Três Perguntas: Apeles fala sobre a trilha sonora do filme “Boni Bonita”

por Renan Guerra

Apeles é o pseudônimo de Eduardo Praça, um veterano da música independente, que já integrou as bandas Quarto Negro e Ludovic. Após ter lançado “Crux” (2019) pela Balaclava Records, Apeles apresenta agora uma outra faceta que demorou alguns anos para chegar aos ouvidos do público: seu trabalho como compositor de trilhas sonoras. Apeles assina a trilha do longa “Boni Bonita”, de Daniel Barosa (leia resenha aqui).

Apeles e Barosa trabalharam de forma bastante conjunta na construção da trilha, que foi sendo moldada lado a lado com o roteiro. “Boni Bonita” acompanha, em quatro atos, a relação conturbada da jovem argentina Beatriz (Aílin Salas) com o músico Rogério (Caco Ciocler), ela com 16 anos e ele já com seus 30 e tantos, em um jogo complicado de amor e, em certa medida, de autodestruição. A relação entre cinema e música é bastante forte no filme e isso se reflete nas participações especiais de Ney Matogrosso e Otto.

A criação sonora de Apeles para o filme dividiu-se em três vertentes: a curadoria de músicas de outros artistas, a trilha sonora incidental e o tema do personagem Rogério. A canção tema “Pele” veio de uma demo que Apeles já tinha para seu disco “Crux”. “Mostrei ao Daniel e ela bateu pra gente como a música que o Rogério cria ao longo do filme”, explica o músico. “A letra foi inteira pensada como se ele estivesse escrevendo-a para a Beatriz, que é a personagem da Ailín Salas”. “Pele” ganhou um clipe assinado por Daniel Barosa, com cenas de “Boni Bonita”.

Esse é o primeiro longa metragem em que Eduardo assina a trilha sonora, porém esse projeto também é resultado de uma longa parceria com Barosa, já que eles trabalharam juntos em diferentes curtas-metragens, como “A Tenista”, de 2013. Para o Scream & Yell, Apeles respondeu três perguntas sobre a sua relação com o cinema, o trabalho de composição e os passos futuros de seu projeto. Confira abaixo:

“Boni Bonita” possui um clima meio angustiante, acho que isso pode ter a ver com a trilha, que constroi uma tensão nessa relação entre a Beatriz e o Roger. Você trabalhou com o Daniel Barosa desde o início, desde as primeiras versões do roteiro, então queria entender como foi o seu processo de construir sonoramente esse universo e se isso tem uma diferença muito grande pra você da construção de um disco.
O filme é de fato angustiante. Quando fizemos as primeiras reuniões sobre a trilha, sabíamos que era necessário tatear nessa dualidade entre alívio e tensão, que é o relacionamento dos personagens. Muito dos elementos técnicos que usei, como tape loops e outros recursos de degradação sonora, foram acionados justamente para criar essa tensão que a angústia te provoca, quando parece impossível superar determinada situação. Sobre o processo do disco vs filme, é uma excelente pergunta. Meus discos sempre foram construídos de forma roteirizada, escolho o tracklist observando essa montanha russa de sentimentos: intro, situação, ápice e conclusão. Como um estado febril, que você percebe como se sente, há o ápice e há a melhora. Minhas produções são muito imagéticas, então não vejo ainda um processo tão distinto do que foi o filme. De toda forma, tenho curiosidade em lançar alguma obra que mude seus climas drasticamente, sem esse lado conceitual.

O filme fala também sobre música independente e sobre esse fazer no Brasil. Misturado a isso, a trilha também traz alguns outros artistas independentes, como o Hurtmold, o Cidadão Instigado, a sua antiga banda Quarto Negro e também uma faixa inédita do Jair Naves. Como foi chegar nessa seleção que compõe o universo de “Boni Bonita”? Há outros filmes que relacionam música e cinema que te inspiram ou inspiraram de algum modo?
Tenho muito orgulho dessa seleção, ela é bem diversificada, mas ao mesmo tempo tem um retrato fiel à época que o filme se passa, leia-se a cena indie 2004-2010, e são bandas que tenho afeição. Além dessas músicas, existe cumbia colombiana com Pacho Galán, Titãs, uma banda sueca que eu e o diretor gostamos há anos chamada Division Of Laura Lee e também minha antiga banda Quarto Negro. O Barosa sempre nos acompanhou durante toda a trajetória da banda, foi legal contar com uma música no filme dele, é uma intervenção que me empolga muito. Não consigo citar uma referência de curadoria de um filme específico, mas gosto muito do trabalho de trilha e curadoria do T-Bone Burnett, o trabalho dele é cirúrgico nas escolhas. Essa é outra função de que me empolgo demais, a de music advisor, que pra minha surpresa não tem nem um termo específico no Brasil.

“Pele”, que ganhou um clipe com imagens do filme, está no seu disco “Crux”, do ano passado. Essa trilha também é anterior, pois sabemos o quão longo é um processo de lançamento de um filme – ainda mais num ano como 2020. De todo modo, nesse ano você lançou um single (“Tudo que te move”), fez uma live com a Jup do Bairro, como você tem se sentido nesse momento? Como você tem enxergado a sua arte e a sua produção nesse momento tão complexo? Há planos para o futuro?
Como você mencionou muito bem, a complexidade do momento me move em diferentes direções, já são 8 meses de pandemia, tive todas as fases da pandemia, do céu ao inferno algumas vezes. O que te salva é se manter produtivo, ou pelo menos tentar. Além do single, tive a oportunidade de conhecer o trabalho da Jup mais de perto, estou gravando uma música com outro artista da qual estou muito feliz com o resultado e pude trabalhar o “Crux” em alguns momentos como o clipe de “Pele”. A arte de certa forma está sendo ressignificada no momento, para o bem ou para o mal, há quem questione o seu papel na sociedade moderna e isso é muito preocupante, não só no Brasil. Recentemente vi uma entrevista do Damon Albarn sobre o sucateamento da cultura britânica, imagina por aqui? No momento estou em estúdio trabalhando em alguns projetos, colaborações, um EP e outro longa para 2022. Apesar das dificuldades, me sinto privilegiado de seguir escrevendo e produzindo e principalmente de estar sempre rodeado de artistas e profissionais da indústria da música que me inspiram a lutar diariamente.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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