Entrevista: The Inspector Cluzo

entrevista por Pedro João

Laurent Lacrouts me contou que, logo depois do Lollapalooza Brasil 2019, ele e Mathieu Jourdain – a outra metade do duo francês The Inspector Cluzo – voltariam imediatamente para sua fazenda. “Nesta quarta-feira, precisamos começar a plantar milho”, disse em entrevista ao Scream & Yell ao término de sua apresentação no festival.

Há dez anos, a banda que vive apenas com uma guitarra e uma bateria alcançou a independência da indústria alimentícia. Ou seja, em sua fazenda na Gasconha, no sudoeste da França, eles produzem tudo o que comem. “Esse é o futuro. Inclusive, estamos nos preparando para isso. No nosso celeiro, vamos montar um curso para quem quiser aprender tudo aquilo que os nossos avós nos ensinaram.”

Além de não depender do supermercado para comer, a dupla também não depende de nenhum agente, gravadora, ou qualquer coisa do tipo. Mesmo já tendo visitado mais de 52 países fazendo shows, são eles que cuidam de tudo relacionado à banda que mistura funk rock com metal. Abaixo, Mathieu revela como eles encontraram um equilíbrio para organizar tudo isso e, ainda assim, viver uma vida que eles prometem ser mais tranquila do que a de quem mora na cidade grande.

10 anos de banda e 10 anos de independência. Por que é importante para vocês se manterem assim e como administrar uma carreira no rock e uma fazenda orgânica em paralelo?
É muito importante para a gente porque é assim que garantimos que a nossa música seja sempre verdadeira. Sem compromisso com ninguém. O que a gente fez no palco aqui do Lollapalooza, por exemplo, é algo único, diferente de todo mundo. Acho muito complicado fazer esse tipo de coisa quando tem várias outras pessoas investindo dinheiro nisso. E, depois de tanto tempo, a gente está se estruturando cada vez mais para conseguirmos fazer tudo “sozinhos”. Por exemplo, nosso selo, agora, é distribuído pela Caroline Records, mas o contrato é única e exclusivamente de distribuição. Quem paga as contas, ainda somos nós. Trabalhamos muito: organizamos agenda, administramos o selo, coordenamos todas as atividades… Já passamos por mais de 52 países, sabe? Mas, somos um time. Temos um bom engenheiro de som, minha mulher cuida dos contratos e, quando não estamos na fazenda, é ela quem cuida de tudo lá. Com ajuda dos nossos vizinhos, é claro. São os dois velhinhos que aparecem no nosso documentário “Rockfarmers” (2015 – nota do editor: que você pode assistir no final do texto). Eles são brasileiros, inclusive. Todo mundo se ajuda por ali. Mas, é isso, quando a gente voltar, vamos imediatamente começar a plantar milho nessa quarta-feira. É o equilíbrio que encontramos e queremos manter as coisas como estão. Aliás, achamos que não faz sentido ficar trabalhando que nem louco. Então, não tem agente que fica pressionando a banda, prazos ridículos, etc. Adoraríamos abrir para o Pearl Jam, mas talvez isso só aconteça se eles mesmos conhecerem o nosso som naturalmente. Acho que se vissem, iam gostar (risos). Essa é a nossa história e ela já tem 10 anos. Acho que está dando certo.

Soube que vocês costumam aproveitar as viagens de shows para visitar fazendas dos países em que estão. Fizeram isso no Brasil?
Aqui não conseguimos, mas fizemos isso na Costa Rica. Vimos algumas coisas interessantes por lá. Porque a gente sempre pega algumas referências do que a gente vê pelo mundo e tentamos adaptar para a nossa realidade. Por exemplo, no México, a gente viu um documentário enquanto estávamos lá. Eles tem um método de produção em que se planta milho, feijão e abóbora ao mesmo tempo. Quando voltamos, falei para minha mulher: vamos fazer um quadrado, jogar um milho e ver se isso vai funcionar. Tentamos fazer um pouco de arroz também com as coisas que aprendemos no Japão. Coisas desse tipo. No Brasil, não, mas a gente está planejando em fazer isso em breve. Porque como todos os países grandes do mundo, principalmente nos países mais novos e ricos, é uma luta entre a indústria e as fazendas orgânicas. Na França é um pouco parecido, tem uma fazenda que vai abrir na frente da nossa que será gigantesca. Na sexta-feira, temos uma reunião para brigar pelo nosso espaço, inclusive. Queríamos fazer ações, na verdade, com os fazendeiros dos lugares em que visitamos para conscientizar todo mundo a respeito do uso de agrotóxicos e transgênicos. Fizemos isso nos Estados Unidos, em Wyoming, Kansas, Wisconsin… Discutimos isso com eles. Em alguns lugares, inclusive, eles nem tinham essa possibilidade em mente, mas estavam abertos para avaliar nossas propostas. Então, não tem briga-briga, de fato. É uma conexão que tentamos fazer. Até porque, mesmo para a gente, na França é muito difícil fazer as coisas como a gente faz. Não tem nenhum pesticida no nosso circuito todo por ali. Por isso, temos muitas abelhas na nossa região. Mas, se os caras começarem a usar na fazenda da frente, não teremos mais essas abelhas. Então, a gente precisa se proteger para conseguir continuar assim.

Em geral, o rock é associado à vida nas grandes cidades. Por que vocês escolheram especificamente o rock para investir? Como e quando o rock surgiu na vida de vocês?
O rock é mais urbano quando ele é inglês. A gente segue uma linha mais norte-americana, que tem a ver com o interior, com o solo, com a terra. A gente faz uma música “caipira”, por assim dizer. Sentimos o cheiro do chão. Tudo de um jeito norte-americano e agressivo, se não, nem rock é, é música pop. Nós tentamos fazer um balanço, sempre respeitando quem nós somos. Nós não somos norte-americanos, mas respeitamos profundamente essa música que, na realidade, nasceu no centro dos Estados Unidos com a escravidão. Para ir além na sua questão, achamos que essa música precisa ser regenerada por novas gerações das quais não fazemos mais parte. E, na medida do possível, seria muito bom se essas novas propostas não viessem dos Estados Unidos ou da Inglaterra. Queria ver um approach novo. Mas, com respeito às bases dessa música: feita com seriedade, agressividade (de um jeito bom), poderosa, rock and roll. E essas novas abordagens existem. Em Madagascar, por exemplo, tem uma cena forte. Na França praticamente não há rock, porque ele não é tão cultural lá, mas a gente vem de uma parte da França que se conecta demais com o solo e isso naturalmente leva a gente para o rock, de certa forma. Mas, é isso. Tem o Greta Van Fleet, que nós amamos. Ficamos muito felizes de ver uma banda jovem como eles dando certo. Tocando um rock norte-americano e tendo sucesso, precisamos desse tipo de música sendo revigorada. Por exemplo, no meio do nosso show, a gente faz umas piadas. É uma coisa nossa. Agora, se você fizer isso na Inglaterra, as pessoas vão ficar chateadas. Porque o rock é como uma religião, uma igreja. Mas, tem que sair disso! É irritante. É isso: precisamos ter pessoas diferentes fazendo rock. É respeitar as regras e ser barulhento.

Em “Cultural Misunderstanding”, me parece que vocês estão falando sobre alteridade. No Brasil, é comum associar a vida no campo, nas fazendas, a um ponto de vista político conservador. Parcialmente, isso procede quando consideramos a quantidade de riqueza concentrada nas mãos dos donos de terra. Como vocês estão ajudando a mudar essa perspectiva? E mais, a vida na fazenda é para todo mundo?
Ok, eu não sabia isso do Brasil. Na França, é diferente. Tem poucas pessoas morando no interior por lá. Devem ter umas oito cidades em que todo mundo fica concentrado. São capitais enormes. Nós somos da geração que decidiu trilhar um caminho oposto. E, nesse sentido, fomos muito corajosos, porque nós voltamos de verdade para o campo. O futuro é você plantar sua comida, ser independente, conservar o espaço em que você vive, e precisamos respeitar nós mesmos também, precisamos respeitar uns aos outros. Não há nada de conservadorismo nisso. As pessoas que fazem isso, na França, são progressistas. É claro que sempre tem gente estúpida, em qualquer lugar tem. Mas, eu diria que as pessoas mais conservadoras, hoje, estão nas metrópoles. Nossa maneira de viver é a mais lógica e essa é uma conclusão em que as pessoas, eventualmente, vão chegar. Nós somos a geração que vai ensinar as novas gerações que estão saindo das cidades, ou que um dia sairão das cidades, a como se alimentar quando eles perceberem que esse é o futuro. E a gente está se preparando para isso. No nosso celeiro, a gente montou uma escola. Vamos explicar tudo o que nós aprendemos com o nosso avô. Queremos transmitir isso. Porque, com certeza, uma hora esse momento vai chegar. Não são todas as pessoas que nasceram para isso, mas eu diria 50% ou 30% das pessoas vão se cansar de comer porções estúpidas de comida, de se estressar o tempo inteiro, de ficar preso no trânsito… Isso não é vida. Não é nada! É um passo pequeno, mas é um passo. A gente viu os nossos avós serem completamente felizes no campo, alimentando-se independente. Eles conseguiram atravessar duas guerras e mantiveram o sorriso no rosto o tempo todo. É esse o exemplo que queremos seguir.

Pedro João é jornalista tendo passado pelas redações da Elle Brasil e da Veja Comer e Beber. Conheça seu canal no Medium.

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