Entrevista: O “Capítulo Negro” do Black Pantera

entrevista por Bruno Lisboa

Natural de Uberaba, no triangulo mineiro, o Black Pantera é um dos melhores exemplos do potencial de qualidade da cena atual do rock nacional ao combinar peso, melodia e letras com viés político social. Ao vivo, a banda é um autêntico rolo compressor, entregando uma performance enérgica e cativante.

Formado em 2014, o power trio conta com Chaene da Gama (baixo e voz), seu irmão Charles da Gama (guitarra e voz) e Rodrigo Pancho (bateria). Na discografia, dois álbuns de estúdio, “Project Black Pantera” (2015) e “Agressão” (2018) e um EP, “Capítulo Negro”, lançado pela Deck em 2020.

“Capítulo Negro” é um EP e, também, um registro audiovisual onde o grupo revisita com autenticidade faixas clássicas dos repertórios de Elza Soares (“A Carne”), O Rappa (“Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro”) e Jorge Aragão (“Identidade”) tendo como elemento de união o exercício da militância contra o racismo.

Na conversa abaixo, Rodrigo Pancho fala sobre a pandemia, o processo de gravação e seleção de repertório de “Capítulo Negro”, a importância da arte em tempos conservadores, influências no espectro da militância, o movimento Black Lives Matter, o potencial das apresentações ao vivo no Brasil e no exterior, planos futuros e muito mais. Confira!

Primeiramente, como tem sido praxe aqui no S&Y, iniciamos nossas entrevistas perguntando: como tem sido esse período de pandemia para vocês? O quão modificada foi a vida de vocês e seus pares?
Esse período de pandemia tem sido para banda um período de reflexão, de bastante trabalho. Em 2020 a banda tinha um planejamento de gravar o terceiro disco e acabou que no meio disso tudo a gente gravou o EP. Acho que a gente conseguiu fazer com que o período fosse, de certa forma, produtivo para banda. Com relação aos nossos familiares a pandemia tem sido um momento de ficar mais próximo dos nossos filhos. Isto fez com que a gente ficasse mais próximo de todos e acabou até sendo inspirador para a banda. Surgiram novas músicas e ideias que resultaram no EP e no material audiovisual. Então foi um ano onde a gente ficou sem fazer shows, mas a gente conseguiu produzir canções.

O EP “Capítulo Negro” é também uma obra audiovisual onde o grupo revisita (de forma bastante pessoal) clássicos do cancioneiro nacional de ícones como Jorge Aragão, Elza Soares e O Rappa. Por mais que as três faixas sejam oriundas de artistas de searas diferentes, elas têm em comum versos pungentes ligados a questões raciais. Como se deu o processo de gravação das três faixas? E ainda: como se a seleção desse repertório?
Esse processo se deu justamente neste período de pandemia, onde a banda teve que ficar em casa. Como a gente cancelou a viagem para o Rio onde iriamos gravar (o terceiro disco), nós acabamos pensando de que forma que a gente poderia continuar sendo produtivo. A ideia era tentar criar algum conteúdo para não ficar parado tanto tempo assim. Nós já tocávamos a música da Elza, “A Carne”, que foi uma ideia do Charles e que já tinha rolado em alguns shows e numa Live. Aí o Chaene teve a ideia de gravar mais uma música e tenta fazer um clipe com ela. A gente deu uma ideia para o Rafa Ramos (diretor musical da Deck) e ele achou demais, topou na hora. Na sequência sugeri incluir “Identidade” (Jorge Aragão), que eu achava que iria funcionar super bem dentro desse repertório. Falei: “Vamos fazer uma trilogia onde a gente grava três músicas e faz três clipes dialogando entre si?” Seguimos conversando e Chaene sugeriu “Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro” (O Rappa). Fechamos com essas três músicas e o Rafa adorou. Elas têm essa temática sobre racismo, mas cada uma de forma diferente. O processo de tocá-las foi muito fluido, a gente não teve dificuldade de toca-las do nosso jeito. Com relação a parte visual, convidamos o Leonardo Pajé, que já tinha trabalhado com a gente em dois trabalhos – o “Punk Rock Nigga Roll” e o “I Can’t Breathe” – e ele acabou trazendo na bagagem a ideia de fazer um filme só com as três músicas e acabou rolando. Foi um trabalho que durou mais ou menos três meses. Ficamos bem ocupados durante essa pandemia e o trabalho é esse que vocês viram. A soma de ideias tanto do Pajé, quanto do Rafael Ramos e dos três membros da banda resultou no “Capítulo Negro”, trabalho maravilhoso que nos deixou muito feliz.

Atualmente temos vivido tempos reacionários nas esferas político-sociais. Mas a banda, por sua vez, tem levantado bandeiras progressistas (de raça e de classe, em especial), totalmente contrárias a ordem vigente manifestada pelo governo federal e a sua corja de apoiadores. Nesse sentido o quão desafiador é fazer de sua arte um manifesto contrário a onda conservadora que varre o mundo?
É complicado porque a gente está vivendo um tempo difícil para o país. Um tempo que vai juntando pandemia a este desgoverno, que está assumidamente negando os fatos, a ciência e consequentemente matando pessoas. Isso para banda acaba sendo um combustível na hora de compor, tocar e gravar, pois a gente transforma toda a raiva, esse ódio mortal a esse presidente maluco. Mas também é complicado porque além de termos um governo negacionista de direita escroto, temos milhões de pessoas que apoiam esse governo. O mais complicado é isso porque são essas pessoas que sustentam essas falácias. Nós sentimos que estamos do lado certo da história e falamos com todas as letras que somos contra esse governo e essas pessoas que o apoiam, tentando abrir os olhos delas. Creio que temos feito um bom trabalho, junto com várias outras pessoas que estão na linha de frente lutando.

Ainda na esfera política o nome da banda remete a militância dos Panteras Negras, partido norte-americano, que fez história e influenciou diversos movimentos de libertação negra mundo à fora. Partindo da premissa dessa referência, quem são as referências de militância que fizeram a cabeça do trio e ajudaram na formação intelectual de vocês?
A primeira referência são nossos pais que nós ensinaram desde pequenos a se comportar como adultos que somos hoje. Pessoas que respeitam o próximo, que não abaixam a cabeça diante das dificuldades, que trabalham forte e que sempre almejam buscar o melhor para nós e pros nossos. Então depois que a gente foi crescendo cada um foi dentro da sua. Posso citar uma referência musical para a banda, de combate, que é o Cannibal, da banda Devotos, que sempre escreveu letras duras, falando sobre a sociedade, sobre a forma como eles vivem lá no alto José do Pinho na periferia de Recife. Mas depois, conforme a gente foi ganhando espaço, fomos conhecendo outras pessoas. Uma pessoa muito importante para a banda hoje, falando da nossa formação intelectual, é a Luana Génot, que inclusive lançou um livro recentemente chamado “Sim à igualdade racial”. Ela é uma espécie de madrinha da banda, uma pessoa incrível pra gente. Outras pessoas (inspiradoras) são Djamila Ribeiro e nossos amigos do Quilombo Vermelho, em especial a Tristan, que nos presenteou com um livro, “A revolução e o negro” (Editora Iskra) que tem nos servido como inspiração para compor.

Falando em Devotos e Cannibal, tive a oportunidade de assistir vocês em BH, num distante dia dos pais em 2017, junto ao Dead Fish. Nesta noite em especial foi interessante perceber o quão a vontade a banda estava à no palco, entregando uma performance enérgica e brutal. Apesar da boa repercussão do material de estúdio é no palco onde a banda se sente mais à vontade?
Nada substitui o palco. Acho que a nossa melhor propaganda é ao vivo. A gente gosta muito de tocar. No palco é onde a gente se sente mais à vontade. Gravar é bom, mas sei lá, tem hora que a gente estar ali junto com as pessoas, ver o pessoal fazendo mosh… a gente se empolga e dá aquela acelerada a mais na música, aquele punch a mais e poxa… não tem como não perceber isso. Não tem como não perceber essa vontade que a gente tem de tocar, de se entregar totalmente. Realmente sentimos muita saudade. Já faz um ano, nosso último foi em março de 2020, e nós estamos loucos para voltar a tocar.

Ano passado vocês lançaram o single “I Can’t Breathe” em ode ao assassinato de George Floyd nos EUA. O fato gerou uma enorme comoção mundial e resultou num expressivo levante popular que é o Black Lives Matter. Vocês acreditam que acontecimentos como este, que no Brasil são infelizmente ainda mais comuns, possam reacender esperanças ligadas a busca equidade racial?
Eu creio que esse movimento nos EUA já acendeu uma chama aqui no Brasil. O Black Pantera protesta em forma de letra, através da arte, mas a gente acredita que realmente as pessoas precisam ir para as ruas para protestar, para dizer um basta à essa violência exagerada, focada só no povo preto que é o que mais morre pelo Estado. Isso é desumano. A gente não pode aceitar mais isso. E não é vitimismo, nem mimimi, é fato, é real. Nós cremos profundamente que essa chama tem que se manter acesa. Não podemos deixar isso acontecer mais. As pessoas precisam realmente lutar contra esse tipo de opressão.

Ainda falando de performances ao vivo: vocês já tiveram oportunidades de se apresentar em festivais nos EUA e na Europa, como o Afropunk (EUA/França) e o Download (França). Como se deu essa abertura? E como é a experiência de tocar para um público não familiarizado com a sua língua pátria?
Pois é, a primeira vez que a gente tocou fora do país foi em Paris, França, no festival Afropunk. E, cara, todas as vezes foram maravilhosas. A recepção do público é incrível. Parece que, mesmo não entendendo a letra, o pessoal sente a energia, a vibe e curte o show com a gente assim como se fossem brasileiros. Nossa segunda experiência também foi na França, no Festival Download. Estava lotado, mais de 50 mil pessoas assistindo a gente, inclusive tem vídeo no YouTube que mostra a interação da galera, participando das rodas de mosh. Nos Estados Unidos, no festival Afropunk, também foi a mesma coisa. A nossa última apresentação fora foi na Colômbia, em Medelín, e foi incrível também ver a molecada curtindo o nosso som. E após o show o pessoal veio trocar uma ideia, tirar foto… Sempre é incrível tocar fora do país. A gente tem o maior prazer de tocar pelo Brasil e fora também. A recepção é sempre muito calorosa.

Num curto espaço de tempo o grupo conquistou espaço no mercado fonográfico, tocou em grandes festivais e agora faz parte do cast de uma das mais importantes gravadoras do país (a Deck). Olhando para trás, vocês projetavam que a ordem dos acontecimentos se daria dessa maneira?
É muito louco pensar que em 2014 eu e o Chaene estávamos simplesmente dispensando convite do Charles para gravar músicas que ele já estava a um tempo querendo gravar e ninguém queria tocar com o cara. O Charles era um cara que tinha uns projetos meio fracassados aqui na cidade e eu dispensei a oportunidade de tocar com o Black Pantera naquele momento. Nem fiz questão de ouvir. O Chaene então gravou as duas primeiras músicas porque ele era irmão, né, foi obrigado, mas depois, cara, quando eu vi as duas primeiras gravações senti que essa seria a minha banda pro resto da vida. Senti uma energia brutal naquele som e falei: “Cara, eu tenho que tocar nessa banda. Ela vai ser meu projeto de vida”. E acabou que deu certo. O batera anterior só gravou essas faixas e saiu e eu acabei que entrei bem no começo da banda, gravei todos os outros sons. Então não sei se a gente imaginava essa proporção, mas os três já tinham isso como propósito de vida, porque a gente tinha se encontrado, já tinha tocado em outros projetos juntos e até em separado, mas a energia que nós três estávamos produzindo juntos nos ensaios e aí depois nos corres que a gente tem feito, as barreiras que temos enfrentado a cada ano que passa, tudo isso resulta nos frutos que estamos colhendo. Cada vez mais temos certeza de que a gente pode ir muito mais além. Não é sendo soberbo nem nada, mas é porque a gente sabe o potencial que o Black Pantera tem. Estamos trabalhando pesado. Nada disso foi sorte, nada disso foi por acaso. Muito disso não foi planejado (risos). Muito disso veio no feeling, aconteceu, mas agora eu tenho certeza que com a Deck dando esse suporte, esse apoio, a gente vai conseguir ir muito mais além. A gente sonha muito mais alto e almeja muito ser grande. Temos muitos sonhos pela frente. Estamos só no começo.

Traçar planos futuros em meio a uma pandemia é exercício dos mais difíceis. Ainda mais estando neste trem desgovernado chamado Brasil. Mas o que podemos esperar do Black Pantera em 2021? Quais as motivações vocês alimentam para seguir em frente?
Não está sendo fácil passar por essa pandemia porque nós temos outros trabalhos. Eu, o Chaene e Charles tocamos na cidade como músicos freelancer e a gente precisa botar comida dentro de casa. Além disso precisamos pensar no projeto de vida que é o Black Pantera. Mas em 2020 nós conseguimos produzir muito e já deixar a cama pronta para 2021. Então além do EP que a gente lançou em 2020, nós conseguimos deixar todas as músicas prontas para o nosso disco a ser lançado em 2021. Estamos agora planejando o lançamento desse novo álbum. Vamos lançar alguns singles antes até a data de lançar o álbum inteiro. Creio que fizemos um ótimo trabalho em 2020 e que 2021 vai ser mais fácil lidar. Apesar da pandemia e de não estarmos fazendo shows, nós poderemos focar mais no novo trabalho. Então o Black Pantera vai dar muito assunto para 2021. Pode ter certeza disso.

– Bruno Lisboa  é redator/colunista do O Poder do Resumão. Escreve no Scream & Yell desde 2014.

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