Faixa a faixa: “Jeza Kassin”, Jeza da Pedra + Kassin

Introdução por Renan Guerra
Faixa a faixa por Jeza da Pedra

Kassin e Jeza da Pedra são dois artistas do Rio de Janeiro de backgrounds completamente distintos. Kassin é branco, hétero, crescido na zona sul carioca e um dos produtores mais respeitados de sua geração, tendo trabalhado com gente como Caetano Veloso, Jorge Mautner, Los Hermanos e Gal Costa. Além disso, possui uma excelente carreira solo e ainda participou de projetos como Acabou La Tequila, +2 e Orquestra Imperial.

Jeza da Pedra é negro, gay e crescido no Complexo da Pedreira, favela da zona norte do Rio, onde o rapper vivenciava cenários díspares como o domínio pop do funk e o boom neopentecostal. Jeza lançou o EP “Pagofunk Iluminati” em 2017 e um ótimo single chamado “Junto ao Meu Lado”, com participação de Sofia Vaz, da banda Baleia, e Migué. Em 2018, o rapper fez a sua primeira turnê na Alemanha, sendo convidado como atração na segunda maior parada LGBTQ da Europa.

Essa junção improvável gerou um trabalho distinto na carreira de ambos e que é apresentado agora com o lançamento do EP “Jeza Kassin”, pelo selo LAB 344 – um prelúdio de um disco completo que deve surgir mais pra frente. Esse primeiro EP da dupla flerta com o hip-hop, o funk 150 bpm e a música eletrônica, criando um diálogo entre as batidas fortes de Kassin mescladas aos versos políticos de Jeza.

“Desde o começo, a gente tinha a ideia de tratar cada faixa como uma crônica musical, com o olhar voltado para o agora. Tudo foi criado no meio de um clima doido que o Brasil está vivendo desde antes das eleições”, fala Jeza. Se “a vida é real e de viés”, é sobre esses diferentes vieses que Jeza da Pedra fala nesse faixa a faixa do disco que você confere abaixo:

1-Pedra do Sal
A Pedra do Sal é sinônimo de resistência, berço do samba e local sagrado onde nasceram as religiões afro-brasileiras. Antes da zona portuária ser aterrada o mar começava exatamente ali. Fiquei viajando nessa parada da Pedra do Sal, na falácia da meritocracia, no apartheid geográfico que recorta o Rio e priva o direito de ir e vir das pessoas que moram distantes do Centro e da zona sul. O mote da letra surgiu depois que o Kassin me explicou que a linha percussiva tinha enredo com toques de Exu. A gente também tinha como referência fazer um bagulho meio “DJ Dennis do mal”, algo que fosse dançante, bem pra cima numa vibe tipo pista de dança da Via Show.

2-IH CRL
Foi a música que fizemos mais rápido no estúdio. Mauro, Kassin e eu estávamos conversando sobre a pira do 150bpm no Rio, de como que se constituía o corpus linguístico do funk dentre outras paradas. O funk, tal como é produzido e consumido na favela nos dias de hoje, não tem pretensão de soar politicamente correto, porque nesses territórios periféricos as leis, a soberania e legitimidade do Estado desaparecem por questões óbvias (impunidade policial, descaso com a saúde, educação, saneamento, cultura, e por aí vai). É também uma voadora na indústria cultural porque quem produz funk, tá cagando se o som vai vingar ou não na pista. Acho que a gente fez a “IH CRL” com esse ímpeto do “foda-se”. A gente só tava querendo se divertir fazendo um som maneiro. Sou suspeito pra falar, mas acredito que o nosso registro ficou bastante fidedigno à proposta de um proibidão tiro de bazuca hi-tech.

3-Escuta
Essa foi a última que entrou no EP. Eu tava com a letra e melodia prontas e muito sem graça de mostrar ao Kassin porque achava tudo muito love song ‘xonadinha’ e diferentona demais. Eu a compus pensando no tanto que já vacilei por causa desse bagulho de ciúme e inseguranças. A princípio, a ideia era fazer um funk melódico, só que parecia que a gente tava utilizando uma fórmula meio batida e repetitiva, o que destoava esteticamente do projeto e não dialogava muito bem com a proposta musical daquilo que havíamos imaginado. Foram três versões até chegar ao resultado final. Eu queria que o nome fosse “Amor Líquido” por causa de um livro do Zygmunt Bauman, que já me fez pirar bastante. Só que parecia um nome acadêmico demais para uma love song. Perguntei ao Kassin o que achava e ele rechaçou a ideia, mas simplificou as coisas com uma sugestão melhor: “Escuta”. Aí ficou o nome.

4-Lajão do Final Feliz
É sobre os bairros que fizeram e ainda fazem parte da minha história no Rio. É sobre um percurso que começa em Madureira e passa por vários bairros e favelas da zona norte até chegar na Prainha do Vidigal e terminar na estação de metrô General Osório, em Ipanema. Há muitos anos, havia uma pichação no muro da estação de metrô da Pavuna dizendo que “Pavuna significa buraco escuro em tupi”. Nunca procurei saber se essa informação é de fato verídica, contudo, creio que todos que vivem naqueles arredores têm esse inscrito na memória – e isso me marcou tanto que acabou entrando na letra. Acho importante exaltar bairros e favelas que não figuram com frequência na música popular e que fazem parte daquilo que eu sou.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o site A Escotilha.

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