Entrevista: Lucas Gonçalves apresenta “Verona”, seu segundo disco

entrevista por Thiago Sobrinho

Dono do elogiado “Se Chover”, lançado em outubro de 2020 e presente entre os melhores do ano na lista do Scream & Yell, o músico mineiro Lucas Gonçalves acaba de lançar o seu segundo trabalho solo. Trata-se de “Verona”, álbum composto por 17 faixas que, assim como o anterior, também se debruça sobre a nostalgia. “Esse é o meu segundo disco de saudade. Só que agora com um pouco mais de experiência de fazer disco, de amarrar as músicas”, admite Lucas ao Scream & Yell sobre o disco que chegou às plataformas de streaming no dia 23 de setembro – apenas 11 meses após “Se Chover”.

E, quando Lucas afirma que “Verona” transmite um pouco mais de experiência na hora de fazer um disco, ele não está se referindo apenas à bagagem que acumulou gravando discos. Também tem a ver com um novo modo de pensar o conceito de um disco. Parte desse aprendizado, segundo o artista de 29 anos de idade, se deu durante a gravação do novo álbum da Maglore, banda em que ele assumiu o baixo em 2017. O novo trabalho dos caras foi gravado no Estúdio Ilha do Corvo, em Belo Horizonte, Minas Gerais. “Até por esse processo da Maglore de fazer um disco novo, fui percebendo questões como a ordem das músicas no álbum. Aprendi a equilibrar um disco. Após esse processo, ouvi todas as músicas que tinha gravado até então, e já tinha umas 12 em março, e as outras foram nascendo”, conta o músico, que também é guitarrista da banda Vitraux.

Pronto. Daí pra frente foi só preencher os buracos narrativos de “Verona”. Mas qual história Lucas quer contar com esse novo trabalho? “Na verdade, são várias histórias. Mas todas se passam em Passa Quatro, cidade no Sul de Minas Gerais. A cidade é o grande personagem desse álbum”, conta ele, sobre o município onde o pai, que partiu em 2017 vítima de um câncer, vivia e onde Lucas morou até se mudar para São Paulo. E continua: “Para quem conhece a cidade, consegue enxergar todo o caminho que faço. Acho que esse é um disco de noite, de madrugada. É uma viagem que, de repente, você pega estrada e vai de noite no Bar do Paulão, escuta os sinos da Matriz… É uma noitada na cidade. É uma jornada solitária”.

E a viagem, ao menos musicalmente, é longa. “Verona” ultrapassa os 70 minutos de duração. Mesmo assim, é um trabalho coeso. As faixas não se perdem. Pelo contrário. Elas dialogam entre si num painel rico de timbres que remetem ao rock dos finzinho dos anos 70 com ecos de Pink Floyd e até mesmo folk. Apesar de solo, o novo álbum de Lucas contou com a ajuda de diversos “amigos do peito”, pegando emprestado o nome da quarta faixa do álbum, regravação de uma música de Iso Guedes, compositor de Passa Quatro e amigo de Lucas. Vitor Loureiro gravou os sintetizadores em “Ver a Cidade”. Helô Ribeiro empresta sua voz e toca flauta transversal em “Até”. A lista de participações é longa e pode ser conferida no encarte do álbum que está sendo vendido por R$ 10 no site da Solar Music Box.

Também há a ideia de lançar o álbum no formato em vinil e o videoclipe de “Subir a Serra”. Mas antes disso, Lucas faz o show de lançamento do álbum. A apresentação rola no dia 25 de novembro no Teatro Cacilda Becker, no bairro da Lapa, em São Paulo. “Esse é um show que faz parte do Projeto Amplifiquintas, da Prefeitura de São Paulo. A noite também terá show do Gustavo Galo, que eu toco junto dele”, anima-se Lucas para a noite em que irá apresentar pela primeira vez ao público toda a saudade presente em “Verona”. Abaixo, ele fala sobre o disco, sua cidade natal, saudade, família e muito mais.

Ei Lucas, beleza? Como está? Antes de a gente falar sobre o álbum, você havia comentado no nosso contato inicial que estava no processo de mixagem de um disco. Pode falar mais um pouco?
É da Maglore. É um álbum que a gente fez às pressas em fevereiro. Gravamos em Belo Horizonte, na Ilha do Corvo. Agora, estamos mixando. Estamos chegando a um resultado legal. Só deve sair em 2022. Não temos ainda o nome do trabalho, mas ele vai ter 13 faixas.

E como foi essa sua entrada na Maglore e como eles te influenciaram musicalmente? Você, apesar de tocar baixo, não é um baixista…
Eu voltei ao contrabaixo. Comecei a tocar baixo por falta de baixista na minha cidade. E conheci a Maglore em 2013 quando fiz o som da banda na Casa do Mancha, aqui em São Paulo. Eu trabalhava como técnico de som lá e fiquei fã. Levei as músicas deles para Minas e apresentei para os amigos. Passou um tempo, e eles me chamaram. E, acredito, que a banda me influenciou pela brasilidade. Eles me trouxeram muitas referências de bandas brasileiras. Até então, eu era pirado em bandas sessentistas inglesas e no folk.

Dá pra ouvir essas influências no seu novo trabalho?
Não sei. Esse disco solo era o som que eu ouvia muito em Minas. E meu pai gostava muito. Mirei muito no Pink Floyd e um pouco na ideia de folk rock. Não tem um violão de nylon no disco, diferente do primeiro álbum. “Verona” é todo em dois violões de aço e um espaço no meio para colocar guitarras e vocais.

Por que “Verona”?
Por duas razões. O meu pai teve esse carro quando eu nasci. E como o disco parte de uma foto do meu pai correndo na beira do asfalto, eu pensei em “Verona” por isso: pelas lembranças. Queria passar uma imagem da cidade do meu pai em 1978. Passar uma visão mais romântica das lembranças. Isso e também a cidade italiana Verona, onde se passa Romeu e Julieta.

Qual foi o ponto de partida desse álbum?
Foi em julho do ano passado quando comecei a gravar. Na verdade, sempre estou gravando as músicas em casa sem pretensão de lançar. Mas, na época, gravei “Subir a Serra” e “Ver a Cidade”, que eram duas baladas que eu tinha. Lembro que baixei o tom e o andamento das músicas e tudo soou lindo! Pensei até que tivesse gravado num estúdio grande. O espectro de som ficou maior. Aí percebi que tinha um caminho para o disco e fui compondo outras músicas para se conectar com aquilo. Mas acho que só em março deste ano me dei conta que tinha um disco.

Há esse estranhamento de cidade do interior no seu álbum? Tipo, de você ser o cara “esquisito” por ser alguém que gosta de música e tudo?
Lá eu nunca tive esse estranhamento porque a cidade é toda musical. Sempre me dei com a turma de lá. Quando morei lá, sempre tocava nos bares e sempre colocava músicas próprias. Essa coisa da cidade na madrugada, eu imaginei mais na coisa da pandemia. Virou uma cidade meio fantasma. Passa Quatro é uma cidade muito pequena onde você sai às seis da manhã num fim de semana e não vê ninguém na rua. Ou sai à uma da manhã e não tem ninguém mais na rua. E como estava com saudades da cidade, havia dois anos que não visitava, Passa Quatro invadiu meu estúdio. Sentia aquela neblina chegando e várias lembranças foram surgindo. Acho que durante a pandemia aconteceu com muita gente esse mergulho.

Parece ter um carinho muito grande pelo passado.
Acho que sim. Sou atravessado por isso no cotidiano. Às vezes estou na varanda, e sou arrebatado por imagens que a gente guarda da infância. Estou sempre lembrando da varanda lá de casa, o piso. E isso pode acontecer pela roupa que alguém usa na rua ou o jeito que a luz entra no quarto.

De que forma esse passado te ajuda a entender o presente?
Acho que musicalmente… É algo que acontece quando eu descobria músicas novas. Acho que isso é algo que eu queria ter de novo. A gente vai ficar mais velho e não tem mais aquele deslumbre com as coisas. As coisas vão ficando sistemáticas demais e perdem a magia. E eu tento puxar isso nas minhas músicas para mim mesmo, algo que remeta às coisas que eu ouvia. E, com a nossa infância na cidade do interior, a gente lembra de ficar na rua, jogar bola, brincar de pique. Desde que cheguei na cidade grande, eu ando com medo na rua. Nesses tempos de crise, a gente fica com mais medo ainda. Você vai vivendo com medo. Acho que sou saudosista com o passado pela liberdade que a gente tinha. Hoje tá todo mundo com o celular na mão o tempo todo, meio preso.

Não há como falar do seu disco sem falar sobre o seu pai. Ele teve uma alteração no cerebelo que tirou sua capacidade motora…
O meu pai faleceu em 2017. Quando a Maglore lançou o disco “Todas as Bandeiras”, ele faleceu um dia antes ou um dia depois. No primeiro show da Maglore depois disso, o Teago homenageou o meu pai. O meu pai ouvia de tudo. Ele era musical. Ele tinha uma paixão especial por Beatles. Ele ia ao mercado de carro e deixava o som alto tocando Beatles enquanto fazia compra. Ele anunciava a presença dele com música. E ele sempre me apoiou com a minha carreira. Pô, ele sempre me ajudou mudou. Mesmo quando a Vitraux fez CD. A gente fez prensagem de mil CDs e ele vendeu um monte em Passa Quatro. Eu dando CDs pros amigos e ele vendendo. Eu confundo muito nossas lembranças com músicas. Seja com Beatles, Cat Stevens ou Milton Nascimento. É massa. A história dele virou música.

Pode falar sobre essa doença que afetou a capacidade motora dele?
Isso é uma coisa de família. É hereditário. É uma doença no cerebelo. Ele corria, andava de moto e bicicleta. E, aos 30 anos, ele perdeu o equilíbrio e caiu na frente de casa. E aí ficou fazendo os exames até descobrir que era isso. Mas não foi disso que ele faleceu. Ele descobriu um câncer em 2016 e partiu muito rápido.

Por ser algo hereditário, é algo que te assusta?
Não penso mais nisso. É algo que pode acontecer. Tenho algumas tias e tios que tiveram. Já os meus primos não têm. Nenhum apresentou. Acho que o risco é bem pequeno.

Voltando ao “Verona”… Você disse que é um disco de saudade. Qual a diferença da saudade dele para o “Se Chover”?
Acho que em “Se Chover” mirei numa estética que eu tinha muita saudade desse ritual de ouvir música com o meu pai. Lembro de a gente ouvir Clube da Esquina, com aquele violão de nylon na frente e o rock atrás. É um disco de saudade querendo voltar pro passado. O “Verona” é quase a mesma coisa. Mas invento algumas memórias. Parece que exagero em algumas delas. E a estética é mais roqueira. É mais 77 pra 80. Enquanto “Se Chover” tá mais pra 68 a 72.

Compor é um processo terapêutico para você?
Totalmente. Eu brinco com alguns amigos que eu não procurei terapia ainda porque estou fazendo músicas. Mas estou há dois meses sem fazer música e devo procurar ajuda (Risos). Há casos que letra, harmonia e melodia já vêm na hora. E eu tenho que ter um tempo para me dedicar. Por isso que em tempos de velocidade mais lenta, como no início da pandemia, eu consegui compor bastante. Consegui fazer muita coisa legal. Até tinha um projeto de canções de Folia de Reis, um disco elétrico, mas o “Verona” roubou a frente e era outra coisa de memória. Isso vai ficar pro futuro.

Como foi parar numa cidade grande como São Paulo?
Foi na vontade de cair nessa cena autoral que eu já acompanhava de longe e querendo fazer parte dessas bandas que eu ouvia, como Supercordas, Jair Naves, Vanguart e tal. Eu dizia que queria fazer música com essa galera. E aí vim para São Paulo nessa loucura. Eu tinha uma banda em Minas e tínhamos um disco gravado. Mas não estava masterizado. Na época, eu namorava uma paulistana que estava em Passa Quatro há alguns anos. E ela ia vir pra São Paulo estudar e me chamou pra morar com ela na casa da avó. Um ano depois, em 2012, eu comecei a trabalhar na Casa do Mancha. A cidade de São Paulo me inspirou muito a escrever outras coisas. A cidade tem a música dela. E isso também me bateu. E foi massa. Conheci toda turma daqui. Vi muita banda aparecendo na Casa do Mancha. Fiz o som e amizade com muita gente. Morei em quarto de pensão, fiz bicos na Teodoro Sampaio para me sustentar. E, no meio disso tudo, meu pai me ligando falando que ia me mandar R$ 100 e eu não sabia como dizer pra ele que com aquela grana não dava pra fazer muita coisa aqui.

Como foi o processo de se lançar como solo?
Nossa… Eu não lembro a decisão exata. Lembro que em 2019, eu comecei a organizar minhas pastas de músicas. Fui achando essas letras, as metáforas com sol e chuva e vi que tinha esse primeiro disco: “Se Chover”. Percebi que as músicas não iam pra Maglore ou Vitraux e decidi fazer meu primeiro disco. Aí montei a banda para ensaiar. Passamos um ano gravando. Foi algo natural, as músicas pediam o seu lugar.

Já teve a oportunidade de produzir outros artistas?
Já produzi o primeiro EP de uma banda de Guarulhos chamado Belga Bordô. A banda, infelizmente, acabou. E quando saí da pensão e vim morar nessa casa onde estou na Vila Madalena, vim com o João e o Ivo, da Vitraux. A gente trocava muita coisa de gravar. Aprendi muito com eles.

Que tipo de produtor você quer se tornar?
Ainda não sei bem. Quero ser mais uma pessoa a ser chamada para colaborar no sentido de dar ideias e caminhos. Mais sugerir um caminho especial na obra do que tirar um som específico. Não sei se ainda tenho essa marca. Por enquanto, quero ser um apoio para quem quer ser produzido.

Acha que, em algum dia, o seu trabalho solo pode se tornar a sua banda principal?
Acho que não consigo me enxergar nesse cenário solo. Eu gosto das bandas, gosto da Maglore e da Vitraux. Pretendo fazer muitos discos e viajar muito com eles. Mas no meu solo pretendo fazer discos. Quero deixar isso sair. Se for acontecendo, eu não vou negar.

– Thiago Sobrinho (fb.trsobrinho) é jornalista do A Tribuna em Vitória, Espírito Santo. A foto que abre o texto é de Carime Elmor e Felipe Vieira

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