Faixa a faixa: “Mulamba”, Mulamba

Introdução por Renan Guerra

As curitibanas do Mulamba são um furacão ao vivo, viraram um estouro na internet e percorreram palcos importantes do país no último ano. Agora elas lançam o seu disco de estreia, o homônimo “Mulamba” (2018), gravado no estúdio da Red Bull Station, em São Paulo, e que conta com as participações de Lio Soares (do Tuyo) e Juliana Strassacapa (do Francisco, El Hombre).

Com nove faixas, o disco de estreia trás as já conhecidas “Mulamba” e “P.U.T.A.” – hit com mais de 2,6 milhões de views no YouTube – ao lado de canções novas, todas de caráter autoral. Algo entre a MPB e o rock, entre o erudito e a rua, meio como um sarau-punk, “Mulamba”, o disco, consegue refletir a força do sexteto, formado por Amanda Pacífico (voz), Cacau de Sá (voz), Caro Pisco (bateria), Érica Silva (baixo, guitarra e violão), Fer Koppe (violoncelo) e Naíra Debértolis (guitarra, baixo e violão).

Igualdade e violência de gênero, sexualidade, padrões de feminilidade, amor e outros temas habitam a poesia do Mulamba, criando faixas de caráter pop, porém sempre com certo tom mordaz. A mensagem política é um ponto de partida crucial, que já estava declarado em entrevista ao Scream & Yell, em 2017, porém isso não sobrepuja a musicalidade e a complexidade dos arranjos criados no disco.

“Mulamba” é um disco que pede atenção. E para entender um pouco mais sobre cada uma dessas canções as artistas fizeram um faixa a faixa que passeia por suas criações, suas histórias e suas intenções:

O1 – Mulamba
(Composição: Amanda Pacífico e Cacau de Sá)
“Mulamba” foi a primeira música que fizemos, quando a gente ainda fazia o tributo à Cássia Eller. A história é a seguinte: uma amiga estava num show nosso e foi incessantemente assediada por um cara. Ela se sentiu muito desconfortável e pressionada. Não teve outra escolha a não ser deixar o local, logo no início do show. Quando ela me relatou o que aconteceu, perguntei por que não contou no momento do assédio, sendo que suas amigas estavam no palco com o microfone na mão… E o ponto que quero chegar é esse: do desconforto que sentimos em qualquer lugar, do silenciamento imposto. Na mesma época, a Leticia Sabatella foi chamada de “puta” enquanto caminhava pelo centro de Curitiba, próximo a uma manifestação. Para mim, esses dois fatos demonstram exatamente a opressão que a gente vive. Essa música simboliza o momento em que percebemos nossa força e o quanto é importante nos posicionar. A música não foi regravada quando chegamos na RedBull. Fruet, produtor de Porto Alegre, remixou e remasterizou a faixa como queríamos antes de entrarmos em estúdio.

02 – Espia Escuta
(Composição: Cacau de Sá)
“Espia Escuta” começa a se desenhar a partir de refrões entre as músicas do show. Eu queria criar um bordão, deixar claro que há um levante do feminino voltando e se arquitetando. E, principalmente, que precisaremos estar atentas a esse feminino que não se subjuga mais. Depois do refrão, comecei a improvisar. Era um momento do show em que a gente brincava com outros funks também com cunho político. Assim, começamos a construir essa mulher que não aceita mais ser desvalorizada, que rejeita o papel atribuído a ela. É sobre como é difícil alcançar espaço de fala e de escuta sendo o feminino. É pras manas. TODAS.

03- Desses Nadas (feat. Lio Soares)
(Composição: Amanda Pacífico)
Essa música estava guardada na gaveta. Uma história de amor que não aconteceu por acasos da vida. A típica sofrência que todo mundo já viveu, mas é delicado falar sobre porque hoje a pessoa é minha amiga. A música me veio inteira, numa vomitada só, melodia e letra. O tema do acordeom já estava pronto também… Sempre sonhei que fosse acordeom tocando. No estúdio, quando eu vi o acordeom chegando, chorei. Quando canto, “Desses Nadas” me remete não só a essa experiência vivida, mas a todas as coisas que às vezes não dão certo e deixam algum tipo de memória, um lado bom. E é intenso: vê-la sendo gravada, depois de tanto tempo guardada, é libertar a história de dentro e a resgatar dali.

04 – Provável Canção de Amor para Estimada Natália
(Composição: Amanda Pacífico)
Essa a gente fez lá no comecinho, foi uma das primeiras canções que fizemos todas juntas. A Natália, ex-guitarrista da banda, é advogada e, mesmo tendo os seus trabalhos, foi sempre muito pontual e responsável. Ela me dava carona para os ensaios e, em um desses dias, me atrasei e fiquei preocupada. Achei que ela iria me esculachar. Entrei no carro já pedindo mil desculpas e ela disse “calma, tudo bem, não precisa se estressar”. Então veio a frase na minha cabeça: “que calma que ela tava e eu aqui toda apressada”. Para mim, isso representa muito bem a Nati. Foi a música mais rápida que fizemos, em uma noite já estava pronta. Detalhe: a parte do “perdoa se eu me descuidei”, eu havia escrito para outra história de amor, enfim, reaproveitei. Musicalmente falando, a gente tinha uma pegada bem pop e quando fomos arranjar para gravar, a partir das sugestões da Érica, percebemos que também havia algo de folk. Talvez até uma pegada jazz, que traz uma maturidade para a música.

05 – Interestelar
(Composição: Cacau de Sá)
É uma música que começa a se esboçar a partir de um olhar que tenho com as mulheres da minha família e a habilidade delas com crianças. Um cuidado, um ato de partilha e de escuta, mesmo com uma estrutura precária. Isso tudo eu personifiquei numa amiga que eu vi acontecendo na vida. Ela estava presa em um relacionamento abusivo com um rapaz que era bem visto na vila, mas que a oprimia e não dava credibilidade à sua destreza com o universo infantil. Isso me fez perceber a sensibilidade, o olhar curioso e respeitoso no jeito que essas pessoas lidavam com as crianças. Eu desenhei isso brincando no violão, nunca levei a sério. Seria, a princípio, algo meu.

06 – Tereshkova
(Composição: Érica Silva)
“Tereshkova” é um tema instrumental. Esse riff me veio em um dos ensaios de preparação para o disco. Estávamos experimentando ideias para “Interestelar”, pensamos em criar um clima antes do arpejo da guitarra introduzir a canção. Também pensamos em um final quizas mais impactante, alongando e desenvolvendo a composição da Cacau, lançando-a até pairar em outra órbita. Sentindo a necessidade de uma parte mais pesada e tensa, arrisquei uma quebra proposital do clima blues de “Interestelar”. Após o tema feito, a minha ideia era escapar daquilo, a busca infinita pela fuga do tema mantido pelo baixo e pelo violoncelo. Estudamos e ensaiamos muito até gravarmos na RedBull. O nome “Tereshkova” veio durante as gravações: Valentina Vladimirovna Tereshkova foi a primeira mulher a ir ao espaço e é nesse campo sideral que a gente se sente e se inspira para fazer esse som.

07 – Lama
(Composição: Amanda Pacífico)
“Lama” é sobre a catástrofe ambiental de Mariana (MG). A música veio a mim quando assisti a entrevista de uma senhorinha bem idosa, revoltada, indignada, com os filhos enfermos na cama, pois beberam água contaminada. Ela mostrava a situação da casa e da rua onde morava, tudo tomado por lama, clamando desesperada por algum retorno dos governantes. Isso me tocou num primeiro momento, mas depois me deixou questionando: quem vai assumir esse erro? E até hoje não vimos resolução para o caso, foi esquecido. É uma música muito difícil de cantar porque tem muitas nuances e momentos, começando como se fosse um sussurro, com certa nebulosidade. Estamos falando de muitos animais que morreram e muitas pessoas que perderam tudo, então é como se ecoasse num terreno devastado. É o que tentamos executar ali. Me lembro que regravamos muitas vezes para conseguir chegar num lugar que representasse isso.

08 – Vila Vintém
(Composição: Cacau de Sá)
Eu comecei essa letra no Rio de Janeiro, onde tive contato direto com as ocupações, com a violência da polícia e com as ações do governo. Um dia, a polícia foi na Vila Vintém, que é lida como um lugar com muitos traficantes, com a ideia do governo para desocupar a favela. Então essa música nasce como um grito de resistência e desespero, pela visão de quem vive em um lugar e é retirado. A gravação foi um processo muito difícil e delicado e, ao mesmo tempo, muito grande e ambicioso para mim. Foi algo que eu nunca pensei que aconteceria. Gravar esse disco na RedBull também simboliza a discrepância da realidade de uma grande cidade, que é um espaço maravilhoso com muito a ser desfrutado, mas que não pode ser desfrutado por todos.

09 – P.U.T.A (feat. Ju Strassacapa)
(Composição: Amanda Pacífico e Cacau de Sá)
Li, nas mídias sociais, o relato de uma amiga que falava do medo de voltar da faculdade à noite, descer do ônibus e ir andando até sua casa no escuro. Quando uma mulher descia junto, ela se sentia mais segura. Ficou martelando na minha cabeça: esse medo é recorrente entre todas as mulheres. Foi o que me despertou para um pedaço da música. Eu já estava com desejo de falar sobre o medo do abuso, do estupro e da impotência que a gente sente. Na mesma época, uma mulher foi esquartejada no centro de Curitiba e seu corpo foi encontrado em um rio. Não sabiam quem era, mas quando cogitaram ser uma mulher em situação de rua, deixaram de dar importância. Esses casos me causaram muita revolta, senti uma urgência em falar desses temas e de como a mulher é deixada à margem. Essa música tem uma pegada muito intensa, uma carga emotiva muito forte e dolorida porque a gente está dando voz a muitas vozes caladas. Muitas mulheres se sentem abraçadas com essa música, sabemos do cuidado que ela exige. Por ser uma narração que vai da primeira pessoa para terceira pessoa rapidamente, achamos interessante gravar ao mesmo tempo, Cacau e eu em salas separadas. E cada uma conseguiu tomar para si a emoção uma da outra. São as coisas que todas nós queremos falar e estão muito bem costuradas nessa canção. Não tem como não se reconhecer, não se emocionar e não se mobilizar a gritar “BASTA!”.

– Renan Guerra é jornalista e colabora com o site A Escotilha. Escreve para o Scream & Yell desde 2014.

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