Boteco: Dez cervejas de cinco cervejarias brasileiras

por Marcelo Costa

Abrindo uma nova série de duas cervejas por cervejaria com a Everbrew, de Santos, que já passou por aqui com bate papo com os cervejeiros, mas ainda não tinha cervejas suas na nossa lista. Corrigindo isso primeiramente com a Evermass, uma Double New England IPA lançada em agosto de 2017 cujo nome homenageia Massachussets, Estado da região conhecida como New England dos Estados Unidos. Na receita, lúpulos El Dorado, Amarillo e Simcoe com uma base carregada em Aveia e Trigo. Na taça, ela apresenta uma coloração amarelo alaranjada, juicy tal como um suco de tangerina, com creme branco de boa formação e retenção. No nariz, muito (mas muito mesmo) frutado cítrico e tropical (mamão, laranja, maracujá e manga) e uma leve sensação de pinho e de doçura (cítrica). Na boca, um suco incrível de frutas no primeiro toque (manga e mamão em destaque) seguido de refrescância e um amargor tão leve e limpo que nem parece estar ali (70 IBUs, mas poderia ser 30). A textura é suave, aveludada e muito levemente picante. Dai pra frente segue-se em conjunto impressionantemente frutado e muito saboroso. No final, manga, mamão e secura. No retrogosto, mais manga, mamão e, também, maracujá, além de leve pinho e refrescância. Uma delicia.

A segunda é a EvenMo Ever Mais, uma colaborativa entre os santistas da EverBrew e os nova-iorquinos de Northport da Sand City Brewey, que primeiro foi lançada nos Estados Unidos e, depois, ganhou essa edição nacional. Trata-se de uma Imperial NE IPA com dry-hopping dos lúpulos Citra, Motueka, Idaho7 e Mosaic. De coloração amarela turva, como um suco de laranja, e creme branco de boa formação e permanência, a Even Mo Ever Mais exibe um aroma com uma oferta intensa de frutas tropicais (laranja, manga e mamão) e leve percepção de álcool (8.7%), principalmente quando a cerveja aquece. Na boca, suco delicioso de laranja no primeiro toque acrescido de mamão e manga na sequencia além de uma leve condimentação e amargor (na mesma pegada da anterior). A textura é suave com leve picância (mais de álcool do que de lúpulo) e, dai pra frente, surge uma baita New England IPA, que soa um tiquinho inferior a EverMass, mas é tão bonita e saborosa quanto. No final, manga e harsch suave. No retrogosto, mais frutas amarelas, álcool e harsch bem sutis. Delicinha.

De São Paulo para Guapimirim, no Rio de Janeiro, onde são produzidas as cervejas da Botto Bier, de Leonardo Botto, um dos cervejeiros precursores de artesanais no país. Já passaram por aqui a Zoontje, a Thor (produzida em colaboração com a Tupiniquim) e a Dama do Lago (feita com a Eisenbahn) A primeira é a Jahe, uma Belgian Witbier cuja receita combina maltes de cevada e de trigo, aveia em flocos, lúpulos nobres, levedura Belgian Abbey, sementes de coentro, casca de laranja e um toque de gengibre fresco. De coloração amarela (mais para Blue Moon do que para Hoegaarden) tendendo ao dourado com leve turbidez e creme branco de boa formação e retenção, a Botto Bier Jahe apresenta um aroma suavemente frutado (casca de laranja e de limão em destaque) com também condimentação discreta e aconchegante (semente de coentro e gengibre perceptíveis). Na boca, frutado cítrico com leve azedinho no primeiro toque seguido de mais frutas cítricas, condimentação suave e refrescância. O amargor é baixinho (11 IBUs) enquanto a textura é levemente frisante. Dai pra frente surge uma baita Witbier, que entrega refrescância e um paladar delicioso. No final, limão e leve toque mineral. No retrogosto, mais mineralidade, frutas cítricas e refrescância.

A segunda Botto Bier é a Alquimia, uma Imperial IPA cuja receita combina cevada, trigo e aveia em flocos com os lúpulos Columbus, Citra e Amarillo mais leveduras West Coast, East Coast (Vermont) e US-05 American Ale. De coloração âmbar clara com creme bege clarinho espesso de boa formação e retenção, a Botto Bier Alquimia apresenta um aroma intenso que junta intensa doçura caramelada, resina e forte pegada cítrica (maracujá em destaque) além de percepção alcoólica (são 9%). Na boca, doçura intensa (tal qual o aroma adianta) no primeiro toque revelando na sequencia uma deliciosa tendência cítrica (maracujá e laranja) e sutil percepção de álcool. O amargor (66 IBUs) é marcante, mas amacia rapidamente. Já a textura é suave, caminhando para o sedoso, com leve picância alcoólica. Dai pra frente, um belo conjunto de Imperial Caramel IPA com toques de mel cítrico que faz bonito. No final, amargor suave e mel de laranjeira. No retrogosto, maracujá, laranja, resina e caramelo.

Mantendo-se no Rio de Janeiro, casa da Hocus Pocus, ainda que suas cervejas sejam produzidas e engarrafadas em Matias Barbosa, Minas Gerais, agora é a vez da Hush, badalada American Amber Ale da cervejaria, lançada em 2015. Feita em parceria com o chef Rafa Costa e Silva, do restaurante carioca Lasai, a Hocus Pocus Hush apresenta uma coloração âmbar translucida com creme bege clarinho de boa formação e média retenção. No nariz, domínio dos maltes alemães, que sugerem caramelo tostado, discreto herbal e frutas secas. Na boca, bastante doçura de caramelo no primeiro toque seguida de tosta e leve herbal. O amargor é bem baixo e a textura suave sobre a língua. Dai pra frente, eis um conjunto bem interessante, que, apesar da intensa doçura caramelada, mantém o drinkabilty alto (são apenas 5.5% de álcool). No final, caramelo e uva passa. No retrogosto, mais caramelo tostado, herbal sutil e bastante doçura.

A segunda da Hocus Pocus é a Magic Trap, uma Belgian Golden Strong Ale inspirada na cerveja dos elefantes rosas, a clássica Delirium Tremens, com direito a uso de levedura trapista na receita, que foi uma das primeiras receitas da casa, ainda em 2014 – hoje também produzida em Matias Barbosa, Minas Gerais. Na taça, a Hocus Pocus Magic Trap apresenta uma coloração dourada com creme branco de bela formação e longa retenção. No nariz, uma combinação deliciosa de mel, banana, pão e condimentação derivada da levedura – não há nenhum sinal que adiante os 8.5% de álcool da receita. Na boca, doçura rápida de mel e caramelo no primeiro toque atropelada na sequencia por uma forte presença frutada (banana, banana e banana) e uma leve picância de condimentada. O amargor é baixo (não deve dos 30 IBUs) e a textura é cremosa, sedosa e picante. Dai pra frente, um conjunto caprichado que finaliza picante e condimentado, com o álcool aparecendo sutilmente, mas bem leve. No retrogosto, caramelo, banana, condimentação e álcool.

Do Rio de Janeiro para o taproom da Cervejaria Trilha, no bairro de Perdizes, em São Paulo, primeiro com a Eldorado-Me, receita da linha New England IPA Single Hop da casa (já passou por aqui a versão Citra-Me) que aqui utiliza este personal lúpulo estadunidense descoberto em 2008 (um dos meus favoritos). De coloração amarela densa, turva como um suco de caju, e creme bege clarinho quase branco espesso de boa formação e retenção, a Trilha Eldorado-Me apresenta um aroma que combina notas florais, presença sutil de anis e de frutado remetendo a damasco – é possível perceber um leve harsch de cryo hops. Na boca, doçura frutada no primeiro toque com presença de anis dominando o conjunto na sequencia e o amargor, limpo e delicioso, impressionando logo depois. A textura é suave e traz, ainda, condimentação e picância (com um tracinho de harsch, que não incomoda, mas está ali). Dai para frente, uma bela Juicy IPA, que fica uns dedinhos atrás da versão com o lúpulo Citra (eles já lançaram outras duas Single Hop: Mosaic-Me e Simcoe-Me), mas está deliciosa. No final, harsch e leve anis. No retrogosto, doçura, damasco, anis, picância e floral. Começando sempre com o pé direito com a Trilha, a Eldorado-Me mantém o padrão de cervejas incríveis da casa, valorizando esse belo lúpulo.

A segunda da Trilha é a Double Néctar, versão turbinada da Néctar, uma New England IPA que foi a terceira receita lançada pela Trilha no começo de 2017 (depois de Melonrise e Trópicos). De coloração amarela escura turva, com um juicy mais opaco e estranho, e creme branco de baixa formação e retenção, a Trilha Double Néctar apresenta um aroma com notas frutadas cítricas e tropicais em destaque (manga, mamão e laranja) além de suaves notas herbais e percepção alcoólica (dos 8.2%) e condimentada. Na boca, doçura frutada (manga) no primeiro toque acenando com picância alcoólica logo na sequencia, mais frutas e um leve harsch de lúpulo marcando o amargor, limpo e suave. A textura é espessa, marcante, e levemente picante. Dai pra frente, a sensação de suco alcoólico fica ainda mais nítida, com manga, mamão, laranja e álcool dançando de mãos dadas. No final, doçura frutada e leve amargor. No retrogosto, manga, mamão e até maracujá além de harsch leve e álcool sutil.

Fechando a série com duas cervejas do clube mineiro MadLab, da Cervejaria Wäls. A primeira a passar por aqui é a We Have Coconut, engarrafada em setembro de 2018, uma cerveja do estilo Wee Heavy produzido 100% com água de coco! De coloração âmbar acastanhada com creme bege claro de boa formação e média retenção, a Wäls MadLab We Have Coconut apresenta um aroma com domínio de água de coco, que se destaca facilmente sobre uma base bem discreta de malte e caramelo. Na boca, aguá de coco no primeiro toque, mas rapidamente sendo acrescida de doçura maltada, algo de nozes e frutas escuras, bem sutil. Não há praticamente nada de amargor e muito menos sensação dos 8.4% de álcool. A textura é suave e, dai pra frente, segue um conjunto que puxa muito mais para água de coco do que para as características do estilo Wee Heavy, mas, ainda assim, fechando o percurso com malte e caramelo e coco. No retrogosto, água de coco em destaque mais caramelo tostado.

Fechando o passeio com a Wäls MadLab Belgian Guava Tripel, uma Belgian Tripel que recebe adição de limão e de goiaba e que foi engarrafada em agosto de 2018. Trata-se de uma cerveja entre o dourado e o âmbar alaranjado com creme branco de ótima formação e boa retenção. No nariz, doçura maltada se destaca sugerindo tanto caramelo quanto açúcar, mas é possível perceber sutilmente a presença do limão e da goiaba, e, ainda, da levedura belga, tradicional do estilo. No boca, porém, a doçura domina o primeiro toque, com bastante caramelo e açúcar, mas traz consigo bastante presença frutada, com a goiaba e o limão dando um punch saboroso ao conjunto, que não traz nada de amargor (a casa diz 40 IBUs, mas pode cortar isso pela metade), e sim uma leve picada de álcool (9%). A textura é suave e picante (de álcool e da levedura) e, dai pra frente, o conjunto segue doce, tropical e alcoólico, até o final, melado e puxado para o limão. No retrogosto, limão, goiaba (mais sutil), caramelo e calor.

Everbrew Evermass
– Produto: Double NE India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 4.12/5

Everbrew Sand Even Mo Ever Mais
– Produto: Double NE India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.7%
– Nota: 3.94/5

Botto Bier Jahe
– Produto: Belgian Wit
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3.49/5

Botto Bier Alquimia
– Produto: Imperial IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3.49/5

Hocus Pocus Hush
– Produto: American Amber Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3.40/5

Hocus Pocus Magic Trap
– Produto: Belgian Golden Strong Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3.49/5

Trilha Eldorado-Me
– Produto: Juicy IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3.79/5

Trilha Double Néctar
– Produto: Imperial Juicy IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.2%
– Nota: 3.87/5

Wäls MadLab Wee Have Coconut
– Produto: Wee Heavy
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.4%
– Nota: 3.08/5

Wäls MadLab Belgian Guava Tripel
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3.41/5

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– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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