Entrevista: Lô Borges resgata DNA roqueiro e retoma parceria com Márcio Borges

entrevista por Ananda Zambi

Após o introspectivo “Dínamo” (2020), disco em parceria com o poeta piauiense Makely Ka, Lô Borges resolveu tirar o terno e a gravata e lançou no último dia 5 de março “Muito Além do Fim”, um álbum solar, com guitarras mais pesadas – o que o artista prefere chamar de “mais vigoroso e mais pulsante” – e repleto de hits em potencial. O disco também marca o retorno da parceria com o irmão Márcio Borges, cujas últimas colaborações haviam sido registradas há dez anos no álbum “Horizonte Vertical” (2011).

Produzido por Lô, Henrique Matheus e Thiago Corrêa (os dois da banda Transmissor), “Muito Além do Fim” é composto por 10 faixas que falam de maneira leve de amor e de esperança, mas sem deixar a crítica de lado quando é necessária – características predominantes nas músicas de autoria dos irmãos, como por exemplo “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Clube da Esquina nº 2” (com Milton Nascimento), “Para Lennon e McCartney” (com Fernando Brant), “Tudo que Você Podia Ser”, “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”, “Não Se Apague Esta Noite”, “Equatorial” (com Beto Guedes), “”Ela” e outros sucessos da carreira de Lô e do grupo mineiro do qual fizeram parte nos anos 1970, o Clube da Esquina.

Desta vez, porém, a grande maioria das canções do disco novo foram feitas à distância, durante a pandemia, exceto “Terra de Gado”, composta em 1999, e “Piano Cigano”, cuja melodia de 1978 ganhou letra em 2020. “Muito Além do Fim” conta ainda com participação, nos vocais, de Paulinho Moska na faixa-título, canção que foi divulgada em outubro do ano passado.

O álbum foi gravado e mixado por Henrique Matheus no Estúdio Frango no Bafo (BH) e masterizado por Matheus Gomes no Estúdio Tambor (RJ). Em uma conversa por telefone, Lô Borges exaltou a parceria com Márcio Borges e deu detalhes sobre o processo de composição de “Muito Além do Fim”, relembrou a época do Clube da Esquina e do clássico disco do tênis (“Lô Borges”, 1972), opinou sobre a experiência de trabalhar com outras gerações, falou sobre a compulsão por compor e comentou sobre endurecer sem perder a ternura. Confira:

Como foi retomar essa parceria com Márcio, gravar parcerias com seu irmão depois de 10 anos?
Na verdade, fazer música com Marcio Borges era uma coisa que estava fazendo falta na minha vida. Ele é meu principal parceiro, desde a primeira música que fiz na minha vida, com 14, 15 anos de idade. Era ele quem estava fazendo as letras. Se tenho 200 músicas, 130 foram feitas com ele. Meu partido principal, majoritário, meu irmão. Então pra mim, eu estava cheio de motivos pra me encontrar com ele. Eu estava vindo num pique de fazer um disco atrás do outro. Fiz o “Rio da Lua”, com letras do Nelson Angelo, em 2019 (Bruno Capelas viu esse show e escreveu aqui), e o “Dínamo”, com letras do Makely Ka, em 2020, e aí liguei pro Márcio e falei: “Tô afim de fazer mais um disco. Cheguei numa fase de fazer muita música, está na hora de a gente voltar a compor juntos”. E ele: “Demorou, perfeito, vamos fazer”. Ele até brincou comigo: “Olha, você tá musicando letras do Nelson Angelo e do Makely. Comigo tem que ser do jeito que a gente sempre compôs. Tem que mandar a música antes. Eu não vou ficar dando letra pra você não. Cê me manda a música antes e aí eu escrevo as letras em cima das músicas que você me mandar.” E foi feito assim. Eu já estava começando a compor quando liguei pra ele e comecei a mandar as músicas e, numa coisa assim, de pandemia, pensei: estou morrendo de saudade dele! Tem mais de um ano e meio que não vejo o Márcio. Eu mandava as músicas, ele foi me mandando as letras, numa média de uma por mês – nós fizemos num tempo bem relaxado – e eu ia pro estúdio e encontrava com meu técnico de som, que é meu guitarrista também – a gente teve que respeitar todo o distanciamento social da pandemia, por isso não estive com meu trio ao mesmo tempo em estúdio. Então, de máscara, no estúdio, gravava meu violão, ou então meu piano e minha voz. Tô com saudade do meu baterista e do contrabaixista também! São pessoas que gravaram, fizeram sons maravilhosos, e não encontro pessoalmente com eles, só encontro virtualmente, escutando as coisas que eles fazem. Sou diretor musical do disco, mas dirigindo por vias virtuais: o Henrique, meu interlocutor, me mandava um áudio: “Nós fizemos isso”, e eu falava: “Olha, estou querendo um disco mais pesado, um disco mais rock’n’roll, com mais guitarras”…

Por que você quis um disco mais rock’n’roll? O que ativou essa vontade?
Olha, primeiro que meu DNA é rock’n’roll, sempre foi. Com 12 anos de idade eu amava os Beatles, os Rolling Stones e a Bossa Nova, entende? Cê vai pegar o álbum “Clube da Esquina” (1972) e tem lá “Trem de Doido”, tem lá o final da música “Girassol” (“Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”) todo groovado, com guitarras. O disco que fiz no mesmo ano do “Clube da Esquina”, em 1972, no segundo semestre, que ficou famoso como “o disco do tênis”, ele é cheio de rock, o álbum abre com um rock: (cantarola) “Você Fica Melhor Assim”. Sempre fui um beatlemaníaco. Sempre acompanhei rock progressivo, Emerson, Lake & Palmer, sempre acompanhei Jimi Hendrix. Sempre tive isso presente no meu DNA. Talvez nos meus discos eu tenha priorizado pouco esse sotaque mais vigoroso – as pessoas chamam “rock”, mas eu nem chamaria de rock, eu chamaria de mais vigoroso e mais pulsante. Os músicos me mandavam os arranjos que criavam sob a minha direção, e eu falava: “Gente, vamos tirar o terno e a gravata. Vamos mandar mais guitarra, mais pulsação, esse contrabaixo pode ser mais groovado, essa bateria pode ser mais forte”. Fui dirigindo o disco à distância, porque a minha parte de tocar em estúdio era eu sozinho e meu guitarrista, que é o técnico de som – quando eu ia gravar ele nem tocava, ele só me gravava. São pessoas que tocam comigo há algum tempo, há muitos anos, são muito entrosados com a minha ideia, então uma ou duas músicas eu pedi pra carregar um pouco mais no arranjo, porque na verdade eles entenderam rapidamente o que eu estava querendo com esse disco e começaram a mandar arranjos mais vigorosos. Eu falava que tinha que ter guitarra, mais sintetizador em tal faixa, aí não pode ser arranjo no contratempo, tem que ser um arranjo no tempo… fui orientando o pessoal à distância, via telefone mesmo, e recebendo em MP3, em áudios pelo WhatsApp. Tudo feito à distância porque a pandemia nos impôs. E o inusitado é que eu fiz o disco com meu irmão Márcio Borges, fiz o disco com minha banda – que é um trio –, e não vejo os caras, só vejo o guitarrista, que é meu técnico. A pandemia impõe um distanciamento, mas acho que a gente conseguiu se entrosar e trocarmos ideias. No fim, o disco saiu do jeito que eu queria. E aí é claro que dou total liberdade pros músicos criarem. Com o Márcio Borges, nem precisa dizer, ele tem total liberdade pra criar o que ele quiser. Ele é um mestre da letra, da canção, é o cara que levou o Milton Nascimento a compor a primeira vez, o primeiro parceiro de Milton, quando ele tinha 20 anos. É um cara super importante na música brasileira, e no meu cancioneiro também. No Clube da Esquina ele fez “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Trem de Doido”, “Tudo que Você Podia Ser”, do disco do tênis fez “O Caçador”, fez “Não se Apague Esta Noite”, ele fez comigo “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”, mais do século XXI… Ele é seis anos mais velho que eu e fez até um post no dia do meu aniversário que eu ri muito, que foi o seguinte: “Quando o Lô nasceu…” – minha família é numerosa, eu tinha vários irmãos – “…pedi minha mãe pra dar ele pra mim…”. Ele tinha seis anos só, sabe. “…e ela deu! E eu acho que cuidei muito bem dele!” Repostei na minha página. Ele é fundamental na minha vida. A gente tem a mesma mãe, o mesmo pai, os mesmos irmãos, e dedico um pouco esse disco a três personagens: ao Márcio, ao Marilton Borges, que é meu irmão mais velho, e ao Bituca, que é meu irmão também. Três irmãos mais velhos que tenho – o Bituca na minha casa era considerado filho. Pelo meu pai, pela minha mãe e pelos meus irmãos, ele era considerado irmão. Isso antes dele fazer “Travessia”, antes dele ser famoso, sempre foi considerado um irmão pra gente e um filho pro meu pai e pra minha mãe. São pessoas fundamentais na minha vida, que me estimularam a lidar com música. Esses caras me incentivaram muito, foram inspiração. O Bituca, o papel dele é fundamental desde o começo. Quando ele foi morar em São Paulo, por conta do Festival da Canção, que ele entrou com “Travessia” e mais duas músicas, ele deu o violão que ele tinha de presente pra mim, comprou um novo pra ele e me deu o violão que ele tinha de presente. Então eu, com 12 anos de idade, ganhei um violão de presente do Milton Bituca Nascimento, que era um ilustre desconhecido na época e eu era uma criança. Há muita relação de amizade, de amor, de consanguinidade, de afeto, sabe, isso tudo. Dedico esse trabalho a essas três pessoas: Márcio Borges, Marilton Borges e Milton Bituca Nascimento.

Você trabalhou também com Henrique Mateus e Thiago Corrêa, que são da banda Transmissor, que é da cena contemporânea mineira, e tem participação do Paulinho Moska também, que já está na estrada desde os anos 1990, mas que também é de outra geração. Queria saber como é que foi trabalhar com eles.
O Henrique trabalha na minha banda de estúdio e na minha banda de estrada tem 10 anos. O Thiago Corrêa está comigo na minha banda de estúdio há três discos, há três anos. Gostei tanto do trabalho dos dois que dividi a produção com eles. O álbum é produzido por Lô Borges, Henrique Mateus e Thiago Corrêa. Eu assino a direção musical, mas a produção fiz questão de dividir com eles, pois achei muito merecedor. Agora, sempre me envolvi com pessoas de outras gerações, a vida inteira. Eu, quando tinha 12 anos, conheci o Milton, que tinha 20. Eu era uma criança e ele era adulto. Eu sempre me envolvi com outras pessoas, eu fiz turnê, DVD, CD, shows com o Samuel Rosa, que é 15 anos mais novo que eu. Sempre tive parceiros mais jovens e mais velhos também. Eu fiz música com o Tom Zé, que é 10 anos mais velho do que eu, fiz música com o Arnaldo Antunes, fiz música com Cesar Mauricio, da banda Virna Lisi, uma banda muito foda; com o Chico Amaral, que é letrista do Skank. Então pra mim tanto faz: podem ser mais jovens ou mais velhos do que eu ou da minha idade, isso pra mim não faz a menor diferença. A música rompe essas barreiras. A música aniquila essas diferenças geracionais, de idade, de estética. Um cara é mais rock, o outro é mais MPB, o outro é mais pop, e isso não tem o menor problema. Gosto de conjugar o verbo “transitar”. Gosto de transitar na música, em várias gerações, várias estéticas diferentes, e é isso que eu tenho feito desde que eu era menino.

Tem uma música no disco que é de 1999 e se chama “Terra de Gado”. Por que você a gravou só agora?
Gravei ela só agora porque fiz vários discos de inéditas – a minha profissão é música e meu hobby é música também, então sou um compositor de fazer muitas músicas, o tempo todo – já fiz duas músicas entre uma conversa aqui e outra com você e com outros jornalistas. Tenho feito músicas o tempo todo. E fiz vários discos de inéditas de 1999 até agora e eu achava que ela não se inseria em nenhum dos discos. Então guardei. Só agora que achei que ela foi lançada no momento propício: calamidade no Brasil, calamidade no mundo, terra de gado mesmo, todo mundo só pensando em si, (cita trecho da música) “Ouro de tanto babaca / Terra boa de ser ninguém / Ou vai morrer nessa praia /E achar que tá tudo bem”. O Márcio Borges abriu a pancadaria nessa letra, e nos outros discos que tinha feito de 1999 até agora, eu não achava que ela encaixaria bem em nenhum deles. Mas nesse disco… chegou a hora de “Terra de Gado”! Fiquei super feliz. Falei pra ele: “Nesse disco cabe ‘Terra de Gado’.” Então é uma música que eu adoro e que estava na gaveta desde 1999.

Eu noto nas suas músicas, desde o Clube da Esquina, desde o disco do tênis e da sua carreira toda, músicas que falam de amor, não só de amor, mas de esperança. E eu vi até uma entrevista de quando você estava fazendo a turnê “Tênis + Clube”, você declarou que as músicas falavam do autoritarismo, da ditadura, mesmo que de forma indireta. E a gente está passando por um momento muito difícil agora também. Então queria saber: de onde você e Márcio arranjam forças para passar mensagens de amor e de esperança em tempos tão difíceis?
Mensagem de amor, de esperança e de crítica, né. E de crítica também. O Márcio Borges consegue endurecer sem perder a ternura.

É, acho que acabei não percebendo isso de cara. Por isso que não falei das críticas, porque acho muito delicado, acho que vocês falam de uma maneira delicada.
Tem uma canção quase amor, é quase uma bossa nova, que transformamos num arranjo pesado, bem guitarrado também, que é “Canções de Primavera”, que ele começa a letra assim: “Só amor eu ponho em meu canto / Não tenho bem mais precioso / Pra quem quer sair da ignorância / O que eu conto é poderoso”. Quer dizer, o cara consegue botar “ignorância” junto com “amor”, a palavra “ignorância” numa letra de música, ele consegue ser duro e ser doce ao mesmo tempo, consegue ser amor e ser esperança. Dou até risada, porque acho essa letra fantástica. Márcio Borges mandou muito bem, ele é um mestre para fazer isso, pra endurecer sem perder a ternura. A ternura, a esperança, o amor. A gente sempre cantou isso a vida inteira. Cê pega o “Trem de Doido”, do álbum “Clube da Esquina”, fala de “Noite azul / Pedra e chão / Amigos num hotel / Muito além do céu / Nada a temer…” Daqui a pouco ele começa a falar dos ratos soltos na casa, dos ratos soltos na praça. Então mistura doçura com porrada. O Márcio Borges é foda.

– Ananda Zambi (@anandazambi) é jornalista e editora do Nonada – jornalismo travessia. Nas horas vagas, também brinca de fazer música.” A foto que abre o texto é de Rodrigo Brasil. 

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