Boteco: 12 cervejas nacionais

por Marcelo Costa

Abrindo uma nova série nacional de duas cervejas por cervejaria com a paulista Blondine, de Itupeva, que marca presença com a Blondine Verão, uma American Light Hop Lager de coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e retenção. No nariz, percepção de uma leve e agradável presença de lúpulo herbal sobre uma base maltada bem leve e refrescante, com cereais discretos. Na boca, o lúpulo herbal volta a dar as cartas no primeiro toque, e segue dominando o conjunto, que ainda traz doçura média e amargor de acordo com o estilo popular, 18 IBUs que conseguem equilibrar um conjunto bastante sutil e de fácil assimilação e agradabilidade. A textura é levemente picante sobre a língua (o lúpulo herbal volta a mostrar sua força) e, dai pra frente, surge uma cerveja que entrega o que promete: refrescancia para os dias quentes de verão com sabor e leveza. No final, secura e notas herbais. No retrogosto, amarguinho, refrescancia, herbal e doçura. Uma boa surpresa.

A segunda da Blondine também investe numa Lager de grande alcance: a Pivo Czech, uma Bohemian Pilsner cujo rótulo traz desenhos de pontos turísticos de Praga, capital da República Tcheca (como a Charles Bridge e o Castelo de Praga). De coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e retenção, a Blondine Pivo Czech traz um lúpulo mais floral (enquanto a Verão aposta no lúpulo herbal) e destaque disparado para o malte, que oferece uma paleta aromática clássica, com sugestão de casca de pão e cereais. Na boca, doçura maltada bem leve no primeiro toque seguida de leve floral e um amargor limpo, mas marcante (40 IBUs corretos). A textura é cremosa e levemente picante. Dai pra frente segue-se um conjunto bastante caprichado e refrescante, com leve floral e malte em destaque. No final, secura e amargor. No retrogosto, leve floral, amargor suave e refrescancia. Boa!

De Itupeva para Petropolis, no Rio de Janeiro, com a terceira Black Princess a passar por aqui (após a Let’s Hop e a Miss Blonde), a Back To The Red, uma Vienna Lager que apresenta uma coloração âmbar acastanhada com creme bege clarinho de boa formação e média alta retenção. No aroma, doçura de caramelo se destaca, mas ainda é possível perceber leve toque de tosta, de casca de pão e, ainda, de frutas vermelhas. Na boca, o primeiro toque traz doçura caramelada com leve presença de tosta. Na boca, novamente doçura caramelada comanda, não só no primeiro toque, mas em todo o percurso subsequente, com pouca presença de amargor (não chega a 20 IBUs, e o estilo permite). A textura é leve e, dai pra frente, surge um conjunto com menos corpo do que uma Vienna Lager tradicional, mas, ainda assim, bem interessante, com doçura maltada dando conta do recado. No final, doçura maltada. No retrogosto, caramelo.

A segunda da Black Princess é a Doctor Weiss, uma Kristallweizen (ou seja, um Weiss fitrada) que exibe uma coloração dourada cristalina com creme branco de excelente formação e longa retenção. No nariz, as notas clássicas do estilo trazendo fácil percepção frutada remetendo a banana, leve condimentação e doçura maltada na base. Na boca, doçura caramelada média no primeiro toque seguida de intensa presença de sugestão de banana, leve condimentação e um sutil metalizado. O amargor é baixo, a textura é leve na metade do caminho para o suave. Dai pra frente, uma Kristallweizen tradicional, ainda que o metalizado aumenta a presença conforme a cerveja aquece num conjunto que, conforme manda a regra do estilo, paga tributo à banana, ao cravo (derivados da levedura) e á doçura do trigo. No final, doçura e banana. No retrogosto, mais banana (afinal, é uma Weiss), mais doçura caramelada.

De Petrópolis para Belo Horizonte, com duas cervejas especiais da Cervejaria Wäls para o clube de associados MadLab. A primeira, engarrafada em novembro, é a Panetone Ale, uma Belgian Dubbel com adição de extrato natural de panetone mais noz moscada, uva passa, canela, laranja, limão e cravo. De coloração âmbar escura, praticamente um marrom translucido, com creme bege de boa formação e média retenção, a Wäls MadLab Panetone Ale apresenta um aroma extremamente condimentado, com destaque para canela, cravo e algo que remete a cardamomo. Há, ainda, doçura maltada na base, sugestão de panetone e mais condimentos. Na boca, condimentos no primeiro toque (novamente anela e cravo) seguidos de mais condimentação, doçura de malte e sugestão de biscoito. A doçura se sobrepõe ao amargor e os 7.5% de álcool não aparecem em nenhum momento. A textura é suave e, dai pra frente, segue-se um interessante chá de condimentos variados, com doçura maltada na base. No final, canela, cravo e caramelo. No retrogosto, mais canela, mais cravo, mais caramelo, leve cardamomo.

A segunda do clube MadLab da mineira Wäls é a Niobiumdemissouri, entregue aos assinantes em janeiro de 2019, uma versão envelhecida da melhor (Imperial) IPA da cervejaria, a Niobium (com quatro tipos de lúpulos: Polaris, Saaz, Cascade e Galaxy), que aqui passa por um descanso em barricas de madeiras virgens tanto de carvalho francês quanto de carvalho norte-americano (vindo do Missouri). De coloração âmbar acastanha com creme bege de boa formação e média alta retenção, a Wäls MadLab Niobiumdemissouri apresenta um aroma com forte presença de madeira em meio a doçura intensa de caramelo, além de discreta notas cítricas. Na boca, doçura caramelada no primeiro toque seguida de leve cítrico e, então, um atropelo de madeira. Já o amargor é um pouco mais sutil do que a pancada de 93 IBUs da versão original, mas, ainda assim, de respeito. A textura é suave e também picante (de álcool). Dai pra frente, uma Imperial IPA Wood Aged bem interessante, que perdeu (claro) a força dos lúpulos, mas ganhou bastante com a madeira. No final, cítrico, madeira e álcool. No retrogosto, mais cítrico, mais madeira e mais álcool. Boa!

De Belo Horizonte para o bairro de Santa Cecilia, em São Paulo, casa da Cervejaria Dogma, com duas receitas exclusivas produzidas e vendidas apenas no taproom da marca. A primeira é a Hoppy Little Secret, uma Session Hop Lager de apenas 3.3% de graduação alcoólica feita com aveia e cevada. De coloração dourada cristalina com creme branco de boa formação e permanência, a Dogma Hoppy Little Secret apresenta um aroma delicioso que combina notas florais com uma pegada herbal intensa, sugerindo grama e pinho. Na boca, herbal apaixonante no primeiro toque seguido de floral e uma incrível refrescancia. O amargor é baixo, a textura é leve e seca e, dai pra frente, o conjunto prima na combinação de refrescancia, leveza e sabor (herbal). No final, secura, refrescancia e herbal, sugestões que retornam no retrogosto, delicioso.

A segunda cerveja da Dogma, também produzida no taproom da cervejaria no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, é a Simian, uma colaborativa com a carioca Three Monkeys, e o estilo escolhido foi o Oatmeal Stout, que recebe adição de café, baunilha e cacau. De coloração marrom escura translucida com creme bege de baixa formação e média retenção, a Dogma Simian apresenta um aroma com café e baunilha lutando pela atenção do bebedor (o café vence momentaneamente) enquanto o cacau fica na base, acompanhado de mais café. Na boca, um replay caprichado do que o aroma adianta com café marcando o primeiro toque e baunilha surgindo suave na sequencia seguida de mais café e leve cacau. O amargor é bem suave, 40 IBUs que nem aparecem tanto. A textura é suave e, dai pra frente, o conjunto segue balizado entre café e baunilha com o cacau sempre secundário, mas interessante. No final, amargozinho de torra e café. No retrogosto, baunilha, cacau, café e cappuccino.

Do bairro de Santa Cecília, casa da Dogma, para o bairro de Perdizes, casa da Cervejaria Trilha, com duas latas produzidas e envasadas no taproom local da marca. A primeira é a Xicajá, uma Witbier que recebe adição de cajá, produzida em parceria com a histórica Casa de Francisca, visando celebrar os dois anos da casa em seu novo endereço, no centro histórico de São Paulo, e lançada comercialmente em fevereiro de 2019. De coloração amarelo palha levemente turva e creme branco de boa formação e média alta retenção, a Trilha Xicajá exibe um aroma com intenso… cajá! A fruta domina completamente o aroma, que ainda deixa passar leve doçura de trigo e condimento derivado de levedura. Na boca, um replay do aroma com o cajá brilhando, delicioso, no primeiro toque, e ainda dando as cartas, com leveza e muito sabor, na sequencia. Desconsidere amargor, preste atenção no leve condimentado. A textura é leve caminhando para o suave. Dai pra frente, uma baita Fruit Beer (mais do que Witbier), com o cajá belamente inserido. No final, secura e leve adstringência. No retrogosto, cajá.

A segunda lata da Cervejaria Trilha, produzida e envasada no taproom da marca no bairro de Perdizes, em São Paulo, é a Faun’Amora, uma kettle sour com adição de suco de amora, lançada em agosto de 2017. De coloração vermelha e creme branco avermelhado de média formação e retenção, a Trilha Faun’Amora apresenta um aroma com forte presença de frutas vermelhas (além de amora, sugestão de cereja e de morango) trazendo consigo doçura frutada e acidez. Na boca, frutas vermelhas no primeiro toque seguida de acidez média e muita refrescancia. Assim como a anterior, amargor não tem espaço aqui, mas fique atento à acidez, leve, mas interessante. A textura é leve, com picância bem discreta. Dai pra frente, outra baita fruit beer, em que a fruta dá todo um novo significado para a receita de estilo, ao mesmo tempo em que a amacia. No final, leve secura, amarração e acidez. No retrogosto, frutas vermelhas variadas e refrescancia.

Da capital paulista para Várzea Grande, interior de São Paulo, com duas colaborativas da Cervejaria Dádiva. A primeira delas é a Kōhī (café em japonês), colab com as garotas da Cervejaria Japas, uma Double New England IPA que leva adição de cascas de dekopon, tangerina de origem japonesa, e café. De coloração amarela turva, juicy como um suco, e creme branco de média formação e boa retenção, a Kōhī apresenta um aroma provocante com café marcando presença por acidez e a casca da tangerina acrescentando notas cítricas sobre uma base que traz mais cítrico e, também, condimentação. Na boca, a casca da tangerina se destaca trazendo consigo acidez no primeiro toque, que segue marcando a boca na sequencia com o café marcando presença de maneira bem sutil. O amargor é baixo, pois a levedura parece atuar mais com condimentação. Já a textura é cremosa com leve picância. Dai pra frente segue-se um conjunto provocante, que foge das características de uma NE “clássica de uma maneira bem bacana. No final, amargor leve e tangerina. No retrogosto, tangerina, café, picância, amargor e refrescancia. Delicia!

Fechando o passeio com a segunda da Dádiva, desta vez uma colab com a Mean Sardine, de Portugal, a Tannat Barbe Rouge Grape NE IPA, que leva adição de uva Tannat (cultivada no Brasil) e do lúpulo Barbe Rouge, ambos de origem francesa. De coloração avermelhada com creme branco de baixa formação e retenção, a Tannat Barbe Rouge Grape NE IPA apresenta um aroma com bastante frutado em destaque (goiaba vermelha, um tiquinho de melancia e muita uva) além de leve condimentação e efervescência derivada da levedura. Na boca, uva e goiaba no primeiro toque seguidos de leve acidez e mais uva, goiaba e condimentação. O amargor é limpo e baixinho, não atrapalhando o destaque da receita, que é a uva. Já a textura é levemente picante com um tiquinho de efervescência. Dai pra frente surge uma Anti-NEIPA, pois ela coloca as características do estilo em segundo plano e valoriza a fruta num resultado agradabilíssimo (pra quem não espera uma NEIPA). No final, uva e goiaba. No retrogosto, uva, goiaba e acidez bem leve. Delicia.

Balanço
Abrindo com uma Hop Lager de viés norte-americano bastante agradável da Blondine, a Verão, que tem um baita custo benefício interessante. Para dias quentes, uma ótima pedida. A outra Blondine, Pivo Czech, mira na República Tcheca, e acerta novamente. A Black Princess Back To The Red Lager é uma boa Vienna Lager assim como a Black Princess Doctor Weiss é uma boa Kristallweizen. Ambas não acrescentam nada ao estilo, mas replicam os fundamentos de maneira correta. Já a Wäls MadLab Panetone Ale é uma agradável cerveja natalina enquanto a Niobiumdemissouri “brinca” com uma das estrelas da casa, a Imperial IPA Niobium, e ainda que o resultado não esteja a altura da cerveja de linha, essa versão envelhecida é bem interessante. Agora com duas Dogmas: a primeira, Hoppy Little Secret, é uma interessante e refrescante receita de 3.3% de álcool. A colab entre Dogma e Three Monkeys, a Simian, é uma Oatmeal Stout bem saborosa, com café e baunilha inseridos de maneira bastante interessante. Da Trilha, a primeira, Xicajá, é uma deliciosa fruit beer – muito mais do que witbier. Deve combinar muito com os belos pratos servidos na Casa de Francisca. Já a Faun’Amora segue pelo mesmo caminho, sendo muito mais uma Fruit Beer do que uma Keetle Sour. E é deliciosa.

Blondine Verão
– Produto: Hop Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3.11/5

Blondine Pivo Czech
– Produto: Bohemian Pilsner
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.11/5

Black Princess Back To The Red Lager
– Produto: Vienna Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3.01/5

Black Princess Doctor Weiss
– Produto: Kristallweizen
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.2%
– Nota: 3.01/5

Wäls MadLab Panetone Ale
– Produto: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3.33/5

Wäls MadLab Niobiumdemissouri
– Produto: Wood Aged Beer
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3.45/5

Dogma Hoppy Little Secret
– Produto: American Light Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 3.3%
– Nota: 3.33/5

Dogma Simian
– Produto: Oatmeal Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.3%
– Nota: 3.59/5

Trilha Xicajá
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3.41/5

Trilha Faun’Amora
– Produto: Kettle Sour
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.1%
– Nota: 3.44/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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