Meu disco favorito de 2020: Mateus Aleluia

MEU DISCO FAVORITO DE 2020 #5
“Olorum”, Mateus Aleluia
escolha de Marco Antonio Barbosa

Artista – Mateus Aleluia
Álbum – “Olorum”
Lançamento – 29/07/2020
Selo – Selo Sesc

“Não vejo o menor sinal de melhora em nada no Brasil.” – Maria Bethânia, em entrevista ao Estadão, em dezembro de 2020.

Talvez a baiana não tenha ouvido “Olorum”, mais recente álbum de seu conterrâneo Mateus Aleluia. Pois trata-se de um daqueles raros trabalhos que não impressionam apenas por seus méritos estéticos. Mas que também refletem a capacidade do brasileiro de encontrar beleza em meio às condições de vida mais duras. É justamente a obra de que nós (eu, a Bethânia, todo mundo) precisávamos em 2020. Pode não haver sinal de melhora no Brasil, mas um povo capaz de gerar uma obra desse quilate ainda tem chance de redenção.

O ano foi ruim para muita gente, mas foi bom para Mateus, que além de ter lançado seu terceiro disco solo, protagonizou um documentário (“Aleluia, o canto Infinito do Tincoã”) que aborda sua conexão íntima com a África. Com “Olorum”, ele percorre mais uma vez a estrada que liga a Bahia à África e reafirma o papel central da música na história de resistência do povo negro no Brasil. “Quebro meu cativeiro com um canto que é milenar”, pontifica em “Filho de Rei”. É um território que o músico, hoje aos 77 anos, palmeia desde a época em que integrava Os Tincoãs. Aqui, o conceito se concretiza em harmonias intuitivas (porém sofisticadas) e ritmos cativantes – e na voz de Mateus, arquétipo encarnado da tradição afro-brasileira.

Não é preciso estudar as filigranas da cultura dos orixás para desfrutar de “Olorum” (embora textos como o publicado pela Revista Continente ajudem). Do louvor dolente de “Kawô Kabiyesilê” à súplica aos céus de “Samba-oração”, passando pelo convite à dança de “Nganga Njila” ou “Bem-te-vi” (esta a dois, bem juntinhos) e a inesperada conexão com o r’n’b em “Pimenta Mumuíla”, a música de Mateus Aleluia dispensa rituais de iniciação ou dicionários de yorubá. Basta ser brasileiro para entendê-la e se emocionar com ela.

Marco Antonio Barbosa é jornalista (medium.com/telhado-de-vidro) e músico (http://borealis.art.br)

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