul se tornou o líder do grupo, Peter Jackson explica que a escolha do estúdio de Twickenham partiu mais de uma iniciativa do baixista. O lugar em si não ia ser onde os quatro iriam gravar o disco, mas, sim, onde os ensaios aconteceriam. Mas, o mais empolgado com a ideia do projeto era, de fato, McCartney. “Eles se reuniram lá em 02 de janeiro de 1969. Fazia muito frio e eles estavam naquele lugar imenso para ensaiar para um show que aconteceria dentro de mais ou menos 18 dias. E fica claro que Paul queria que aquilo acontecesse, mas, também, que John, George e Ringo estavam lá por causa de Paul. Seus corações não estavam tão envolvidos quanto o de Paul. E ele meio que se sente como se estivesse arrastando esse trio preguiçoso atrás dele. A cada dia que passa, eles precisam escrever essas canções, e o tempo é limitado. Parte do problema é que Paul é muito ambicioso com o projeto, tipo pirado, mesmo. Eles criaram um problema para eles mesmos e Paul está assumindo a responsabilidade daquilo. Ele é o cara que precisa dizer: ‘Pessoal, temos apenas mais oito dias, e só três músicas prontas’, sabe? Ele é o cara que precisa lembrar a todos que estamos nos perdendo aqui e precisamos entrar no eixo. Eu já estive nessa mesma posição antes. De já ser quatro da tarde e ainda não ter terminado uma cena e precisar extravasar com a equipe no set. Eu entendo essa posição”, afirma Peter Jackson.

“Houve sessões em que, sim, Paul estava agindo um pouco como mandão com todos, e tudo aquilo. Mas é isso. Você pode chamá-lo de mandão, de chefe, mas, sabe, eu sou um diretor, e eu espero que ninguém me chame de mandão (bossy), porque eu só estou fazendo aquilo cuja atribuição caiu sobre mim. Então, vamos lá, pessoal. Falem comigo. Temos tempo. Isso não é ser mandão. Isso é ser responsável. E Paul é meio que o responsável ali. Ele quem está carregando o estresse daquilo. Porque ele quer que tudo que os Beatles façam seja fantástico. Eles possuem um padrão, sabe? E Paul sabe muito bem disso. Ele não quer que aquilo seja mais um ‘Magical Mistery Tour’. Ele quer os Beatles fazendo isso. Precisa ser fantástico. E Paul está meio que estressando, pois se pergunta se aquilo vai ser mesmo o que ele espera que seja. Por isso está carregando consigo muito estresse”, explica o diretor.

Diante da pressão de seguir um cronograma apertado de composições em um projeto desafiador que os colocava juntos em um estúdio diferente do aconchegante e habitual Abbey Road (como dito, Lindsay-Hogg iniciou a captação de suas imagens no imenso, áspero e frio Twickenham Studios, nos arredores de Londres) e que tinha como ápice um mal planejado show ao vivo que representaria o retorno dos rapazes aos palcos após três anos, o processo de criação das novas faixas foi complicado. Tais momentos contaram com situações de tensão entre eles (como aquele já notório e trazido no “Anthology”, quando vemos George dizendo a Paul: “Toco o que você quiser que eu toque. Ou nem toco se você mandar”), mas, para além disso, somando-se ao descarte da ideia de se ensaiar naquele galpão frio e a acertada decisão de ir para o prédio localizado em Saville Row, Londres, no qual funcionava a Apple Corps, muito da cumplicidade e afeto entre eles pôde ser recuperado. Depois do “Álbum Branco” (1968), gravado quase que individualmente pelos quatro em salas diferentes de captação, o ambiente novo do Twickenham não foi a melhor escolha na busca de se recuperar a citada cumplicidade e o calor humano daqueles quatro amigos.

É importante frisar que neste momento citado acima, no qual George fala para Paul sobre fazer suas vontades, aquilo foi dito, como bem capta a câmera, sem um tom de voz elevado e sem estarem em um ambiente hostil verbalmente. “Para começar, nas imagens que tive acesso, estamos falando de um período miserável da banda. Período de conflito, discussões entre eles, e a câmera está filmando tudo. Mas em nenhum momento das mais de 150 horas de imagens vi qualquer um deles dizer alguma palavra raivosa ao outro. Claro que tem esse momento com George e Paul, mas ele não está gritando ou xingando Paul. Ele está um pouco irritado. Mas não há um momento sequer no qual eles estão realmente agressivos uns com os outros. Suas amizades apenas passam por aquilo”, pontua Peter Jackson.

Apesar dos ânimos aflorados em alguns momentos, o diretor frisa sua surpresa ao observar o comportamento de John Lennon nas filmagens. “Se você pensa na versão do John Lennon dos anos 1960, em ‘A Hard Day’s Night’ (1964), aqueles coletivas de imprensa, ele cantando e essas coisas, aquilo lhe dá um senso de quem é John Lennon. Nos anos 1970, você tem o John ativista, alguém meio com raiva, nervoso, ‘Gimme Some Truth’, aquela fase com Phil Spector. John como alguém de temperamento curto, acho que podemos chamá-lo assim. Mas esse não é o John que você tem nas filmagens aqui. Não tem nada a ver com o John que aparece nas sessões. Ele é engraçado, relaxado, maravilhosamente paciente, realmente amigável e sem nunca levantar a voz. Nenhuma palavra nervosa vem de John. E isso eu nunca esperava. Ver que Paul está estressado machuca John. Isso você percebe nos closes no rosto de Lennon. Ele está dizendo: ‘Jesus, preciso ajudar Paul.’ Ele quer ajudar Paul, sabe? Seu tom de voz é baixo. Ele conversa com Paul de forma amável e paciente. E quando ele pode, ele é muito engraçado. Ele é brincalhão. É meio palhaço. Muito engraçado. Isso me surpreendeu. Eu estava esperando algo nervoso de John. Algo como as sessões do ‘Imagine’, aquele documentário. Aquilo não aparece em momento algum no nosso filme”, afirma.

Durante a prévia disponibilizada do filme, observar esse John Lennon mais amável e sem deixar aflorar suas feridas diante das câmeras, fez Peter Jackson pensar no modo como Paul McCartney se referia ao amigo em diversas entrevistas no decorrer dos anos e como essa impressão se confirmou ao acessar as imagens. “Ele (Paul) sempre falou dele como sendo um cara amável. Escutei isso por anos. E eu sempre penso: ‘ok, você o conheceu melhor que ninguém.’ (Mas) Eu nunca vi um John amável. Eu vi um John engraçado, sarcástico, tudo aquilo. Nunca vi um John realmente amável. E eu disse isso para Paul. Disse que estava feliz por termos o John amável no filme. E ele me disse: ‘Sim. Aquele era o cara. Aquele era o cara de quem eu falava'”, relembra Peter.

Mas o John que vemos nas imagens está passando por um período difícil que ainda é recente. Peter Jackson explica: “Ele tem essa fase pessoal difícil. Em alguns dias, ele aparece depois de ter ficado acordado a noite inteira fazendo o que não devia. Ele está um pouco desequilibrado quimicamente. Ele está tendo problemas pessoais na vida. Mas na maioria das vezes, ele é bem profissional. Ele realmente está comprometido e decide ajudar Paul. Não sei se aquela é uma decisão consciente. Depois que George decide ir embora e depois volta, você sente que John agora está dizendo: ‘Bom, eu entendo o que Paul quer que aconteça'”.

GEORGE COMPOSITOR E “LET IT BE”
Nesta lembrança do fato de que George decidiu ir embora, mas acabou sendo convencido a voltar, é válido lembrar que, na presença de Harrison, temos um exímio guitarrista e um compositor em ascensão, mas que ainda tem como parceiros na escrita a dupla Lennon & McCartney. Assim, era natural que ele ficasse nervoso diante da possibilidade de apresentar o seu próprio material de composição, mesmo após “Taxman”, “I Need You” e “While My Guitar Gently Weeps” e outras terem comprovado seu talento. “Uma coisa que amo em George aqui, e que eu não havia percebido muito bem até que assisti às imagens, e talvez seja só algo relacionado com a reputação de 1969, é que quando eles se mudam para Saville Row, eles começam a gravar músicas como ‘Don´t Let Me Down’, ‘Get Back’, ‘Dig Pony’, e quando eles dois (John e Paul) estão trabalhando nessas faixas, George está realmente comprometido com eles. Ele é o mais falante. Quase que mais ainda que John e Paul quando está sugerindo coisas. ‘Nós poderíamos, sabe, mudar esse acorde, ou fazer isso com o solo’, coisas assim, sabe? George está completamente comprometido com as músicas de Paul e John. Em torná-las boas. E eu estava esperando mais de George uma postura tipo,’farei o que você quiser que eu faça’. Mas ele se joga sobre as canções de John e Paul. E o estranho é que quando são as suas próprias músicas, ele fica um pouco mais nervoso. Ele tem mais confiança em sugerir coisas para as músicas dos outros dois. Quando se trata das suas próprias composições, ele fica… bom, eu acho que é uma coisa do ser humano. Você pode julgar muito melhor o trabalho dos outros do que o seu próprio. E temos essa sensação de vulnerabilidade quando George oferece suas próprias canções. Ele está bem nervoso. Mas ele tem essas canções fantásticas, mas quando se trata das canções de John e Paul, ele realmente se compromete”, salienta Peter Jackson.

A faixa título do disco lançado em 1970 é um exemplo claro dessa sintonia, conforme explica Peter. “Quando Paul começa a tocar ‘Let it Be’ pela primeira vez, você vê os rapazes escutando. E tem aquela reputação antiga em relação a John Lennon odiar a música, dela ser basicamente de Paul apenas, e ser uma merda feita por Paul, e todo esse tipo de coisa que foi dito. Mas quando você assiste, tudo fica dito em silêncio. Você olha para George e Ringo, e em suas expressões, eles estão pensando: ‘essa é uma grande canção’. E era uma música fantástica que Paul havia escrito. Claro que é Paul sentimentalizando coisas, mas é ótima. E John, Ringo e George realmente se comprometem com Paul para ajudá-lo a criar ‘Let it Be’.”

Sobre o baterista, Peter Jackson o define com uma frase: “Ringo is a Brock”. A expressão em inglês, que possui diversos significados, define perfeitamente Richard Starkey como um sujeito amável, presente, capaz de suavizar ambientes e fazer valer sua presença calma e apaziguadora entre aquelas pessoas com quem ele vivia e trabalhava. Mas, também, funciona como um pilar. “Eu conversei com ele sobre isso. Sobre ser isso que eu sentia dele. George e John podiam ficar brincando no estúdio, tocando coisas como ‘Peggy Sue’, e depois passavam para ‘Don´t Let me Down’. E quando eles estavam tocando algo de Buddy Holly ou de Chuck Berry, assim do nada, eles esperavam que a bateria os acompanhasse. Você meio que tem aquela impressão: ‘será que o pobre do Ringo não conseguia relaxar por um momento?’ Ele é um grande baterista.

E seu trabalho era, assim que alguém começasse a tocar algo, ele já deveria estar lá com uma batida de bateria para acompanhar de imediato. Foi isso que Ringo me falou. E ele disse que, ao final de cada dia, estava exausto. Porque ele não sabia o que iria acontecer. Ele tinha que entregar a eles uma batida. Eu não sei nada da particularidade de músicos, mas ele, para mim, parece um baterista fantástico. E eu amo aqueles ângulos de câmera com ele. Há ângulos que eu nunca tinha visto. Normalmente, sempre temos aqueles ângulos com John e Paul e tudo mais, e Ringo está meio que lá sendo filmado enquanto toca. Mas, dessa vez, temos a câmera sobre seu ombro, e ele está fazendo todas aquelas coisas de bateria, e você está bem ali com Ringo. E eu amo isso. Nunca havia visto Ringo ser filmado dessa forma. É fantástico”.

A mudança para Saville Row é salientada por Peter Jackson como sendo um ponto de virada na atmosfera entre os quatro músicos. “Eles estavam no Twickenham e a sensação era de que Paul não tinha uma visão geral de todo o projeto. Era meio como: ‘estamos aqui, estamos ensaiando, vai haver tipo um show. E nós estamos congelando aqui. Acordamos de manhã e vocês estão aqui. Ok, ótimo.’ Mas quando eles se veem ensaiando em Saville Row, são as mesmas músicas, ainda estão tocando ao vivo, mas todos eles se empolgam e de repente todos os quatro estão juntos. E então John, Paul, George e Ringo pensam: ‘Bom, isso pode ser realmente algo bom.’ Sabe, foi preciso que eles fossem para Saville Row para que entendessem que estavam se divertindo. E tudo muda, pois Paul não precisava mais ficar pagando de chefe, pois todos tinham embarcado no projeto naquele ponto”, explica Jackson.

TIMING EQUIVOCADO
Essa impressão sedimentada no decorrer dos últimos 50 anos de que todo o período de gravação do “Let it Be” seria uma fase miserável e de sofrimento, vem muito do timing de lançamento do filme um ano e meio após sua captação e a coincidência de chegar ao público exatamente quando os quatro decidiram efetivamente encerrar a banda. Mas é preciso refletir o fato de que aquelas quatro pessoas estavam vivendo juntas há quase 15 anos, desde meados dos anos 1950, buscando trabalhar com música, viajando juntos; dividindo quartinhos; vans congelantes pelas estradas da Inglaterra; palcos de inferninhos na Alemanha; segurando a barra de cada negativa recebida antes do sucesso avassalador que começaria a vir a partir de 1962. E mesmo após isso, não se tornou tão mais fácil. Amigos que convivem por tanto tempo juntos, uma hora ou outra vão brigar. Aquelas eram pessoas que cresceram juntas, mas que, invariavelmente, uma hora precisariam das suas individualidades. Mas isso não significava que apenas tensões existiram naquele final de suas trajetórias juntos como uma banda.

Peter Jackson explica que, ao mergulhar no material bruto captado por Lindsay-Hogg, constatou exatamente esse fato. Que a reputação daquele período final dos Beatles não vinha de janeiro de 1969, quando as imagens do “Let it Be” foram captadas, mas, sim, de maio de 1970, quando, realmente, não representava a melhor fase dos quatro em termos de harmonia entre si. “Ao assistir às imagens, eu ficava rindo. Eu não acreditava no que estava vendo. Paul compondo ‘Get Back’! Deus, era incrível. Passei 22 dias assistindo e era apenas metade do material. E, claro, coisas aconteciam. George decide sair em certo estágio, mas aquilo é algo que acontece. Não significa que eram os Beatles se separando. Era apenas algo que eles precisavam trabalhar. É apenas vida. Aquele era um projeto provavelmente ambicioso demais e as coisas poderiam desandar. E, sim, isso acontece. Eu fiquei pensando: ‘Bom, isso é uma estranha distorção da memória e da História, porque a reputação ruim vem não daquele começo de 1969, mas de maio do ano seguinte'”, salienta.

O que diretor traz aqui é uma pertinente análise do citado timing infeliz que o lançamento, mais de um ano depois das filmagens, trouxe para “Let it Be”, o filme de Michael Lindsay-Hogg. “Em abril de 1970, todo mundo estava lendo notícias sobre a separação dos Beatles. Então, eles vão assistir a esse filme, que é um doc com captação estilo ‘mosca na parede’, e todos assumem que, ali, estão assistindo os Beatles se separando. Isso por causa das manchetes, e da chamada do filme como um ‘íntimo olhar dos Beatles’. Eles estavam impondo as manchetes de abril de 1970 a um filme que o público assistiu no mês seguinte, em maio. E aquela reputação não tem relação com ‘Let it Be’. Eu assisti ao filme recentemente. E não é tão ruim. Não é o que todo mundo diz, sabe? O filme é bom. Se tem um problema com ele, é o seu timing. Michael Lindsay-Hogg fez um filme que não merece a reputação que tem apenas por causa da ocasião em que ele terminou sua pós-produção, que foi quando os Beatles estavam se separando”, pontua.

Ainda em relação ao modo como o período de captação de Lindsay-Hogg ficou marcado como uma fase de espinhos entre eles, Peter Jackson volta a comentar aquele famoso momento entre George e Paul, quando o primeiro diz que, sobre tocar, ele seguirá as ordens do segundo seja lá quais elas forem. “Eu falei sobre Paul ter agido de forma mandona, meio ‘bossy’ para com os outros. Tudo está lá nas imagens. Esse momento de George e Paul, em Let it Be, dura um minuto. Falei com Paul ao telefone sobre isso. Disse a ele que teríamos aquele momento no filme. Disse a ele que ia manter, porque, senão, seria acusado de whitewash, de querer suavizar. Mas eu expliquei a ele que, em ‘Let it Be’, aquele momento dura um minuto, mas que, agora, eu iria colocar dez minutos daquela conversa. E que isso iria colocá-la dentro do contexto. Mas não tem nada a ver com melhorar a imagem de Paul”, afirma.

AMÁVEL BILLY PRESTON
Os mitos e histórias por trás daqueles dias que culminaram com o concerto no telhado são muitos. Um deles é aquele que afirma que o tecladista Billy Preston, cuja participação em algumas faixas do disco “Let it Be” e a sua presença nas sessões do “Get Back” foram proporcionadas na intenção de acalmar os ânimos e fazer John, Paul, George e Ringo “se comportarem” entre si por causa de alguém lhes fazer uma visita. Possivelmente pela conhecida ideia de que George Harrison havia convidado Eric Clapton para tocar na gravação de “While My Guitar Gently Weeps”, durante a criação do “Álbum Branco”, para que sua presença suavizasse aquelas sessões individuais, a presença de Billy em Saville Row durante o “Let it Be” tenha seguido pela mesma errônea impressão. “Billy estava em Londres naquela ocasião para participar de alguns programas de TV. Ele não estava na cidade por causa dos shows que fez acompanhando Ray Charles. Isso havia sido no ano anterior. Não aconteceu essa história de que George havia ido ao show encontrar com Billy e convidando-o para aparecer pedindo ajuda no sentido de ‘fazê-los se comportar’. Não foi isso. Billy apenas foi visitá-los para dar um oi. John Lennon o puxa e Billy ainda está de casaco. John diz: ‘Ei, mano, a gente precisa de um tecladista. Estamos fazendo essa parada ao vivo e se um de nós formos para o teclado, vamos perder uma guitarra. Tem um teclado ali. Você quer encarar e nos dar uma mão?’ E Billy não tem nem mesmo chance de tirar seu casaco e já está lá fazendo o solo de ‘Don’t Let me Down’”.

Apesar de não estar ali intencionalmente visando “supervisionar comportamentos alheios”, é palpável o modo como a energia positiva da presença de Billy age no ambiente. “Quando comecei a assistir às imagens, eu fiquei ansioso pelo momento em que Billy apareceria. Porque amo Billy. Assim, não conheço muito de sua carreira. Sabia que ele estava envolvido nisso, obviamente, mas, por exemplo, eu não tenho um disco dele. Não me considero um aficionado por Billy Preston”, explica Jackson. “Mas assistindo às imagens dele, você se encanta. Ele é uma alma tão gentil e bonita. E tão talentoso. Não sou músico, mas quando ele senta ao teclado e meio que apenas começa a tocar, ele acerta aqueles solos de primeira. E aí você meio que pensa: ‘Você não teria que ensaiar? Você vai fazer isso de primeira? ‘ E, sim, ele vai! Eu só conseguia pensar no músico incrível que ele era. Eu amo Billy. E eles o amam, também. No momento em que ele começa a tocar, você sente a energia no lugar aumentando. Por isso não acredito nesse papo já falado tantas vezes de que Billy estava lá para fazê-los se comportar”, pontua o diretor.

YOKO E JOHN
Há, claro, aquele clichê que se consolidou como um previsível lugar comum em diversas abordagens sobre a história dos Beatles: Yoko Ono como sendo o pivô para desestabilizações e catalisador para o término da banda. Bom, hoje, sabemos não ser verdade. Como dito antes, aqueles quatro rapazes haviam crescido juntos, passando metade das suas vidas como companhias constantes. Em algum momento, as próprias individualidades iriam aflorar. No caso de John, sua paixão avassaladora e amor por Yoko representavam uma vontade de estar com ela 24h do seu dia. E nada era mais justo do que aquilo como algo que representaria sua própria felicidade. Yoko já havia estado continuamente junto a John desde as gravações do “Álbum Branco” .A banda já estava acostumada a tê-la ao seu lado. Porém, no decorrer das últimas cinco décadas, a premissa de que sua presença nas gravações do “Let it Be” era algo a criar a tensão que quebrou aquela banda naqueles dias de janeiro de 1969 é o tipo de mito a ser derrubado no documentário dirigido por Peter Jackson.

“É interessante observar que quando você é famoso como são os Beatles, tudo que é reportado e escrito sobre isso se torna um mito no decorrer do tempo. É algo meio preto no branco, sabe? Com Yoko se tornou algo assim: ‘ou ela não estava no estúdio, ou ela estava lá para separar a banda’. É sempre uma coisa ou outra (risos)”, brinca Peter. “A verdade, no entanto, é muito mais complexa do que isso. Yoko está ali porque John e ela estão apaixonados um pelo outro. John sai de manhã para ir trabalhar e não quer dizer tchau e ficar sem vê-la por oito horas. Ele está ali com sua banda, se quiser tê-la junto a ele, por que não?”, questiona Jackson. “Por isso, lá estava Yoko. E os outros, claro, talvez eles preferissem que ela não estivesse ali? Talvez. Mas eles amam John. Se é isso que ele quer, então está tudo bem. Mas o detalhe mais crítico com Yoko, e que acho que precisa se reconhecido, é que ela não interferia com o que eles estavam fazendo. Ela não ficava nos ensaios buzinando os outros três e dizendo: ‘Oh, eu acho que aquele solo devia ser mais rápido’. Ela nunca interferia. Sentava-se lá, tricotava, escrevia, fazia sua arte. Ela estava lá com John. Ela nunca interferia”, salienta Jackson.

É pertinente observar que, conhecendo o histórico de John Lennon nos anos a partir da fase do literal pedido de socorro em “Help!” (1965), passando pelas experimentações musicais e químicas de “Rubber Soul” (1965) e “Revolver” (1966); a perda de Brian Epstein; o divórcio com Cynthia acontecendo logo em seguida ao começo de seu romance com Yoko; a fase junkie, quando se envolveu com drogas mais pesadas como heroína; o período “Sgt. Pepper’s” (1967) e White Album (1968), Yoko sempre funcionou como um porto seguro para o atormentado e frágil músico. Ela o salvou. Literalmente. Assim, sua dependência afetiva para com Yoko e o modo como ela correspondia àquele amor, era crucial para John funcionasse como músico. Sem ela, a partir do momento em que eles se conheceram até sua precoce morte menos de 15 anos depois do primeiro encontro na galeria com a lupa, a palavra “yes” e a escada, não haveria o artista John Lennon como conhecemos. Muito menos o homem, o ser humano, repleto de talento, mas, também, com muitas fraquezas e falhas, porém, com uma vontade urgente de melhorar como pessoa. E a presença de Yoko, naquele momento, significava muito dessa vontade. E ela sabia dessa sua importância.

“Ela era muito respeitosa com todos eles. Nunca tentava interromper ou dar uma opinião sobre o que eles faziam, sabe? Eles (ela e John) eram seres humanos. E isso, na verdade, é amor. Ela está lá porque ama John e John a ama. E os outros caras sabem disso. Isso é um pouco duro em um mundo diferente, mas eles entendem aquilo. Eles não têm uma atitude contra ela. Nas oito horas desse documentário, você vai ter um senso de realidade bem forte da história real”, explica o diretor.

MÁQUINA DO TEMPO
Junto às questões afetivas da banda, bem como as relacionadas ao timing no qual o filme de Michael Lindsay-Hogg foi lançado em 1970, há também um outro detalhe a ser observado no que se refere ao modo como o público teve acesso ao documentário “Let it Be” há 50 anos: o aspecto técnico da captação do diretor em 1969, cujas imagens foram registradas em 16mm. Peter Jackson aborda esse processo de transferência do filme para 35mm e em como isso impactou tanto naquele período quanto no seu próprio projeto “The Beatles – Get Back”. “A transferência do filme de Michael Lindsay-Hogg de 16mm para 35mm não foi muito boa em 1970. Ficou com muito granulado e um visual escurecido. Esse visual, junto às manchetes da separação da banda em abril de 1970, ajudou a criar essa reputação”, opina. A prévia de pouco mais de 40 minutos disponibilizada do novo documentário, porém, nos dá uma impressão cristalina de imagem e som. Essa meta tinha algo a ver com uma fantasia pessoal do próprio Peter Jackson em sonhar poder estar presente nos anos 1960 vendo pessoalmente a banda em estúdio.

“Esse processo tinha sido algo pelo qual, de várias formas, já havíamos passado antes. Fizemos um documentário sobre a Primeira Guerra Mundial chamado ‘Eles Não Envelhecerão’ (2018) e trabalhamos com imagens que tinham 100 anos de idade e que estavam em estado deplorável. Tentamos torná-las modernas e de qualidade o máximo que pudemos. Nesse processo, desenvolvemos softwares e códigos. Então, quando chegou a hora de colocarmos os negativos em 16mm das sessões ‘Get Back’ na nossa moviola, era algo que já tínhamos feito antes. Claro que aqui você está lidando com cores, e não com preto e branco. Eu queria tornar aquelas imagens cristalinas. Sendo um fã dos Beatles, sempre fantasiei que alguém inventasse uma máquina do tempo. Se me perguntassem para onde eu iria, eu ia responder para os anos 1960. Não sei exatamente o dia, teria que pensar um pouco. Mas eu iria para o estúdio dos Beatles e apenas ia ficar lá no canto, sentado, sem interferir. Apenas os observando trabalhar. Essa seria minha fantasia de viagem do tempo. Assim, tendo essas imagens, eu queria que todo mundo sentisse a mesma coisa. Essa é a razão de eu não ter colocado nenhuma entrevista moderna. Eu não queria Ringo e Paul lembrando o que havia acontecido. Eu não queria tornar esses 50 anos passados um elemento no filme. Eu queria que a gente viajasse 50 anos no tempo, e que eles viessem e nos levassem pelo resto do caminho. Assim, eu não queria que a película atrapalhasse. Eu não queria o granulado. Nada disso. Eu só queria que parecesse quase como se nós estivéssemos lá com eles, sem nenhum ruído de filme no caminho”, explica Peter Jackson em relação às imagens.

O outro aspecto desse processo técnico crucial, claro, vem do som. Para isso, a performance da equipe liderada por Peter Jackson é ainda mais surpreendente tanto no que se refere ao resultado final quanto ao modo como aquilo foi alcançado. “O áudio foi uma grande quebra de barreiras. Não sei se você já chegou a ouvir um bootleg das sessões do ‘Get Back’. Eu costumava comprar pilhas e pilhas deles. Eu ainda compro essas coisas. Mas as sessões do ‘Get Back’ eram intermináveis. E você tentava ouvir as conversas, mas o som das guitarras ficava atrapalhando. E isso irritava quando você queria ouvir o que eles diziam, pois o som dos instrumentos ficava na frente. Nós temos essas fitas Nagra em mono que a equipe estava gravando. E é bem frustrante. A coisa mais frustrante em relação a todo esse projeto no começo era o áudio. Era algo como: ‘Ok, é fantástico, mas, Deus, eu queria ouvir o que eles estão dizendo'”, relembra o cineasta.

A solução, porém, veio de um processo genial dentro do domínio da tecnologia. “Aqui na Nova Zelândia, temos um pessoal bem inteligente. Eles desenvolveram um programa de inteligência artificial. Um programa de aprendizagem no qual podíamos pegar essa fita mono, digitalizar, colocar no computador e ensiná-lo qual é o som da guitarra. Ensiná-lo qual é o som da voz humana. Ensiná-lo qual é o som da bateria. Então, os rapazes estão tocando, e o som das guitarras e da bateria está afogando os vocais, e é tudo meio misturado e confuso. E então podemos pedir apenas o som da guitarra. Ou então você vê Ringo tocando, mas não dá para ouvir o que ele diz. Ou então eles estão cantando, mas estão apenas movimentando os lábios, e você tem essa bela trilha da guitarra. E você pode dizer: ‘Dê-me apenas os vocais.’ E você literalmente só tem os vocais. Então, desenvolvemos essa tecnologia que nos permite ‘desmixar’ e misturar todos os componentes dessas faixas em mono. Isso no permitiu equilibrar essas canções, especialmente nos primeiros registros em Twickenham. O único áudio lá não é um canal de 8 faixas sendo gravado. Não é um estúdio de gravação. É um ensaio. Por isso, só tem mesmo uma equipe de áudio do filme, e (a captação) é bem ruim”, explica Peter Jackson.

Com a tecnologia alcançada pela equipe na Nova Zelândia, o cineasta chegou a um apuro técnico no som das sessões que faz jus à qualidade da música que estava sendo criada ali. Mas não somente a qualidade técnica da captação precisa ser salientada aqui. O modo como todo o processo foi feito por Michael Lindsay-Hogg é destacado por Peter Jackson. “Conseguimos equilibrar tudo e fazer soar com qualidade. Mas o que realmente trouxe isso (o equilíbrio) é que havia uma dinâmica do que acontece. Os Beatles contrataram Michael Lindsay-Hogg. Eles estão pagando todos os custos daquilo. Eles o contrataram para realizar uma gravação do tipo ‘mosca na parede’ (fly on the wall footage) deles ensaiando. Depois que começou, eles se assustaram com todas as câmeras e microfones ao redor. No trailer, acho que você vê George perguntando: ‘você está nos gravando?’ E a resposta é meio, ‘bom, George, você contratou esse cara para vir com todo aquele equipamento. Claro que ele está gravando vocês.’ De repente, eles meio que se assuntam. Porque nunca estiveram sob os holofotes daquela maneira. Então, aquilo se torna uma batalha de ímpetos na qual Michael Lindsay-Hogg está fazendo um favor ao mundo”, afirma Jackson.

O cineasta explica, ainda, que Lindsay-Hogg procurou meios de trabalhar seu registro de modo a captar o mais naturalmente possível aquelas quatro figuras. “Ele inventou maneiras inteligentes de filmá-los sem que eles soubessem. Colocou as câmeras em tripés, mas ao invés de ter um cara olhando pela lente e escutando os Beatles dizendo: ‘Oh, estamos sendo filmados, ‘ele fazia o operador apertar o botão para rodar o filme, e depois ele ia tomar um chá. Cobria a luz vermelha da câmera com fita adesiva e, assim, o Beatles olhavam para o tripé e pensavam: ‘Ah, eles não estão filmando. O cara está lá tomando uma xícara de chá. Certo. Não estão filmando. Podemos ter uma conversa confidencial’. Mas a verdade é que Michael está filmando tudo, escondendo microfones em toda parte. E então, o que eles fazem? Porque isso é uma batalha de ímpetos. Eles percebem que ele está na cola deles. Assim, quando eles começam uma conversa, George e John principalmente, eles aumentam ao máximo o volume de captação do microfone e começam a dedilhar as guitarras. E quando vão conversar, deliberadamente abaixam ao mínimo o volume de captação do microfone de Michael. É isso que você escuta nos bootlegs. Mas com essa tecnologia da ‘desmixação’ que nós temos, além de limpar as canções, fomos capazes de nos livrar de todos os barulhos de guitarras e as conversas surgiram”, comemora Peter Jackson.

A ideia de conseguir ter acesso a conversas que foram propositalmente encobertas pelos Beatles durante as gravações de um documentário que eles mesmos autorizaram acontecer com a gravação fulltime de seu tempo em estúdio é algo que já torna “The Beatles – Get Back” um banquete para qualquer fã. “Estamos revelando velhas conversas que foram propositalmente abafadas para que não escutassem e que nunca foram ouvidas antes. Isso nos permite ouvir os Beatles contando a história porque, como disse antes, eu não queria ter imagens modernas de pessoas contando a história. Eu só queria que eles fossem vistos. Assim, eles precisam contar a história estando em janeiro de 1969. E para fazer isso, você precisa ouvir as conversas. Porque eles estão falando sobre coisas dando errado, sobre o que eles pretendem fazer. Eles contam a própria história. Ao revelar essas conversas de maneira clara, somos capazes de tê-los contando a própria história através desses 21 dias”, explica o cineasta.

PAUL E JOHN
Recentemente, Paul McCartney falou sobre o fato de como assistir ao documentário. fez com que ele mudasse seu modo de pensar sobre o término da banda. “Eu acho que Paul tinha a sensação de que, quando eles chegaram às sessões do ‘Get Back’, sua amizade com John havia entrado em colapso e se dissolvido. Que essa era a memória que ele tinha do período. Mas é aquilo que eu estava falando antes. Ele está lembrando do término da banda. Ele não está lembrando dos 50 meses anteriores. Porque Paul nos mostrou fotografias que Linda tirou em 1968 na qual ele e John estão sentados juntos. E ele disse que sempre amou aquela foto, pois ela mostra os dois trabalhando juntos. E quando ele me falou isso, eu lhe disse: ‘Paul, nós temos 60 horas que são exatamente aquela fotografia. Nós temos aqueles caras amando a companhia um do outro, escrevendo juntos. Espere até você ver isso. Você vai pirar.’ Vou te dizer algo sobre Paul. Sabe, todo mundo tem suas opiniões e atitudes, mas o que você precisa ver em Paul é que ele estava vendo aquele cara, seu parceiro criativo, seu melhor amigo desde os 15 anos de idade… Paul está se tornando seu segundo parceiro criativo. Ele está vendo seu melhor amigo e parceiro criativo com outra pessoa. No caso, Yoko. E John está todo feliz lhe falando sobre os projetos que está fazendo com ela. E Paul lhe diz que acha ótimo. Que aquilo é ótimo. E você meio que sente que seu coração está se despedaçando. Não de uma maneira petulante, mas de uma maneira honesta. Não dá para imaginar o quão doloroso aquilo deve ser. John estava mudando seus interesses e amor. Ele ainda amava Paul, mas, também, amava outra pessoa. É algo bem emocional o que vemos. E bem interessante de se ver”, reflete Peter Jackson.

Sobre aquela foto em questão, na qual John e Paul estão compondo juntos em 1968, muito daquele momento é, realmente, perceptível nos 42 minutos da prévia disponibilizada de “The Beatles – Get Back”. Peter Jackson traz, inclusive, algo que surpreendeu até Paul McCartney que não tinha qualquer lembrança desse fato que aconteceu há 52 anos. “Eu estava em uma reunião com Paul e lhe perguntei se ele lembrava da canção de John, ‘Gimme Some Truth’. Ele disse que sim, aquela do álbum ‘Imagine’. Eu lhe perguntei: ‘você sabia que a co-escreveu junto com John?’ Ele me olhou e perguntou do que eu estava falando. Então, eu lhe mostrei umas imagens das sessões do ‘Get Back’ nas quais John e ele estavam trabalhando nessa faixa. Paul veio com aquele trecho ‘money for hope’, que John adorou. Paul me olhou e disse que não tinha nenhuma memória disso. Mas disse que sempre amou aquela música. ‘Se eu tiver algum crédito por ela, ótimo!’, ele me disse (risos). “

PAUL E RINGO, HOJE
Ao lidar com um material tão precioso para tantas pessoas ao redor do mundo, um registro inédito da banda mais popular da história da música pop, Peter Jackson sabia do peso dessa responsabilidade. Porém, havia duas pessoas a quem ele precisava mostrar aquele trabalho pronto cujas opiniões eram ainda mais importantes: Paul McCartney e Ringo Starr. “Eles assistiram a uma versão que ainda não estava finalizada há alguns meses. Tinha seis horas de duração. Os dois me mandaram algumas notas sobre o que viram”, explica Peter Jackson. “No decorrer dos anos, eles assistiram a alguns trechos daquelas gravações. Mas essa era a primeira vez que eles assistiriam a algo assim. Eu estava esperando um monte de notas de observação. Isso por dois motivos. Um porque conversei com Michael Lindsay-Hogg durante todo esse período de produção. E ele me deu todo suporte. Michael me contou sobre a experiência que teve em 1969, quando estava montando o ‘Let it Be’. E lembre-se que ele editou o filme a partir de exatamente as mesmas imagens que eu editei. Então, são basicamente 50 anos de separação. Mas ele me disse: ‘Eu estava na sala de montagem, e Paul entrava e me pedia para fazer algumas coisas com as imagens. No dia seguinte, John vinha e me dizia para desfazer tudo o que Paul havia dito, pois ele queria que fosse feito assim. E depois vinha George… ‘ E eu ouvindo aquilo de Michael ficava pensando que teria ficado louco. Mas eu estou aqui na Nova Zelândia, bem distante. E também, 50 anos depois, eles não são mais quem eles eram. Acho que eles conhecem a si mesmo. Porque depois de 50 anos sem deixar que ninguém assistisse a essas imagens, eles finalmente deixaram ser exibidas. Acho que eles chegaram a um ponto de suas vidas no qual entenderam que a importância histórica disso supera qualquer sentimento emocional. Isso é um documento histórico da Rock and Roll. Isso é História. Precisa ser divulgado”, comemora Peter Jackson.

O cineasta neozelandês explica que, ao exibir o documentário a Paul e Ringo, ficou na expectativa e receber muitas notas. “Lembro que quando fiz ‘O Senhor dos Anéis’, a Warner me deu seis, sete páginas de notas. Algo como: ‘Isso é muito longo.’ Então, eu estava esperando ‘algo beatle’ como: ‘você pode cortar um pouco? Porque eu não acho que… ‘ Sabe? Algo assim. Mas, ao invés disso, basicamente o que recebi foram versões de: ‘Foi muito estressante assistir. É algo muito cru. Meu Deus! Mas é uma história definitiva desse período, por isso não mude nada.’

“Essa foi a primeira vez na minha vida que eu escutei um ‘não mude nada’. E você precisa dar o crédito a eles por isso. Porque eles estão sendo muito corajosos em se expor com esse material cru. Qual a melhor forma de dizer isso? Eles nunca permitiram as pessoas verem os Beatles de modo tão honesto antes. Isso requer coragem “, finaliza Peter Jackson.

João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual.

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