Exclusiva: Bazar Pamplona retorna de hiato com nova canção

 por Marcelo Costa

A resenha do disco de estreia da Bazar Pamplona no Scream & Yell, 10 anos atrás, começava mais ou menos assim: “O release é enigmático: ‘No dia em que cresceu o primeiro bigode postiço, o tempo fechou. Trovejou. Choveu Fanta Laranja durante quarenta dias e quarenta noites’. O som é algo de pop psicodélico, preguiçoso como sentar na sombra num dia de sol”. Esse era o disco “A Espera das Nuvens Carregadas”, que teve sequencia com “Todo Futuro é Fabuloso” (2012) e… a banda deu uma esfriada. “Apesar de ter diminuído as atividades, a banda nunca acabou”, eles avisam no bate papo abaixo.

O reaquecimento inclui no roteiro uma garçonete de um restaurante de um hotel em Búzios, a diretora de um filme alemão vencedor do prêmio de melhor fotografia no Festival Sundance e um crowdfunding que incluía entre as recompensas a produção de quatro pizzas (duas margheritas e duas calabresas) pelo “pizzaiolo mais extravagante da internet”, Rafael Capanema, baixista e tecladista da banda. O marceneiro Estêvão Bertoni (letras, vocal e guitarra) construiu displays para vinis enquanto Pinguim Miranda (teclado e baixo) cedeu sua escaleta, João Victor (guitarra) ofereceu mixagem e masterização e o batera Rodrigo Caldas, uma ilustra inédita.

O sucesso da campanha de financiamento coletivo (que alcançou 106% da meta) possibilitou a produção de “Banda Vende Tudo” (2018), o terceiro disco da Bazar Pamplona, que logo mais ganha as ruas com produção de João Victor e mixagem de Yuri Kalil, do Cidadão Instigado, no Totem Estúdio, em Fortaleza. Para esquentar o lançamento do novo álbum eles liberaram com exclusividade no Scream & Yell o single e clipe da canção “Dias Gordos”, que é recheado por imagens feitas “em 1946 por um dentista norte-americano (Harry B. Wright) que visitou o Xingu, o Rio e a região Sul do Brasil registrando tudo em 16 milímetros”, eles explicam. Confira.

Seis anos de pausa: o que vocês andaram fazendo nesse tempo? 🙂 E o que motivou esse retorno?
A gente lançou o “Todo Futuro É Fabuloso”, nosso segundo disco, em 2012, mas depois disso a banda deu uma “esfriada”, porque alguns integrantes passaram um período fora do país e um deles se mudou para a Espanha. Apesar de ter diminuído as atividades, a banda nunca acabou. No começo de 2017, um filme alemão chamado “Axolotl Overkill” usou, em sua trilha sonora, uma música nossa, “É Tão Cafona O Que Eu Sinto por Você” (que tem participação da Lulina). A história de como ela foi parar no filme nos pareceu incrível. A diretora, Helene Hegemann, tinha vindo ao Brasil em 2014 e ouviu a música quando estava no restaurante de um hotel em Búzios. Ela adorou e perguntou o nome à garçonete. Como tinha tocado numa rádio online, os funcionários do hotel conseguiram dizer a ela como se chamava. Ela decidiu usar a canção no longa, que venceu no ano passado o prêmio de melhor fotografia no Festival Sundance, nos Estados Unidos. O Estêvão conseguiu assistir à estreia do filme em Berlim. Ele gravou escondido no cinema o trecho com a música e mandou o vídeo para o resto da banda pelo WhatsApp assim que acabou a sessão. A gente ficou empolgado depois desse episódio e resolveu insistir nessa aventura de fazer músicas e gravar. O disco novo, que começou a ser pensado no final de 2017, se chama “Banda Vende Tudo” – que é também um das faixas do CD –, porque a gente queria passar a ideia daqueles bazares de “família vende tudo”, que costumam ser feitos quando as pessoas vão recomeçar a vida em outro lugar e se desfazem de todos os pertences, deixando o passado para trás. Sentimos que esse disco é um recomeço pra banda.

Vocês já chegam com single / clipe novos e o nome-conceito do novo disco: como surgiu e quais as ideias de “Dias Gordos” e “Banda Vende Tudo”?
O Estêvão viu uma lista enorme de festas populares brasileiras, num verbete de dicionário, e daí surgiu a ideia de “Dias Gordos” (que são os dias do Carnaval), música que fala um pouco dessa ideia de que as tensões sociais são sempre apaziguadas por aqui e que a cultura popular, embora seja muitas vezes apropriada, ainda tem um papel de resistência. A música foi feita antes das eleições. Nossa ideia era divulgar uma música alegre antes de liberar o disco todo agora em novembro, mas por causa do momento atual, achamos que tinha mais a ver. O Estêvão tinha visto vídeos feitos em 1946 por um dentista norte-americano (Harry B. Wright) que visitou o Xingu, o Rio e a região Sul do Brasil registrando tudo em 16 milímetros. As imagens casavam bem com a música e, como estão em domínio público por terem feito mais de 70 anos, resolvemos usá-las. “Dias Gordos” é na verdade a segunda música que divulgamos do disco. Em abril, fizemos uma campanha de financiamento coletivo para conseguir colocar o trabalho de pé e liberamos para os apoiadores “Bom Mesmo É Ouvir um Riff dos Stones”, que também ganhou um clipe!

Muita coisa aconteceu no cenário independente brasileiro nos últimos seis anos: como vocês veem o cenário atual e qual os planos para o Bazar Pamplona daqui pra frente?
Tem muita coisa legal sendo feita e isso dá mais vontade ainda pra gente continuar. Adoramos os discos novos do Kiko Dinucci, da Maria Beraldo, da Ava Rocha. A gente quer gravar com mais frequência e já pensar num quarto disco para o ano que vem. 🙂

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto é de Dani Capuano / Divulgação

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