Em SP, Iron Maiden prova que é a maior banda de metal da história

por Paulo Pontes

Domingo, no entorno do estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, eram vendidas camisetas, bonés, bandeiras, faixas, entre outros produtos, em sua maioria com alguma versão de Eddie estampada. Às 17h30, no interior do recinto, milhares de fãs já aguardavam ansiosamente os protagonistas da noite. Alguns deles até arriscaram uma fantasia do mascote — talvez o mais famoso da história da música — do Iron Maiden.

Mas antes de Steve Harris e sua turma invadirem o palco, exatamente às 18h40, eis que surge a banda do filho do “patrão” da Donzela. Sob o comando do guitarrista George Harris, os britânicos do The Raven Age até que agradaram boa parte do público presente no Morumbi. Mas o show não foi lá essas coisas.

Todos sabem como é difícil abrir para o Iron Maiden, tendo em vista a paixão que os fãs nutrem pelo grupo. O próprio George falou, em entrevista ao Scream & Yell, que “é definitivamente uma grande responsabilidade abrir para uma banda desse tamanho”. Pois é, eles se esforçaram para dar conta do recado, mas as nove faixas apresentadas soaram, de certo modo, muito parecidas e fizeram de um setlist relativamente curto um tanto quanto cansativo.

Os garotos se entregam muito no palco e são extremamente carismáticos, principalmente George Harris e o vocalista Matt James, mas o repertório, na maior parte calcado no bom “Conspiracy”, segundo álbum da banda, lançado no início de 2019, não funciona tão bem ao vivo. É claro que alguns momentos de destacaram, como, por exemplo, nas faixas “Fleur de Lis” — com ares de hit — e “Grave of the Fireflies”, essa última com uma participação do público que iluminou todo o estádio com luzes de celulares, a pedido de Matt.

Um fato curioso foi que, até a sexta música, os dois telões dispostos nas duas extremidades do palco mostraram apenas uma propaganda estática de um aplicativo da banda disponível para Android e IOS, depois disso eles simplesmente apagaram e assim ficaram até o final do show, prejudicando totalmente a visibilidade de quem estava mais distante do palco. Mas, de um modo geral, foi legal perceber o respeito dos fãs do Iron Maiden com o The Raven Age, interagindo bastante, mesmo com a ansiedade pelo show principal da noite. E ele não demorou!

Ao som da faixa instrumental “Transylvania”, um trailer do jogo para smartphones “Maiden: Legacy of the Beast” foi exibido nos telões. Vale lembrar que a atual turnê do grupo britânico, a “Legacy of the Beast Tour”, é exatamente para promover o jogo lançado em 2017. Em seguida, a famigerada “Doctor Doctor”, da banda UFO, saiu pelo sistema de som anunciando que o show do Iron Maiden se aproximava. Aí veio o trecho de um discurso proferido pelo ex-Primeiro-Ministro do Reino Unido, Winston Churchill, e todos já sabiam qual seria a sequência: “Aces High”, faixa de abertura do “discaralhaço” “Powerslave” (1984), que completa 35 anos em 2019. De cara já deu para perceber que o nível do show seria alto.

Uma enorme réplica de um caça Supermarine Spitfire, utilizado pelas tropas britânicas na Segunda Guerra Mundial, fica suspensa no palco enquanto Bruce Dickinson, Steve Harris, Dave Murray, Adrian Smith, Nicko McBrain e Janick Gers executam com perfeição cada uma de suas partes na música. Bruce está em forma, cantando muito bem, correndo e pulando o tempo inteiro pelo palco.

O vocalista brincou com uma espada nas mãos, enrolou cabos de guitarra em Dave Murray e Janick Gers, entrou em um “duelo” com Eddie — com direito a “tiro” disparado pelo mastro de uma bandeira do Brasil —, lançou chamas, carregou cruz, gritou “scream for me São Paulo” diversas vezes, enfim, foi o frontman que já conhecemos e fez a alegria de todos. É muito bom ver como ele se recuperou bem do câncer de garganta que o acometeu em 2015.

Daí pra frente foi uma saraivada de clássicos, efeitos especiais, mudanças de figurino (no caso de Bruce) e uma verdadeira aula de como deve ser um espetáculo de heavy metal. Apesar de nenhuma surpresa no setlist — já que a banda seguiu a risco as músicas e ordem de execução apresentada na sexta-feira, 04 de outubro, no Rock in Rio —, o vocalista fez questão de salientar algumas vezes que aquele seria o melhor show da turnê.

A banda passou por clássicos indiscutíveis, como, “2 Minutes to Midnight”, “The Trooper”, “Revelations”, “Flight of Icarus” — nessa, que, antes da atual turnê, não era tocada pela banda desde 1986, um grande boneco de Ícaro deixa tudo ainda mais teatral e impactante —, “Fear of the Dark”, “The Number of the Beast” e, antes do bis, encerrou com “Iron Maiden”, com direito a uma cabeça gigante da mais nova versão “endiabrada” do mascote Eddie. Entre elas ainda teve espaço para duas da fase Blaze Bayley: “The Clasman”, do renegado — com certa razão — “Virtual XI” e “Sign Of The Cross”, presente no excelente “The X Factor”.

Apesar de já estar com o público totalmente ganho, a banda retornou com mais três faixas: “The Evil That Men Do”, “Hallowed Be Thy Name” (as duas seguidas, editor) e “Run to the Hills”. Ao final, Bruce Dickinson alertou: “Enquanto vocês estiverem aqui, nós voltaremos a tocar até cairmos mortos em cima do palco”. Pronto! 100% de aproveitamento e público contente saindo do Morumbi ao som de ‘Always Look on the Bright Side of Life”, do Monty Python. Uma noite memorável, em que, mais uma vez, o Iron Maiden provou porque é considerada a maior banda de heavy metal de todos os tempos. Há controvérsia?

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash, assina a Kontratak Kultural e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.

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